Isac Nunes da Luz Cordeiro
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Tradutor Público e
Intérprete do Comércio
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Idiomas: francês, espanhol, catalão e galego ***
Matriculado na Junta Comercial do Estado do Paraná
*** Curitiba ***
República Federativa do Brasil
A deriva nazi não deixa de marcar presença no novo romance de João Pinto
Coelho, mas é a decadência de uma família o cenário principal de um dos mais
interessantes romances recém-publicados.
Os cenários físicos do novo romance, 'Aguarela de Paris', são vários, mas o da Escócia predomina porque o escritor quis estar num lugar a que queria voltar.
Escrito por João Céu e Silva
O mais recente
romance de João Pinto Coelho, Aguarela de Paris, é
um objeto de leitura muito sedutor para o leitor. Bastam as páginas iniciais
para impedir qualquer desistência e para colocar ao leitor a pergunta sobre a
ausência na literatura portuguesa atual de romances tão exigentes como bem
realizados como os que escreve. Mesmo quem não tenha acompanhado a sua escrita
elaborada desde o início, com Perguntem a Sarah Gross (2015), tem neste seu quinto romance uma ótima entrada para o
universo do autor. Avisa-se desde já que para se chegar à “ação” neste
romance, são muitas as histórias que preparam o leitor para entender o falhanço
de uma humanidade como foi o daquelas gerações obrigadas a conviver com o drama
da II Guerra Mundial. Ao fazer-se um paralelo com a situação bélica
atual em que o mundo vive, João Pinto Coelho aceita que o seu novo romance
possa ser um alerta. Considera que “toda a evocação da violência num
contexto histórico, seja pela abordagem académica, seja pela ficcional, deve
servir de prova. Se aconteceu, pode voltar a acontecer, como lembra Primo
Levi”. No entanto, se acha que aquilo que se observa nas guerras em curso
“devia bastar para ser tomado como um aviso sério”, essa é “uma expetativa que
perdi há muito”.
Decerto que o
leitor fiel do escritor ficou marcado pela deriva antissemita da Alemanha como
a que era narrada no primeiro, em seguida no romance Prémio Leya, Os Loucos da Rua Mazur (2017); depois, no retrato do ódio
legado por Mussolini em Um Tempo a Fingir,
(2020), e a procura de respostas para a infância em Mãe, Doce Mar, (2022). Desta vez, não fugindo à
sua técnica de enquadramento, o autor passa as primeiras dezenas de páginas num
cenário tão realista como delirante da Escócia, que irá desembocar na questão judaica
e hitleriana, num “murro” no estômago inesquecível a quem o lê. Quando
questionado sobre o fruto dessa técnica, Pinto Coelho passa a resposta para o
leitor: “Caberá sempre a quem me ler. Nunca escrevo em função deste ou daquele
efeito ou reação, até porque o encaixe da história varia de leitor para leitor.
Em romances anteriores acompanhei a fermentação do preconceito e da
intolerância, desta vez instalo-os de supetão no cenário da França ocupada,
sublinhando mais o colaboracionismo dos agentes políticos e das forças de
segurança do que o antissemitismo de outros sectores da sociedade parisiense.”
A
narrativa passa também por Portugal, país em que não existe uma família que
possa rivalizar com a do barão de Senigallia, que domina a entrada apoteótica de Aguarela de Paris. Servirá de contraponto, pergunta-se
ao escritor, ou será o tour de force adequado literariamente para
engrandecer o cenário de um romance passado numa outra época escocesa. Pinto
Coelho clarifica: “Este
é um romance sobre a decadência. Não só a decadência moral e a recodificação de
valores à luz de um sistema ideológico, mas a decadência de duas personagens,
as gémeas Senigallia. Precisava começar pelo fausto para acabar como queria, na indigência
e na degradação mais drástica. O meu ponto de partida foi a opulência de um
castelo escocês e o poder de uma família - não houve outra razão.”
O principal
cenário nunca é o nacional, que apenas apanha boleia devido às circunstâncias
históricas de ter sido o ponto final para múltiplas fugas ao pesadelo do
Terceiro Reich, mas em muito o da Escócia. Tal como nos romances anteriores, a
escolha não foi por acaso, como recorda: “Às vezes há razões muito primárias e o
facto de querer escrever desta vez nos cenários escoceses foi a minha maneira
de estar num lugar onde queria voltar. Sempre houve razões para me localizar
num ou noutro cenário e não será por acaso, é que todos os anos organizo
viagens literárias a qualquer lugar do mundo em que haja um livro ou um autor
que nos chame. Cracóvia e Auschwitz por causa do meu primeiro romance; a
Toscana, levados pelo segundo, mas também os cafés literários de Praga, de
Kafka e Kundera, o território Maasai, no Quénia de Karen Blixen, a Irlanda de
Joyce, Yeats e Oscar Wilde. Duas delas, em que percorremos o sul da Inglaterra
nos trilhos de Jane Austen, Agatha Christie, Virginia Woolf e outros, acabaram
num clube literário que atravessou a ilha de comboio, desde King’s Cross, em
Londres, até aos confins da Escócia. Foi aí, entre Inverness e o Loch Ness, que
reinstalei este romance quando regressei a Portugal.”
Uma das
características de Aguarela de Paris é
a existência de um grande leque de personagens secundárias. Pinto Coelho
concorda: “Os meus livros sempre foram muito populosos.” Mas, específica no que
respeita à forma como estrutura essa rivalidade para com as protagonistas
Franca e Giullietta: “Cada personagem serve o romance à sua maneira,
pois o importante é ser imprescindível. Até as secundárias, as que uso para a
caracterização sociológica de um lugar ou de um tempo histórico, existem para
que nelas se expressem as principais ou, simplesmente, como instrumentos de
ação. O problema é que se acho graça a um revisor de bilhetes ou a um rato
de sacristia e lhes dou mais importância do que a que têm para a história,
situação para que o leitor, tal como o autor, tem de estar preparado para se
despedir delas.”
Não é por
acaso que João Pinto Coelho intervala a seguinte frase a dado momento num
diálogo deste livro: “Não estamos a falar de romances nem das tuas personagens. Esta
mulher [Wallis Simpson] existe, não precisa de um escritor para se tornar
extraordinária.” A intenção de incluir esta deixa pretende ser, diz, “a
constatação de que existe gente assim: homens e mulheres que habitam fora dos
livros e dispensam floreados, mesmo literários, para se descreverem como
extraordinários”. É o caso de uma outra frase literária sobre vários pintores,
como Chagall, Picasso, Dali e Rivera, e do que numa das páginas é referido
assim: “Cada história [deles] dava um conto e não eram os quadros mas as suas
vidas que mereciam ser emolduradas”. Pinto Coelho confessa: “É uma frase que
decorre do meu encontro com eles, de tudo o que aprendi nos bancos das Belas
Artes, ou do que vim a encontrar enquanto chocava com as suas biografias. Por
trás do génio, há vidas complexas, paradoxais, fascínios que davam quadros
ou romances inteiros.”
Quando se quer
saber qual das gémeas prefere como protagonista, João Pinto Coelho garante que
essa é uma “pergunta é provocatória, pois não faço ideia a que gémea dei
preferência”. No entanto, não as evita qualificar: “Se for pela voz da Chuva,
Aguarela é a favorecida, chegando a admitir ter calhado ser a gémea errada. Se
for pela mão do autor, Aguarela, é sempre mais grandiosa do que o mundo que a
cerca, é a sacrificada e de longe a mais maltratada. O autor tem outras
preferências, contudo deve deixar a empatia para quem o lê.”
Uma segunda
pergunta provocatória surge quando escreve “Era a segunda vez que eu ouvia
falar de Hitler e da deriva antissemita que a Alemanha cozia.” É hora de saber
se as imagens que passam nas televisões sobre a atual atividade militar de
Israel lhe fazem lembrar o pesadelo desse passado. João Pinto Coelho recorre à
História: “Em 1941, durante a invasão da União Soviética, Hitler
enviou os seus esquadrões da morte para chacinar todos os judeus que
encontrassem. Estamos a falar dos homens, mulheres e crianças que se
achassem no caminho, nenhum deles capaz de constituir ameaça, fosse de que
natureza fosse, ao Reich de Mil Anos. Não se descobrem disputas territoriais,
preocupações de segurança nem guerras de poder que expliquem a obsessão de uma
campanha assim. O Holocausto não tem precedente nem explicação plausível.
O que hoje se passa no mundo, em Gaza e noutros lugares de desastre, obriga a
uma reflexão urgente, mas a História nunca se deu bem com as equivalências.”
Qual terá sido o
cenário que mais trabalho deu a escrever no caso de Paris sob duas épocas: com
e sem ocupação alemã. Responde: “Foi muito mais trabalhoso escrever sobre o
período pós-ocupação, sobretudo porque, pela primeira vez, abordo uma
temática que não conhecia com a profundidade que o romance reclamava: as
experiências médicas perpetradas sobre os prisioneiros nos blocos de Auschwitz
I e Birkenau. Tanto
que tive de recorrer a médicos com as especialidades que me interessavam para
afinar a linguagem científica e varrer da narrativa certos anacronismos.
Escrever sobre os crimes que aconteceram no bloco 10 do Stammlager não só foi
mais trabalhoso, como emocionalmente exigente.”
Philosophe du
politique mais aussi fondateur de la maison d’édition new-yorkaise Zone Books,
Michel Feher s’emploie à montrer les ressorts de l’extrême droitisation du
monde. Dans son livre précédent, Producteurs et parasites (La
Découverte, 2024), il dénonçait l’attrait exercé par l’imaginaire du
Rassemblement national. Aujourd’hui, les légataires de Maurice Barrès et
d’Henry Ford figurent parmi les partisans les plus enthousiastes d’Israël et se
font les avocats d’une réduction de l’antisémitisme à une hostilité au projet
sioniste. Ce nouveau philosémitisme suspect et fragile repose sur une opération
de blanchiment réciproque à laquelle Michel Feher, s’exprimant à la première personne,
propose de riposter en s’appliquant à Redevenir juif.
En France,
comme aux États-Unis ou en Allemagne, les gouvernants « nous »
entourent de sollicitude et nous invitent « à nous considérer comme des Blancs à part
entière ». En
retour, il nous appartient d’attester, nonobstant un passé en demi-teinte,
« que le
peuple majoritaire dont nous faisons désormais partie n’a aucune complaisance
pour la judéophobie »,
même si des rapports comme ceux de la Commission consultative des droits de
l’homme établissent que les stéréotypes antisémites traditionnels sont loin d’avoir
disparu. Le blanchiment des juifs, rappelle Michel Feher, leur transformation
d’étrangers de l’intérieur en Européens de l’extérieur, est au cœur du projet
sioniste porté par Theodor Herzl, qui veut fonder un État servant de « sentinelle de la civilisation contre la
barbarie ». Bien
plus tard, Ehud Barak, alors ministre des Affaires étrangères israélien,
parlera de son pays comme d’une « villa moderne et prospère au milieu de la
jungle ».
La victoire de
1967 (la guerre dite des Six Jours) avait, entre-temps, marqué un rapprochement
entre les juifs « qui, par
Israéliens interposés, faisaient un grand pas vers le blanchité », étant même parfois désignés comme
« champions du monde libre », et les « gentils » Blancs.
Ceux-ci assumaient désormais leur responsabilité dans ce qu’ils commençaient à
appeler Holocauste ou Shoah, et la « question juive » devenait la leur.
Cependant, le
judéo-christianisme, dont l’expression la plus visible est le soutien
inconditionnel apporté par les États-Unis à Israël, en est peut-être à son
crépuscule. Certes, la parenté des imaginaires et des techniques de
gouvernement entre les États-Unis et Israël semble de nature à garantir la
pérennité de l’alliance entre les deux pays. On est en droit de penser que la
politique d’annexion et de déportation menée par le gouvernement israélien peut
servir de modèle, ou tout au moins d’expérimentation, aux autorités de
Washington en matière de traque des travailleurs immigrés et de contrôle des
États de la région, comme on l’a vu récemment au Venezuela. Mais les
orientations se modifient. Le temps des néoconservateurs, majoritairement juifs
et sionistes et soupçonnés d’entretenir une double allégeance, est révolu, et
celui du sionisme chrétien évangéliste semble en déclin. Une brèche s’est
ouverte dans le mouvement MAGA (Make America Great Again) avec la montée en
puissance des paléo-conservateurs qui, déjà au tournant des années 1990, se
refusaient à tempérer leur antisémitisme au nom du sionisme, qu’il fût juif ou
chrétien.
Les
paléo-conservateurs, dont le porte-voix est l’influenceur Tucker Carlson,
s’accordent à stigmatiser les travailleurs immigrés et les États-uniens
racisés, évoquent volontiers la menace d’un « grand remplacement »,
et s’en prennent aux femmes rétives au patriarcat et aux minorités sexuelles
promises à la damnation éternelle. Tucker Carlson s’écarte de cette ligne
commune à tous les MAGA en énonçant en outre que « le suprémacisme blanc et chrétien, dont
« America First » est le nom, n’a pas à inclure les juifs parmi les
siens, et pas davantage à considérer les intérêts israéliens comme une question
de sécurité nationale ».
Il n’est pas le seul. Dans une interview donnée à Politico, Steve Bannon, stratège politique de
l’extrême droite aux États-Unis et dans les pays européens, a mis en
garde « les amis
de l’alliance israélo-américaine contre les méfaits d’une cabale de juifs
cosmopolites disposant de fonds illimités ». Quant au vice-président des États-Unis, J. D.
Vance, il s’est
employé à galvaniser ses auditeurs « en leur confiant qu’ils vivaient désormais
dans une nation chrétienne où ils n’auraient plus jamais à s’excuser d’être
blancs ».
En Europe, le
souci de prioriser le « péril musulman » a jusqu’à présent favorisé
l’exemplarité d’Israël aux yeux de la fachosphère européenne, contribuant à une
version modernisée de la blanchité où la judéophobie n’aurait plus sa place.
Toutefois, Michel Feher perçoit une évolution doctrinale au sein de l’extrême
droite européenne, qu’il s’agisse de l’AfD allemande ou même du RN français,
comme en témoignent les traces numériques laissées par ses candidats et ses
militants. Gager l’endiguement de la judéophobie sur l’admiration des extrêmes
droites pour les
exploits de l’armée israélienne n’est pas forcément un pari raisonnable.
Plutôt alors redevenir juif, c’est-à-dire ranimer ce même
juif « qui
faisait figure de péril existentiel pour les pères fondateurs de
l’antisémitisme moderne », parmi lesquels Carl Schmitt dont
l’antisémitisme ne se réduisait pas à un vieil antijudaïsme chrétien, ni même
au racialisme du parti national-socialiste. Selon lui, la nocivité des juifs
devait moins à leur nature profonde qu’à leur condition d’exilés. Les noirs
desseins imputés aux juifs, analyse Michel Feher, relevaient de l’introduction
d’un trouble dans l’identification qui rendait leur condition diasporique
contagieuse en privant leurs victimes du « sentiment de sécurité qu’elles retiraient de
leur appartenance exclusive à une nation et de leur enracinement dans un
territoire ».
D’une manière provocatrice, mais de façon extrêmement
stimulante tant au point de vue intellectuel qu’au point de vue éthique et
politique, Michel Feher appelle à réinvestir positivement cette figure du
devenir juif, celle du « paria conscient » conceptualisée par Bernard
Lazare et reprise par Hannah Arendt et qu’il voit s’incarner chez Kafka, Judith
Butler mais aussi Edward Saïd. Ce qui fait le paria conscient, c’est avant tout
le refus de l’assignation identitaire et la préservation de ce qu’il nomme l’entre,
l’espace de la vigilance, du doute et de l’humour. Puisse-t-il, comme l’espère
Michel Feher, contribuer à démoraliser les responsables du déferlement de la
nouvelle peste brune
Michel
Fehe | Redevenir juif. La fin d’un pacte de blanchiment réciproque. La
Découverte, 224 p., 16,50 €
[Image : CC BY 4.0/Flickr- source : www.en-attendant-nadeau.fr]
Los libros crueles, tal como los propone José Ovejero,
nos interpelan y nos transforman a través de ese placer cada vez menos
acostumbrado
Hombre leyendo (Georges Lemmen, 1883)
Escrito por Azahara
Alonso
Es posible formular una queja de cliente a
modo de pregunta. Aunque no siempre pasa, bien lo saben quienes publican un
libro y se encuentran con algunos de sus lectores: ¿Por qué ha escrito un
ensayo y no una novela? ¿Nacen de un lugar genuino esos poemas? ¿No le parece
demasiado anodina la voz narrativa? En cierto momento de su trayectoria
literaria, a José Ovejero también le preguntaron varias cosas: ¿Por qué hay
tanta violencia en sus obras? ¿Es usted tan pesimista que solo ve la desgracia
o la mezquindad? ¿No quisiera a veces crear paraísos literarios en los que el
lector pueda refugiarse de la fealdad del mundo? Aventuro que quienes se lo
plantearon forman parte de una estirpe de lectores que no es nueva, y la
encontramos ya formulada en algunos personajes de las novelas de Virginia Woolf
–si alguien leyó la columna anterior, me disculpará la fijación presente con
esta autora, espero–, como aquel que “sintió deseos de saber si entre los
jóvenes escritores había alguno tocado por el espíritu de la magnanimidad,
alguien que infundiera al lector la creencia de que la vida es hermosa”. Esa
estirpe es consciente de la fealdad del mundo y tiene una idea muy clara de la
literatura: debe ser un oasis entretenido que compense la inhumanidad que nos
rodea. Y no se consigue ese remanso solo por la atmósfera, los finales felices
o el supuesto tema que acometa, sino –a juzgar por un sentir que parece
generalizado en reseñas virtuales y clubs de lectura– por la identificación de
quien lee con al menos uno de sus edificantes personajes.
He nombrado a Ovejero
porque recientemente se ha reeditado La ética de la crueldad,
libro con el que, además de otros reconocimientos posteriores, ganó el Premio
Anagrama de Ensayo en 2012, y que fue escrito en respuesta, quizá, a las mencionadas
preguntas que él recordó durante una de las presentaciones del texto en
librerías. Lo reedita ahora Galaxia Gutenberg con un prefacio escrito para la
ocasión y con una revisión en la que la propuesta inicial se completa con
nuevos ejemplos. La tesis del autor se desarrolla en las primeras cien páginas,
y con el riesgo de la síntesis podría resumirse en que lo cruel es en el ámbito
literario un valor a tener en cuenta, la piedra de toque que permite que la
narrativa sea implacable, honesta y catártica. Pero no se trataría, por tanto,
de una “crueldad moralizante, que […] satisface la necesidad de certidumbres
del lector, de verdades sencillas, de una división clara entre el bien y el
mal”. Es al contrario, y esto se evidencia en el análisis que a continuación
lleva a cabo, en el que se centra en libros cuya violencia no es un pasatiempo
escrito, sino un mecanismo para ahondar en la condición humana. Como lectoras,
claro, el disfrute de esos libros, de haberlo, es algo más complejo de lo
habitual: no son fácilmente digeribles, no invitan a una identificación
favorecedora y entretenido no es el adjetivo que se
ajusta a su experiencia. Nada más lejos de la lectura como scroll infinito
lleno de emociones en catálogo y sin riesgo ni concentración que, por alguna
razón difícil de comprender, en tiempos recientes parece la medida de un libro
apetecible. Pero los libros crueles, tal como los propone Ovejero, nos
interpelan y nos transforman –no necesariamente en mejores personas, sí más
lúcidas– a través de ese placer cada vez menos acostumbrado. De su complejidad
sabrá quien haya leído algunas de las novelas que La ética de la crueldad tiene
en cuenta, como El astillero, de Juan Carlos Onetti, La
pianista, de Elfriede Jelinek o Claus y Lucas, de Agota
Kristof.
Dice Ovejero que “no hay auténtica crueldad
ética sin que aquellos que nos aprecian se sientan ofendidos; la crueldad que
solo se dirige al antagonista es acomodaticia, falsamente atrevida”. Y eso va
contra la comodidad de quienes leen, aunque no contra ellos. Porque un libro
debe ser, como quería Kafka, “el hacha que rompa el mar helado que hay dentro
de nosotros”, gesto de amabilidad imposible. En respuesta a aquel personaje
woolfiano, decimos entonces que quizá la vida no, pero precisamente por eso la
literatura sí es hermosa a su manera.
Llegim
'La traductora dels haikus' (Galàxia Gutenberg), una novel·la de Monika
Zgustová que parla d’una exiliada als Estats Units que tradueix versos de
poesia japonesa per trobar el seu forat al món.
Monika Zgustová
Escrit per Alba
Mallada
El
segle passat, entre moltes altres coses, fou el segle dels exilis. Milions de
persones al voltant del món es van veure desplaçades —expulsades— de les seves
terres natals i obligades a tornar a començar. Empesos a construir una nova
vida en un lloc diferent, amb persones diferents i, molt habitualment, en una
llengua diferent. El seu imaginari s’omple d’una barreja i contradicció
d’estils de vida, realitats i vivències: identificació i reconeixement,
descobriment i nostàlgia i la sensació d’anhelar un retorn que és impossible.
Perquè on o a quina vida se suposa que han de tornar?
Aquesta és la història que narra Monika
Zgustová —ella mateixa nascuda a Praga i exiliada a
Barcelona— a La traductora dels haikus (Galàxia
Gutenberg) a través de la història de la Jana i el Tomáš, narrada per una Jana
ja anciana que repassa la seva trajectòria marcada per l’exili de Praga als
Estats Units.
La
narració parteix d’una estratègia clàssica: la de repassar una vida a través
d’una conversa casual. Així, de la conversa entre la Jana i el Danny al
present, es van fent grans flashbacks que
repassen la història de la protagonista i la novel·la ens va situant entre la
Praga comunista de després de la guerra i els Estats Units de fa una
dècada.
De fet, l’inici d’aquest repàs vital va també carregat de recursos
tradicionals, de llocs comuns en la literatura. La mare moderna i jove per qui
la filla és un ressentiment, una amenaça. La història d’amor entre un
aristòcrata altiu i una adolescent corrent. El rerefons històric. El relat
fragmentat, fet de converses, d’imatges que formen el collage d’una
vida.
Però
el relat comença a teixir-se i trenar-se de forma interessant obrint camins
insospitats. El relat es converteix en una història d’amor i d’absències, de
cerca personal i construcció d’identitats, també una història de país i de pors
i de dubtes. I una història d’un exili. De nous començaments, de nous dubtes,
nous reptes. Una història de família.
El
relat sempre en primera persona té una veu molt particular, honesta fins al
punt que es torna incòmode. El lector es troba sovint jutjant la narradora, una
veu que pren un to egocèntric i que, a vegades, juga el paper de la víctima.
Però és precisament aquesta entrada intrusiva en el monòleg interior i
profundament íntim de la narradora que aporta un valor afegit a la història. En
realitat, el relat conté totes les contradiccions de l’ésser humà exiliat.
Sense filtres. És una veu que incomoda perquè esdevé profundament valenta:
perquè diu en veu alta inclús allò que la protagonista no s’atreveix a sentir.
Tot i que no es tracta d’una autobiografia, és inevitable pensar que moltes
de les reflexions de la Jana estan construïdes a través de la història de
Monika Zgustová. Una autora fascinant perquè, en exiliar-se a Barcelona, va
adoptar la llengua catalana com a veu literària. El seu nou món -el de l’exili-
es construeix i articula a través del català, de forma que la llengua es converteix
en indissociable de l’experiència de l’exili. Potser per això necessita
expressar-ho en català. És, en aquest sentit, més admirable encara aquesta veu
narrativa tan transparent.
Així,
l’autora parla d’un exili sense parlar d’ella mateixa i de la llengua com una
irònica metàfora d’aquesta incapacitat de pertànyer. Diu en la novel·la: “El
Tomáš i els fills se sentien com si s’haguessin perdut en un món que no
entenien. Això era l’exili. De sobte et converties per als altres en un idiota,
incapaç de fer-te entendre, d’embastar quatre paraules seguides amb sentit. La
teva llengua materna, aquella amb què sempre vas parlar als teus pares, amb els
teus avis, amb els teus fills i amics, aquella amb què et vas enamorar i vas
expressar el més íntim de tu, tot d’una aquella llengua no servia per a res,
era una deixalla que els altres menyspreaven. Això és també l’exili”.
Alhora,
la llengua és també la via per què la protagonista aconsegueix generar-se un
forat propi en un món d’intrusivitats. La Jana comença a estudiar japonès pel
plaer de començar una cosa que fos només seva. I comença a traduir
haikus. I a escriure versos ella mateixa. La seva ploma va adoptant
els colors dels diferents idiomes que conformen ara la seva existència perquè
la seva ànima té ara diferents formes d’expressar les seves realitats. El txec,
l’anglès, el japonès. Diu: “I continuaria escrivint la meva pròpia poesia. En
l’idioma que fluís de la meva ploma. Per a un exiliat, la llengua materna és un
aliment de l’ànima. I la llengua apresa és un regal”.
És inevitable pensar en Milan Kundera quan
llegim aquesta novel·la. I el lector es creua amb l’agradable sorpresa de veure
la seva obra mestra, La insuportable
lleugeresa de l’ésser, mencionada directament a la novel·la de
Zgustova. Kundera, també nascut a Praga i exiliat a França, escriví en francès
des de la seva partida. Són molts els escriptors i escriptores que, sigui per
un exili polític o per desplaçaments d’altres tipus, per qüestions estètiques o
personals, han jugat amb els idiomes i les seves possibilitats literàries. Joseph
Conrad —del polonès a l’anglès—, Nabokov —del
rus a l’anglès—, Kafka —del
txec a l’alemany—, Jorge
Semprún —de l’espanyol al francès—, i un llarguíssim
etcètera. Mendoza que
transitava del castellà a les novel·les al català pel teatre. Najat
El Hachmi com a exemple deliciós de la nostra literatura
contemporània.
Tot
això revela que la llengua és una manera de reconfigurar la identitat. En cada
elecció lingüística hi ha una nova forma de relacionar-se amb el món. La
llengua articula, ordena i dibuixa la realitat i en un context d’exili, en què
la realitat és descobriment i adaptació, nostàlgia i reconeixement, la llengua
és identitat i arrelament. Tant Zgustova com Kundera (al seu gran llibre de
l’exili, La
ignorància) tornen a la gran epopeia del retorn: L’Odissea.
Una història d’absències i esperes, d’anhels i esperances, de viatge i
transformació i de la necessitat profundament humana d’arrelar i retornar, de
retrobar-se amb Penèlope i de despertar un dia, qualsevol, a la platja d’Ítaca
i sentir la música del Gran Retorn.
La ganadora del premio AENA se consolida como una de las mejores narradoras actuales y
agita la escena. Perfil de una autora que explora aquello que no vemos.
Samanta Schweblin con Maurici Lucena, presidente de Aena, y el presidente
catalán, Salvador Illa, en la entrega del premio AENA de Narrativa
Hispanoamericana. AENA
Escrito por Fernanda Nicolini
Samanta Schweblin tiene ocho años y viaja apoyada en la luneta del auto. Es
de noche, su hermana duerme acurrucada en el asiento y su padre maneja en
silencio. Faltan un par de horas para que amanezca y muchas más para llegar a
la Patagonia —Bariloche o lago Puelo, la geografía de sus veranos— y ella mira
hacia atrás, hacia la negrura de la ruta que se ilumina, apenas, con la luz
anaranjada de los faroles traseros. Mira con la sensación de que el mundo se va
inventando a medida que el coche avanza por el asfalto. Y se pregunta, en medio
de esa oscuridad que la rodea: “¿Qué es todo lo demás que no veo?”
Esa misma pregunta hoy late en el corazón de la obra de la multipremiada
escritora que nació en Buenos Aires en 1978, creció en Hurlingham —una ciudad a
las afueras de la capital, que con los años será comida por el cemento— y vive
desde 2012 en Berlín. Una pregunta que irriga sus novelas (Distancia de rescate, Kentukis), pero sobre todo sus libros de cuentos (El núcleo
del disturbio, Pájaros en
la boca, Siete
casas vacías, El buen
mal), en los que lo cercano y familiar se
vuelve extraño, por momentos inasible, y la realidad —lo que creemos real— es
un escenario inestable que gotea por alguna grieta. Que se filtra por algún
hueco y pone en duda nuestras ideas sobre el mundo.
“Las ideas del mundo, que no son el mundo”. Eso dirá Samanta, entre otras
cosas, cuando el pasado 8 de abril reciba en Barcelona el premio AENA de Narrativa Hispanoamericana (el bendito millón de euros que sacudió
al precarizado mundo literario y alimentó la malicia en redes) por su último
libro, El buen mal (Seix Barral). “Todos sabemos que estamos comandados por fuerzas
—las ideas del mundo que no son el mundo, los miedos que heredamos, los
mandatos familiares—. Dadas todas estas fuerzas, ¿hay una de ellas capaz de
poner las otras en jaque? ¿Se puede prestar atención a lo que queremos y somos?
Los protagonistas de mis cuentos han logrado tocar ese momento de
cambio”.
También dirá, esquivando el chismorreo y como un gesto político para
trascender, acaso, la individualidad de su nombre, el narcisismo de la figura
de autor, que no es un momento cualquiera para subir al escenario, para
insistir con la literatura, mientras el mundo parece que se cae a pedazos. “Me
gustaría que nuestro mensaje en esta celebración sea un poquito más afilado
—encaró con su voz firme y aterciopelada a una audiencia que escuchaba desde
mesas con mantel blanco, flanes cremosos y copas de vino—. La literatura no
cambia las cosas de un día para el otro, no salva vidas en peligro, no alimenta
los famélicos, no da respuestas finales… Lo que celebramos hoy de cara a un
mundo quebrado y violentado por unos pocos es la contrafuerza, la conexión con
los otros, la empatía, el sentido común. Parafraseando a la poeta polaca Wisława Szymborska, peor que ponerse a leer y a escribir en un momento como
este, sería no ponerse a leer y a escribir en un momento como este”.
Un hombre con
suerte
Samanta Schweblin tiene siete años, está
en la puerta de su casa de Hurlingham y del otro lado de la reja que separa el
pequeño jardín delantero de la calle, la espera su abuelo Alfredo. Para ella es
un extraño que prometió llevarla al zoológico, a la calesita, a tomar un
helado. “Un hombre de pantalones hasta la rodilla, medias rojas debajo de las
sandalias de cuero, pipa en la boca y el ceño siempre fruncido”, escribió en
una nota de la revista del diario La Nación en 2021 y que, según confesó, fue
el primer texto autobiográfico que publicó en su vida: una evocación conmovedora
de su abuelo Alfredo de Vincenzo, considerado uno de los
grandes referentes del grabado en Latinoamérica. Para ella, el verdadero origen
de todo.
Nunca la llevó a la calesita,
al zoológico ni a tomar helado. Desde ese día y a espaldas de la madre de
Samanta, su propia hija, Alfredo inició lo que iba a denominar “el
entrenamiento del artista”, que empezó con una primera lección de austeridad:
aprender a viajar en el tren sin boleto y a esconderse del guarda. “A partir de
entonces me buscaba por casa cada quince días. Los encuentros tenían objetivos
distintos. Las misiones iban desde la identificación de fósiles en los museos
de ciencias naturales y los estilos neoclásicos en las fachadas de los
edificios de Buenos Aires hasta el robo de frutas de los cajones de las
verdulerías. Con el tiempo, cuando entendió que yo guardaba nuestros secretos,
llegamos a confiscar algunos ejemplares de las librerías de la avenida
Corrientes. Él distraía al vendedor y yo, que apenas llegaba al borde de las
mesadas, me guardaba el botín entre la ropa”.
A los once años, cuando ya tenía permiso de
quedarse a dormir y su abuelo le armó una camita en el atelier que ocupaba todo
un piso en el barrio de San Telmo, a las excursiones a museos y librerías se
sumaron los bares nocturnos de mala muerte, las apuestas a los caballos, las
visitas a las milongas de la avenida de Mayo, las sesiones de jazz en el café
Tortoni. Todo eso debía quedar registrado en un “diario de entrenamiento”, un
cuaderno que llevaba el año y su nombre en la tapa. “Había una sola regla: no
se podían escribir cosas como ‘fue muy lindo’, o ‘me gustó’, o ‘estaba
cansada’. Las opiniones de ese tipo solo se permitían si se describían al
detalle, la escritura era un ejercicio de precisión”.
A los doce años ya había ascendido a ayudante de
artista. Sabía de la peligrosidad de los ácidos y del filo de los buriles,
capaces de puntear el metal, y que los alumnos que llegaban al taller llamaban
“maestro” a su abuelo. Esos alumnos —muchos de ellos luego serían artistas
reconocidos— fueron los primeros lectores de Samanta. Más bien, integrantes de
un público cautivo que en los pocos minutos que tenían de descanso se
amontonaban en una cocina diminuta a tomar café mientras escuchaban los relatos
de la nieta. “Yo escribía toda la semana pensando en los cinco minutos de
gloria del sábado, cuando todos harían silencio y me escucharían pacientemente. Ese fue mi primer taller, incluso antes de los talleres literarios por los que
pasé más tarde. Recuerdo esas caras, sus voces, sus manos siempre sucias, y me
siento tan agradecida por el amor y la paciencia que esos artistas plásticos
tuvieron con esta nieta que hubiera debido ser grabadora, pero que estaba tan
empecinada con las letras”.
¿Puede haber mito de origen más entrañable (¡y
literario!) que este? Y, sin embargo, cada vez que le preguntan por sus
comienzos, Samanta avanza en el tiempo y deja la historia de su abuelo a
resguardo de lo que se desgasta, de lo que pierde su textura de tanto decirse.
Como si aún fuera un secreto que se revela solo cuando alguien lee aquella nota
autobiográfica. En cambio responde, como en el podcastEl universo de
Samanta Schweblin: conversaciones con Flavia Pitella (producido por Penguin
Random House, sello con el que publica en Argentina), que su educación
sentimental estuvo marcada por tres libros que le regalaron para unas
vacaciones de verano.
“A los 15 mi abuelo (sí, el mismo Alfredo) me
regaló los cuentos completos de Cortázar, mi mamá una selección de cuentos de
Kafka y yo había elegido una edición de Minotauro de El país de
octubre de Ray
Bradbury. Y los leía y releía, como si no hubiera otros libros de esos autores,
y siento que ahí hubo una fundación de mi estado emocional de escritura: cuando
escribo voy a esa confluencia entre estos tres autores”.
Después vendrían las influencias norteamericanas:
su amado Carver; Flannery O’Connor, Eudora Welty y las autoras del gótico
sureño con el que tanto la emparentan, la inclasificable Amy Hempel. También la
lectura algo tardía de Silvina Ocampo, de quien tomó el epígrafe para su último
libro: “Lo raro siempre es más cierto”.
‘Pájaros en la boca’,
‘Kentukis’ y ‘El buen mal’, de Samanta Schweblin. SEIX BARRAL
Cuando en 2009 se publicó Pájaros en
la boca, su segundo libro (Premio Casa de las
Américas, nominado al International Booker Prize por su reedición y traducción
en 2019), el reconocido escritor argentino Guillermo Martínez, también autor de
libros de cuentos y novelas premiadas y llevadas al cine (Crímenes imperceptibles se estrenó como Los
crímenes de Oxford dirigida por Alex
de la Iglesia), lo presentó con evidente fascinación:
“Creo que es uno de los libros de cuentos más notables de los últimos años,
quizá de la última década. Recuerdo pocos libros de cuentos que hayan sido tan
fundamentales en la literatura argentina reciente. Todos sabemos que es fácil
criticar un cuento, decir dónde falla esto o aquello. Incluso, a veces se puede
señalar exactamente la línea en donde un cuento se cae. Pero mucho más difícil
es poder decir por qué un cuento es bueno, o por qué es buenísimo, como es el
caso de los cuentos de Samanta”.
Lo que siguió fue una breve masterclass en la que, a medida que Martínez
leía fragmentos de cada relato, marcaba la maravilla de su arquitectura, “el arte
cuidadoso y delicado de Samanta”: su versatilidad en tonos y puntos de vista,
su capacidad para crear atmósferas amenazantes con pocos elementos, las notas
de humor en lo extraño, a veces incluso en lo violento; la precisión de un
lenguaje que construye imágenes sin cerrar el sentido, los ecos kafkianos, el
modo de incluir problemáticas de mujeres sin perder universalidad.
En ese entonces Samanta tenía 30 años, había estudiado Imagen y Sonido en
la Universidad de Buenos Aires, se había formado en varios talleres literarios,
entre ellos con Liliana Heker —gran maestra de escritores—, había ganado
premios y residencias varias, y era considerada una de las mejores cuentistas
del momento entre pares y antecesores. Pero sobrevivía como sobrevivían la mayoría
de sus amigos escritores, y lo siguen haciendo: dando mil clases por semana
para llegar a fin de mes. “Me sentaba a escribir y tenía los textos de todos
mis alumnos metidos en la cabeza. Era difícil, agotador”, dijo en más de una
entrevista.
Todavía faltaban unos años, pocos, para que todo cambiara gracias a una
beca, una mudanza y una novela que le salió demasiado larga para ser un cuento.
Ediciones de 'Distancia de rescate', la novela que
marcó un punto de inflexión en la trayectoria de Samanta Schweblin.
Distancia
de rescate
Samanta Schweblin tiene 33 años y se acaba de mudar a Berlín con su pareja,
Maximiliano, por una beca para artistas del Servicio Alemán de Intercambio
Académico (DAAD). Durante ese 2012, el Estado alemán le dará una casa en el
coqueto barrio de Halensee, seguro médico y un sueldo. Ella podrá, entonces,
concentrarse en una rutina que va a mantener a lo largo de los años, incluso
cuando la beca se acabe y decidan quedarse allí: levantarse temprano, dejar el
celular bien lejos después de chequear los mensajes de Buenos Aires que llegan
con diferencia horaria, y sentarse a escribir por varias horas casi en ayunas
—apenas un café, para que la comida que tanto le gusta no la distraiga— y con
el ambiente despejado. Que nada altere su atención que es, por naturaleza,
volátil. Y que el futuro quede subordinado a la prepotencia del trabajo, como
decía Roberto Arlt.
“Cuando llegué a Berlín me di cuenta de que con un tercio de las clases que
daba en Buenos Aires, acá podía vivir, y que todo ese tiempo que no invertía en
trabajar en otras cosas se transformaba en tiempo de escritura. Los escritores
tienen que comprar su tiempo de escritura; ese tiempo es muy caro en todo el
mundo, y en Argentina es directamente impagable. Y esa diferencia supuso una de
las grandes razones por las que me quedé”, le dijo Samanta a la periodista
Natalia Laube, que la entrevistó en su departamento de Kreuzberg en 2019 para
la revista Anfibia.
Fue durante ese año subvencionado que escribió Distancia
de rescate, la novela trampolín, traducida a más
de 30 idiomas y adaptada al cine con producción de Netflix, con la que se
ganaría todos los premios disponibles. Una rara avis dentro del criterio comercial
de las obras premiables, que supo resonar en el aire de época. De tan solo 124
páginas y estructurada a través del diálogo, la forma y la historia —una madre
que agoniza en un hospital rural envenenada por agrotóxicos, y que escucha la
voz de un niño que la empuja a reconstruir los hechos que la llevaron ahí— se
entrelazan con precisión pasmosa para estirar las fronteras del realismo.
“Una pequeña obra maestra —en palabras de Alejandro Zambra— y
escalofriantemente contemporánea”.
Hace poco, una amiga le dijo a Samanta que sus novelas eran muy cortas y
sus cuentos muy largos. Lo contó en el podcast de Penguin, donde también
confesó que si bien se autopercibe esencialmente cuentista, cuando empieza a
escribir no piensa en el género sino en qué necesita el texto. La longitud será
algo que irá descubriendo en la marcha. Como le pasó con Distancia de rescate, que inicialmente iba a integrar Siete
casas vacías (publicado en 2015 por Páginas de
Espuma, premio Ribera del Duero y ganador del National Book Award en 2022 por
su versión en inglés), pero creció demasiado y se independizó: “Se presentó
como cuento y se reveló como novela”.
A la par de que empezó a ganar tiempo de escritura —un cuento puede
llevarle entre seis meses y un año— instalándose a 12 mil kilómetros de su
país, descubrió que cada vez que se sentaba en la computadora a escribir,
estaba mentalmente en Buenos Aires. O en el Hurlingham de su infancia, o en el lago Puelo de sus veranos. Esa sigue siendo su distancia de rescate: “Todos los
cuentos, por más de que sucedan en otras ciudades en las que estuve, son
balcones desde los que miro el lugar del que soy. Yo pongo mis dedos en el
teclado y estoy en Argentina. No se me ocurre estar en otro lugar y no sé si
puedo. A veces me preguntan ‘cuándo vas a escribir la novela berlinesa’, y
necesitaría algo argumental que justifique semejante movimiento, porque mi
mirada está todo el tiempo puesta en mi geografía emocional”.
Ahí están, en El buen
mal, la ruta entre Buenos Aires y lago Puelo
como escenario de quiebre entre un padre y un hijo; las aventuras nocturnas de
dos hermanas en la casa de una vieja poeta durante unas vacaciones en el
balneario uruguayo Atlántida; una conversación telefónica que se traslada una y
otra vez al Hurlingham en el que aún se veían caballos por la calle, o un
departamento del barrio porteño de Almagro convertido en prisión
momentánea.
Todos paisajes autobiográficos que funcionan como puntos que se acercan y
se alejan constantemente, y que en este libro, además, se completan con un
gesto nuevo de la autora: como epílogo, además de una breve explicación del
origen de cada relato, aparece una serie de agradecimientos en los que revela
que escribir no es, al menos para ella, un oficio solitario. “Escribo sobre
todo para ustedes, para que me quieran todo lo que pueda lograr que me
quieran”, dice después de enumerar a cada uno de sus amigas y amigos que
comenta, critica o elogia las primeras versiones de sus cuentos. Todas lecturas
que ella toma en cuenta, en mayor o menor medida, para llegar a la versión
final de cada texto.
Los mismos que, sin duda, fueron los primeros en festejar cuando se anunció
que el millón de euros era para ella.
Los finalistas del premio AENA, de izquierda a
derecha: Marcos Giralt Torrente, Héctor Abad Faciolince, Samanta Schweblin
(ganadora), Nona Fernández y Enrique Vila-Matas. AENA
El núcleo
del disturbio
Antes de que se supiera quién ganaba el premio AENA entre los seleccionados
—Nona
Fernández, Enrique
Vila-Matas, Marcos Giralt Torrente y Héctor
Abad Faciolince, además de Samanta— la
polémica ya había encendido los motores del opinómetro sobre el millón: de
si estaba bien que lo diera un ente estatal (AENA: Aeropuertos Españoles y
Navegación Aérea); de si era para prestigio o para marketing editorial, de si
era obsceno para la literatura. Martín Caparrós llegó a decir que nadie
necesita un millón para sobrevivir y que le daba mucha pena “que ese tipo
guarango, prepotente de dinero se mezcle con la buena literatura".
Cuando se anunció que la ganadora era Samanta Schweblin por El buen mal, esas
mismas voces se apuraron en aclarar que la crítica no era contra ella, como si
ella fuera casi una víctima de una fruta podrida. Pero Samanta, que decidió no
dar notas de prensa tras la premiación, aprovechó la conferencia para hablar de
plata. Y lo hizo usando un término del mundo del trabajo: “En mi imaginario
siempre, desde que dejé casa de mis padres, quise tener un sueldo todos los
meses. Este número lo asocio un poco con esa idea fantasiosa del sueldo para
siempre”.
Luego, en el discurso de gala, viró la intervención a los criterios de
premiación, y nombró a Alice Munro, a Jhumpa Lahiri y a Banu Mushtaq: mujeres y
cuentistas excepcionales. “Me encanta que este premio incluya otros géneros más
allá de la novela y dé su primer paso premiando la excepción”, dijo. Algo
similar había hecho cuando recibió el tradicional premio Illa, en 2021, por su
novela Kentukis: al darse cuenta de que era la primera mujer en ganarlo (en los cuarenta
años de existencia, se lo habían dado solo a hombres: José Lezama Lima, Juan
Carlos Onetti, Jorge Amado, Antonio di Benedetto, Mario Vargas Llosa, Adolfo
Bioy Casares, Augusto Monterroso) en la conferencia mencionó a todas las
grandes escritoras que no lo habían recibido: Silvina Ocampo, Sara Gallardo,
María Luisa Bombal, Elena Garro, María Elena Walsh, Armonía Somers, Clarice
Lispector.
“Pensé que los premios pueden ser circunstanciales, sí. Pero los espacios
que se habilitan —o que no se habilitan— para los grupos, las tribus, las
minorías o las mayorías, son espacios más deliberados, y nos muestran quiénes
somos como sociedad, hasta dónde llegamos y qué nos queda aún por hacer”, dijo
para una nota de Cuadernos Hispanoamericanos cuando le preguntaron por su
relación con los premios.
La escritora argentina Samanta Schweblin, premio AENA de Narrativa
Hispanoamericana por 'El buen mal'. RANDOM HOUSE ARGENTINA
Selva
Almada (que acaba de publicar su cuarta
novela, Una casa sola) es de las escritoras que se alegró, brindó y celebró: porque la quiere a
Samanta como amiga y la admira como autora. Pero, además, porque piensa en el
ecosistema literario como un espacio colectivo: “Los premios son importantes
para quien los gana (con más razón si hay mucho dinero porque quienes
escribimos también necesitamos dinero), pero también son importantes para el
resto, para todas nosotras y nosotros, que escribimos o formamos parte del
mundo del libro. Porque a través de Samanta muchísima más gente en otros países
y lenguas mira y conoce nuestra literatura”.
En eso coincide Agustina
Bazterrica —autora de la exitosa novela Cadáver exquisito—, y agrega que este premio pone la palabra dinero ahí donde durante
demasiado tiempo solo hubo prestigio simbólico. Y abre una pregunta de fondo:
¿Por qué en la literatura el dinero sigue siendo sospechoso, cuando en
cualquier otra disciplina es sinónimo de profesionalización?
“Cada vez que aparece dinero en el campo literario, resurgen los mismos
argumentos: que si hay plata no hay arte, que si hay reconocimiento
internacional hay concesión, que si hay éxito hay sospecha. Detrás de esa
retórica pseudointelectual lo que suele haber es algo bastante menos noble:
envidia, misoginia, resentimiento y una profunda incomodidad frente al éxito
ajeno, sobre todo cuando ese éxito es sostenido, trabajado y merecido”, marca
Bazterrica.
Y refuerza: “Conozco el compromiso diario de Samanta con su trabajo. No es
una pose ni un mito. Es disciplina, es oficio. Samanta escribe, publica, viaja,
y amplía los márgenes de la literatura argentina desde hace décadas. Que un
premio le otorgue tranquilidad económica no es un escándalo: es absolutamente
razonable. Y si decide gastarlo en un yate, en libros o en no hacer nada, es
asunto suyo. La fantasía de que el dinero ‘corrompe’ la literatura es, en el
fondo, una forma elegante de exigirles a los escritores que sigan siendo pobres
pero dignos”.
Samanta Schweblin tras recibir
el premio AENA de Narrativa Hispanoamericana por 'El buen mal'. AENA
Casi dos décadas después de aquella presentación de Pájaros en la boca, a Guillermo
Martínez tampoco le sorprende que el premio
AENA sea para Samanta, pero sí el escozor alrededor del dinero, como si hubiera
algo injusto en que fuera “tanto”. Y hace un cálculo pragmático: descontados
los impuestos, el premio le alcanzará para tener una (muy linda) casa propia y
algunos años de razonable tranquilidad económica para seguir escribiendo.
Se pregunta, entonces: “¿Es demasiado para una vida dedicada a la
literatura? Sus libros, por su trayectoria internacional, han hecho ganar mucho
más que un millón de euros a los dueños de las editoriales que la publicaron.
Si los escritores recibimos con suerte apenas el diez por ciento del precio de
cada libro y nos parece mal, ¿de verdad vamos a enojarnos cuando la varita de
un premio hace algo de justicia poética?”.
Y acude a un cuento de Henry James a modo de respuesta final: “En La lección del maestro el pobre y talentoso aspirante Paul Ouvert ve subir al escritor que
más admira a un carruaje lujoso y al pensar en las recompensas materiales y el
crédito social que el maestro ha obtenido, no siente rechazo o resquemor sino
un poco de orgullo por la literatura”.