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domingo, 25 de outubro de 2026

Lula da Silva é reeleito presidente do Brasil

Numa eleição muito apertada, às 20:53, Lula, do PT liderava com 51,27%, mais 48,73% do que Flávio, do PL.

Escrito por João Almeida Moreira

Lula da Silva foi reeleito presidente da República, batendo Flávio Bolsonaro. Na noite eleitoral, Lula começou na frente as primeiras projeções mas Flávio ultrapassou-o às 19:47 locais, 22:47 em Lisboa, com cerca de 15% das urnas apuradas, e o slogan bolsonarista “Lula ladrão, teu lugar é na prisão” começou a ouvir-se das janelas dos apartamentos. Às 20:25 (23:25 em Lisboa), Lula volta a ficar na frente e é a vez de gritos “Lula, Lula” soarem das varandas dos prédios. Mas faltava muito Sudeste, a região de longe mais populosa e pro-Flávio, para apurar.

Já a tarde eleitoral ficou marcada pela controvérsia em torno dos ônibus na Bahia, São Paulo, Alagoas, Pernambuco, Roraima, Piauí, Paraíba, Pará, Paraná e Rio de Janeiro. 

Ao início da tarde, o PT denunciou uma redução superior a 50% na oferta de ônibus em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, cidades baianas, apesar de a Justiça Eleitoral ter determinado transporte gratuito e uma operação equivalente à dos dias úteis neste domingo, 25. 

Na sequência, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia ordenou a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade de Salvador e o restabelecimento integral da frota, sob pena de multa de um milhão de reais por hora. 

A prefeitura soteropolitana, liderada por um bolsonarista como a das outras duas cidades baianas em causa, argumentou que o serviço estava a ser normalizado e justificou as interrupções iniciais com problemas relacionados a veículos que tinham sido adesivados com propaganda eleitoral, o que é proibido. 

Em São Paulo, o PT alegou que apenas cerca de 60% da frota municipal estava em circulação, apesar de uma determinação judicial para garantir o serviço integral e gratuito. O partido pediu a prisão do secretário municipal de Mobilidade Urbana local também. 

A empresa de transportes atribuiu as dificuldades a problemas operacionais na reorganização das escalas de trabalho e das jornadas dos motoristas. O prefeito paulistano, Ricardo Nunes, também é apoiador de Flávio. “É uma coisa abominável, não vamos permitir que haja roubalheira e prefeito bandido”, reagia Lula por volta das 16 horas [20 em Lisboa]”.

Antes, o PT pedira o prolongamento da votação até as 19 horas [01:00 em Lisboa] naqueles estados, solicitação a que Kássio Nunes Marques, o presidente do TSE, não deu seguimento por duas horas, o que obrigou o STF a ter de resolver o caso em cima do horário do fecho das urnas. O juiz Cristiano Zanin, sorteado para decidir, optou pelo prolongamento por duas horas, tendo em conta não apenas as queixas do PT, mas também pedidos do PL por atraso de eleitores por causa de chuvas no Rio Grande do Sul e Minas Gerais. 

No entanto, milhares de urnas eletrónicas já tinham sido fechadas, o que gerou caos em muitos colégios eleitorais. Zanin informou posteriormente que a decisão da prorrogação por duas horas só valia para secções de votação ainda abertas.    

Em paralelo, circularam nas redes sociais denúncias de cancelamentos em massa de voos que poderiam impedir eleitores de chegar a tempo às urnas, sobretudo em ligações entre o Sul e o Nordeste.

A informação, confirmada pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) até à tarde deste domingo, era de quatro voos das companhias Gol, Azul e Latam com destino ao Nordeste cancelados entre sábado e domingo:

A Gol atribuiu o cancelamento da ligação Porto Alegre–Salvador a problemas técnicos no avião e afirmou ter reacomodado os passageiros, além de organizar um voo adicional. As companhias Azul e Latam apontaram questões operacionais e condições meteorológicas.

O Ministério de Portos e Aeroportos acionou a ANAC para acompanhar as operações e a agência afirmou não ter identificado uma operação coordenada para prejudicar eleitores no tráfego aéreo nacional. 

Como é costume nas eleições no país continental, registaram-se outros incidentes. As chuvas intensas obrigaram a mudar locais de votação em Itapevi, na região metropolitana de São Paulo, e em Curitiba e Guaratuba, no Paraná, estado em que três troços de rodovias federais foram bloqueados devido à acumulação de água, e em Minas Gerais e Rio Grande do Sul, os pontos de que se queixou a campanha de Flávio.  

No Rio de Janeiro, cerca de 3000 eleitores de Jardim Sulacap, na zona oeste do Rio, tiveram de votar noutro estabelecimento depois de ser identificada uma infestação de pulgas durante a preparação das urnas.

Entretanto, os dois candidatos votaram de manhã. Flávio Bolsonaro, logo após a abertura das urnas, às 08:20 (12:20 em Lisboa) na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro. 

“A esperança virou medo”, afirmou o candidato, referindo-se ao receio de assaltos, à dificuldade de pagar as contas e à possibilidade de faltar comida em casa. Rodeado da mulher, Fernanda, da mãe, Rogéria Nantes Bolsonaro, ela própria com carreira política no Rio de Janeiro, e do governador eleito do estado, Douglas Ruas, classificou a campanha como “alegre e limpa”.

Lula votou cerca de uma hora depois na Escola Estadual João Firmino Correia de Araújo, em São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo, ao lado da primeira-dama, Janja da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e de apoiantes como Fernando Haddad, Marina Silva e Simone Tebet.

Depois de agradecer a mobilização dos seus apoiantes durante a campanha – “disputo eleições desde 1989 e nunca vi nada assim” – afirmou que a disputa era contra a “mentira” e que os brasileiros não aceitariam um “miliciano” no Palácio do Planalto. 

Num balanço parcial, o TSE divulgou que 114 urnas eletrónicas tinham sido substituídas por problemas técnicos, num universo de 114.605 equipamentos preparados para a votação. Em Valinhos, estado de São Paulo, um eleitor foi levado à esquadra por utilizar um telemóvel na cabine, prática proibida.

CAMPANHA ACIRRADA

No primeiro turno, a 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença foi de cerca de 2,23 milhões de votos, insuficiente para evitar a segunda volta, mas dando ao candidato do PL um impulso político para a fase decisiva da campanha.

Na sequência, o candidato do PL recebeu o apoio de Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás e candidato do PSD na primeira volta, e de Romeu Zema, antigo governador de Minas Gerais e candidato do Novo. Mais tarde, Augusto Cury, do Avante, também assumiu voto em Flávio.

Finalmente, os partidos de centro-direita e do chamado centrão, com vista a construir uma base parlamentar para um eventual governo, também se aliaram à candidatura do filho de Jair Bolsonaro.

Lula, por sua vez, procurou mobilizar os eleitores de esquerda, os movimentos sociais e os setores democráticos que receavam uma vitória do bolsonarismo. A campanha reforçou a comunicação digital e procurou apresentar a eleição como uma escolha entre dois projetos políticos para o futuro do país.

Para tanto, fez  uma ofensiva nas redes sociais, em torno de um canal de Whatsapp chamado “Exército do Lula”, associado ao deputado André Janones, para influenciar a circulação de conteúdos nas plataformas digitais. 

Flávio procurou contrariar a iniciativa com a «Tropa do Flávio», numa disputa que chegou ao TSE. Os candidatos disputaram dois debates televisivos, na TV Bandeirantes e na TV Globo, e intensificaram atos nas ruas. Esta foi a 10ª eleição desde a redemocratização em 1989, a oitava decidida em segunda volta.

 

[Foto: EPA - fonte: www.dn.pt]


sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Brésil : un second tour sous haute tension

 

Écrit par Israel Dutra et Gabriella Lima 

Dimanche 25 octobre se tiendra le second tour des élections au Brésil. Quatre jours avant cette échéance décisive, Gabriella Lima s’est entretenue pour Marx21 avec Israel Dutra, sociologue, secrétaire aux mouvements sociaux du PSOL et membre de la direction nationale du parti et du Mouvement de la gauche socialiste (MES/PSOL).

À la veille du premier tour, nous avions déjà publié les analyses d’Israel Dutra et de Valerio Arcary sur le contexte et les enjeux de ces élections auxquelles nous renvoyons les lectrices et lecteurs intéressés.


GL :  Dans quel contexte se déroulent ces élections par rapport aux précédentes ?

ID : Deux éléments marquent la différence par rapport aux élections de 2022 : la présence de Trump à la présidence des États-Unis, avec toute la force de sa dynamique néocolonialiste, et l’entrée en scène de centaines de milliers de militant·es, avec des manifestations de masse visant à empêcher dans la rue l’arrivée au pouvoir du clan Bolsonaro. C’est une élection « sous haute tension ».


Trump et ses alliés, comme Milei, ont remporté les sept dernières élections en recourant à toutes sortes d’ingérences, directes ou indirectes. Si Flávio Bolsonaro l’emporte, ce sera un tournant en faveur de l’extrême droite, qui aura des répercussions partout. Si Lula l’emporte, cela ouvrira la voie à la défaite de l’extrême droite, d’autant plus que Trump pourrait perdre les élections de mi-mandat, qui auront lieu dans quelques semaines.

 

Trump s’en est pris au Brésil. Il a recouru à une guerre tarifaire, s’en est pris au PIX et souhaite désormais assurer la victoire de Flávio, en s’appuyant sur les réseaux sociaux contrôlés par les géants de la tech. Il est intervenu au Pérou, en Colombie et souhaite désormais contribuer à l’élection de Flávio, afin de transformer le Brésil en un protectorat au service des intérêts américains.

Le PIX est un système brésilien de paiement électronique instantané, lancé en novembre 2020 par la Banque centrale du Brésil (Banco Central do Brasil). Donald Trump a engagé, depuis juillet 2025, une offensive commerciale contre ce système brésilien qu’il accuse de concurrencer les entreprises américaines de paiement, notamment Visa et Mastercard (NDT).


GL : Comment évaluer ce succès à la fois de l’extrême droite, mais également celui du PSOL ?

L’extrême droite fait preuve de résilience et dispose d’une base populaire. Et le gouvernement Lula a affiché une performance populaire qui n’a pas répondu aux attentes de la société. Le PSOL s’est renforcé lors de ces élections. Nous avons obtenu nos meilleurs résultats, dépassant les 5 %, avec deux députées figurant parmi les cinq candidates les plus votées du pays. Une équipe parlementaire renouvelée qui prône un programme de transformation. Notre fédération a élu 15 députés fédéraux, dans quatre des cinq régions du pays, ainsi qu’une quarantaine de députés au total dans les assemblées régionales. Nous sommes confrontés à une contradiction, due à la « clause d’exclusion », qui vise à écarter les partis idéologiques et qui menace le PSOL pour des raisons draconiennes.


Une disposition de la législation électorale brésilienne appelée « clause de performance » constitue un problème particulier pour le PSOL (Parti socialisme et liberté). Elle impose d’atteindre un certain seuil de représentativité au niveau national pour bénéficier de l’accès au financement public des partis et de l’accès gratuit à un temps d’antenne à la radio et à la télévision (NDT). 

 

GL : Quel a été l’impact de la crise au sein de la Cour suprême sur la campagne électorale ? Quelles mesures le gouvernement Lula a-t-il prises pour toucher l’électorat des classes populaires et renverser la tendance des votes ?

ID : La Cour suprême brésilienne est discréditée et entachée par d’innombrables scandales de corruption. Elle a joué un rôle important en adoptant une attitude ferme face à la tentative de coup d’État du 6 janvier 2023 et en ne se laissant pas intimider par les menaces de Trump ; cependant, à l’instar de l’ensemble des institutions du régime, la grande majorité de la population sait que la Cour suprême n’est pas digne de confiance. Cela a conduit Flávio Bolsonaro et l’extrême droite à utiliser de manière démagogique la corruption au sein de la Cour suprême pour ternir l’image de Lula.


Mais nous avons obtenu une avancée importante avec la suppression de l’odieux système 6×1, avec la réduction absolue de la durée hebdomadaire du travail. C’est l’une des plus grandes victoires de la classe ouvrière brésilienne dans toute son histoire récente. De plus, Lula a interdit les BETS (marchés de paris sportifs), a augmenté les prestations sociales, a accordé une amnistie partielle pour certaines dettes, a exonéré les petites entreprises et promet de mettre en place la gratuité partielle dans le réseau de transports urbains.


La loi actuelle autorise le patronat brésilien à imposer une semaine de travail de 44 heures sur 6 jours, alors qu’un projet de modification de la constitution adoptée par la Chambre basse, mais qui est toujours bloquée par le Sénat, permettrait de passer 40 heures sur 5 jours. (NDT)


GL : Quels sont les défis pour la gauche au second tour et au-delà ?

ID : Renverser la tendance électorale et mobiliser des forces sociales pour défendre un programme de changement. Nous devons nous inspirer des grandes mobilisations de la génération Z à travers le monde pour construire une alternative qui aille au-delà du processus électoral.

 

 

Les élections constituent un moment important, mais ce qui est déterminant, c’est ce qu’on appelle les rapports de forces, qui ne sont rien d’autre que la capacité de la société et du mouvement de masse à s’auto-organiser à partir d’horizons et de perspectives. C’est là qu’intervient le rôle de la gauche anticapitaliste, qui doit dépasser les limites de la gauche institutionnelle et celles du modèle dit du « progressisme ». Le PSOL doit se montrer à la hauteur de ses responsabilités en ce moment historique.


Vaincre le bolsonarisme, c’est vaincre son projet. Vaincre son programme et sa stratégie. Gagner une majorité sociale pour défendre un autre programme et un autre modèle. Cela passe par la défaite de Flávio Bolsonaro le 25 octobre, mais aussi par la construction d’une résistance populaire et durable, de masse, afin d’imposer une autre issue, de grande envergure et radicalisant la démocratie.

 

* Israel Dutra est sociologue, secrétaire aux mouvements sociaux du PSOL, membre de la direction nationale du parti et du Mouvement de la gauche socialiste (MES/PSOL). 

 

[Source : www.marx21.ch]

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Anacronismos woke en «Desgracia», de J.M. Coetzee

 

Marcha de las Mujeres, Pretoria, 1956. 

Escrito por Laura Pavón 

Antes de llegar a nuestro presente como un arma arrojadiza, la palabra woke nació dentro de la comunidad afroamericana para referirse a la toma de conciencia frente al racismo. Mantenerse alerta ante la supremacía blanca era lo que quería decir stay woke. Su rastro se remonta, al menos, a principios del siglo XX, cuando la invitación a despertar aparece en el ensayo Wake Up, Ethiopia! Wake Up, Africa! (1923) del líder panafricanista Marcus Garvey. Más tarde, el músico de blues Lead Belly emplea esa metáfora como adjetivo, woke, al incluir unas palabras después de su canción protesta, Scottsboro Boys (1938): «I advise everybody, be a little careful when they go along through there, best stay woke, keep their eyes open». Ya en los sesenta, en plena efervescencia de la lucha civil, el novelista William Melvin Kelley escribe para The New York Times un artículo titulado «If You Are Woke, You Dig It», en el que abordaba con ironía la apropiación de este modismo por parte de la comunidad blanca. Esa fue la primera vez que la palabra apareció impresa en un medio de comunicación. 

En su uso contemporáneo, el concepto parece haber cambiado. No solo de dueños, sino también de significado. Figuras conservadoras de la política estadounidense, como el presidente Donald Trump y su secretario de Guerra, Pete Hegseth, lo utilizan para desacreditar las agendas progresistas, las políticas de diversidad y las iniciativas de género, todas por igual. Es evidente que esta contradicción, entre su génesis en la resistencia ante la violencia racial y el uso que hoy estigmatiza políticamente esa misma resistencia, trasciende el marco de Estados Unidos y se proyecta a nivel global. Vale la pena preguntarse hasta qué punto han quedado difuminados los orígenes históricos de la palabra y en qué medida la lucha por los derechos civiles sigue siendo el frente de la batalla de ideas. 

Para empezar a responder esas preguntas e integrar los distintos periodos históricos del término, y tratando de contrarrestar su uso superfluo y desinformado, propongo leer Desgracia (1999), una de las novelas más aclamadas de J.M. Coetzee, ganador del Premio Nobel de Literatura en 2003. La novela está ambientada en la década de los noventa, en los años inmediatamente posteriores al apartheid de Sudáfrica. A pesar de ser muy anterior al fenómeno, el libro habla precisamente de todos los temas que tocan al universo woke actual. Por un lado, se ocupa de la cancelación que sucede tras una denuncia por violencia sexual. Por el otro, narra el impacto social de la segregación racial que sigue latente en la nueva Sudáfrica, donde transcurre esta historia. David Lurie, personaje principal y centro de una narración que sigue su trayectoria, cuestiona la toma de posiciones en torno a la violencia racial y de género, al tiempo que las señala y se hace cargo de todo el peso de su historia. 

La trama gira en torno a la caída en desgracia del protagonista, un profesor universitario de 52 años, experto en poesía romántica inglesa, al que denuncia una de sus alumnas por acoso sexual. Tras ser objeto de oprobio colectivo, decide buscar refugio en el Cabo Oriental, lejos de la ciudad, donde vive su única hija. La historia de Lurie condensa la inestabilidad y efervescencia de un país en transición, donde tanto lo nuevo como los restos de la vieja Sudáfrica conviven sin terminar de separarse. Desde su blanquitud y su privilegio, Lurie encarna los remanentes del antiguo sistema, al tiempo que evidencia una consciencia de su propia caducidad. Por su parte, la hija, Lucy, representa a la siguiente generación, mucho más woke que la del padre: es queer y ha decidido alejarse de su condición burguesa para dedicarse a la vida del campo. Su historia se entrelaza con la de Lurie en la segunda parte del libro y, como veremos, tampoco queda indemne ante las secuelas de los hechos sangrientos que forjaron el presente del país. 

Cuando es señalado, Lurie acepta su castigo, que consiste en la pérdida del empleo y el rechazo de sus pares. En esta aceptación no hay contrición ni complacencia. Se niega a pedir perdón. Es inevitable establecer un paralelismo entre su vida y lo que enseña en clase. Antes de verse obligado a dejar la academia, las últimas clases que imparte se centran en el arquetipo de Lucifer. En cómo el ángel caído de Byron es expulsado del paraíso por su soberbia, por ser un rebelde que se niega a doblegarse. Lurie, igual que el ángel caído, no se arrepiente ni cede ante las expectativas sociales. Antes de su propia caída en desgracia, la narración retrata así a sus estudiantes: «Con las cabezas gachas, todos toman notas de sus palabras. Byron, Lucifer, Caín: para ellos, todo viene a ser lo mismo».   

La relación que mantiene con su alumna no está tamizada por el romanticismo. Aunque Lurie explica lo que siente con tópicos literarios, y alega que el fuego de una pasión desmedida lo posee de forma inescapable, la crudeza de los hechos contradice sus conocimientos académicos de la literatura romántica. Además de obtener irregularmente el teléfono y dirección de la estudiante (de la base de datos de la universidad) e intentar emborracharla, Lurie la coacciona diciéndole que ella tiene «el deber de compartir su belleza». 

El primer encuentro entre ellos, aunque no se nombre como tal, es una violación: «Los miembros de ella quedan inertes, como los de una marioneta», y «lo único que hace es rehuirlo: aparta los labios, aparta los ojos». Más adelante, cuando la violencia sexual recaiga sobre la hija de Lurie, la novela procederá de otro modo: el acto se nombra, pero no se narra. Quizá el contraste sugiera que Lurie, limitado por su generación y por su época, aún no alcanza a ver que está ejerciendo una forma de violencia sexual, aunque sí será perfectamente capaz de reconocerla y nombrarla cuando la sufre su hija. 

Cuando sobreviene la denuncia pública, Lurie se topa con manifestaciones en el campus, lideradas por una «campaña de sensibilización popular contra las violaciones», y con una serie de panfletos cuyos mensajes glosa con sarcasmo: «Se acabó lo que se daba, Casanova». Algunos compañeros muestran empatía: le dicen que «estas cosas pueden ser un infierno» y comentan que «no hay compasión para nadie en estos tiempos que corren». La mayoría le dan la espalda. Ha perdido la gracia divina, y ahora habita el significado literal etimológico de la desgracia. Como decía, cuando la universidad lo somete a un juicio interno, él no trata de defenderse, pero tampoco se muestra arrepentido: acepta todos los cargos y suscribe la declaración de Melanie, su estudiante, sin leerla. Comenta, al respecto, que quienes lo juzgan «se apiñan a su alrededor como los cazadores que han acorralado a una extraña bestia y no saben cómo rematarla». 

Cuando, en pleno apogeo del escándalo, se reúne para cenar con su segunda exesposa, Rosalind, tiene lugar una conversación reveladora en la que ella, que reconoce que este es un final «infame» para su carrera, arremete contra la chica en cuestión y él trata de defenderla. Lurie le pide que no le eche la culpa y Rosalind lo cuestiona: «¿Pero tú de qué lado estás? Pues claro que le echo la culpa, te culpo a ti y la culpo a ella. Todo esto es una desgracia de principio a fin». La idea de la culpa compartida se entrelaza con la imagen de la desgracia que cae como un manto sobre los dos, víctima o verdugo, por igual. 

Como ocurre con la palabra woke, el neologismo «cancelación» también surgió en las comunidades racializadas, como parte del fenómeno de microblogging conocido como Black Twitter. En ese contexto, ser cancelado aludía a la censura y al silenciamiento a la hora de exigir justicia como víctima de discriminación. No obstante, también la cancelación termina en boca de políticos y famosos que, en la era pos-MeToo, hablan de ser silenciados desde la posición contraria, haciendo referencia a la pérdida de su poder y capital simbólico. Cuando Lurie es cancelado, tras el juicio interno de la universidad, la historia pega un giro. Lurie no solo abandona el espacio de poder simbólico sino que decide irse de la ciudad, a la zona del Cabo Oriental, donde vive su hija Lucy. Como decíamos, la novela está ambientada en los años inmediatamente posteriores a las primeras elecciones multirraciales y la victoria de Nelson Mandela en 1994. Lucy, cuyo nombre también comparte etimología con el de Lucifer, es una chica blanca que vive de forma alternativa en una granja. En sintonía con la idea anterior acerca de la culpa compartida, sobre ella también caerá la desgracia. 

Lucy intenta hablar con su padre sobre lo ocurrido en la universidad: «Aunque seas lo que dices ser, un dinosaurio moral, siempre habrá cierta curiosidad por oír lo que tenga que decir el dinosaurio (…) ¿cuál es tu defensa?». Lurie nunca llega a articularla. Es ella quien ofrece la imagen del chivo expiatorio: su expulsión deja a salvo a sus colegas, que ahora que está lejos «pueden respirar tranquilos». Hoy reconoceríamos esta imagen en los debates sobre la llamada cultura de la cancelación. Aquí aparece dos décadas antes de que existiera la etiqueta. Pero el libro no la acepta sin más: Lurie se pregunta «¿cree de veras que no es sino un chivo expiatorio?». Algo parecido ocurre cuando Isaacs, el padre de la alumna en cuestión, comenta «hay que ver cómo caen los poderosos». Lurie admite que se ha producido una caída, pero cuestiona la parte del poder y se ve más bien como «una figura oscura que va oscureciéndose cada vez más. Una figura extraída de los márgenes de la historia». 

Cuando tres hombres atacan la granja, agreden sexualmente a Lucy y tratan de prenderle fuego a Lurie, la narración se refiere a lo que le ha ocurrido a la hija con la misma palabra que había servido para el padre: es «su desgracia». En español, la palabra conserva el eco teológico de la gracia perdida y designa tanto a quien cae por abusar de su poder como a quien cae víctima de la violencia de otros. Lucy se niega a denunciar lo sucedido y no quiere ni salir a la calle. Su padre lo interpreta así: «es por la desgracia. Es por la vergüenza. Eso es lo que han conseguido los visitantes. Eso es lo que le han hecho a esta mujer tan segura de sí, tan moderna, tan joven. Como una mancha, la historia se extiende por toda la provincia». 

Entre la historia de Lucy y la de Melanie hay un paralelismo inevitable. Mientras que Lurie se niega a ofrecer la contrición pública que le exige la universidad, Lucy parece aceptar la deuda histórica que tienen escrita en la piel su padre y ella, y todos los que alguna vez se beneficiaron del apartheid. De algún modo, ella acepta la culpa por él. El mismo Lurie le pregunta: «¿esperas expiar los pecados del pasado mediante tu sufrimiento en el presente?», y ella responde cosas como: «¿y si fuera el precio que hay que pagar por quedarse?»; «estoy en su territorio»; «ellos me ven como si yo les debiera algo». Tampoco coinciden en su interpretación de este estallido de violencia. Lucy se pregunta «¿por qué me odiaban tanto?», y está convencida de que fue algo personal. Lurie, en cambio, lo tiene claro: «fue la historia lo que habló a través de ellos», «una historia llena de errores»; «tal vez te pareciera algo personal, pero no lo fue. Fue algo heredado de sus ancestros». La novela, a diferencia de Lucy, no exculpa a los atacantes ni permite que la agresión se convierta en una lección sobre la Sudáfrica posterior al apartheid, aunque plantea la posibilidad. En este sentido, Desgracia logra el difícil equilibrio de oscilar entre la responsabilidad individual y la herencia colectiva sin resolver la tensión. 

Leer Desgracia a través los distintos significados de lo woke no consiste en pedirle a Coetzee un veredicto, ni a favor ni en contra. La novela se publicó veinte años antes de que la palabra se convirtiera en insulto, pero contiene, sin embargo, los dos sentidos que hoy se disputan. Por un lado están el tribunal universitario, los panfletos y la sed de expiación, que es lo que los detractores del término caricaturizan. Por otro, está el significado original, el de Garvey o Lead Belly, el de estar despierto ante una violencia que tiene historia y que sigue ahí. Ese significado irrumpe en la granja de Lucy. Coetzee no elige entre los dos, y quizá nosotros tampoco debamos hacerlo. Frente a la polarización, la novela habita las zonas grises, y lo que pide es seguir despiertos, sobre todo, ante la falibilidad de nuestras propias certezas.

Laura Pavón Aramburú es profesora de literatura y cultura en la Washington and Lee University de Virginia. Licenciada en Filología Hispánica por la UCM, obtuvo su doctorado en el Graduate Center de la City University of New York. 


Desgracia

J.M. Coetzee

Random House, Barcelona, 2022

Traducción de Miguel Martínez-Lage 

[Imagen: South African History Online - fuente: www.revistadelibros.com]

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Brasil: onda vermelha disputa a virada

São milhões que estão conversando nas suas famílias, nos locais de trabalho, de moradia, nos transportes públicos. Essa força político-social é o maior trunfo da campanha Lula nestes próximos dias. 

Presidente Lula durante evento aberto à população no interior do Nordeste

Escrito por Valério Arcary 

Quem faz o seu destino são as suas escolhas, não as suas chances
Provérbio popular português

1. A história nos ensina que, diante de situações perigosas, acontecem fenômenos surpreendentes e extraordinários. Uma imensa parcela da sociedade que estava, até então, politicamente inativa, diante de uma ameaça terrível, coloca-se em movimento e faz a diferença. Foi assim no Fora Collor em 1992, e agora, também. A vitória da extrema direita nas eleições para governadores, Câmara de Deputados e Senado, associada à passagem de Flávio Bolsonaro (PL) em primeiro lugar para o segundo turno, foi o gatilho. Despertou, nas últimas duas semanas, uma gigantesca mobilização de massas, nas ruas e nas redes. A contra-ofensiva da “onda vermelha” veio de “baixo para cima” em modo de auto-organização diante da ameaça de vitória do bolsonarismo. Um “grande medo” está incendiando a disposição de luta na hora decisiva das eleições. O segundo turno está sendo disputado “a quente” e estamos diante de um empate técnico em que a diferença está diminuindo. Já são milhões que se levantaram. Só isso pode explicar as desconcertantes pesquisas que confirmaram que os nove milhões de votos que foram entregues aos outros candidatos de direita — Cury, Caiado, Renan e Zema — não asseguraram uma vantagem clara do bolsonarismo. O engajamento de massas colocou os neofascistas na defensiva. A esquerda conquistou hegemonia nas ruas e superioridade nas redes. Era imprevisível. Mas está sendo arrebatador e magnífico.

2. Manifestações ininterruptas em todo o país, após a colossal ocupação da avenida Paulista em 11 de outubro, de Recife a Porto Alegre, passando por Salvador e Brasília, culminando na praia de Copacabana no domingo, 18 de outubro, e  estendendo-se pelas cidades médias do interior, como Juiz de Fora e Campinas, e outras muito menores, ganharam dimensões assombrosas e sustentaram o crescimento de Lula nas pesquisas, associadas a uma atividade febril nas redes sociais. São pelo menos dois os fatores que incidiram na consciência da base social da esquerda e ajudam a compreender essa “explosão”: (a) o papel dos estudantes foi a centelha que incendiou as ruas, imediatamente depois do 4 de outubro, alimentando a esperança de que uma virada seria possível, porque os mais jovens “caminham mais leves”; (b) a percepção de que o bolsonarismo não pode ser subestimado e deve ser levado muito a sério, portanto, de que a revisão constitucional anunciada será a antessala de um regime autoritário, e de que a recolonização do Brasil pelos EUA é um perigo “real e imediato”.

3. A dúvida sobre o desfecho das eleições mantém-se, porque ainda não aconteceu uma virada. A análise não pode ser torcida. Uma virada poderá ou não vir, mas, mesmo que a probabilidade seja arriscada, há que lutar até o fim. Esse deve ser o papel do comando da campanha e de todos aqueles que compreendem a máxima gravidade do que está em disputa. As margens são tão estreitas — inferiores a 2% — que não há favoritismo de ninguém, e a possibilidade da vitória de Lula está colocada. O que ainda prevalece, cinco dias antes das eleições, é um desenlace indefinido. Os erros da imensa maioria das pesquisas na véspera do primeiro turno, subestimando a votação de Flávio Bolsonaro, confirmaram que os institutos têm dificuldades metodológicas em aferir os resultados da votação da extrema direita, por variados fatores, dos quais três se destacam: (a) dados desatualizados do IBGE que oferecem as métricas do modelo; (b) a desconfiança da base bolsonarista de responder às pesquisas; (c) a definição de voto no próprio dia. Mas esta incerteza não autoriza qualquer conclusão sobre uma inevitável, menos ainda invencível “avalanche” fascistoide.

4. Nada está garantido, e não nos podemos deixar enganar pelo desejo, mas uma análise lúcida exige destacar cinco evoluções positivas do momento da conjuntura: (a) as entrevistas no Jornal Nacional da TV Globo parecem ter favorecido o desempenho de Lula porque nas pesquisas feitas no dias posteriores a vantagem do filho de Bolsonaro diminuiu; (b) apesar do comício na Paulista do bolsonarismo de domingo 18 de outubro ter sido muito grande, foi menor do que o de apoio a Lula uma semana antes, e a campanha Lula está na ofensiva na mobilização permanente de rua em escala nacional, com uma ampla vanguarda de massas expondo, publicamente, sua adesão, em especial dos artistas populares; (c) o ativismo de apoio a Lula nas redes sociais, ao contrário das eleições, desde 2018, deu um salto de qualidade com o rejuvenescimento e irreverência das novas lideranças, e conquistou supremacia; (d) a vitória histórica do fim da escala 6×1 e uma linha de campanha orientada para expansão de reformas — proibição das apostas nas Bets, anistia e créditos para MEI’s endividados, passe livre nos fins de semana, pé de meia para universitários — e o giro teve um impacto real nas expectativas, inflamando um entusiasmo que não existiu antes do primeiro turno; (e) apesar do debate na Band ter sido um espetáculo desprezível de horror pelo papel provocador de Flávio, orientado pelos métodos de Pablo Marçal, Lula demonstrou que, aos 80 anos, com altos e baixos, ainda está em forma, com a audácia de desafiar a abertura dos sigilos bancário e telefônico. Mais importante, a campanha ganhou a disputa de narrativa nas redes sociais.    

5. Ninguém ignora que o país está, politicamente, fraturado, e a influência das duas correntes que disputam a presidência está consolidada. Mas não está congelada e, nas margens, ocorreram deslocamentos. O núcleo duro de apoio da extrema direita repousa na fração mais reacionária da classe dominante, na classe média acomodada, na proto pequena-burguesia de vinte milhões de “empreendedores”, em sua maioria na informalidade, nos rancores de negacionistas e nos ressentimentos do machismo, racismo e homofobia. O núcleo duro da campanha Lula repousa na metade mais pobre do povo, nas mulheres e negros, nos nordestinos e LGBT+, nos setores mais organizados da classe trabalhadora, que arrastam a maioria do mundo da ciência, arte e cultura. Todos os dados disponíveis indicam que a eleição será decidida por uma margem ínfima. Qual será o impacto eleitoral daqueles que estiveram nas ruas e nas redes nos últimos 20 dias? Em que escala a “onda vermelha” pode incidir sobre os indecisos? Em que medida a intensa “convulsão” em curso poderá estimular eleitores de Lula que não foram votar? São milhões que estão conversando nas suas famílias, nos locais de trabalho, de moradia e nos transportes públicos. Essa força político-social é o maior trunfo da campanha Lula nestes próximos cinco dias. As reservas da ultradireita, comparativamente, são mais invisíveis e silenciosas, mas não menos poderosas: os fascistas contam com a força de suas posições em milhares de prefeituras, a disciplina do desespero do “clientelismo”, a audiência das igrejas neopentecostais, a força do dinheiro no Brasil profundo e, não menos importante, a manipulação das redes, como a Meta, protegidas pela interferência descarada do governo Trump. Nesse contexto, o debate na Globo, a disputa de narrativas nas redes sociais na sequência e a mobilização de sábado serão o desafio final. São cinco dias que decidirão nosso destino. 

[Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República - fonte: www.esquerda.net]

 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Bloquer l’extrême droite : mobilisons-nous pour élire Lula au second tour !

Déclaration du Bureau exécutif de la IVe Internationale. Le premier tour de l’élection présidentielle brésilienne, le 4 octobre, a été marqué par une reprise de l’offensive électorale de l’extrême droite, à la fin du troisième mandat de Lula. Avec 47,03 % des voix, contre 45,16 % pour Lula, Flávio Bolsonaro est arrivé en tête du premier tour, devançant Lula de plus de deux millions de voix. L’extrême droite a également progressé au Parlement et dans les États : le parti de Bolsonaro a remporté 121 sièges à la Chambre des député·es (sur un total de 513) et est devenu la première force au Sénat. 

Ces résultats confirment l’enracinement de la frange la plus radicale de l’extrême droite (le bolsonarisme), quatre ans après la défaite de Jair Bolsonaro, aujourd’hui emprisonné pour sa participation à une tentative de coup d’État en 2023. Mais ils expriment aussi une crise profonde du système politique brésilien, en particulier au sommet du pouvoir judiciaire, enlisé dans les privilèges et les soupçons de corruption – plusieurs de ses membres étant impliqués dans un scandale de relations avec un banquier fraudeur. Comme la Cour suprême (Supremo Tribunal Federal) a joué auparavant un rôle progressiste pour contenir les excès de Bolsonaro et le poursuivre en justice pour sa tentative de coup d’État, des secteurs populaires en sont venus à l’identifier au gouvernement, et donc à rejeter l’un et l’autre. 

De plus, la politique modérée et conciliante de Lula n’a pas répondu aux attentes populaires, alimentant un mécontentement que l’extrême droite a su exploiter en se présentant comme une force antisystème. 

Le projet du clan Bolsonaro – une famille mafieuse initialement liée à des milices criminelles de Rio de Janeiro – repose sur une alliance entre les franges les plus ultralibérales et antidémocratiques de l’agro-industrie, des banques et des fonds financiers, du grand commerce, des industriels et des courants religieux ultraconservateurs, s’appuyant sur une partie des officiers subalternes des forces armées et des membres des forces de police militarisées. Il combine un programme économique de démantèlement brutal des droits sociaux, des droits des travailleur·ses, des femmes et des personnes LGBT+, avec une offensive contre les libertés démocratiques et l’environnement, en particulier dans les grands biomes de l’Amazonie et du Cerrado. 

L’enjeu dépasse largement les frontières du Brésil. Donald Trump, qui intensifie ses ingérences en Amérique latine et parvient à faire élire des allié·es, de l’Amérique centrale jusqu’à l’extrême sud, compte trouver en Flávio Bolsonaro un allié de premier plan. Une victoire de son clan mettrait en péril la souveraineté du plus grand et du plus stratégique des pays d’Amérique latine et menacerait la région dans son ensemble. 

Les premières réactions de la moitié du pays qui ne souhaite pas le retour des Bolsonaro montrent que la société brésilienne n’est pas résignée. Au début du mois, des milliers de lycéen·nes et d’étudiant·es ont manifesté dans les grandes et moyennes villes contre le fascisme. La campagne de Lula a retrouvé son élan sur les réseaux sociaux. Des dirigeant·es de mouvements et des parlementaires de gauche, dont celles et ceux élu·es sur les listes du PSOL (Parti socialisme et liberté), organisent des brigades de « mobilisation électorale » dans les rues et les quartiers, participent à des rassemblements et appellent celles et ceux qui se sont abstenu·es à voter pour Lula. 

La lutte du peuple brésilien contre l’extrême droite, pour les droits sociaux, pour les libertés et pour l’indépendance face à l’impérialisme américain est aussi la nôtre. À l’heure actuelle, pour garantir qu’il n’y ait pas de recul, pour que les travailleur·ses, les jeunes, les populations noires et autochtones et tou·tes les Brésilien·nes opprimé·es conservent leur droit de lutter, de s’exprimer et aient la possibilité d’empêcher la soumission du Brésil à Washington, notre combat est celui de la réélection de Lula. 

Le 25 octobre, Lula président !

 

[Image : Ricardo Stuckert / PR - source : www.inprecor.fr - reproduit sur www.pressegauche.org]

domingo, 18 de outubro de 2026

La última batalla de Lula

La ventaja de Flávio Bolsonaro en la primera vuelta dejó en suspenso la reelección del presidente brasileño. Pese a sus buenos resultados macroeconómicos, Luiz Inácio Lula da Silva perdió terreno entre una nueva clase media endeudada, emprendedora y seducida por la batalla cultural conservadora. El 25 de octubre, Brasil decidirá si sigue siendo un dique contra el avance reaccionario en la región. 

Escrito por Giancarlo Summa 

¿Cómo ha sido posible? En el Partido de los Trabajadores (PT) estaban convencidos de que, más allá del incierto resultado de la segunda vuelta, en la primera del 4 de octubre Luiz Inácio Lula da Silva quedaría primero, como ocurrió en 2022. Por eso los resultados –el 47 % para Flávio Bolsonaro y el 45 % para Lula– fueron un terremoto político para la izquierda. Ahora el presidente brasileño se encuentra en la incómoda situación de tratar de revertir el golpe inicial y reorganizar fuerzas para la segunda vuelta del próximo 25 de octubre. Para lograrlo, su campaña ha dado un giro brusco: más combativa, menos centrada en el balance de gestión y acompañada de una multiplicación de las movilizaciones militantes. El objetivo es recuperar parte de los electores que Lula ha perdido en favor de Bolsonaro y, aún más importante, entre los 40 millones que no acudieron a las urnas, votaron en blanco o anularon su voto: en total, aproximadamente una cuarta parte del electorado. 

En 2018, con la victoria de Jair Bolsonaro frente a Fernando Haddad, Brasil anticipaba un crecimiento de las extremas derechas en toda América Latina. Bolsonaro perdió contra Lula su reelección por menos de dos puntos porcentuales en 2022, pero como se confirma ahora, el bolsonarismo expresa una coalición social que se mantuvo en pie durante estos cuatro años.

La reacción de los partidarios de Lula frente al resultado de la primera vuelta, así como la de gran parte de la prensa extranjera y los círculos diplomáticos internacionales, fue de sorpresa, consternación y perplejidad. Aunque ya está lejos del apogeo de su popularidad al final de su segundo mandato, en 2010, Lula sigue siendo uno de los líderes globales más respetados, mientras que Flávio Bolsonaro –hijo mayor y heredero político designado de Jair Bolsonaro– es un político mediocre y sin carisma, con una larga historia de escándalos de corrupción, vinculado tanto a los círculos de la «internacional reaccionaria» como a las milicias paramilitares de Río de Janeiro. 

¿Es la economía?

El desconcierto frente a los resultados remite a la famosa (y tan manida) frase de James Carville, el estratega de Bill Clinton en las elecciones presidenciales estadounidenses de 1992: «Es la economía, estúpido». Y aquí nos encontramos frente a una situación llena de matices. Desde un punto de vista macroeconómico, el tercer mandato de Lula ha sido un éxito incontestable, casi un modelo de manual. Desde 2023, Brasil ha registrado una caída sostenida del desempleo, cuya tasa se situó en el 5,3 % en el trimestre de junio a agosto de 2026, cerca del mínimo histórico de la serie, y una moderación de la inflación -el 4,22 % interanual en agosto-, ligeramente por debajo de la media de la Organización para la Cooperación y el Desarrollo Económicos (OCDE), que se situó en el 4,3 % interanual en agosto de 2026. A ello se suma una reducción de alrededor del 20 % de la pobreza extrema entre 2023 y 2024, equivalente a 1,9 millones de personas menos; la reanudación y ampliación de los programas sociales, como Bolsa Família; y un crecimiento del PIB del 3,2 % en 2023, del 3,4 % en 2024 y del 2,3 % en 2025, lo que arroja una media anual cercana al 3 %. En el frente externo, el superávit comercial acumulado entre enero de 2023 y septiembre de 2026 rondó los 305.000 millones de dólares. Y ya entre las dos vueltas, el Congreso promulgó una reforma constitucional que fija la semana laboral en cinco días, una vieja reivindicación que garantiza dos días de descanso sin recorte salarial y reduce gradualmente la jornada de 44 a 40 horas.

Si esos indicadores hubieran bastado para traducirse en un consenso electoral, tal y como Lula y su séquito habían pensado y esperado, las elecciones habrían sido un trámite sencillo.

Pero, como solía repetir la economista progresista brasileña Maria da Conceição Tavares, quien en otros tiempos tuvo mucha influencia sobre Lula, «nadie come PIB, sino alimentos». Las pérdidas de poder adquisitivo acumuladas, fundamentalmente entre la recesión de 2014 (gobierno de Dilma Rousseff) y 2022 (último año del gobierno de Bolsonaro padre), aún no se han recuperado en la base y en el medio de la pirámide social. Para llegar a fin de mes, muchos brasileños completan sus ingresos con trabajos extra, a menudo en plataformas como Uber o de entregas a domicilio, recurren a préstamos bancarios y pagan sus compras a plazos. Incluso muchos recurren a las apuestas en línea (que Lula prohibió por decreto pocos días antes de las elecciones). En agosto de 2026, el 81,7 % de las familias tenía alguna deuda pendiente de pago, el nivel más alto jamás registrado, tres puntos más que en 2022. Las familias destinan casi el 29 % de sus ingresos al pago de deudas y, aun así, casi 30% de ellas están en mora y, en consecuencia, como se dice en Brasil, tienen el «nombre manchado» en el sistema bancario–, lo cual dificulta sus operaciones financieras. Son deudas prácticamente impagables, porque las tasas de interés que aplican los bancos brasileños están entre las más altas del planeta: el préstamo promedio a las familias cuesta alrededor del 62 % anual, y el crédito renovable de la tarjeta de crédito -cuando no se paga el total-, el 445 %. Así, el trabajador que consiguió un empleo y un aumento salarial durante el gobierno de Lula devolvió ambos al banco, con intereses. 

Los gobiernos del PT invirtieron en un gigantesco sistema de cobertura de salud universal (SUS) y en el acceso a la educación pública; sin embargo, ante las largas colas en los hospitales y el bajo nivel medio de las escuelas primarias públicas, un número cada vez mayor de familias, incluidas las de las clases populares, se esfuerza por pagar seguros médicos y colegios privados. En agosto de 2026, el 24,9 % de los brasileños tenía cobertura de un seguro médico privado y algo más del 20 % de los alumnos de educación primaria y secundaria estudiaba en colegios privados.

Los datos macroeconómicos definitivamente no reflejan las condiciones de vida reales de la mayoría ni dan respuesta a las necesidades, deseos y aspiraciones, tanto materiales como inmateriales, de una sociedad que ha cambiado profundamente en el cuarto de siglo que separa la primera llegada de Lula a la Presidencia, en 2002, de esta campaña electoral tan difícil para la izquierda. En estas últimas décadas, en gran parte gracias a las políticas públicas de los gobiernos del PT, Brasil ha dejado de ser un país mayoritariamente pobre para convertirse en un país de clase media y media-baja. La denominada «clase C», que incluye a todos los hogares con ingresos mensuales per cápita entre 610 y 2150 reales (entre 120 y 430 dólares), agrupa a más de 107 millones de personas, cerca de la mitad de la población. 

Renato Meirelles, uno de los mayores expertos en opinión pública, consumo y comportamiento de las clases populares en Brasil, publicó en junio de 2026 Brasil da maioria: 25 anos de classe C [El Brasil de la mayoría: 25 años de clase C], un libro imprescindible para comprender los cambios sociales que se han producido en el país. A grandes rasgos, Meirelles identifica tres periodos distintos en el siglo XXI: 

1. Los dos primeros mandatos de Lula, hasta 2010, marcaron el ascenso de millones de brasileños a la clase C, impulsados por el crecimiento económico, la expansión del crédito y las políticas de inclusión y redistribución del ingreso. 

2. La década siguiente se caracterizó por el estancamiento de los ingresos, el fin de la euforia inicial y la transición hacia un periodo de frustración y reinvención personal y colectiva. Desde el punto de vista político, la década estuvo marcada por la crisis de los gobiernos de Dilma Rousseff (hasta su destitución en 2016), la operación «Lava Jato» y el surgimiento de una extrema derecha muy activa y agresiva, y antes prácticamente invisible, que llevó al poder a Jair Bolsonaro en 2018.

3. El presente: la clase C tiene hoy un mayor nivel educativo (el 70 % de los jóvenes ha estudiado más años que sus padres y, por primera vez, muchos llegan a la universidad), está muy conectada digitalmente, es emprendedora (con pequeños negocios y microempresas individuales) y es más exigente, tanto con los servicios públicos que recibe como con los productos que compra. Meirelles señala que este grupo rechaza las etiquetas ideológicas rígidas de izquierda y derecha, oscila entre posturas conservadoras y progresistas (por ejemplo, se puede mostrar en contra del aborto y a favor del matrimonio igualitario) y desempeña un papel decisivo en las urnas y en el consumo.

La clase C, según Meirelles, apoya los programas de transferencia de ingresos de los gobiernos del PT, como el Bolsa Família, considerados indispensables para prevenir el hambre y garantizar la supervivencia de las familias más vulnerables, y reconoce que las políticas públicas fueron determinantes para su propio ascenso social y el aumento de su poder adquisitivo en la década de 2000. Sin embargo, con el paso de los años, las prestaciones sociales dejaron de considerarse una bendición extraordinaria y pasaron a verse como un derecho adquirido («lo mínimo» o un «hecho de la realidad», señala Meirelles). Por otro lado, la visión de la clase C sobre las ayudas está fuertemente marcada por valores meritocráticos. Entre el 67 % y el 69 % de los brasileños consideran que «solo se debe ayudar a quien lo merece». Existe una opinión difusa, aunque infundada, de que los programas de ayuda desincentivan la búsqueda de empleo. Algo más del 70 % de la población –incluso entre los sectores de menores ingresos y entre los propios beneficiarios– coinciden en que las ayudas gubernamentales pueden hacer que las personas tengan menos ganas de trabajar. La clase C rechaza que se la trate como un mero público pasivo de la asistencia estatal. En lugar de limitarse a recibir prestaciones de subsistencia, la población de ingresos medios busca la autonomía y demanda el apoyo del Estado para emprender, acceder al crédito, obtener formación práctica y convertir pequeños negocios en microempresas. 

La cuestión de la relación con el Estado es fundamental para intentar descifrar las tendencias políticas y electorales de esta nueva clase media, cuya posición no deja de ser precaria: por un lado, se percibe al Estado como ausente cuando faltan servicios públicos de calidad (especialmente en salud y educación), pero también se lo ve como un obstáculo burocrático y fiscal cuando este intenta recaudar impuestos y dificulta la lucha por la supervivencia del trabajador autónomo. 

La visión de la importancia central del esfuerzo individual se entrelaza con la profunda religiosidad de la cultura popular y con el impetuoso crecimiento de las iglesias evangélicas neopentecostales, que predican que la fe, unida al esfuerzo personal, genera prosperidad terrenal: la llamada «teología de la prosperidad». Según Meirelles, para el 94 % de la clase C, profesar una religión contribuye directamente a vivir más tiempo y con una mejor calidad de vida. El 75% de los encuestados afirma que la fe es una de las cosas más importantes de sus vidas y el 58 % la considera esencial para la educación de los niños. Los evangélicos votan más a la derecha que los católicos, pero el voto de la clase C no es monolítico. 

Luchas comunicacionales

Todas las encuestas de opinión, por otro lado, indican desde hace tiempo el enfado y el cansancio de la mayoría de la población por su situación material, pero también su certidumbre respecto a mejoras futuras en su vida. El nuevo sueño de decenas de millones de brasileños es convertirse en empresarios. Los de más edad piensan en una pequeña tienda o un salón de belleza. Para los más jóvenes, el sueño suele situarse en el mundo digital. La antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que estudia cómo la economía de plataformas incide en las sociedades del Sur global, ha seguido durante tres años a cientos de «influencers de la prosperidad», quienes venden cursos y fórmulas sencillas para triunfar en internet y volverse rico: nueve de cada diez de ellos se alinean, de una u otra forma, con la extrema derecha. Es un universo marcado por una fe inquebrantable en la meritocracia y el individualismo, combinada con estilos de vida conservadores. 

No es casual que, en el tsunami reaccionario del 4 de octubre, al menos 13 jóvenes influencers bolsonaristas, con millones de seguidores en las redes sociales, hayan sido elegidos diputados federales y estatales desde las filas del Partido Liberal (PL) de los Bolsonaro. Dos de ellos, Nikolas Ferreira, de 30 años, en el estado de Minas Gerais, y Lucas Pavanato, de 28 años, en San Pablo, obtuvieron más de tres millones de votos: son los diputados más votados de la historia de Brasil. 

Es la punta del iceberg de lo que el politólogo Marcos Nobre ha bautizado como el «partido digital bolsonarista». El bolsonarismo no es solo un movimiento constituido alrededor del clan Bolsonaro, ni un conjunto disperso de influencers: funciona como un partido de verdad, con organización, jerarquía, disciplina y una gran capacidad de movilización permanente, no solo en periodos de campaña electoral. Es un poderoso instrumento para crear y mantener consensos políticos, así como valores culturales y de comportamiento. Es una batalla que la izquierda brasileña ha perdido sin siquiera intentar pelearla. A lo largo de todo el tercer mandato de Lula, la comunicación del gobierno ha sido lenta, formal, triunfalista y alejada de los problemas reales y las aspiraciones de la mayoría de la población. En la izquierda, han surgido algunos jóvenes que, a título individual, han sabido disputar la hegemonía digital con inteligencia y habilidad, y han convertido a sus seguidores en votos, como Erika Hilton, diputada transgénero del Partido Socialismo y Libertad (PSOL) en San Pablo (7,7 millones de seguidores entre Instagram y X, y 1,6 millones de votos); Ana Elisa Santos, de solo 21 años, del PT de Minas Gerais (6,3 millones de seguidores entre Instagram y TikTok, y más de 500.000 votos); o Rick Azevedo, concejal del PSOL de Río de Janeiro, que se dio a conocer en todo el país tras lanzar en 2023 una campaña en TikTok e Instagram para acabar con la semana de seis días de trabajo y uno de descanso, algo que, como mencionamos, se convirtió en reforma constitucional: fue elegido diputado federal con casi 200.000 votos. Pero, en general, la izquierda institucional brasileña se ha mostrado incapaz de adaptarse a los nuevos tiempos de la comunicación y la política.

A punto de cumplir 81 años, Lula da Silva es el último superviviente de la «marea rosa» que, entre la primera elección de Hugo Chávez en Venezuela en 1998 y el golpe parlamentario contra Dilma Rousseff en Brasil en 2016, dominó la escena política latinoamericana durante unas dos décadas. De los líderes de aquella época, algunos han fallecido y otros están presos, en el exilio o con órdenes de detención. 

Lula es un superviviente también en otros sentidos: al hambre del nordeste del Brasil, cuando era niño; al trabajo en la fábrica (se le cortó un dedo en una prensa cuando era operario metalúrgico); a la enfermedad (superó un cáncer de garganta tras el final de su segundo mandato); a la cárcel (la primera vez durante la dictadura militar; la segunda en 2018, cuando pasó un año y medio preso por una condena por corrupción que el Supremo Tribunal Federal [STF] anuló después); al intento de golpe de Estado que culminó en el asalto del 8 de enero de 2023, cuyo plan, elaborado por militares golpistas y bautizado como «Daga Verde y Amarilla», contemplaba el asesinato de Lula, de su vicepresidente Geraldo Alckmin y del ministro del STF Alexandre de Moraes. El juez que condenó a Lula, Sergio Moro, fue luego ministro de Justicia de Jair Bolsonaro y acaba de ser elegido gobernador de Paraná por el PL.

El pasado 16 de agosto, fecha del inicio oficial de la campaña electoral, el primer mitin de la séptima campaña presidencial de Lula (fue candidato en 1989, 1994 y 1998, antes de ser elegido por primera vez en 2002, reelegido en 2006 y elegido de nuevo en 2022) apostó por un simbolismo seguro y, al mismo tiempo, anticuado: el estadio de Vila Euclides, en São Bernardo do Campo, periferia de San Pablo, cuna del movimiento sindical de los metalúrgicos brasileños, donde Lula había iniciado su carrera en los años 70. Bajo un sol abrasador –el presidente llevaba sombrero por recomendación médica, tras someterse a radioterapia por un cáncer de piel en el cuero cabelludo–, Lula recordó a figuras vinculadas a los orígenes del PT ya fallecidas, como Antonio Candido y Sérgio Buarque de Holanda, y a referentes de las luchas sociales asesinados, como Chico Mendes y Margarida Alves. Evocó también a su madre, conocida como Dona Lindu, que murió mientras él estaba preso por su actividad sindical, y la convirtió en emblema de un llamamiento a las mujeres contra la violencia machista. 

En su discurso, repasó su vida política, desde el sindicalismo hasta la Presidencia, pasando por la cárcel, el regreso y los logros de sus gobiernos. Entre ellos, mencionó la creación de diez millones de puestos de trabajo, de una veintena de nuevas universidades federales y de cientos de campus de institutos técnicos, el paso de 5 a 25 millones de trabajadores con título universitario desde 2003 y las promesas de nuevos logros para el futuro. Toda su intervención osciló entre el recuerdo del pasado y la visión de un Brasil que produce chips y baterías eléctricas. Una arenga bastante triunfalista, de orgullo por todo lo que su gobierno y el PT habían hecho. En cuanto a temas espinosos como la delincuencia –una de las principales preocupaciones de la población–, Lula volvió a prometer la creación de un Ministerio de Seguridad Pública y darle prioridad a la educación, porque «es mucho más barato que invertir en cárceles». Sus palabras pueden haber conmovido a los antiguos militantes, pero no dialogaron con las preocupaciones de decenas de millones de votantes que, según indican las encuestas de opinión, tienen una opinión negativa sobre la labor del gobierno.

A unos cientos de kilómetros de distancia, Flávio Bolsonaro había elegido para su mitin inaugural la playa de Copacabana, uno de los emplazamientos tradicionales de las manifestaciones de la extrema derecha en Río de Janeiro, el bastión principal del clan familiar. Ante un público mucho más reducido que el que reunió Lula y bajo un cielo gris, Bolsonaro enumeró los temas que marcarían toda su campaña electoral: la «mano dura» contra la delincuencia, las dificultades de la vida cotidiana de las familias, el aumento del costo de vida, la reivindicación del legado político de Jair Bolsonaro, la oposición al aborto y a la legalización de las drogas, y la promesa de mejorar la gestión del Estado con un tesouraço (tijeretazo) en el gasto público, en referencia directa a la motosierra del presidente argentino, Javier Milei. En uno de sus primeros actos de campaña, en San Pablo, Flávio Bolsonaro blandió unas tijeras enormes, mientras que, a su lado, Milei se agitaba frenéticamente.

El tono de la campaña de los dos candidatos no cambió sustancialmente hasta el 4 de octubre. Fue, según la acertada definición del politólogo Pedro Abramovay, una disputa entre lo abstracto y lo concreto. Flávio Bolsonaro se movió en el terreno de lo abstracto. Reforzó los valores conservadores, apeló al antipetismo (un sentimiento muy fuerte en Brasil, continuación y actualización del anticomunismo de la época de la Guerra Fría), defendió el espíritu emprendedor, atacó al STF y aseguró que será implacable con los grupos criminales organizados, sin ofrecer detalles sobre ninguna propuesta concreta. Lula, por el contrario, fue demasiado «concreto», enumerando los muchos logros macroeconómicos de su gobierno y una lista de proyectos futuros, pero sin intentar siquiera transmitir la esperanza de que hay un país mejor por construir y de que eso pasa por su reelección.  

La ola conservadora

En la primera vuelta, los brasileños se decantaron por la visión abstracta y reaccionaria. Independientemente del resultado final, un análisis detallado de la elección ofrece un panorama desalentador para Lula, la izquierda y el futuro de la democracia. En términos absolutos, la diferencia entre Bolsonaro y Lula fue de 2,3 millones de votos: 56,1 millones para el primero y 53,8 millones para el segundo. En comparación con la primera vuelta de las presidenciales de 2022, Flávio Bolsonaro obtuvo cinco millones más que su padre Jair, quien perdió por estrecho margen en el balotaje, mientras que Lula perdió 3,4 millones de votos, a pesar de que el número total de electores aumentó ligeramente (158,7 millones de votantes en 2026 frente a 156,4 millones en 2022). Hace cuatro años, Lula se situó a la cabeza en 3.378 de los 5.569 municipios y en 14 estados del país; este año, en solo 2.663 municipios y 12 estados. Un estudio del periódico O Globo muestra que el presidente perdió votos en el 98,2 % de los municipios, mientras que el candidato de extrema derecha avanzó. La caída de los votos de Lula fue más acusada en las ciudades de menos de 20.000 habitantes (5,9 puntos porcentuales) y más leve en las grandes ciudades de más de 500.000 habitantes (casi un punto). Un relevo del diario Folha de S. Paulo, en el que se cruzan los resultados electorales de la primera vuelta con los del censo de 2022, muestra que, en general, Lula sigue gozando de una popularidad extraordinaria entre los brasileños más pobres –obtuvo el 76 % de los votos en los sectores con ingresos mensuales de hasta 1.100 reales (unos 220 dólares)–, pero que Flávio Bolsonaro obtuvo proporcionalmente más votos en todos los demás niveles de ingresos. Entre los votantes de la clase C, el retroceso de Lula ha sido especialmente acusado: el presidente ha perdido 5,1 puntos porcentuales de los votos con respecto a 2022, mientras que el hijo de Bolsonaro ha aumentado su apoyo en 4,9 puntos respecto a los resultados de su padre. Paradójicamente, Lula ha aumentado su apoyo, aunque en menor medida que su rival, entre los votantes con mayores ingresos. 

También Lula perdió votos en uno de los principales bastiones del PT, el estado de Bahía, donde ha pasado del 69,7 % al 66,2 %, aunque el gobernador del PT, Jerônimo Rodrigues, ha sido reelegido en la primera vuelta. Flávio Bolsonaro, al contrario, ha ganado terreno en estados claves en los que Lula había superado a Jair Bolsonaro en 2022, como Minas Gerais, donde obtuvo 538.000 votos más que su padre en 2022 y se situó en primer lugar. En el estado de San Pablo, el más rico y poblado de la federación, donde el PT tiene sus raíces históricas y donde Jair Bolsonaro se había impuesto hace cuatro años, Flávio obtuvo 682.000 votos más, mientras que Lula perdió casi un millón. En paralelo, el exministro de Economía y delfín de Lula, Fernando Haddad, candidato por segunda vez a gobernador del estado, obtuvo un resultado ligeramente mejor que en 2022, pero no superó el 36 % de los votos, y Tarcísio de Freitas, alineado con el bolsonarismo, fue reelegido en la primera vuelta con el 62 % de los votos. 

El PL, actual formación política del clan Bolsonaro, se ha convertido en el primer partido de Brasil: ha elegido a cinco gobernadores en la primera vuelta y 121 diputados (de un total de 513, lo que supone el 23,6 % de los escaños de la Cámara baja) y 19 senadores (de los 54 en liza), que, sumados a los senadores que ya ocupaban su cargo, darán al PL 28 de los 81 escaños, es decir, el 34,6 %.

El bolsonarismo se renueva también como dinastía. Michelle Bolsonaro, ex-primera dama que este año protagonizó un sonado enfrentamiento público con Flávio por la sucesión política de su marido, fue la candidata más votada al Senado en el Distrito Federal, con casi un millón de votos, y su partido se quedó con los dos escaños en disputa en la capital. Evangélica y con un discurso centrado en la fe y la familia, Michelle encarna la alianza entre el clan y las iglesias neopentecostales. No es un caso aislado: cinco de los ocho familiares de Jair Bolsonaro que se presentaron a estas elecciones fueron elegidos o siguen en carrera, entre ellos su hijo Carlos, que llega al Senado por Santa Catarina.

Los partidos de izquierda se han mantenido: han elegido en total 124 diputados, frente a los 125 elegidos en 2022, y contarán con 15 senadores, frente a los 17 actuales. El PT de Lula sigue siendo, de lejos, el más fuerte del bloque progresista, con 88 diputados y 9 senadores. Sin embargo, en estas elecciones la izquierda sufrió derrotas de enorme peso simbólico: quedaron fuera del Senado Randolfe Rodrigues, líder del gobierno en el Congreso; la expresidenta del PT Gleisi Hoffmann, en Paraná; Benedita da Silva, en Río en Janeiro; Paulo Pimenta, en Rio Grande do Sul, y dos ministras emblemáticas del tercer mandato de Lula, Marina Silva y Simone Tebet, en San Pablo. José Dirceu, quien llegó a ser el segundo nombre más fuerte del PT tras Lula, no logró regresar a la Cámara de Diputados.

Si Flávio Bolsonaro gana la segunda vuelta, el PL y sus aliados de la derecha y del centrão podrán impulsar su agenda con pocos obstáculos. Flávio podría indultar por sí mismo a su padre, condenado por la trama golpista y hoy bajo arresto domiciliario. Destituir a ministros del STF exigiría dos tercios del Senado (54 votos), y reformar la Constitución, tres quintos de cada cámara: mayorías fuera del alcance del PL solo, pero no de una coalición conservadora que ha salido reforzada del 4 de octubre. No obstante, Brasil no se ha transformado de repente en un país con una extrema derecha hegemónica. El bolsonarismo, según indican las series históricas de diferentes encuestas de opinión, cuenta con una minoría que se identifica firmemente con él, del orden de una cuarta parte del electorado, pero es capaz de liderar una coalición electoral mucho mayor. Su peso no radica únicamente en el número de seguidores, sino en su capacidad para organizar a la derecha y atraer a votantes que no se consideran estrictamente bolsonaristas. Del mismo modo, el electorado del PT representa desde hace años alrededor del 30 % de los votantes. En el pasado, el lulismo –que históricamente tiene una capacidad de consenso electoral superior a la de su partido– lograba ampliar significativamente su apoyo electoral más allá de la izquierda propiamente dicha. Este año, al menos en la primera vuelta, ha sido el bolsonarismo el que ha logrado recabar un mayor consenso en casi todos los sectores de la población. Se pueden plantear al menos dos hipótesis, complementarias entre sí, para intentar explicar esta situación. 

La primera hipótesis, de orden concreto, nos devuelve a la economía: la política económica de todo el gobierno de Lula se ha caracterizado por una ortodoxia fiscal y monetaria que ha limitado en gran medida la capacidad de inversión pública. El gobierno se ató las manos al aprobar por ley un arcabouço fiscal [marco fiscal]. La regla es sencilla en su lógica: el gasto público solo puede crecer el 70 % de lo que crezcan los ingresos, y nunca más del 2,5 % por encima de la inflación. Aun así, la deuda pública no ha dejado de subir: pasó del 73,8 % del PIB en diciembre de 2023 al 82,9 % en agosto de 2026, casi 10 puntos más. Está muy por debajo de la media de los países de la OCDE (el 110,5 % del PIB en 2023), pero los mercados financieros y sus altavoces en los medios de comunicación la han convertido en uno de los temas principales del debate político (y le dieron así a Flávio Bolsonaro la oportunidad de comprometerse a «alcanzar, en el menor plazo posible, la estabilidad y, posteriormente, la reducción de la ratio deuda/PIB» mediante un brutal programa de ajuste). En realidad, Brasil no sufre una crisis de deuda, sino una crisis del costo de la deuda, tal y como explican economistas ajenos a los mercados financieros, como Pedro Paulo Zahluth Bastos, profesor en la Universidad Estatal de Campinas (Unicamp). El tipo de interés básico brasileño (Selic), des 13,75 % anual, es uno de los más altos del mundo en términos reales. El pago de intereses de la deuda pública absorbe así casi el 9 % del PIB, alrededor de 1,2 billones de reales al año, lo que equivale a unos 240.000 millones de dólares. Es más del doble de lo que paga Italia, cuya deuda es, sin embargo, un 60 % mayor que la brasileña. Los altísimos tipos de interés que paga el Estado brasileño imponen, por un lado, una limitación real de los recursos disponibles para invertir (por ejemplo, para mejorar la calidad de los servicios públicos básicos, como la salud, la educación, el transporte público y la seguridad social) y, por otro lado, son uno de los principales mecanismos de concentración de la riqueza del país en manos de una elite muy reducida, que concentra gran parte de los títulos de deuda interna: el 1 % más rico de la población poseía un 46,8 % de la riqueza total del país en 2021. Se trata de un viejo problema de Brasil que los gobiernos del PT, desde 2003 hasta la actualidad, nunca han enfrentado realmente, en un intento –fracasado– de evitar una confrontación con los poderes fácticos del país. Tras el inesperado éxito de Flávio Bolsonaro, la Bolsa de San Pablo subió el 7 % en un solo día y el real se apreció frente al dólar: a pesar de los buenos resultados macroeconómicos del gobierno de Lula III (y de los dos anteriores), los grandes grupos que influyen en el mercado financiero brasileño se han decantado abiertamente por la extrema derecha.

Desde un punto de vista abstracto, Lula y el PT han perdido la capacidad de hacer soñar –de vivir «sin miedo a ser felices», como cantaba el inolvidable eslogan de la primera campaña electoral de 1989– y han renunciado en gran medida a cualquier intento de disputar seriamente la hegemonía cultural y la práctica político-económica neoliberal que prevalece en el país ya desde hace décadas. Mientras que la extrema derecha libra a diario una batalla cultural sin cuartel para imponer sus valores reaccionarios, la izquierda se ha acomodado a la tímida gestión de lo que considera posible, renunciando a cualquier tipo de rebeldía contra el statu quo, en el sentido que sugiere Pablo Stefanoni en su ya clásico libro ¿La rebeldía se volvió de derecha? (2021). Para decenas de millones de brasileños, Lula se ha convertido él mismo en la encarnación del establishment, del sistema, en un país que no les permite hacer realidad sus sueños ni llevar una vida menos dura. Flávio Bolsonaro, por el contrario, a pesar de todos los escándalos que lo salpican a él y a su familia, logró venderse como una alternativa de ruptura, aunque lleva décadas en la política. Salvando las diferencias que existen entre la situación de los dos países, se trata, en esencia, de la misma dinámica política y psicológica que, en 2024, llevó a amplios sectores de las clases populares de Estados Unidos a votar por Donald Trump en las elecciones presidenciales, o a abstenerse. 

En abril de 2026, en la Primera Reunión de la Movilización Progresista Global organizada en Barcelona por el gobierno español de Pedro Sánchez, Lula había reconocido el problema. El proyecto neoliberal, dijo Lula, «prometió prosperidad y trajo hambre, desigualdad e inseguridad». El progresismo «logró avanzar en la agenda de los derechos», pero «no consiguió superar el pensamiento económico dominante» y, en lugar de romper con ese modelo, «sucumbió a la ortodoxia» y se convirtió en gestor de sus propios males. «Los gobiernos de izquierda ganan las elecciones con un discurso de izquierda y practican la austeridad», reconoció Lula. La extrema derecha, por su parte, supo «sacar partido del malestar generado por las promesas incumplidas», canalizando la frustración y la desesperanza de quienes fueron abandonados por el sistema y por el progresismo que prometió cambiarlo. «Nos hemos convertido en el sistema», admitió Lula. Seis meses después, de la forma más dramática, los brasileños han confirmado ese diagnóstico en las urnas. 

En busca de la remontada

La posibilidad de dar vuelta el resultado del 4 de octubre, según revelan desde el comité de campaña de Lula, pasa ahora por una mayor movilización de los militantes de izquierda, pero también, y quizás sobre todo, por el miedo. Es decir, se trata de convencer a decenas de millones de indecisos y abstencionistas de que el regreso de Bolsonaro a la Presidencia pondría en peligro mortal los programas sociales del gobierno, empeoraría los servicios públicos, deterioraría los sueldos y las jubilaciones, dañaría sus vidas y cualquier posibilidad de ascenso social. En la segunda vuelta de las elecciones presidenciales de 2006 (Lula contra Alckmin, el actual vicepresidente) y de 2014 (Dilma Rousseff contra Aécio Neves), esta estrategia funcionó. Una semana después de la primera vuelta, se celebraron enormes manifestaciones en las grandes ciudades brasileñas, como la izquierda brasileña no había logrado organizar en décadas. En muchos casos, se trató de manifestaciones autoorganizadas por una gran variedad de grupos, grandes y pequeños, de militantes –a menudo muy jóvenes– y no por las estructuras partidarias ni sindicales. Las consignas y pancartas contra Bolsonaro se entremezclaban con banderas arcoíris y palestinas, atuendos de las religiones afrobrasileñas, grupos de samba y pancartas que reclamaban la defensa de las universidades públicas y la reducción de la jornada laboral. Todo ello, con una energía, e incluso una alegría, que habían brillado por su ausencia en los últimos años. 

Las encuestas indican que la ventaja de Flávio Bolsonaro empezó a reducirse. Pero el tiempo disponible es muy corto. Al último gigante de la izquierda latinoamericana solo le quedan ahora unos pocos días para intentar evitar que las limitaciones, los errores y las vacilaciones de su tercer mandato acaben entregando Brasil a la extrema derecha más reaccionaria. Están en juego el futuro de la democracia en un país de 215 millones de habitantes, la protección de la Amazonia y la posibilidad de resistir los ataques de Trump contra la soberanía de América Latina. Para Luiz Inácio Lula da Silva, esta será la última y más difícil prueba de supervivencia. 

 

[Imagen: Anadolu/Getty Images.- fuente: www.nuso.org]