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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Respeitar o leitor é publicar menos, para Milton Hatoum

Escritor participou do evento literário Babell no Porto e lançou em Lisboa o segundo volume do trio de romances com que pretende evitar o branqueamento da ditadura militar e do pesadelo Bolsonaro.

A memória é a matéria-prima para a trilogia de Milton Hatoum sobre os tempos da ditadura militar no Brasil. O segundo volume, 'Pontos de Fuga', sucede a 'A Noite de Espera,' ambos já publicados em Portugal.

Escrito por João Céu e Silva 

O escritor brasileiro Milton Hatoum esteve em Lisboa para lançar o romance Pontos de Fuga, o segundo volume da trilogia O Lugar Mais Sombrio, com que faz o retrato literário do período da ditadura militar brasileira entre 1964 e 1985. Se Hatoum considerava esse tempo como desaparecido, a eleição de Bolsonaro fez com que o revivesse numa nova época difícil: “Quando comecei a escrever esta trilogia não sabia que íamos reviver esse pesadelo com um capitão, que hoje está preso por vários crimes. Foi um dos períodos mais conturbados da nossa política porque abrangeu o país todo ao dar voz e liderança aos extremistas, uma época em que duas situações surpreenderam: a primeira, saber que há 30% de brasileiros de ideologia extremista e muito ignorantes; a segunda, de que Bolsonaro e os seus adeptos conseguiram acabar com a direita brasileira tradicional por ter sido cooptada pelo radicalismo. O que é muito ruim para o Brasil.”

A escrita da trilogia não é um projeto de agora ou devido à recente realidade política brasileira, antes de quando decidiu passar a livro um tempo que viveu e que considera merecer um romance (foram três) a recordar aqueles tempos de estudante universitário contestatário. Explica as suas razões: “O terceiro volume foi publicado no Brasil recentemente, chama-se Dança de Enganos, e fecha uma trilogia que pretende aclarar alguns aspetos de personagens que estavam um pouco ocultas nos dois livros anteriores, bem como iluminar certas situações políticas e sociais vividas então, de modo a completar o retrato total sobre um período que eu queria lembrado.”

Milton Hatoum tem uma obra vasta, mas confessa que tem muito por publicar: “Quero reescrever algumas coisas e é nisso que estou empenhado. Tenho muitos inéditos de que gosto, mas também muitos que deitei fora.” Já há duas décadas o escritor era definido como alguém que “escrevia muito, mas publicava pouco”. Hatoum justifica essa situação de ser um escritor bissexto: “Continuo a ser assim porque escrevo muito, mas reescrevo o tempo todo. Porque escrever é reescrever, daí que em 40 anos de trabalho só tenha concluído o primeiro romance em 1987. Quando morei em Paris, nos anos 1980, ouvi uma vez Roland Barthes responder a uma pergunta sobre a crise do romance assim: «Não há crise do romance, o que existe é um excesso de livros». E eu concordo, portanto, poderia ter publicado mais três ou quatro livros, mas acho que devemos respeitar o leitor. Até porque vivemos o tempo de uma grande massificação em tudo e, como qualquer outro produto, o livro virou uma mercadoria igual a todas as outras. A atual massa de leitores não consegue discernir o que é um bom livro daquele que é de autoajuda ou do que foi escrito para ser um best-seller. É o resultado de uma massificação que fez caminho na cultura, área onde os melhores livros não são os mais vendidos. Com o tempo, acredito, os bons livros alcançam um público leitor razoável.”

A paciência para esperar pelo leitor de cada livro parece ser uma virtude no escritor, como se pode depreender: “Eu publiquei um romance intitulado Dois Irmãos de que a crítica gostou muito. Tanto no Brasil como noutros países, como foi o caso do Líbano (Milton Hatoum é de ascendência libanesa), e não foi um best-seller instantâneo, mas ao longo dos últimos 25 anos tem sido muito lido. No Brasil, alcançou um público de mais de 300 mil leitores, o que para o país é muito. Ou seja, a minha opinião é de que o passar do tempo da leitura é importante para a literatura, porque a literatura fala basicamente sobre a passagem do tempo, os conflitos, a vida dos personagens, o que elas fazem, como pensam. Tudo isso existe no tempo e a leitura também, daí que o romance peça um tempo de leitura.”

Pode dizer-se que a principal inspiração dos livros de Hatoum é a memória. É o caso desta trilogia, como confirma o escritor: “A memória é a musa tutelar da literatura. Não é por acaso que o segundo volume termina com um verso do Jorge Luis Borges: «O esquecimento é uma das formas da memória». Trata-se de um jogo entre o lembrar e o esquecer, de uma resposta ao discurso oficial como é o dos militares que chamam de revolução o que foi uma ditadura. Daí que diga que "a memória é uma irmã para mim e que espere pelo passar do tempo para escrever os romances. Ou seja, o projeto desta trilogia começou em Madrid, em janeiro de 1980, mas rapidamente percebi que os acontecimentos estavam muito próximos da minha vida. Então, decidi escrever Relato de um Certo Oriente, que remete a um tempo mais atrás, os das memórias da minha infância. Preferi esperar quase 40 anos para começar a escrever e publicar estes livros da trilogia.”

Em muitos escritores existe uma incapacidade de obrigar os personagens a serem aquilo que o escritor queria. Como é no caso de Hatoum, os personagens fogem às ordens do escritor? Sintetiza: “Saramago disse uma vez que não acreditava nessa autonomia dos personagens. Tal como ele, eu quero que sejam o que preciso deles, portanto, antes de começar o romance penso muito nos personagens. Ao querer conhecê-los, evito a maior parte das surpresas possíveis, mesmo que uns se atrofiem e outros cresçam.”

A propósito da memória, lembra-se a Hatoum a alteração da sua cidade natal, Manaus, e de como a recorda: “Aquela Manaus que conhecia já não há. Foi um tempo que existiu e que agora só está na nossa memória. Um mundo que acabou com a infância, que é para muitas pessoas uma espécie de paraíso perdido. Manaus não foi destruída como Lisboa pelo Terramoto de 1755, apenas pela ganância humana que é a especulação imobiliária, tanto que um jovem hoje nunca será capaz de imaginar a cidade encantadora da década de 1960, nem sequer a Brasília da trilogia, porque também não se reconhece mais o plano-piloto de Lúcio Costa e a arquitetura de Oscar Niemeyer, em muito destruídos durante a ditadura. Não foi apenas o tempo do fim da democracia, a censura, a prisão e a tortura e o assassinato de muitos brasileiros que lutaram pela liberdade, foi também uma época muito nociva à educação pública e às cidades brasileiras. Esta trilogia é o meu esforço de recordar um tempo que só existe na memória. 

                                                                        PONTOS DE FUGA

Milton Hatoum

Companhia das Letras

312 páginas

[Fonte: www.dn.pt]

terça-feira, 7 de abril de 2026

Elogio à leitura em tempo de eliminar Saramago

Chegou às livrarias um quarteto imperdível: Thomas Mann, Espinosa, Wittgenstein e Proust. Bons exemplos de escritores cuja obra sobreviveu a quem a quis apagar, como a religião e o nazismo.

O escritor Thomas Mann em 1936, momento em que se dá ascensão do nazismo e a proibição de vários livros.

Escrito por João Céu e Silva

O leitor português recordará Thomas Mann por várias vias: a do romance, devido à Montanha mágica, a da novela devido à Morte em Veneza, dois entre tantos outros títulos que estão a ser reeditados em Portugal após os direitos de autor dos seus livros terem entrado no domínio público. No entanto, este regresso de Thomas Mann tem um benefício inesperado, a reunião de muitos dos seus ensaios e a tradução para a língua portuguesa numa edição de responsabilidade e prefaciada pelo germanista da Universidade de Coimbra, António Sousa Ribeiro.

O tradutor começa por enquadrar o género ensaio no longo prefácio que antecede a recolha de dezoito textos, que “a partir do gesto fundador de Montaigne, havia muito que ganhara direito de cidadania nas letras europeias”, e relacionar o registo com a exaustiva produção de Mann. O conjunto de ensaios começa com A minha vida num relance, texto solicitado pela Academia Sueca após ter recebido o Nobel da Literatura, e no qual desfaz o provável bom comportamento que um escritor galardoado deveria ter tido enquanto aluno: “Detestava a escola e, até ao final, não estive à altura das suas exigências.” Justifica este comportamento pela sua “indolência”, entre outras razões, acabando por confessar que tudo teve a ver com a escolha errada do curso. Percebe-se nestas “confissões” que a prática literária estava bem mais certa para Mann do que ser comerciante, como era suposto.

Sousa Ribeiro abre com o seu prefácio as portas para as quinhentas páginas que se seguem deste volume intitulado, simplesmente, Ensaios e consegue oferecer um bom roteiro para o que se irá conjugar entre o autobiográfico e o futuro de uma carreira como a conhecemos. É interessante rever um percurso literário e as sensibilidades do escritor; como uma narrativa inicial, Perdida; de outra, o pequeno senhor Friedemann, até publicar Os Buddenbrooks em dois volumes. A partir daí, tudo o mais que veio a publicar é história. Como refere o prefaciador, estamos perante um autor que após um discurso em 1922, a propósito do assassínio de Walter Rathenau, fez com que Thomas Mann “traduzisse a adoção definitiva da figura do intelectual público” e que foi sempre prevalecendo numa “figura de escritor associada com clareza à defesa da ideia republicana”. Após o exílio no ano de 1933, pode ler-se nestes ensaios, Mann impôs a sua visão crítica do nazismo, regime que em muito contribuiu para o romance O doutor Fausto. Daí que este Ensaios, tal como a leitura das suas alocuções aos microfones da rádio durante a II Guerra Mundial, devam merecer uma boa atenção nestes tempos em que o mundo está perante uma complexa encruzilhada. 


ENSAIOS

Thomas Mann

Relógio D’Água

504 páginas


O historiador Ian Buruma, especialista no Japão e na China, dedicou-se a um filósofo neerlandês que diz muito aos portugueses, Espinosa, e publicou há dois anos um volume intitulado O Messias da Liberdade, recentemente traduzido por Jorge Melícias. O texto começa com o capítulo O Espinosa de cada um de nós e termina com Espinosismo, atravessando entretanto vários momentos da vida e do pensamento deste protagonista, como o relatado no capítulo Nascido para o confronto. Tudo começa pelo fim do filósofo: “Os ossos de Benedictus, ou Baruch ou Bento de Espinosa estão enterrados nos terrenos de uma bela igreja protestante barroca na localidade neerlandesa de Haia”. As páginas que se seguem pretendem contar o significado do que foi a vida do filósofo que tem influenciado tantos pensadores (Marx e Freud, por exemplo); relatar a grande crise filosófica e teológica de 1656, que prestigiou em muito as suas teorias no confronto com as de Descartes, ou a relação epistolar com Leibniz, entre muitas particularidades a que Buruma dá atenção neste trabalho biográfico e filosófico. Curioso o aviso que deixa nas últimas páginas: “A sua defesa da liberdade de pensamento foi absoluta”.     


Ian Buruma

ESPINOSA – O MESSIAS DA LIBERDADE

Quetzal

296 páginas


Se se procura um dos filósofos mais desconcertantes e ao mesmo tempo herdeiro da filosofia tradicional, uma das respostas mais interessantes está em Ludwig Wittgenstein. Daí que esta espécie de enciclopédia intitulada Ludwig Wittgenstein - filosofia na era dos aviões (tradução de Jorge Melícias) seja muito oportuna para quem queira em poucas e certeiras penadas conhecer o seu pensamento e, principalmente, a sua personalidade. O autor, Anthony Gottlieb, faz uma resenha bem extensa do percurso do filósofo, mostrando a sua difícil forma de ser, por exemplo, citando Keynes aquando do regresso de Wittgenstein a Cambridge: “Bem, Deus chegou”. Muitas das boas páginas desta biografia devem-se ao relato da relação entre o filósofo e Bertrand Russel, uma cumplicidade que viria a terminar menos bem. Não será por acaso que sobre Wittgenstein um colega tenha dito: “Fez com que a nossa geração de filósofos se tornasse insegura em relação à própria filosofia”. 


LUDWIG WITTGENSTEIN

Anthony Gottlieb

Edições 70

205 páginas

 Apesar de se terem passado 120 anos sobre a escrita de Elogio da leitura, o texto e futuro prefácio para um livro de John Ruskin, o que nele escreveu Marcel Proust ainda hoje tem uma enorme atualidade. Quanto mais não seja porque permite aos leitores de agora compreenderem o significado dos clássicos e de como os antigos autores-escultores utilizavam a língua do seu tempo e o que nela incorporaram a partir da sua capacidade inventiva. Feito de poucas páginas, será o melhor volume para contrariar os desmandos de quem quer diminuir José Saramago e a única obra em português capaz de ter interessado àquele prémio chamado Nobel.

 


ELOGIO DA LEITURA

Marcel Proust

Guerra & Paz

101 páginas

A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

Desde há um mês que a editora Quetzal está a publicar várias obras numa coleção a que deu o nome de A biblioteca de Alexandria. Os primeiros dois volumes que chegaram às livrarias foram A vida de Lazarillo de Tormes e suas fortunas e adversidades, datado de 1554 e de autoria desconhecida, e o clássico Robinson Crusoe, datado de 1719 e de Daniel Defoe (respectivamente traduzidos por Margarida Amado Acosta e João Pedro Vala). Seguindo a proposta que deu origem à biblioteca mais importante da antiguidade, a de preservar o conhecimento e o saber através de textos impressos, esta coleção vai ter um terceiro volume ainda esta semana, o romance A cidade e as serras de Eça de Queiroz.

As histórias que contam são bem conhecidas: a vida do jovem pobre Lázaro, que convive com uma sociedade pouco justa e humana, numa narrativa que tem seduzido milhões de leitores desde há quatro séculos; com menos cem anos de publicado que o anterior romance, a difícil sobrevivência de um náufrago transformou-se num clássico da literatura da aventura e de carácter lutador; datado de 1901, a vida de Jacinto tem interessado e divertido com o seu humor uma enorme corte de leitores que “viajam” de Paris para o Douro com um protagonista tipicamente português.







[Fonte: www.dn.pt]

segunda-feira, 30 de março de 2026

Aprendizagens essenciais. Romances de José Saramago deixam de ser leitura obrigatória no 12.º ano

Proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais, em consulta pública até 28 de abril, prevê que deixe de ser obrigatório estudar o único autor português distinguido com o Nobel da Literatura

Escrito por Rui Frias

 

As obras "Memorial do convento" e "O ano da morte de Ricardo Reis", de José Saramago, vão deixar de ser de leitura obrigatória no 12.º ano, segundo a proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais atualmente em consulta pública até 28 de abril.

O documento, elaborado pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação, prevê uma maior flexibilidade na escolha das obras literárias, permitindo aos professores optar entre diferentes autores. Entre as novidades está a introdução de "Um deus passeando pela brisa da tarde", de Mário de Carvalho, como alternativa possível no currículo.

Na prática, os docentes passam a poder escolher entre um romance de Saramago ou a obra de Mário de Carvalho, deixando de existir a obrigatoriedade de abordar o único autor português distinguido com o Nobel da Literatura, prémio que recebeu em 1998.

Apesar desta alteração, mantêm-se como obrigatórias no 12.º ano obras de Fernando Pessoa e o conto “George”, de Maria Judite de Carvalho. Já no 11.º ano, continuam no programa autores como Padre António Vieira, Almeida Garrett, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e Antero de Quental, reforçando a presença de clássicos da literatura nacional.

A revisão curricular integra um conjunto mais vasto de mudanças, incluindo a introdução de Educação Física logo no 1.º ano e a manutenção do ensino de Inglês a partir do 3.º ano.

As alterações deverão entrar em vigor no ano letivo 2027/2028, após a fase de consulta pública, que o Governo descreve como uma etapa de “aperfeiçoamento e validação” com contributos da comunidade educativa e da sociedade civil. 

 

[Fonte: www.dn.pt]

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

António Lobo Antunes: escribir para enfrentar el tiempo

En sus libros, António Lobo Antunes (1942-2026) se alejó de las formas previsibles: sus páginas fluyen con el ritmo caudaloso de la conciencia que habla sin pedir permiso. 


Escrito por Mauricio Montiel Figueiras 

La muerte de António Lobo Antunes cierra una de las aventuras narrativas más potentes de la literatura europea de las últimas décadas. Con él desaparece una voz que nunca aceptó la comodidad de las formas previsibles ni la cortesía de las narraciones bien alineadas. Sus libros fueron otra cosa: habitaciones llenas de espectros y murmullos, corredores donde el recuerdo se bifurca, páginas que fluyen con el ritmo caudaloso de la conciencia que habla sin pedir permiso.

Antes de convertirse en novelista fue médico. Y antes de ejercer la psiquiatría en Lisboa fue enviado como médico militar a la guerra colonial portuguesa en Angola entre 1971 y 1973. Aquella experiencia –la visión cotidiana de la violencia, el cansancio moral de un imperio que ya se estaba desmoronando– dejó una marca profunda en su imaginación. No fue una simple anécdota biográfica sino la fractura original de su literatura. Quien lea sus libros percibe pronto que el universo que describen está atravesado por esa grieta: la comprensión de que la historia se infiltra en la intimidad de las personas como una enfermedad lenta e insidiosa.

De esa herida surgieron los primeros libros que colocaron al autor en el mapa literario. En Memoria de elefante (1979) y En el culo del mundo (1979) la experiencia africana aparece como un recuerdo que no deja de supurar. Los narradores hablan desde una especie de vigilia febril, como si el pasado y el presente hubieran decidido mezclarse para siempre. En esas páginas la guerra no es heroica ni épica: es una sucesión de noches largas, de conversaciones que se deshacen en alcohol, de una juventud que descubre demasiado pronto la inutilidad de ciertas palabras como destino, gloria y patria.

A partir de ahí su obra se volvió cada vez más ambiciosa hasta abarcar una treintena de títulos. Novelas como Conocimiento del infierno (1980), Manual de inquisidores (1996), Exhortación a los cocodrilos (1999), No entres tan deprisa en esa noche oscura (2002) y La última puerta antes de la noche (2025) ampliaron ese territorio donde la memoria personal y la historia portuguesa se entrecruzan hasta erigir una arquitectura compleja. Cada libro parece escrito por una multitud: voces familiares, recuerdos infantiles, frases escuchadas en hospitales o cuarteles, ecos de un país que todavía dialoga con los fantasmas de su pasado imperial.

Decir que su estilo es laberíntico no es gratuito ni peyorativo. Las frases de Lobo Antunes avanzan como túneles: dilatadas, sinuosas, surcadas por digresiones que de pronto revelan una imagen inesperada. Leerlo implica aceptar que la narración no seguirá un camino recto. El lector se interna en un territorio donde los recuerdos irrumpen sin aviso y los personajes hablan desde diferentes estratos de la conciencia. Por eso su obra suele colocarse junto a la de autores considerados arduos como el húngaro László Krasznahorkai. Ambos comparten una desconfianza radical hacia la claridad artificial de ciertas narraciones contemporáneas. Sus libros no pretenden simplificar el mundo sino reproducir su confusión, su exceso, su densidad moral. Este rasgo se halla igualmente presente aunque de modo quizá más accesible en las fabulosas recopilaciones de textos que Lobo Antunes entregó con periodicidad semanal al diario O Público entre 1993 y 1998: Libro de crónicas (1998), Segundo libro de crónicas (2001) y Tercer libro de crónicas (2006).

Durante varios años el nombre de Lobo Antunes apareció inevitablemente en cualquier conversación sostenida en Portugal en torno del Premio Nobel de Literatura. Cuando el galardón fue otorgado a José Saramago en 1998, muchos celebraron la consagración internacional de la literatura lusitana. Sin embargo, para una parte considerable de los lectores más rigurosos el candidato evidente era Lobo Antunes. Donde Saramago construía alegorías transparentes –ingeniosas pero a menudo cansinas y predecibles–, Lobo Antunes exploraba el desasosiego del alma humana. La diferencia entre ambos no es solo estética. En las novelas de Lobo Antunes la literatura funciona como una excavación: cada frase intenta penetrar un poco más en los meandros de la mente, en la culpa, en la fragilidad de los afectos. Sus páginas no buscan persuadir al lector de una idea sino sumergirlo en un estado mental que muchas veces se extravía en el pantano del delirio.

Sus libros de títulos por lo general extensos e intensamente poéticos permanecen como un archivo de voces que hablan entre sí, pero también quedan como un desafío para el presente. En una época dominada por la prisa editorial, por novelas concebidas para consumirse entre dos salas de embarque y olvidarse antes de que el avión toque tierra –la proliferación de lo que con demasiada indulgencia se llama literatura de aeropuerto–, la obra de Lobo Antunes recuerda que la literatura auténtica exige otra velocidad y otra paciencia. Sus novelas no están hechas para distraer el viaje sino para alterar la respiración del lector, para obligarlo a permanecer en el interior de una frase hasta que el lenguaje y la rememoración revelen algo que se preferiría no saber.

Tal vez por eso su legado resulta hoy más incómodo que nunca. Mientras el mercado celebra historias fácilmente digeribles, los libros de António Lobo Antunes continúan recordando que cuando es verdadera la literatura no sirve para pasar el tiempo sino para enfrentarlo. Y en ese enfrentamiento –calmo, obstinado, oscuro– reside la única forma de resistencia que todavía le queda a la novela ante la andanada banal de la era digital.  

  

[Foto: Georges Seguin (Okki), CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons - fuente: www.letraslibres.com]

sábado, 7 de março de 2026

Addio al «rivoluzionario» Antonio Lobo Antunes, scrittore e medico che raccontò un altro Portogallo

Si è spento a Lisbona, la sua città, a 83 anni, dopo aver narrato le esperienze vissute da psichiatra nelle colonie portoghesi in Africa 

António Lobo Antunes, 2018

“Rivoluzionario” è una delle parole che ritornano più spesso in queste ore sulla stampa portoghese per parlare di António Lobo Antunes, tra i più importanti romanzieri lusitani contemporanei (secondo solo a Josè Saramago), morto oggi a 83 anni a Lisbona, la sua città. 

Medico psichiatra, veniva dal quartiere borghese di Benfica, a sua volta figlio di un affermato neurologo. Lobo Antunes si era da poco laureato in Medicina quando fu distaccato come medico militare in Angola, all’epoca colonia portoghese, su uno dei vari fronti delle guerre che il regime dittatoriale di Salazar combatté nei territori africani ribelli fino al 1974. Un'esperienza che, vien quasi da dire, Lobo Antunes visse per raccontarla, giacché proprio lui dichiarò in un'intervista: “Non mi andava di morire in guerra perché ero sicuro che avrei scritto libri come nessuno aveva mai scritto prima”.  

E sarà proprio l'esperienza della guerra e del ritorno a casa da reduce a ispirare molti dei suoi romanzi, tutti pubblicati già in democrazia. Quello d'esordio, Memoria da elefante, venne respinto da diversi editori prima di uscire, con grande successo, nel 1979, quasi in simultaneo con un altro suo importante libro sulla guerra d'Africa, In culo al mondo, che in Italia sarà tradotto da Maria José de Lancastre per Einaudi.  

Seguiranno decine di altri titoli: Conoscenza dell'inferno, Le navi (che rivede la storia imperiale del Portogallo alla luce del dramma dei retornados, i portoghesi che negli Anni '70 dovettero lasciare in fretta le colonie), Trattato delle passioni dell'anima, Lo splendore del Portogallo (titolo che ironizza su un verso dell'inno nazionale per raccontare un'altra storia di alienazione). Fino all'ultimo, La vastità del mondo, uscito nel 2022 e seguito un anno dopo da un'altra delle sue raccolte di articoli pubblicati regolarmente sui periodici e che erano piccoli pezzi narrativi, veri laboratori per le sue storie maggiori. 

António Lobo Antunes, 2019 (ansa)

“Esigente, ossessivo, laborioso, geniale”, scrive di lui oggi il settimanale Expresso. Abbandonò presto la professione di psichiatra per dedicarsi esclusivamente alla scrittura, ma a lungo continuò a tenersi riservato un piccolo studio nel “suo” ospedale psichiatrico, a Lisbona, quasi a voler rimanere vicino alle pieghe più nascoste e dolorose della mente umana, che ha saputo restituire in uno stile espressionista e una lingua densa e complessa, ricorrendo spesso al monologo interiore, al flusso di coscienza e a piani narrativi sovrapposti.  

Uno stile che ha fatto di António Lobo Antunes uno degli autori portoghesi maggiormente letti e tradotti nel mondo. Più volte candidato al Nobel, che però non ha mai vinto, ha tuttavia ricevuto numerosi premi letterari internazionali, fra cui il Camões nel 2007 (massimo riconoscimento per gli scrittori di lingua portoghese), il Premio europeo di letteratura nel 2001, il premio Juan Rulfo nel 2008 e in Italia il Bottari Lattes-Grinzane, nel 2018. Il Consiglio dei ministri ha decretato il 7 marzo giornata di lutto nazionale, mentre il presidente della Repubblica ha annunciato che gli conferirà, a titolo postumo, il Gran Collare dell'Ordine di Camões, la più alta onorificenza riservata a chi ha reso servizi rilevanti alla diffusione della lingua portoghese nel mondo.  

Al cordoglio generale si unisce anche la società sportiva del Benfica, che lo definisce “uno dei più illustri sostenitori del club”. In una delle sue dichiarazioni più discusse, capace com'era di scatenare accese polemiche su temi controversi, ebbe a dire che in guerra, laggiù in Africa, uno dei momenti in cui si otteneva il cessate il fuoco era quando giocava il Benfica e tutti, da una parte e dall'altra della barricata, si attaccavano alla radiolina per seguire la squadra che portava il nome del quartiere in cui era nato e cresciuto.

 

[Fonte: www.rainews.it]

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Uma questão de vírgula

 

 

Escrito por Maria do Rosário Pedreira 

Li no Linkedin um texto muito bonito de um escritor-fantasma chamado Pedro Matos Viegas (sim, ele identificava-se como ghost writer de figuras públicas) um texto sensível e bonito em defesa da vírgula antes de um vocativo e chamado "Não deixem a vírgula morrer". 

Para quem não estudou estas coisas no Secundário, posso dizer-vos que se trata da vírgula que se põe em frases como "Parabéns, Pedro", "Bom dia, avô" ou "Olá, mãe". A verdade é que nós, que aprendemos que essa vírgula antes do vocativo é obrigatória, não gostamos mesmo nada de a ver ausente em todo o lado, incluindo em títulos de livros e filmes (o nosso amigo que escreve o artigo cita, por exemplo, a longa-metragem Amo-te Teresa). Se virem bem, dizer "Olha, Jorge" é um pedido a Jorge para que olhe para qualquer sítio para onde o falante apontou; enquanto "Olha Jorge" quer dizer que uma terceira pessoa olha para um sujeito chamado Jorge. 

Não é a mesma coisa, como podem confirmar por aqui, e é triste quando alguém que paga um anúncio de página inteira num jornal para felicitar uma pessoa por um prémio ou outra distinção (imaginem um "Parabéns, José Saramago!" inserido num suplemento literário pela sua editora quando ele ganhou o Nobel) não se lembre de incluir a vírgula necessária que, como se queixa o Pedro Matos Viegas, quase nunca está. Por isso, vejam lá se para a próxima não se esquecem da pobrezinha nos vossos textos. Eu espero nunca a comer. Adeus, Extraordinários, até amanhã. 

 

[Fonte: horasextraordinarias.blogs.sapo.pt] 

sábado, 11 de maio de 2024

A literatura que vai à cozinha

                                                O arroz de favas com galinha corada descrito por Eça no romance A Cidade e as Serras

Escrito por Pedro Correia

1

Come-se pouco e mal na literatura portuguesa. E bebe-se ainda pior.

Percorremos centenas e centenas de páginas escritas pelos nossos mais reputados escritores sem deparar com um almocinho homérico ou um jantarinho opíparo. Falta vibração latina aos literatos lusos na hora de comer.

Por motivos que não vêm ao caso, tenho percorrido nas últimas semanas largas dezenas de obras de ficção de autores nacionais sem deparar com uma só refeição memorável. Tirando as excepções da praxe, Eça e Camilo sobretudo, dir-se-ia que os nossos romancistas fizeram votos perpétuos de castidade gastronómica.

Pessoa, Torga, Miguéis, Ferreira de Castro, Vergílio Ferreira, Régio, Sophia, Namora, Ruben A, Sena, Sttau Monteiro, Abelaira, Urbano, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Santareno, Nuno Bragança: obra após obra, capítulo após capítulo, página após página sem um repasto digno de nota.

O mesmo para Saramago ou Lobo Antunes. De Aquilino, retive sobretudo as trutas – o que me parece coisa pouca.

Já nem menciono os neorrealistas puros e duros - um Redol, um Soeiro, um Manuel da Fonseca – para quem a frugalidade era uma bandeira e qualquer comezaina soava a pecado mortal no Portugal salazarista.

2

Desde quando a gula ficou arredada das letras pátrias?

Não era assim na época e na arte de Camilo, que nos legou inesquecíveis parágrafos de volúpia refeiçoeira – como bem documentou José Viale Moutinho na sua obra Camilo Castelo Branco e o Garfo (Âncora Editora, 2013). Ou nas incontáveis incursões de Eça pelos prazeres da boa mesa, culminando na ascensão de Jacinto a Tormes, onde comeu o melhor arroz de favas da sua vida.

3

Gostava que a literatura portuguesa se reconciliasse com a gastronomia, seguindo o excelente exemplo desses nossos maiores.

Gostava que nos legasse manjares perpétuos, como a magnífica paelha real invocada por Manuel Vázquez Montalbán no seu romance Os Pássaros do Sul (Los Mares del Sur, 1979) – «a do país autêntico, a que se fazia antes de ter sido corrompida pelos pescadores ao afogarem peixe em refogado». Com os ingredientes descritos assim: «Meio quilo de arroz, meio coelho, meio frango, um quarto de quilo de bajocons [variedade de feijão verde catalão], dois pimentos, dois tomates, salsa, alhos, açafrão, sal e nada mais. Tudo o resto são estrangeirismos.» Ou as superlativas beringelas gratinadas com gambas e presunto, descritas com minúcia na mesma obra. Tudo regado talvez com um Albariño Fefiñanes, «uma das melhores coisas que nos chegaram através da estrada de Santiago».

4

Gostava que a arte culinária deixasse de ser encarada como um pecado social pelos nossos escritores que cultivam uma prosa ensimesmada e meditabunda, sem vestígios de risos ou alegria. A ditadura passou há muito, mas legou-nos uma atmosfera de clausura que tarda em dissipar-se - como a nossa ficção literária bem demonstra.

Apetece-me pedir aos romancistas: deixem as vossas personagens comer e beber e gargalhar à vontade. Façam como Montalbán. Ou como Rex Stout, um dos mestres maiores da literatura que nunca se fica pela sala ou pelo quarto: entra sempre na cozinha.

«Quando terminámos o sumo das amêijoas, Fritz apareceu com a primeira dose de pastelinhos, quatro para cada um. Um dia gostaria de saber durante quanto tempo conseguiria comer os pastelinhos de Fritz, feitos com tutano de vaca picado, pão ralado, salsa (cebolinho, hoje), casca de limão ralada, sal e ovos, escalfados durante quatro minutos em caldo de carne forte. Se ele os escalfasse todos ao mesmo tempo, ficariam moles depois dos primeiros oito ou dez, mas ele só faz oito de cada vez, e continuam sempre a chegar.»

Deliciosas linhas contidas no romance Clientes a Mais (Too Many Clients, 1960). De ler e chorar por mais.

 

[Foto: blogue Outras Comidas) - fonte: delitodeopiniao.blogs.sapo.pt]

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Pablo Juliá: «Chego e vejo em Lisboa as ruas pintadas com palavras de ordem. Achei lindo. E fotografei»

Até 30 de abril pode visitar no Instituto Cervantes de Lisboa a exposição “Escrituras en Transición” de Pablo Juliá, iniciativa conjunta com a Fundação José Saramago. O DN conversou com o antigo fotógrafo do 'El País' sobre os anos de 1974 e de 1975, os da revolução em Portugal e da morte de Franco em Espanha.

Escrito por Leonídio Paulo Ferreira

Contou numa entrevista ao El País que Felipe González lhe disse que a política não era para si, para se dedicar antes à fotografia. Sente que fez bem em seguir esse conselho do socialista que viria a ser eleito quatro vezes primeiro-ministro espanhol?
Sim, para mim foi o conselho mais significativo e importante. Eu não sabia que a política realmente exige que se tenha um corpo muito duro. Que os políticos estão acostumados a tentar ver tudo o que acontece, de onde vem o punhal, aqueles que te atacam por trás e aqueles que te atacam pela frente. Eu não era bom para isso. E Felipe percebeu [risos].

Na militância clandestina no PSOE, antes da morte de Franco em 1975, começou como fotógrafo, mas então um fotógrafo ativista político?
Completamente. Eu era um ativista político e ao mesmo tempo fazia fotografia. Aliás, liderei a direção fotográfica do El Socialista.

Um jornal clandestino do PSOE?
Sim, o jornal do PSOE. El Socialista era o órgão, digamos, do PSOE. E eu era um fotógrafo. Mas o problema é que eu me importava muito mais com o que estava a acontecer na sociedade  do que com a própria política. E quando Felipe percebeu isso, disse-me: “Vai, vai”.

Nesta exposição tem fotos tanto da transição em Espanha como da revolução em Portugal. Transição e revolução são palavras que só por si mostram que houve uma diferença significativa na forma de os países ibéricos alcançarem a democracia. Quando em Espanha, a 25 de abril de 1974, soube da Revolução dos Cravos, o que sentiu?
Uma emoção tremenda, porque estávamos tão próximos. Finalmente compreendi que a Península Ibérica existia. E disse: este é o esporão para que possamos mudar a Espanha.

Pensou logo que os acontecimentos em Portugal poderiam ter influência em Espanha?
Claro. Achámos que iriam magnetizar a Espanha. E acreditámos nisso durante meses, mas depois vimos que tudo era mais lento, muito mais lento, do que queríamos. Porque aqui houve uma revolução. No nosso caso houve uma transição.

Mas o regime de Franco foi ou não um pouco abalado pela revolução portuguesa?
Sim foi, mas o regime de Franco no último período impôs-se de forma violenta. Viu-se o pior do regime de Franco. É a morte do cisne, que quer matar o que está ao seu redor.

Portanto, não sentiu nenhum ganho imediato de liberdade na Espanha pelo que acontecia em Portugal?
Não. Tornou-se depois até terrível para nós. Porque a polícia veio contra nós de uma forma muito dura.

Tem nesta exposição imagens dos muros em Portugal cobertos de propaganda política. Também fotografou comícios, como um do Partido Comunista. Como foi para si, pela primeira vez, fotografar uma expressão política esquerdista em ambiente de total liberdade?
Chego aqui e vejo todas as ruas pintadas, todos os monumentos pintados, com palavras de ordem. E muitos cartazes. Achei que era lindo. E fotografei. Fui a um comício de Álvaro Cunhal e pus o punho no ar, eu que nunca fui comunista.

Uma componente importante desta sua exposição no Instituto Cervantes de Lisboa são as fotos de escritores que se comprometeram com a democracia. Espanhóis, como Jorge Semprún,  latino-americanos como  Octavio Paz e Gabriel García Márquez, mas também o português José Saramago. Esses escritores já os fotografou enquanto repórter do El País?
Sim. Mas alguns deles também antes. O El País nasceu em 1976, já depois da morte de Franco.

Foi fotógrafo, acima de tudo, de política, pois mesmo estes escritores aqui têm uma forte marca política?
Os fotógrafos faziam tudo. Desporto, sociedade, política. Mas o que eu gostava era de retratos e de política. Foi disso que sempre gostei. Na verdade, todos os fotógrafos queriam ser Helmut Newton. Eu também. Mas não me calhou [risos].

Dos escritores aqui retratados, lidou com algum pessoalmente, por exemplo, com Semprún, com maior profundidade?
Sim, porque Juan Luis Cebrián, o diretor do El País, me mandou  fotografar Semprún, porque achou que eu tinha uma afinidade maior para poder falar com ele. Ele tinha acabado de assumir um cargo num dos governos de Felipe, tinha sido nomeado ministro da Cultura em 1988 e eu fui fazer uma foto no escritório dele, e lá conversamos muito, muito tempo.

E também teve contacto com os mexicanos Carlos Fuentes e Octavio Paz?
Sim, pelo El País. Fotografei-os para o El País.

Ser fotógrafo de um grande jornal dá acesso a muita gente. No caso do El País, não só em Espanha, mas nos países de língua espanhola…
Claro, os meios que podia ter com o El País, nunca poderia ter sozinho. Viajávamos muito naquela época. Essa época do jornalismo foi linda e brilhante, talvez muito mais interessante do que agora. Antes estávamos em muitos lugares e tínhamos um código de identidade. Conversávamos, muitas vezes longamente, e as  nossas fotos falavam de um código de identidade. Hoje isso é muito mais difícil.

No caso de Saramago, quando se conheceram?
Bom, foi em 1993 ou 1994, através de Pilar del Río, andaluza como eu, e também jornalista. Já estavam juntos, já eram um casal. E eu dava-me muito bem com eles. No início, tirei algumas fotos dele nas margens do Guadalquivir. E lembro-me de que ele me disse algo muito forte. Disse-me: “Vocês, fotógrafos, são cegos, os únicos cegos que tiram fotos, mas continuam a ser cegos”. Quando li mais tarde o Ensaio sobre a cegueira, vi uma ligação com essa ideia.

Na tal entrevista ao seu antigo jornal, no ano passado, a propósito  da sua antologia Fotografía y Palabra, em que fala até da sua mulher, Isabel Pozuelo, que foi deputada socialista, e destacou-se, entre outras coisas, pelas leis contra o fumo, refere a sua experiência de fumador de charutos. Sei que teve uma experiência complicada de fumador um dia num encontro com o então primeiro-ministro português Vasco Gonçalves. Pode contar?
Sim. Bem, o problema é que a minha mulher foi a catalisadora da questão do tabaco em Espanha. E eu fumo charuto. Não podia, às vezes, ir com ela porque fumava charuto [risos]. Uns anos antes, numa reunião em Lisboa, no palácio de São Bento, com Vasco Gonçalves, houve um episódio curioso. Vim com Manolo Chávez, que depois foi presidente da Junta da Andaluzia. Havia representantes de todos os grupos políticos de esquerda espanhóis. Entre eles, a  ETA. A ETA político-militar e militar. Eles estavam lá. E mexeram connosco, com os socialistas. E eu fiquei com muita raiva porque tínhamos ali um encontro muito negativo, muito difícil. E carregava no charuto. Na época, fumava-se em  todo o lado. Eu carregava no charuto e a cinza do charuto caiu em brasa e ficou presa num tapete. A fumaça começou a formar-se. Todos pensaram que algo estava a acontecer. Mas pisei a cinza e apaguei o pequeno fogo [risos].

Uma última pergunta. Quando olhamos para a Espanha hoje, falamos de um país dividido, dividido entre esquerda e direita, além do desafio dos separatismos. Confia na força da democracia espanhola para resolver estes problemas? Uma democracia resultado dessa transição que de alguma forma começa em finais de 1975 com a morte de Francisco Franco, depois tem eleições livres e aprovação de uma nova Constituição, e por fim em 1982, o PSOE de Felipe González chega ao governo.
A democracia é a chave para resolver essa divisão. Mas é claro que não gosto dos frentismos que existem no meu país neste momento. É lamentável.

Está a criticar tanto a esquerda como a direita?
Sim. Eu critico ambas. Perdemos a centralidade. O sentido do centro político, que não é um sentido de direita ou de esquerda, mas de centralidade...

Fala da capacidade de assumir compromissos?
Claro, sobre compromissos, sobre ser capaz de realizar coisas. Estamos numa luta suburbana, suburbana, muito ruim, muito feia. Odeio.

 

[Fotos: Rita Chantre / Global Imagens - fonte: www.dn.pt]

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Saramago, 25 anos do Nobel da terra

 

Hoxe, sempre, está de actualidade a obra do primeiro escritor portugués en gañar o máximo galardón da literatura, o home que aprendeu dos avós a arrincar as palabras da terra

Escrito por MALORES VILLANUEVA

Ou día en que se falla o Premio Nobel de Literatura moitas son as apostas sobre os nomes que disputan o prezado galardón e, cando se resolve o misterio, contentámonos con sermos lectoras dalgún libro, como se algo dese triunfo tamén nos pertencese. Dende aquel outubro de 1998, pasaron vinte e cinco anos. Aquel día José Saramago foi o elixido, o primeiro escritor en lingua portuguesa, un autor que nos facía sentir que nós tamén gañaramos o Nobel con el.

A súa traxectoria era incuestionable, aínda que comezase a escribir serodiamente. Antes fora tempo de formación, de devorar páxinas coa fame de quen tardou moito en coñecer a fartura. Así lembraba como mercou o primeiro libro xa con dezanove anos, cos cartos emprestados dun amigo, pois a súa economía era moi precaria. Nunca esqueceu que nacera pobre, que pertencía a unha estirpe dos sen terra, de campesiños que alugaban os seus brazos para subsistir mentres outros se enriquecían. Así as cousas, seus pais emigraron a Lisboa, percorreron pouco máis de cen quilómetros co seu fillo para darlle un futuro mellor, pero mudaron as penurias do agro, polas da urbe. Certo é que, entre todo aquel cemento descubriu as bibliotecas, alí formouse como ávido lector, pois a carestía familiar impediulle ir á universidade.

No seu discurso en Estocolmo, vestido con traxe de gala, recordaba ao home máis sabio que coñecera en toda a súa vida; o seu avó Jerónimo non sabía ler nin escribir, pero naquelas noites de verán en que durmían ao raso debaixo da figueira era quen de transportalo a outros mundos, de crearlle ilusión, fantasía e ganas de saber máis. Cun vocabulario rico, cheo de matices e expresións, relatáballe lendas, aparicións, episodios singulares, e o pequeno José sempre preguntaba: e despois?, así ata que quedaba durmido. Aqueles días de afectos e palabras quedaron nel por sempre, como aquelas paisaxes de saeiros, chopos e nogueiras.

A carón dous que sofren

Ante a corte sueca lembrou tamén os porcos que criaban os avós con todo o esmero; tanto que, cando ía frío, metían os leitóns con eles na cama para darlles calor e que non morresen, pois eran o seu sustento. Nunca renegou das súas orixes e, tanto na súa escrita como na vida, situouse sempre a carón dos que sofren, dos que soportan as inxustizas sociais.

Saramago estudou un oficio, o de cerralleiro mecánico, aínda que axiña abriría as portas do mundo literario. Así, publicou a súa primeira novela en 1947, pero pasou desapercibida e entendeu, coa humildade que sempre o caracterizou, que antes de volver á escrita debía percorrer un longo camiño. Foi tradutor, editor, xornalista no Diário de Notícias e antes delineante ou funcionario de sanidade. A súa militancia comunista, as súas conviccións progresistas e a súa conciencia crítica fixeron que sempre se mostrase comprometido socialmente e tamén na escrita. Nas súas obras rexeita o capitalismo, esa Europa das mentiras que precariza e escraviza, tamén a que mira para outro lado.

Aínda que a primeira novela de éxito foi Memorial do convento (1982), á que seguiron Ou ano dá morte de Ricardo Reis ou História do cerco de Lisboa, será nos anos noventa, con O Evangelho segundo Jesus Cristo, cando alcance a sona internacional, á que axudarían as críticas do Vaticano e a retirada da obra dunha proposta para un premio europeo por orde do Goberno portugués. Axiña afirmou que se exiliaría ante aquela afronta e así o fixo, afincándose na illa de Lanzarote, onde escribiría grandes páxinas xa universais. Non en van alí remata unha das súas xoias literarias, Ensaio sobre a cegueira (1995), que, curiosamente, foi un dos libros máis vendidos na pandemia da covid polos seus paralelismos. Naquelas páxinas relataba o horror dunha pandemia que se estendía e que deixaba as persoas cegas dun momento a outro. Unha crítica a unha sociedade egoísta, que perdeu a moral e que se deshumanizou por completo. Tres anos despois chegou o Premio Nobel e logo outras obras inesquecibles como Todos vos nomes, A caverna ou Ensaio sobre a lucidez.

Naqueles veráns da nenez en que volvía a Azinhaga, á casa dos avós, o primeiro que facía era descalzarse, sentir o lugar ao que pertencía, pisar a terra que o vira nacer a el e aos seus antepasados, ser parte da tribo. Quizais por iso, Saramago escolleu como epitafio a frase final de Memorial do convento: «Non subiu ás estrelas porque pertencía á terra», á terra e á literatura.

 

[Ilustración: Pinto&Chinto - fonte: www.lavozdegalicia.es]