Antes de ir ao que sugere o título desta coluna, quero
trocar mais duas palavras sobre a questão abordada na semana passada.
Relembro isso com uma passagem do texto: "A Andrade
Gutierrez afirmou, por meio de nota, que o acordo...". Como vimos, a
expressão "por meio de nota" foi posta entre vírgulas, mas poderia
ter ficado "solta", sem nenhuma vírgula. Não custa repetir: ou duas
ou nenhuma.
No fim da coluna, afirmei que a extensão da expressão
adverbial pode decidir a escolha (duas vírgulas ou nenhuma). Veja isto:
"Os pesquisadores afirmaram que (,) durante o longo inverno polar (,) os
animais...". A expressão "durante o longo inverno polar",
intercalada, é formada por cinco palavras, o que para muita gente já é motivo
para as vírgulas serem obrigatórias.
De fato, as gramáticas tradicionais costumam dizer que
"expressões adverbiais de três ou mais 'corpos' são necessariamente
virguladas". Essa "norma", que chega a ser um exagero, não é tão
matemática assim. Quando intercaladas, expressões adverbiais longas (cá entre
nós, o conceito de "longo" é um tanto subjetivo) costumam mesmo
aparecer entre vírgulas. Mas o que vem a ser "longo" nesse caso?
Entra aí uma coisa chamada "bom-senso".
Às vezes, mesmo curtas, essas expressões são virguladas, para
serem enfatizadas: "São plausíveis as avaliações de que, no momento, a
proposição da matéria mal disfarça a intenção de intimidar...".
Isso também ocorre, por exemplo, quando se marca o tempo da
mudança de posição de alguém: "O presidente afirmou, no mês passado, que
queria a investigação cabal, mas, nesta segunda-feira, mudou de ideia e
encerrou a questão". As vírgulas que marcam a intercalação de "no mês
passado" e "nesta segunda-feira" realçam a mudança.
Melhor ainda seria usar o ponto e vírgula e começar os dois
blocos pelas expressões adverbiais, que agora, por iniciarem cada um dos
trechos, são isoladas por apenas uma vírgula: "No mês passado, o
presidente afirmou que queria a investigação cabal do caso; nesta
segunda-feira, mudou de ideia e...".
Para encerrar, abordo a sugestão de um velho companheiro de
trabalho, o médico e professor (dos bons) Armênio Uzunian, que me honra com a
leitura assídua da coluna: "No seu artigo de hoje, 17/11, e em muitos
outros que leio, percebo que antes do primeiro 'etc.' não se coloca vírgula,
mas, nos demais, em sequência, as vírgulas comparecem. Que tal um lembrete sobre
isso?".
Vamos lá, caro Armênio. Como se sabe, "etc." é a
abreviação de "et cetera", expressão latina que significa "e
outras coisas" (hoje em dia se usa também com pessoas). São duas as
correntes: uma, que leva em conta a etimologia, diz que a vírgula é desnecessária,
porque a expressão já contém o "e"; outra diz que a noção etimológica
se perdeu, o que faz do "etc." mais um elemento da enumeração. É por
isso que ora se encontra algo como "...laranjas, bananas, etc." ora
se encontra algo como "...laranjas, bananas etc.".
O "Houaiss" e esta Folha não
põem vírgula antes do "etc.", mas outras publicações a colocam.
Quando há repetição do "etc.", a vírgula antes do
primeiro segue o que acabamos de ver, mas os demais são vistos como os termos
de qualquer enumeração, por isso ocorrem as vírgulas, como se faz em
"...laranjas, peras, maçãs". É isso.
[Fonte: www.folha.com.br]
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