Isabelle de Oliveira, presidente do Institut du Monde Lusophone, estará nesta quarta-feira, em Paris, na homenagem ao filósofo francês que morreu dia 29, com 104 anos. Ao DN, fala sobre o amigo.
Escrito por Leonídio Paulo Ferreira
Como recorda Edgar
Morin, o homem mais ainda do que o filósofo ?
Por trás do grande pensador
existia o homem. O meu querido Edgar, como eu o chamava. E eu, para ele, era
simplesmente a sua Isa. Era um homem de uma simplicidade desarmante, como
tantas vezes acontece com os verdadeiramente grandes deste mundo e cada vez são
menos. Exigente, sim, consigo próprio e com os outros, mas profundamente
humano. Habituado à complexidade do pensamento, encontrava a sua maior
felicidade nas coisas mais simples da vida. Gostava de um bom queijo da serra,
de um bom vinho, de contemplar o mar num passeio de barco enquanto o olhar se
perdia no infinito. Gostava de dançar, de cantar e de celebrar a amizade. Nunca
esquecerei a noite em que, num jantar no Porto rodeado de amigos, levantou-se para cantar a Marselhesa com um entusiasmo contagiante, arrancando sorrisos e
aplausos de todos os presentes. Era também impaciente, e essa impaciência
proporcionou-me alguns dos momentos mais divertidos que partilhámos. Recordo,
com uma ternura imensa, uma viagem de táxi em Lisboa que me fez chorar de tanto
rir. Eram momentos simples, mas que hoje guardo como verdadeiros tesouros.
Adorava a sua Sabah. E nós éramos, e continuamos a ser, família. Acima de tudo,
Edgar era um apaixonado pela vida. Vivia-a com intensidade, curiosidade e
gratidão. Procurava compreender o mundo, mas nunca deixou de maravilhar-se com
ele. E talvez seja essa a memória mais bonita que dele guardo: a de um homem
extraordinário que, apesar da sua grandeza intelectual, nunca perdeu a
capacidade de emocionar-se com as pequenas coisas. O pensador ficará para a
História. Mas o homem — o meu querido Edgar — ficará para sempre no coração
daqueles que tiveram o privilégio de amá-lo e de caminhar ao seu lado.
Recordarei sempre com grande carinho o meu querido Edgar, não apenas como um
dos maiores pensadores do nosso tempo, mas sobretudo como um homem
extraordinariamente humano. Ir-me-ei sempre lembrar da sua boa disposição
contagiante, da sua energia inesgotável e da curiosidade que o animava em
relação a tudo e a todos. Era um verdadeiro bon
vivant, sempre atento ao mundo,
sempre desejoso de compreender, descobrir e partilhar. Recordo também a sua
impaciência perante a inércia, as simplificações e as injustiças, expressão de
um espírito inquieto que nunca se resignou nem deixou de interrogar o seu tempo.
Mais do que o filósofo, permanece para mim a recordação do homem: generoso,
caloroso, livre de espírito, intensamente vivo e profundamente comprometido com
a aventura humana.
A última visita de Morin a
Portugal foi em 2023, para uma conferência em Lisboa sobre o humanismo. Sei que
foi com ele a uma casa de fados. Como era a relação de Morin com Portugal, que
um dia disse ser "um país extraordinário"?
Era impossível o Edgar estar em
Portugal e não entrar numa casa de fados. Havia ali algo que o chamava de forma
inevitável, quase como um regresso a casa. Eterno apaixonado por Amália
Rodrigues, via nela muito mais do que uma cantora: via a alma de um povo, a voz
das suas alegrias, das suas saudades e das suas esperanças. Sempre que escutava
Amália, sentia que Portugal falava diretamente ao coração. Numa casa de fados,
entre guitarras que choram e vozes que contam histórias de vida, o Edgar
encontrava aquilo que mais admirava nos portugueses: a capacidade rara de
transformar emoções profundas em beleza. Para ele, o fado não era apenas
música; era uma forma de entender a vida, de aceitar as suas perdas e celebrar
os seus encontros. Edgar dizia, com uma convicção que impressionava quem o
ouvia, que Portugal era um país extraordinário. Não por ser perfeito, nem por
procurar impressionar o mundo a todo o momento, mas precisamente pela
autenticidade que se sente em cada lugar e em cada pessoa. Para ele, Portugal possuía
uma rara capacidade de preservar a sua identidade, mantendo-se fiel às suas
raízes sem nunca perder a abertura ao que vem de fora. O que mais admirava era
a forma como os portugueses enfrentam a vida. Via neles uma combinação singular
de resiliência e gentileza, de coragem e humildade. Um povo que conheceu
desafios ao longo da sua História, mas que nunca deixou que as dificuldades
apagassem a sua capacidade de acolher, de sorrir e de ajudar quem chega. Edgar
acreditava que existe uma grandeza silenciosa no caráter português: uma força
que não precisa de ser exibida porque se manifesta naturalmente nos pequenos
gestos do quotidiano. Encantava-o também a importância que os portugueses
atribuem às relações humanas. Num mundo cada vez mais acelerado, encontrava em
Portugal o valor do tempo partilhado, das conversas demoradas à mesa, da
amizade cultivada com dedicação e do respeito pelos mais velhos. Via um país
onde as pessoas ainda sabem parar para escutar, para receber e para estar
presentes umas para as outras. Portugal era extraordinário, dizia ele, porque
consegue reunir numa dimensão relativamente pequena uma riqueza humana e
cultural imensa. Das aldeias históricas às grandes cidades, do interior ao
litoral, cada região preserva tradições, memórias e formas de viver que
enriquecem a identidade coletiva do país. Há um profundo orgulho naquilo que se
é, mas sem ostentação; uma consciência tranquila do próprio valor. Edgar
admirava ainda a ligação dos portugueses à sua História. Não uma história
guardada apenas nos livros ou nos monumentos, mas uma História que continua
viva nas famílias, nos costumes, na língua e nas tradições transmitidas de
geração em geração. Via nisso um sinal de maturidade coletiva: a capacidade de
honrar o passado sem deixar de olhar para o futuro. Mas, acima de tudo,
acreditava que a verdadeira riqueza de Portugal estava nas pessoas. Na sua
generosidade, na sua humanidade e na forma como fazem qualquer visitante
sentir-se bem-vindo. Para Edgar, era isso que tornava Portugal extraordinário:
a capacidade de tocar o coração de quem o conhece, não através da
grandiosidade, mas através da autenticidade. Porque há países que impressionam
pela dimensão, pela riqueza ou pelo poder; Portugal, na sua opinião,
conquistava algo muito mais difícil e duradouro — o afeto e a admiração de quem
tem o privilégio de o viver.
Surpreende-a a admiração por
Morin em Portugal ? Foi condecorado por dois presidentes, e agora o presidente António José Seguro emitiu uma nota a elogiar o grande pensador.
Era impossível não admirar o
homem Edgar Morin. Mais do que uma personalidade marcante, é o pensador
planetário, um ser fora do comum, daqueles que surgem raramente e deixam uma
marca profunda no seu tempo. Ao longo da vida recebeu inúmeras condecorações,
distinções e homenagens vindas dos mais diversos cantos do mundo. Contudo,
nunca foram esses reconhecimentos que o moveram. Estava acima da busca por
títulos e medalhas. Com a lucidez e frontalidade que o caracterizavam, não
hesitava em afirmar que muitas condecorações são atribuídas a quem nem sempre
as merece verdadeiramente. Para ele, o valor de uma vida não se media pelo
brilho das insígnias, mas pela profundidade das ideias e pelo impacto que se
deixa nos outros. O que realmente o apaixonava era algo muito mais nobre: estar
junto dos estudantes, dialogar com os jovens, desafiar certezas e abrir
horizontes. Sentia-se em casa no meio da juventude, não para ensinar verdades
absolutas, mas para despertar perguntas, cultivar o pensamento crítico e
estimular a reflexão sobre o mundo e o futuro. Edgar acreditava que a maior
herança que uma geração pode deixar à seguinte não são monumentos nem
honrarias, mas a capacidade de pensar, questionar e compreender a complexidade
da condição humana. Por isso, preferia uma sala cheia de estudantes curiosos a
qualquer cerimónia solene. Sabia que é na mente dos jovens que se constrói o
amanhã e que cada conversa profunda podia ser a semente de uma transformação.
Foi essa grandeza intelectual e humana que o tornou inesquecível. Não apenas um
homem de conhecimento, mas um construtor de consciências; não apenas um
académico brilhante, mas um inspirador de gerações. Edgar pertenceu ao raro
grupo daqueles que não procuraram a admiração dos outros, mas acabaram por
conquistá-la de forma inevitável. Porque era impossível não admirar o homem
Edgar Morin.
Esta quarta-feira Morin vai ser
homenageado pelo presidente Emmanuel Macron, numa cerimónia em Paris na qual a
Isabelle, como amiga, vai estar presente. Como vê a França este resistente
contra os invasores nazis ?
O presidente Macron prestou
várias homenagens a Edgar ao longo dos anos, e a celebração do seu centenário
foi particularmente memorável, marcada pela alegria, pela gratidão e pelo
reconhecimento de uma vida extraordinária. Tive o privilégio de estar presente
em todas essas ocasiões, guardando delas recordações inesquecíveis. Esta
homenagem, porém, tem um sabor diferente, profundamente doloroso. É o momento
da despedida do homem na sua dimensão física, mas jamais do pensador universal,
cuja obra e legado permanecem vivos e imortais. Edgar é um verdadeiro monumento
do saber, uma consciência rara que iluminou gerações com a sua inteligência,
humanidade e visão do mundo. A sua partida deixa-nos órfãos da sua presença,
mas enriquecidos para sempre pelo imenso património intelectual e humano que
nos legou. Hoje despedimo-nos do homem, mas o seu pensamento continuará a
inspirar, a questionar e a guiar aqueles que procuram compreender a
complexidade da condição humana. A sua voz permanecerá entre nós, atravessando
o tempo, porque os grandes espíritos nunca desaparecem verdadeiramente. Edgar
Morin foi membro da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial
e combateu a ocupação nazi. Por isso, Emmanuel Macron homenageou-o como um “soldado
da Resistência” e uma figura maior do humanismo francês. Macron descreveu-o
como: “Soldado da Resistência, militante e homem livre, escritor e pensador do
século, defensor da natureza e dos povos”, acrescentando que Edgar Morin era “o
humanismo feito pessoa”. Para a França, Edgar Morin representa: a luta contra o
nazismo e a defesa da democracia; o humanismo e os valores universais; o
pensamento crítico e independente; Uma das maiores referências intelectuais
francesas dos séculos XX e XXI. Em poucas palavras, Macron apresentou Edgar
Morin como um herói da Resistência e um dos mais importantes.
Gosto de O Paradigma Perdido porque
ele não fala apenas sobre o ser humano: ele obriga-me a reencontrá-lo. Numa
época em que tudo parece dividido em categorias, disciplinas e definições,
Edgar Morin procura aquilo que ficou esquecido entre essas divisões — a
essência complexa da nossa existência. É como se o livro recuperasse uma peça
perdida do espelho da humanidade e me mostrasse que somos muito mais do que as
explicações simplificadas que costumamos aceitar. O que mais me marca na obra é
a ideia de que o ser humano não pode ser reduzido a uma única dimensão. Somos
feitos de paradoxos: carregamos a herança biológica dos nossos ancestrais e, ao
mesmo tempo, criamos arte, ciência, sonhos e revoluções. Em nós convivem a
racionalidade e o caos, a lucidez e a imaginação. Edgar Morin não tenta
eliminar essas contradições; pelo contrário, mostra que é nelas que reside a
nossa verdadeira riqueza. Este livro faz-me pensar que a humanidade se perdeu
quando começou a separar aquilo que sempre esteve ligado. Ao fragmentar o
conhecimento, ganhámos especialização, mas muitas vezes perdemos a visão do
todo. O Paradigma Perdido é, para mim, um convite à reconciliação: entre
natureza e cultura, entre emoção e razão, entre o indivíduo e a sociedade. É
uma obra que não procura simplificar a realidade, mas ensiná-la a ser
compreendida na sua profundidade. Gosto deste livro porque ele transforma a dúvida
numa forma de conhecimento. Em vez de apresentar verdades absolutas, abre
caminhos para novas perguntas. Faz-me perceber que compreender o ser humano não
é chegar a uma conclusão definitiva, mas aceitar uma aventura intelectual
permanente. Cada página lembra-me que somos uma espécie capaz de estudar as
estrelas sem nunca deixar de procurar respostas dentro de si própria. Por isso, O Paradigma Perdido não
é apenas um livro que leio; é um livro que me lê. Ele desafia as minhas
certezas, amplia a minha forma de pensar e faz-me olhar para a condição humana
com mais humildade e admiração. Poucas obras conseguem fazer-nos sentir
simultaneamente pequenos perante a vastidão da vida e grandiosos pela
capacidade de a questionar. É precisamente essa sensação que torna esta obra
inesquecível para mim.
[Fonte: www.din.pt]










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