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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Pasquale Cipro Neto: Como fica a vírgula com 'etc.'?


Antes de ir ao que sugere o título desta coluna, quero trocar mais duas palavras sobre a questão abordada na semana passada.

Relembro isso com uma passagem do texto: "A Andrade Gutierrez afirmou, por meio de nota, que o acordo...". Como vimos, a expressão "por meio de nota" foi posta entre vírgulas, mas poderia ter ficado "solta", sem nenhuma vírgula. Não custa repetir: ou duas ou nenhuma.

No fim da coluna, afirmei que a extensão da expressão adverbial pode decidir a escolha (duas vírgulas ou nenhuma). Veja isto: "Os pesquisadores afirmaram que (,) durante o longo inverno polar (,) os animais...". A expressão "durante o longo inverno polar", intercalada, é formada por cinco palavras, o que para muita gente já é motivo para as vírgulas serem obrigatórias.

De fato, as gramáticas tradicionais costumam dizer que "expressões adverbiais de três ou mais 'corpos' são necessariamente virguladas". Essa "norma", que chega a ser um exagero, não é tão matemática assim. Quando intercaladas, expressões adverbiais longas (cá entre nós, o conceito de "longo" é um tanto subjetivo) costumam mesmo aparecer entre vírgulas. Mas o que vem a ser "longo" nesse caso? Entra aí uma coisa chamada "bom-senso".

Às vezes, mesmo curtas, essas expressões são virguladas, para serem enfatizadas: "São plausíveis as avaliações de que, no momento, a proposição da matéria mal disfarça a intenção de intimidar...".

Isso também ocorre, por exemplo, quando se marca o tempo da mudança de posição de alguém: "O presidente afirmou, no mês passado, que queria a investigação cabal, mas, nesta segunda-feira, mudou de ideia e encerrou a questão". As vírgulas que marcam a intercalação de "no mês passado" e "nesta segunda-feira" realçam a mudança.

Melhor ainda seria usar o ponto e vírgula e começar os dois blocos pelas expressões adverbiais, que agora, por iniciarem cada um dos trechos, são isoladas por apenas uma vírgula: "No mês passado, o presidente afirmou que queria a investigação cabal do caso; nesta segunda-feira, mudou de ideia e...".

Para encerrar, abordo a sugestão de um velho companheiro de trabalho, o médico e professor (dos bons) Armênio Uzunian, que me honra com a leitura assídua da coluna: "No seu artigo de hoje, 17/11, e em muitos outros que leio, percebo que antes do primeiro 'etc.' não se coloca vírgula, mas, nos demais, em sequência, as vírgulas comparecem. Que tal um lembrete sobre isso?".

Vamos lá, caro Armênio. Como se sabe, "etc." é a abreviação de "et cetera", expressão latina que significa "e outras coisas" (hoje em dia se usa também com pessoas). São duas as correntes: uma, que leva em conta a etimologia, diz que a vírgula é desnecessária, porque a expressão já contém o "e"; outra diz que a noção etimológica se perdeu, o que faz do "etc." mais um elemento da enumeração. É por isso que ora se encontra algo como "...laranjas, bananas, etc." ora se encontra algo como "...laranjas, bananas etc.".

O "Houaiss" e esta Folha não põem vírgula antes do "etc.", mas outras publicações a colocam.

Quando há repetição do "etc.", a vírgula antes do primeiro segue o que acabamos de ver, mas os demais são vistos como os termos de qualquer enumeração, por isso ocorrem as vírgulas, como se faz em "...laranjas, peras, maçãs". É isso. 


[Fonte: www.folha.com.br]





quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Pasquale Cipro Neto: A vírgula é fundamental para a leitura fluente, a clareza


Nas duas últimas semanas, trocamos duas palavras sobre o ponto e vírgula e a vírgula, pela ordem.

No último texto, vimos que em alguns casos pode-se optar por duas vírgulas ou por nenhuma, o que ocorre, por exemplo, com expressões adverbiais de matizes diversos (tempo, lugar, causa etc.), como "durante a palestra", "no mês passado", "na antessala do Congresso", "devido às fortes chuvas" etc.

Para que haja as duas opções, uma das condições é que essas expressões estejam intercaladas, isto é, postas entre termos que tenham relação sintática direta, como sujeito e verbo, verbo e complemento etc.

Vejamos este trecho: "A Andrade Gutierrez afirmou, por meio de nota, que o acordo 'está em linha com sua postura, desde o fechamento do acordo de leniência com o Ministério Público, de continuar colaborando com as investigações em curso'".

Vamos por partes, começando pelas vírgulas que isolam a expressão "por meio de nota", que foi posta entre a forma verbal "afirmou" e a oração que funciona como complemento dessa flexão verbal ("que o acordo 'está em linha com sua...'").

Como se viu, o redator optou por colocar duas vírgulas para isolar "por meio de nota". Também teria sido possível redigir sem as duas vírgulas: "A Andrade Gutierrez afirmou por meio de nota que o acordo...". Não custa relembrar que nesses casos o que não se pode fazer é optar pela "vírgula solteira", que é aquela que abre, mas não fecha, ou fecha sem ter aberto. Tradução concreta, ou seja, exemplos dos erros: "A Andrade Gutierrez afirmou por meio de nota, que o acordo..."; "A Andrade Gutierrez afirmou, por meio de nota que o acordo...".

Salvo engano, o primeiro erro é muito mais comum do que o segundo. E por quê? Porque as pessoas tendem a pontuar como leem, como "respiram". Releia os dois últimos exemplos e constate que é mesmo muito mais comum uma "paradinha" depois de "nota"... Aí é batata: lasca-se uma vírgula ("solteira", já que la pobrecita não tem par).

Como um dos papéis dos sinais de pontuação é "guiar" quem lê, o bom leitor tende a acreditar na pontuação do redator, o que muitas vezes leva esse bom leitor a perder o rumo. Aí ele tem de voltar e reler.

Veja este caso: "A Andrade Gutierrez afirmou por meio de nota, divulgada na tarde de ontem, que o acordo...". O caro leitor notou que o redator optou por não isolar a expressão "por meio de nota", mas isolou a expressão "divulgada na tarde de ontem", que antecede a oração que começa no "que"?

Ao ver a vírgula depois da expressão "por meio de nota", o leitor habituado à boa pontuação espera que ocorra exatamente o que ocorreu: surgiu uma nova expressão intercalada, e não a oração que age como complemento de "afirmou".

Como o leitor pôde e pode ver, a vírgula é (também) uma questão de estrutura, de engenharia, de organização. Nos textos formais, o seu emprego adequado é fundamental para que a leitura flua, para que a clareza se estabeleça etc., etc., etc.

Alguém talvez pergunte por que no terceiro parágrafo afirmei que "uma das condições é que...". Que outras condições há? Ai, ai, ai... Uma das outras condições é o "tamanho" da expressão adverbial intercalada. O problema é que o tamanho desta coluna é finito, por isso esse lado da questão ficará para a semana que vem. É isso. 



[Fonte: www.folha.com.br]

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Pasquale Cipro Neto: A não menos nobre vírgula



Na semana passada, trocamos dois dedos de prosa sobre alguns casos do emprego do ponto e vírgula. Como vimos, o uso desse sinal de pontuação exige a percepção de aspectos sintáticos e estilísticos. É fundamental levar em conta a construção, o que se quer enfatizar etc.

Vamos trocar mais dois dedos de prosa sobre outro sinal de pontuação, não menos nobre que o ponto e vírgula: a vírgula, que, por incrível que pareça, ainda é apresentada em muitas salas de aula deste país como um sinal ligado à respiração.

"Cada vez que se respira, coloca-se uma vírgula", diz a lenda. Nas minhas palestras Brasil afora, é comum o questionamento sobre esse sinal de pontuação e é mais do que comum a constatação de que a "tese" da relação vírgula/pulmão ainda é viva. Não há quem me desminta quando digo que ainda se diz/ouve essa "tese" de norte a sul.

É óbvio que os muitos empregos da vírgula não cabem num texto do tamanho deste, mas é perfeitamente possível mostrar alguns dos tantos casos mais significativos. Uma dessas situações pode ser ilustrada pela pergunta do leitor Cesar A. A. Jacob, meu conterrâneo, isto é, guaratinguetaense. Jacob mandou esta questão: "Sempre aprendi que o advérbio deveria vir entre vírgulas, mesmo que, às vezes, a frase fique truncada.

Quando vi que não colocou os advérbios entre vírgulas, senti que há uma esperança de me libertar dessas verdadeiras amarras dos tempos escolares. Como pontuar, afinal, nesses casos?".

O leitor acertou na mosca quando se referiu a "essas verdadeiras amarras escolares". Tomemos como exemplo o próprio texto do leitor, que na passagem "...mesmo que, às vezes, a frase fique truncada" optou por pôr entre vírgulas a expressão adverbial "às vezes", que vem entre a locução conjuntiva "mesmo que" e "a frase", sujeito da oração introduzida por "mesmo que".

Vamos lá. Teria sido perfeitamente possível deixar "livre" a expressão adverbial "às vezes", ou seja, teria sido possível não empregar as duas vírgulas ("...mesmo que às vezes a frase fique truncada"). É bom que se diga que, com as duas vírgulas, a expressão "às vezes" ganha ênfase, o que não ocorreria se não fossem empregadas as vírgulas.

O que não se pode fazer de jeito nenhum nesses casos é empregar a chamada "vírgula solteira", que é aquela que perde o par no meio do caminho. Tradução: ou se escreve "...mesmo que, às vezes, a frase fique truncada" ou se escreve "...mesmo que às vezes a frase fique truncada". O que não se pode fazer é optar por uma destas duas construções: "...mesmo que às vezes, a frase fique truncada" e "...mesmo que, às vezes a frase fique truncada".

Quando se trata de expressão adverbial intercalada, ou duas ou nenhuma; uma só, não! Vejamos outro caso: "O presidente eleito disse, durante a campanha, que construirá um muro entre o México e os EUA"; "O presidente eleito disse durante a campanha que construirá um muro entre o México e os EUA".

As erradas: "O presidente eleito disse durante a campanha, que construirá um muro..."; "O presidente eleito disse, durante a campanha que construirá um muro...".

A opção por uma das duas formas corretas deve levar em conta determinados aspectos. Já vimos alguns deles, mas talvez valha a pena voltar ao tema para vermos outros desses aspectos. É isso. 


[Fonte: www.folha.com.br]

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Pasquale Cipro Neto: O nobilíssimo ponto e vírgula


Estava na "capa" do UOL ontem: "Medo de ser assassinado atinge 3 em 4 brasileiros; 67% de jovens temem a PM". Por favor, veja o ponto e vírgula, prezado leitor. Que faz ele aí? É correto o seu emprego?

Antes que nos detenhamos na questão do uso desse sinal de pontuação, convém dizer que, antes do "(Des)Acordo Ortográfico", a grafia oficial era "ponto-e-vírgula", com dois hifens (ou hífenes), como se vê.

O "(Des)Acordo" acabou com o hífen nos compostos de três ou mais elementos que não nomeiem espécies botânicas ou zoológicas. Tradução: o hífen nos compostos de três ou mais elementos só existe nos nomes de bichos e vegetais, como "jacaré-de-papo-amarelo", "acácia-da-austrália", "flor-da-quaresma", "macaco-da-meia-noite" etc.

É sempre bom lembrar as bizarras exceções ("pé-de-meia", "arco-da-velha", "água-de-colônia" etc.).

Posto isso, voltemos ao título do UOL e ao ponto e vírgula que há nele. Esse título diz respeito a uma pesquisa realizada pelo Datafolha e publicada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O tema da pesquisa, obviamente, é a violência no Brasil, que, como se sabe, é um país pacífico, solidário etc., etc., etc.

As duas informações que há no título são distintas: a primeira diz respeito ao medo de ser assassinado, sentimento de 76% dos entrevistados; a segunda diz respeito ao temor que 67% dos jovens entrevistados têm da Polícia Militar.

As informações são distintas, mas integram o mesmo assunto, o mesmo campo, o mesmo território, por isso foi empregado (corretissimamente) o ponto e vírgula, que separa o primeiro bloco, completo, autônomo etc., do segundo bloco, também completo, autônomo etc.

O papel do ponto e vírgula é sempre o de separar partes autônomas de um todo, isto é, blocos que apresentam sentido e informação completos e pertencem ao mesmo conjunto, ao mesmo assunto.

Seria inconcebível pensar no ponto e vírgula em algo como "Quando penso no teu rosto; fecho os olhos de saudade" (do poema "Marcha", de Cecília Meireles, que Raimundo Fagner adaptou, musicou e transformou em "Canteiros"). Por que seria inconcebível o ponto e vírgula depois de "rosto"? Porque a oração "Quando penso no teu rosto" é subordinada à oração "Fecho os olhos de saudade" (que é a oração principal). O que cabe aí é uma vírgula, que foi justamente o que fez Cecília.

Agora veja o trecho todo: "Quando penso no teu rosto, fecho os olhos de saudade; tenho visto muita coisa, menos a felicidade."

O caro leitor notou que a grande Cecília Meireles empregou o ponto e vírgula? O caso é semelhante ao que vimos. Embora Cecília pudesse ter optado pelo ponto final, a sempre inspirada escritora carioca optou pelo ponto e vírgula, o que certamente deixou mais forte a mensagem, por integrar os blocos que falam do mesmo sentimento (perda, falta, desalento, tristeza).

Para sentir a força que o ponto e vírgula confere ao fragmento de Cecília, imagine-o com ponto final. A redação, que pareceria primária, certamente seria frouxa, fraca.

Lamentavelmente, a escola hoje pouco se ocupa dessas coisas (ou simplesmente não se ocupa). O efeito dessa falta de referência a esses e a outros aspectos da construção de um texto é devastador. Capta-se menos do que se poderia captar dos encantos do que se lê. É isso. 



[Fonte: www.folha.com.br]

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Pasquale Cipro Neto: Muitas vezes diminutivo não indica propriamente tamanho e/ou extensão


O grande craque Zico nasceu Arthur Antunes Coimbra. Franzino, logo virou "Arthurzinho" e, em seguida, "Arthurzico", talvez por influência do pai, português (em alguns casos, as terminações "-zico" e "-zito" são mais comuns em Portugal do que no Brasil). De "Arthurzico" para "Zico" foi um passo, um passico.

Que valor têm aí os diminutivos? Afetivo, obviamente, o que ocorre nesses e em muitos outros casos. No desconcertante poema "Para Sempre", Drummond emprega o diminutivo com forte valor afetivo nesta passagem: "E ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho". Já em "Cidadezinha Qualquer", título de outro dos seus antológicos poemas, Drummond certamente não empregou o diminutivo com valor afetivo em "cidadezinha".

Quem diz "paizinho" ou "mãezinha" decerto não pensa no "tamanho" do pai ou da mãe. Já quem diz "prefeitinho" não parece disposto a grandes elogios ao intendente...

Embora a escola nem sempre trabalhe os diversos valores do diminutivo (o que mais se faz é entupir a garotada de listas e listas de diminutivos), é mais do que sabido que muitas vezes essa flexão não indica propriamente o tamanho.

Vinicius de Moraes tinha o doce hábito de chamar os amigos pelo diminutivo: Tom Jobim era Tonzinho, Carlos Lyra era Carlinhos. E Toquinho, que já era Toquinho, muitas vezes virava "Toco" na voz do nosso mais do que querido "Poetinha"...

Vinicius de Moraes, o "Poetinha", costumava chamar os amigos pelo diminutivo
Já citado, o caso de "prefeitinho" é evidentemente depreciativo, o que não é "privilégio" das terminações "-inho" e "-zinho". Em "namorico" e "padreco", por exemplo, o diminutivo também é depreciativo, mas o tom de cada um dos exemplos tem a sua particularidade: nos dois casos, o diminutivo indica a noção de algo sem muita importância, mas, salvo engano, em "padreco" esse matiz parece um tanto mais forte.

Há também os diminutivos dos quais se perdeu a noção dessa flexão. Quem é que hoje em dia diz "fascículo" pensando ou sabendo que isso é o diminutivo erudito de "feixe"? Talvez essa noção se reavivasse se soubéssemos que "feixe" vem de "fascis", do latim, o mesmo elemento que dá origem a "fascismo", nome de uma amaldiçoada ideologia nascida na Itália e ainda incensada e praticada por muita gente mundo afora, a começar pelo Brasil.

O fascismo foi assim batizado porque o oficial (chamado "lictor", palavra oxítona) que seguia ou precedia os magistrados romanos empunhava um feixe de varas. Esse feixe simbolizava a força do Estado, que, como se sabe, é absoluto em TODOS os regimes totalitários.

Pois é, caro leitor. O diminutivo tem inúmeras e variadas cores, muitos matizes, aspectos, etc., etc., etc. Às vezes, com um só diminutivo consegue-se atingir não só um cidadão, mas todos os cidadãos de determinada classe. Quando se diz, por exemplo, "um juizeco de primeira instância", não se deprecia só o juiz em questão; deprecia-se toda a classe, ou seja, todos os juízes de primeira instância. Isso seria diferente, por exemplo, de dizer "um senadorzeco", que não necessariamente faria referência (pejorativa) a todos os senadores da República...

Coisas da língua, caro leitor. E, também, coisas de um paiseco... Epa! Eu disse "paiseco"? Foi sem querer querendo, como iria o impagável Chaves. Não é paiseco, não. Como se diz há muuuuito tempo, ninguém segura este país. É isso. 



[Foto: acervo Otto Lara Resende/IMS – fonte: www.folha.com.br]


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Pasquale Cipro Neto: 'Mirem-se no exemplo...'

No último sábado, fui ver a nova versão de "Gota d'Água", peça escrita em 1975 por Chico Buarque e Paulo Pontes. Nesta versão, o espetáculo foi batizado de "Gota d'Água (a Seco)". O "a Seco" se deve ao "enxugamento" dos personagens e da trilha sonora original, à qual foram acrescentadas outras belas e pertinentes canções, das quais Chico Buarque é autor ou coautor.


Uma dessas canções é "Mulheres de Atenas" (de Chico Buarque e Augusto Boal), magnificamente interpretada no palco pela atriz e cantora Laila Garin. Enquanto Laila cantava, lembrei-me das bobagens ditas por algumas "feministas" em 75, as quais julgaram machista a letra.

A bobajada internética de hoje, caro leitor, só mudou de roupa. Desde sempre a incapacidade de entender um texto se associa à petulância, à arrogância... Muita gente entendia como apologia à submissão versos como "Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas (...) Quando fustigadas, não choram / Se ajoelham, pedem, imploram / Mais duras penas / Cadenas".

Vamos lá: a ironia é uma figura de linguagem por meio da qual se diz o oposto do que efetivamente se quer dizer. "Mirem-se no exemplo..." significa "Não se mirem no exemplo...", isto é, não façam como faziam aquelas mulheres ou façam como elas faziam e vejam o que lhes acontecerá.

Pois bem. Na letra de "Mulheres de Atenas" há muitas passagens preciosas, seja pelo aspecto poético, seja pelo aspecto morfossintático.

Em "Quando eles voltam sedentos / Querem arrancar violentos / Carícias plenas / Obscenas", por exemplo, nota-se o emprego cirúrgico dos adjetivos ("sedentos", "violentos", "plenas", "obscenas"). Alguns reclamam do emprego dessa classe de palavras, que consideram rebarbativa, excessiva etc. Experimente reescrever esse trecho sem os adjetivos. Que tal? As fortes imagens que os adjetivos compõem se desfazem, não?

Vale a pena lembrar que, por se tratar de texto poético, muitas vezes a pontuação fica a critério do escritor, que a utiliza de acordo com o que quer enfatizar (este ou aquele termo, o ritmo dos versos etc.).

Além da pontuação que há na transcrição citada, seria possível pensar, por exemplo, em algo como "Quando eles voltam, sedentos, querem arrancar, violentos, carícias plenas, obscenas" ou ainda "Quando eles voltam, sedentos, querem, violentos, arrancar carícias plenas, obscenas" ou ainda "Quando eles voltam sedentos, querem, violentos, arrancar carícias plenas, obscenas".

Note, por favor, que há uma grande diferença entre "Quando eles voltam sedentos, querem..." e "Quando eles voltam, sedentos, querem...". O caro leitor percebeu a diferença? No primeiro caso, não há vírgula antes de "sedentos"; no segundo, o adjetivo ficou entre vírgulas.

Que diferença essa vírgula faz? Sem ela, indica-se que nem sempre eles voltam sedentos. Quando voltam nesse estado, querem acarrancar... Com as duas vírgulas, "sedentos" é o estado constante deles quando voltam.

O léxico (vocabulário) também é precioso, o que se vê em "cadenas" (que no original espanhol significa "corrente", "cadeia"), "melena" ("cabeleira longa", "madeixa"), "falena" ("borboleta noturna", que no contexto assume metaforicamente outro sentido), "sirena" ("sereia"), "helena" (relativo aos helenos, tribo que deu origem ao povo grego)

E antes que me esqueça: vá ver a peça. Vale (muito) a pena. É isso.

[Fonte: www.folha.com.br ]


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Pasquale Cipro Neto: 'Aí o professor opita'

Jogadores da seleção brasileira em amistoso contra o México no Allianz Parque, em 2015

Dia desses, referindo-se ao que os jogadores de futebol chamam de "dor de cabeça boa" (para o treinador, ou melhor, "professor"), um dos nossos craques concluiu assim o que expunha: "Aí o professor opita".
O atleta em questão é bom de bola mesmo e bom de conversa também, dos mais esclarecidos e articulados jogadores brasileiros, mas...

Mas a bendita conjugação dos verbos terminados em "-ptar" põe em embaraço muita gente, que acaba fazendo o que fez o nosso craque.

E o que fez ele afinal? Conjugou "optar" como se houvesse um "i" depois do "p". Cá entre nós, na emissão efetiva de "optar" e afins ("raptar", "adaptar", "captar" etc.), temos mesmo a tendência de pronunciar esse "i". Não é todo mundo que pronuncia esse "p" como "mudo".

O resultado da pronúncia desse "i" em "optar" é a emissão das flexões desse verbo como as dos que realmente terminam em "-pitar", como "decapitar", "apitar", "palpitar" ou "precipitar", entre outros.

Moral da história: em "apita", "palpita", "precipita" e "decapita", a sílaba tônica é "pi", portanto a vogal tônica é o "i" dessa sílaba.

Levando em conta o que ocorre no padrão culto, em "capta", "opta", "rapta" e "adapta" a sílaba tônica é a que antecede a sílaba "ta" ("cap", "op", "rap" e "dap", respectivamente). A vogal tônica de "capta" é o primeiro "a", a de "opta" é o "o", a de "rapta" é o primeiro "a", e a de "adapta" é o segundo "a". A título de treino, leia essas formas em voz alta, se achar necessário.

Fenômeno semelhante ocorre com verbos terminados em "-gnar", como "indignar", "estagnar", "designar", "resignar", "impregnar" etc. Nesses casos, parece mais frequente ainda a emissão de um "i" (depois do "g", no caso), a começar pelo próprio infinitivo, como se os verbos terminassem em "guinar".

O resultado disso é a emissão (errônea) de "designa", "estagna", "resigna" e, sobretudo, "impregna" como se essas formas fossem "desiguina", "estaguina", "resiguina" e "impreguina", sempre com força no "i" da penúltima "sílaba" ("gui").

Por favor, na última linha do parágrafo anterior, note as aspas em "sílaba". Com elas eu quis dizer que essa "sílaba" não existe. A divisão silábica é outra; é "de-sig-na", "es-tag-na", "re-sig-na" e "im-preg-na", respectivamente. A verdadeira sílaba tônica de todas essas formas é a penúltima; a vogal tônica é a que antecede o "g", que é "mudo".

Em todos os casos vistos, usei como exemplo a terceira pessoa do singular do presente do indicativo ("ela opta", "isso se impregna" etc.).

Isso não ocorre só nessa flexão. Para deixar tudo claro, convém dizer que o fato ocorre em oito flexões de cada um desses verbos e afins.

Usando uma linguagem bem simples, isso ocorre nas flexões de "eu", "tu", "ele/a" e "eles/as" do presente do indicativo e do presente do subjuntivo: "eu opto", "eles optam"; "que eu opte", "que elas optem"; "eu designo", "que ela designe"; "eu impregno", "que isso se impregne", "que esses odores se impregnem".

O caro leitor resistiu à tentação de dizer "impreguínem", certo?

Nas demais formas dos dois presentes e dos outros tempos, a vogal tônica não é a que vem antes do "p", em "optar" e afins, e a que vem antes do "g", em "impregnar" e afins, mas isso não é problema para ninguém. Dizemos tranquilamente "optaram", "impregnou-se" etc. É isso.


[Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress – fonte: www.folha.com.br]

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O papel das aspas, do artigo...


Antonio Palocci nem havia chegado a Curitiba e já espocavam títulos nos sites etc. Vejamos estes dois: "Preparado para prisão havia quatro dias, Palocci negará ser o 'italiano'; "Há 4 dias preparado para prisão, Palocci negará ser 'italiano'".

O segundo título estava na capa do UOL. Clicando-se nele, chegava-se ao primeiro, da Folha. O caro leitor notou as aspas em "italiano"? O que me diz do papel delas? O sentido mudaria se elas não existissem?

O sentido mudaria, sim, e como mudaria! Não é preciso dizer que quem tem o sobrenome Palocci é italiano ou descendente; mesmo que tenha nascido fora da Itália, tem direito à cidadania italiana, o que, para todos os efeitos, dá ao descendente o status de cidadão italiano.

Se não houvesse aspas em "italiano" (no título "Há quatro dias preparado para prisão, Palocci negará ser 'italiano'"), informar-se-ia que Palocci iria negar o status de cidadão italiano (e não importa aqui discutir as possíveis razões que poderiam levá-lo a essa negativa; o que importa é mostrar o que a falta das aspas provocaria).

Com as aspas, o sentido é outro, e só se descobre qual é esse sentido com o conhecimento do contexto em que se insere o termo "italiano". Como se sabe, na papelada apreendida pela Polícia Federal havia um "italiano", alcunha que se imaginava fosse de Guido Mantega.

Moral da história: o site e o jornal informavam que o ex-ministro Antonio Palocci pretendia dizer que não é o "italiano" que aparece na papelada, no livro-caixa, nos e-mails e sabe-se lá em que outros documentos apreendidos pela PF.

Como se vê, o site e o jornal empregaram bem as aspas. O problema é saber se todos os leitores perceberam isso. Cá entre nós, muita gente nunca nota a presença das aspas; há também os que nem sabem para que elas servem, o que se comprova, por exemplo, quando um articulista faz uma citação e, justamente por isso, põe entre aspas essa citação. O que fazem alguns leitores, despreparados, desocupados e mal-educados? Furibundos, escrevem para o articulista, para execrá-lo pelo que "escreveu"... É dura a vida!

Se antes da internet, das redes antissociais, dos celulares multifuncionais etc. muita gente já não notava as aspas, imagine agora que a leitura é de "esgueia", como se diz no interior. Mas isso não impede esses "leitores" de atirar para todos os lados. Que Deus nos ajude!

É de notar também a sempre delicada questão do emprego e do não emprego do artigo (definido, nos exemplos citados). Não poderia haver artigo se "italiano" indicasse a cidadania; quando "italiano" é a alcunha, o artigo pode aparecer ou não, o que no caso se explica pelo fato de não se empregarem os artigos nas manchetes de sites e jornais.

Pode ocorrer o mesmo problema com o artigo indefinido. Se alguém começa uma conversa dizendo, por exemplo, que tem medo de homem (ou de mulher), o sentido é um; se começa dizendo que tem medo de um homem (ou de uma mulher), a coisa é totalmente diferente.

Na imprensa, por causa da tendência de eliminar o artigo (definido e/ou indefinido), pode haver forte ruído na comunicação.


Recentemente, foi publicado um título com a expressão "cheiro de pobre". Lida a notícia, constatava-se que se tratava especificamente de um pobre e não de todos os pobres, o que talvez não atenue a gravidade do fato, mas condiz com o que ocorreu. Teria sido melhor escrever "cheiro de um pobre". É isso.

[Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters - fonte: www.folha.com.br]

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Pasquale Cipro Neto: Que saudade do 'pára'!

 

Tweet do UOL diz: "Adversário duro para Neymar"
Tweet do UOL diz: "Adversário duro para Neymar"
Estava na "capa" do UOL, logo depois de Brasil x Colômbia : "Adversário duro para Neymar". E então, caro leitor? Levando em conta que, nos títulos, a imprensa sempre põe os verbos no presente, o que terá feito o tal "adversário duro"? Terá ele conseguido parar Neymar? Ou o que se destaca com o título é o fato de ele (adversário) ter sido duro?

A resposta está já no título da matéria em si, ao qual se chega depois do clique na "chamada" da página principal do site: "Neymar sofre com colombianos e revida com pontapé, mas decide com gol". Pronto! Já se sabe o que se queria dizer com o tal título: o atacante brasileiro teve pela frente um adversário duro.

Antes do infame "(Des)Acordo Ortográfico", não haveria a menor dúvida em relação ao sentido da frase em questão, que, por sinal, seria escrita do mesmo modo, mas não causaria nenhuma dúvida, já que vigorava a diferença gráfica entre "para" (preposição) e "pára" (verbo). Ninguém pensaria na hipótese de o "para" em questão ser verbo.

O "(Des)Acordo" acertou ao eliminar quase todos os inúteis acentos diferenciais de tonicidade (o de "pólo", "pêlo/s", "pélo", "péla" etc.), mas foi além do necessário e do razoável ao eliminar o mais que necessário acento na forma verbal "para" (escreve-se assim hoje). Foi mantido o acento de "pôr" (verbo).

O argumento "oficial" para o facão no acento de "pára" é simplório e facilmente desmentível: "O contexto define se 'para' é verbo ou preposição". Então tá. O exemplo visto mostra bem como o contexto esclarece a questão... No caso, o contexto que define é o do texto em si, e não o do título publicado.

Já toquei nesse ponto, mas o título do UOL me chamou tanto a atenção que resolvi voltar ao tema. E tenho outras razões para isso, além do título em si: um texto do presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e um pronunciamento dele a respeito do "(Des)Acordo".

Antes de ir ao texto e ao pronunciamento do presidente português, lembro que, embora já vigore legalmente em Portugal, o "(Des)Acordo", na prática, ainda não é seguido por todos. Muitas publicações ainda não o adotaram; outras o adotaram, mas deixam a critério dos articulistas o emprego ou não da nova ortografia. Foi o que ocorreu com o texto que o presidente português publicou no semanário "Expresso" poucos dias antes de assumir.

Certamente não por acaso, Rebelo de Sousa optou pela grafia "velha". Depois, esteve na África lusófona, onde se manifestou favoravelmente à revisão do "(Des)Acordo".

É bom lembrar que Pedro Mexia, assessor cultural do presidente, sempre foi crítico do "(Des)Acordo".

Segundo o site português "RTP Notícias", Mexia diz que há a expectativa de revisão do "(Des)Acordo". O melhor vem de Artur Anselmo, da Academia das Ciências de Lisboa: "Nunca é tarde para corrigir situações que chocam a mentalidade das pessoas". E acrescenta: "O assunto é tão importante que merece que o presidente da República interfira (...) porque há coisas de bradar aos céus neste acordo". E como as há...

Por enquanto, aceito a proposta do grande Juca Kfouri, outro que não se conforma com o fim do acento na forma verbal "para": desobediência civil. Como assim? É simples: ignorar-se-á essa coisa, uma das que "bradam aos céus". Quando se tratar da formal verbal, escrever-se-á "pára". E fim de papo. É isso. 


[Fonte: www.folha.com.br]

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Pasquale Cipro Neto: Os senadores e suas lambanças com pronomes de tratamento


Embora eu já tenha tratado do tema há algum tempo, muitos leitores me pediram que comentasse o uso desencontrado dos pronomes "Vossa Excelência" e "Sua Excelência" nas últimas sessões do Senado.

Quem assistiu a essas sessões ou ao menos a parte delas deve ter percebido que, de fato, em situações análogas, foi um tal de "Sua Excelência é isso", "Vossa Excelência é aquilo".

Os leitores não se limitaram à diferença entre "Sua Excelência" e "Vossa Excelência". Alguns quiseram saber "por que se usa o verbo no singular se 'vossa' é plural?".

Plenário do Senado lotado antes de votação do impeachment de Dilma Rousseff  
De fato, quando é pronome possessivo, "vossa" é da segunda pessoa do plural, caso em que se associa ao pronome pessoal "vós", também da segunda pessoa do plural: "Vós também tendes os vossos momentos de dúvida" ("Houaiss").

Em determinados casos (na linguagem religiosa, por exemplo), empregam-se os pronomes "vós" e "vosso" em relação a um único ser: "...bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus". É claro que nesse caso "Jesus" é aposto, e não vocativo, já que a mensagem não é dirigida a ele (como se sabe, a mensagem é dirigida a Maria). O termo "Jesus" é aposto porque esclarece, explica a expressão "o fruto do vosso ventre".

Pois bem. Quando a palavra "vossa" integra o pronome de tratamento "Vossa "Excelência", a questão é outra. Como ocorre com esse e com todos os pronomes de tratamento semelhantes ("Vossa Santidade", "Vossa Alteza", "Vossa Senhoria" etc.), a concordância (verbal e nominal) se faz na terceira pessoa, o que significa que, em termos práticos, fazer a concordância com esses pronomes é como fazer a concordância com "você", "o senhor", "a senhora", "ele" "ela" etc.

Moral da história: ao se dirigir diretamente a um colega (ou a uma colega), um senador ou senadora deve dizer "Vossa Excelência é um canalha" (ou "uma canalha"), e não "Sua Excelência é um/a canalha", muito menos "Vossa Excelência (ou 'Sua Excelência') sois canalha".

Exagerei no exemplo, caro leitor? Acho que não. Tirei-o do que vimos nos últimos dias. O que imperou na Câmara Alta da nação ("o conselho dos antigos", como os romanos se referiam ao Senado, palavra que é da mesma família de "senhor", "senil", "sênior" etc., ou seja, os mais maduros, experientes, equilibrados...) foi a finesse, a lhaneza...

Na segunda-feira, ouvi muitas vezes gente que ocupava a tribuna empregar "Sua Excelência" quando dirigia a palavra diretamente a Dilma Rousseff, que lá estava. Como muitas vezes eu peguei essas falas no meio, foi preciso esperar a sequência da exposição para saber se quem falava realmente se referia a outrem ou se dirigia a palavra a Dilma.

Como já se pode e já se pôde deduzir, emprega-se "Vossa "Excelência" quando se dirige a palavra diretamente a uma autoridade constituída; emprega-se "Sua Excelência" quando se fala dessa autoridade, mas não se dirige a palavra a ela, ainda que ela esteja presente.

Assim, um senador pode dizer a outro algo como "Vossa Excelência é canalha"; um terceiro senador pode interferir e perguntar a quem acabou de emitir o galanteio algo como "Por que Vossa Excelência disse que Sua Excelência é canalha?".

Antes que me esqueça, é bom lembrar que "canalha" também é coletivo (de canalhas, é claro): "É tudo uma grande canalha". É isso. 


[Foto: Renato Costa/Folhapress – fonte: www.folha.com.br]


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Pasquale Cipro Neto: Independentemente de ideologias, o Sol e a Lua existem, gente boa!

Estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana


Na semana passada, falei de uma declaração da ministra Cármen Lúcia a respeito da questão "presidente" x "presidenta". Supus que fosse desnecessário dizer que a "decisão" sobre a "existência" da palavra "presidenta" não depende de ideologia, mas enganei-me.

Nos "comentários" (note as aspas, por favor), algumas pessoas simplesmente ignoraram as provas documentais (o registro nas edições antigas e nas atualíssimas dos nossos mais importantes dicionários e do "Vocabulário Ortográfico", da Academia Brasileira de Letras).

Nada convence os que odeiam Dilma e sua trupe de que a questão linguística nada tem que ver com a questão ideológica, política, partidária etc. Uma "comentarista" chegou a dizer que tem dó dos meus alunos. Certamente ela queria que eu tivesse dito que a existência ou não do termo "presidenta" depende do credo político: no mundo petralha, o termo existe; no mundo tucanalha, não. Cara leitora, caros leitores, um fato técnico não tem ideologia.

Ou será que Drummond, o grande Carlos Drummond de Andrade, já antevia a chegada ao mundo de Dilma Rousseff (14/12/1947), a posterior chegada dela à presidência da República e ainda a obsessão de Dilma pelo emprego de "presidenta"?

Explico: como bem lembrou o eminente professor Renato Janine Ribeiro, na histórica tradução que Drummond fez do célebre romance "As Relações Perigosas" ("Les Liaisons Dangereuses"), de Pierre Choderlos de Laclos, aparece a expressão "a presidenta de Tourvel". Essa tradução foi publicada em 1947. Petralha que era (já em 1947!), Drummond preparou o terreno para Dilma...

Peço licença a Caetano Veloso, que, na genial "Podres Poderes", diz assim: "Será que esta minha estúpida retórica terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos?". Sim, sinto-me um estúpido ao ter de dizer (mais uma vez) que o comentário da ministra Cármen Lúcia foi tecnicamente equivocado. Usar como argumento a inexistência de "estudanta" para justificar a inexistência de "presidenta" é como dizer que, se não existe o inicial do mês (ou da semana), não pode existir o final do mês (ou da semana). PODE EXISTIR, SIM, ou melhor, EXISTE!!!

E por que não se usa "inicial do mês" se se usa "final do mês"? Por uma razão bem simples: porque não se usa. Como já afirmei N vezes, nem todos os fatos da língua são cartesianos. "Final do mês" e "fim do mês" são expressões equivalentes.

Na internet e nas redes antissociais, circulam essas e outras bobagens ("inicial do mês", "estudanta" etc.). Os argumentos técnicos são ignorados; quando alguém se atreve a usá-los, tem de aturar "especialistas" (note as aspas, por favor).

As pessoas têm todo o direito de gostar ou de não gostar de certa palavra ou expressão; só não podem inventar argumentos infundados. Eu mesmo disse que me parece infantil a obsessão por "presidenta". Embora o termo TENHA REGISTRO HÁ MUITO TEMPO (e o registro decorre do uso), o seu emprego, correto, é minoritário, por isso causa estranheza.

Pelo jeito, se um petralha disser a um tucanalha que a Lua existe, o tucanalha dirá com toda a convicção que a Lua não existe, mesmo que o petralha mostre dados técnicos, fotos etc. Por sua vez, o tucanalha dirá ao petralha que o Sol existe, e aí será a vez do petralha, que dirá aos quatro ventos que o Sol é uma miragem. Triste país. É isso. 


[Foto: Paulo Campos/Folhapress – fonte: www.folha.com.br]


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Pasquale Cipro Neto: Data venia, ministra Cármen Lúcia, o cargo é de 'presidente' ou 'presidenta'



Pasquale Cipro Neto: Data venia, ministra Cármen Lúcia, o cargo é de 'presidente' ou 'presidenta'

Na sessão de 10.ago, o atual presidente do STF disse o seguinte: "Então eu concedo a palavra à eminente ministra Cármen Lúcia, nossa presidenta eleita... Ou presidente?". A resposta da ministra foi esta: "Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa, eu acho que o cargo é de presidente, não é não?". 'Data venia', Excelência, o cargo é de presidente ou presidenta. 

Essa questão atormenta o país desde que Dilma Rousseff venceu a primeira eleição e disse que queria ser chamada de "presidenta", porque, para ela, a forma feminina acentua a sua condição de mulher, a primeira mulher a presidir o país.

Esse argumento me parece frouxo e um tanto infantil. O que acentua o fato de Dilma ser mulher é justamente o fato de ela ser mulher, mas respeito a escolha dela e os que acham justo esse argumento.
 
A ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia

O que não se pode, de jeito nenhum, é ditar "regras" linguísticas totalmente desprovidas de fundamento técnico, mas foi justamente isso o que mais se viu/ouviu/leu desde que Dilma manifestou a sua preferência por "presidenta", forma que não foi inventada por ela.

Na bobajada que se lê na internet, o argumento mais frequente é justamente o da inexistência de "serventa", "adolescenta" etc., como se a língua fosse regida unicamente por processos cartesianos.

Não é, caro leitor. Se assim fosse, não teríamos como fatos consagrados inúmeros casos que nem de longe seguem a lógica. Ou será que no padrão culto se registra algo como "Fulano suicidou"? Pela "lógica", seria essa a forma padrão, mas...

A língua não funciona assim. Um exemplo: às vezes, o falante não tem noção histórica da formação de um termo e acrescenta algo que "ressuscite" o seu sentido literal. É isso que explica, por exemplo, a pronominalização de "suicidar" ("Ele se suicidou", "Tu te suicidarias?"). O verbo não é "suicidar"; é "suicidar-se". Pode procurar no "Houaiss" etc.

A terminação "-nte", que vem do particípio presente latino, forma (em português e em outras línguas) adjetivos e substantivos que indicam a noção de "agente" ("pedinte", "caminhante", "assaltante").

99,9999% desses termos não têm variação; o que varia é o artigo ou outro determinante (o/a viajante, o/a estudante, nosso/nossa comandante), mas é claro que há exceções.

Uma delas é justamente "presidenta", registrada há mais de um século. Na sua edição de 1913, o dicionário de Cândido de Figueiredo registra "presidenta", como "neologismo". Um século depois, esse "neo-" perdeu a razão. A edição de 1939 do "Vocabulário Ortográfico" registra o termo. A última edição de cada um dos nossos mais importantes dicionários e a do "Vocabulário Ortográfico" também registram.

Deve-se tomar muito cuidado quando se usa como argumento o registro num dicionário. Nada de dizer que "a palavra existe porque está no dicionário"; é o contrário, ou seja, a palavra está no dicionário porque existe, porque tem uso em determinado registro linguístico.

Tenho profundo respeito pela ministra Cármen Lúcia, não só pela liturgia do cargo, mas também e sobretudo pela altivez com que o professa. Justamente por isso, ouso dizer que teria sido melhor ela ter dito simplesmente "Prefiro presidente".

Aproveito para lembrar que não tenho feicibúqui, tuíter, instagrã etc., portanto toda a bobajada internética a mim atribuída é falsa. É isso. 


[Foto: Pedro Ladeira - fonte: www.folha.com.br]