sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A defesa da revolução do povo curdo representa a solidariedade internacional contra a guerra

Os ataques contra os curdos foram levados a cabo com o conhecimento dos representantes europeus que se encontravam em Damasco naquele momento. Com estes encontros, está a ser levada a cabo um branqueamento total de Al-Golani.

Confrontos na linha de frente de Al-Hasakah e Ain Al-Arab (Kobane)

Escrito por Julia Romera

Há mais de duas semanas, o exército sírio, em colaboração com milícias islâmicas financiadas pelo Estado turco, intensificou os ataques com armas pesadas contra a população civil curda do nordeste da Síria. A ofensiva começou nos bairros de Sheikh Maqsoud, Ashrafieh e Beni Zeyd, em Alepo, que sofreram os primeiros ataques a 6 de janeiro. Estes bairros fazem parte da Administração Autónoma do Nordeste da Síria (AADNES) e são protegidos pelas Asayish, as forças de defesa internas. 

As Asayish contam com um sistema de organização que inclui mulheres e jovens como peças-chave da sociedade e assenta nos valores da democracia, da liberdade e da coexistência entre povos. Numa conferência de imprensa no dia 20 de janeiro, Îliah Ehmed, copresidente do Conselho Executivo da AADNES, avaliou o papel negativo da Turquia nas negociações entre o Governo de transição sírio e a AADNES. Ehmed destacou o planeamento militar exaustivo e perfeito dos ataques desde o primeiro dia, o que leva a confirmar a orquestração por parte do Estado turco. 

Ultimato e ataque  

Os ataques ocorreram durante as negociações entre as Forças Democráticas Sírias (FDS), uma aliança militar entre milícias curdas, árabes, assírias, arménias, turcomanas e circassianas, e o governo de transição sírio de Damasco. Até ao ataque, estava a ser avaliada a integração das FDS nas estruturas do Estado sírio — seguindo os acordos de 10 de março e 1 de abril de 2025. Sipan Hemo, membro do Comando Geral das FDS, declarou que, na reunião com o ministro da Defesa, Abu Kasra, chefe da inteligência síria e da Coligação Internacional contra o Estado Islâmico, as negociações estavam quase concluídas, até que o Governo de transição ordenou que fossem suspensas e adiadas para 7 ou 8 de janeiro. Pouco depois, atacaram os dois bairros de maioria curda em Alepo.  

De 7 a 9 de janeiro, o governo do presidente sírio Ahmed al Shaara, anteriormente conhecido como Al-Golani, instou os habitantes dos bairros de maioria curda em Aleppo a partirem, sob a ameaça de serem considerados alvos militares legítimos se não o fizessem. Isso significou o deslocamento de centenas de milhares de pessoas para a cidade de Afrin e o desaparecimento e detenção de quase mil pessoas; todos esses números de acordo com dados oficiais da AADNES. No entanto, também houve milhares de pessoas que decidiram ficar, segundo informou o Conselho Popular local. A resistência das mulheres tem sido notável desde o início. Elas deram força à decisão de resistir e lutar nos bairros e apontaram diretamente as potências internacionais como responsáveis pelos massacres nos seus bairros.   

Milhares de pessoas marcharam de Rojava até Aleppo para levar moral à resistência. “Como povo, não temos medo do cerco, dos bombardeamentos ou dos massacres. A nossa resistência é a melhor prova dessa determinação. Somos um povo que demonstra uma resistência inédita na proteção da nossa honra, da nossa pátria e da nossa própria existência. Aqui, diante dos tanques e das armas dos invasores, os nossos combatentes estão a fazer grandes sacrifícios, defendendo os seus bairros com a vida”, afirma Nasimo Kinjo, uma mulher que se juntou a um comboio a caminho de Alepo.  

A responsabilidade da Europa   

Estes novos ataques foram levados a cabo com o conhecimento dos representantes europeus que se encontravam em Damasco naquele momento. Nos últimos dias, Ursula Von Der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu, encontraram-se com o presidente sírio Ahmed al Shaara. Na reunião, a presidente da Comissão Europeia prometeu 620 milhões de euros ao governo, apesar do massacre de milhares de civis, para a reconstrução de uma nova Síria.  

Este encontro está em linha com as reuniões do ano passado entre o Governo de transição sírio e presidentes e ministros europeus como Macron, Meloni e Pedro Sánchez. Com estes encontros, está a ser levada a cabo um branqueamento total de Al-Golani, que culmina com o seu convite para a Casa Branca por parte de Trump e com a sua retirada das listas de terroristas internacionais.   

Entrámos numa fase em que os Estados ocidentais legitimam abertamente o governo sírio no cenário geopolítico global, ao mesmo tempo que ignoram as suas responsabilidades nos massacres. Para mencionar apenas um dos muitos, o que ocorreu na primavera passada contra a população alauita em Latakia, Tartus e Maha, onde 2000 civis foram mortos em 21 dias. O silêncio da comunidade internacional é compreensível após esta reunião; a desinformação e a manipulação fazem parte da guerra atual contra o povo curdo.   

Uma operação de liquidação do povo curdo   

Os ataques contra a população curda nestes bairros de Alepo foram conscientemente planeados para atacar a AADNES e as suas forças de defesa. Em Alepo, as FDS retiraram-se há alguns meses como parte do acordo de 1 de abril, pelo que as forças de segurança interna em Alepo, as Asayish, eram as que controlavam os bairros. Enquanto as FDS cumpriram a sua parte do acordo retirando-se, o exército sírio, com o apoio da Turquia, destacou mais de 40 000 combatentes extremistas, tanques e veículos de guerra modernos. No entanto, o Governo de transição sírio começou há meses a pressionar através do corte de eletricidade, água e combustível, impedindo a chegada de alimentos e bloqueando o acesso rodoviário desde julho. Tudo isto faz parte de uma operação de liquidação. 

A 11 de janeiro, foi declarado um cessar-fogo entre as forças curdas e o exército de Al-Golani, o que permitiu a evacuação dos feridos e mortos para zonas controladas pela AADNES. Apesar disso, os ataques persistem e é evidente que fazem parte de uma guerra organizada: desde 12 de janeiro, as milícias financiadas pelo Governo de transição sírio e pelo Estado turco estão a bombardear, enviando drones e artilharia pesada para as áreas ao redor da barragem de Tishreen, a cidade e região de Raqqa, Deir Hafer, Heseke e a cidade e aldeias próximas da cidade de Kobanê, coração da revolução. É importante notar que Deir Hafer está localizada numa área que pertence à AADNES.  

Além disso, as prisões de Raqqa e Shaddadi foram atacadas para libertar milhares de prisioneiros do Estado Islâmico com o objetivo de incorporá-los novamente às suas fileiras. Shaddadi está, atualmente, controlada pelo Governo de transição sírio e Raqqa resiste cercada pelo inimigo. Isto não seria possível sem a cumplicidade entre o governo de transição sírio, diferentes grupos islâmicos e a Turquia, que parecem ter o apoio político dos Estados Unidos, do Reino Unido e da União Europeia.  

Após a escalada dos ataques e a falta de compromisso para chegar a um acordo, há apenas dois dias, em 19 de janeiro, as FDS decidiram encerrar as negociações e as relações diplomáticas com Damasco. Toda a população é chamada pelas FDS a defender com armas o território sob o controlo da AADNES.   

Torturas, sequestros de civis e desinformação 

A mentalidade por trás desta guerra é a mesma do Estado Islâmico: torturas, sequestros de civis e violência sexual estão a ser usados como arma de guerra primária. Em relação ao ataque e à violação dos direitos das mulheres, foram recebidos vídeos de violência contra civis, decapitações e violações. As instituições internacionais têm de assumir a responsabilidade de impedir que o Estado Islâmico cometa mais massacres. Não se trata de uma guerra feita apenas para conquistar um território, mas para ferir a memória coletiva, humilhar as identidades das minorias étnicas e religiosas e neutralizar permanentemente a vontade de resistência do povo curdo. O método que a Turquia está a utilizar é o da “violência por procuração” para esconder a responsabilidade direta do seu Estado. No entanto, as armas e os símbolos utilizados pelas milícias extremistas evidenciam que o Estado turco é o principal impulsionador desta guerra. Foram fotografados mercenários perto de corpos de civis de Aleppo fazendo o símbolo dos Lobos Cinzentos, uma organização paramilitar ultranacionalista fascista turca. Sipan Hemo expõe claramente de onde vem o financiamento: “Todos os drones que circulam sobre Sheikh Maqsood e os tanques que bombardeiam os cantões pertencem ao exército turco. No entanto, isso não foi divulgado publicamente”. Ele acrescenta, além disso, que a declaração de cessar-fogo nos bairros foi resultado da pressão exercida pela resistência.   

Grande parte desta guerra está a acontecer nos meios de comunicação: há uma enorme onda de desinformação, mentiras e distorções nos meios digitais. É necessário quebrar o silêncio perante a multiplicação dos ataques, tanto no Médio Oriente como no Ocidente. Temos de continuar a falar de uma Síria democrática e do direito de todos os grupos étnicos e sociais a coexistirem em igualdade. Devemos defender as práticas democráticas de coexistência dos povos que existem há anos em Rojava. É fundamental sustentar, contra qualquer tentativa genocida, a necessidade de cada grupo poder viver em paz e com estabilidade, com a sua própria identidade e vontade política. A Administração Autónoma Democrática do Nordeste da Síria é um modelo neste sentido, que pode ser um exemplo para todo o país. Queremos terminar recordando com coragem, força e memória as comandantes Ziyad Heleb e Deniz: elas deram a vida durante os primeiros dias de ataques na defesa dos bairros de Alepo. No caso de Deniz, depois de ser assassinada, os mercenários extremistas atiraram o seu corpo de um edifício ao grito de “Allahu akbar”. O assassinato destas companheiras, a sua coragem e determinação em defender a população levou milhares de pessoas a saírem às ruas em diferentes regiões, como Kobane e Aleppo. 

“Resistir não significa apenas pegar em armas. Dependendo do momento, a resistência também é conduzida com inteligência e sabedoria estratégica, e as FDS têm essas capacidades. Nas áreas da administração autónoma, cumpriremos essa responsabilidade até o fim”, assegura Sipan Hemo. A resistência é a autodefesa organizada, que não se faz apenas na dimensão militar, mas assenta na vontade de resistir por parte do povo. O apelo do povo curdo é um apelo que nos convida a declarar com coragem a vontade de autodeterminação e de defesa da Revolução Confederal dos povos.  


Julia Romera é membro da Defend Kurdistan Catalunya, um conjunto de movimentos de solidariedade e ativismo na Catalunha que apoiam a causa curda. 


[Foto: SOHR - fonte: El Salto - reproduzido em www.esquerda.net]


Aparecieron imágenes inéditas de Pink Floyd - un concierto de 1977

Una cuenta de YouTube subió diez minutos de material en Super 8 con la banda tocando tres de sus clásicos.

El grupo llevaba adelante la gira estadounidense "In The Flesh".

Cuando parece imposible que surja algo nuevo relacionado con una banda clásica y del tamaño de Pink Floyd, el archivo da sorpresas: la cuenta de YouTube The Pink Floyd Research Group subió una serie de filmaciones nunca vistas del concierto ofrecido el 7 de mayo de 1977 en Anaheim, California (Estados Unidos), dentro de la gira In The Flesh.

Y no se trata de cualquier material: en esos 10 minutos se ve a David Gilmour, Roger Waters, Nick Mason y Rick Wright recorrer temas esenciales de la carrera del grupo como “Wish You Were Here”, “Shine On You Crazy Diamond” (de Wish You Were Here, lanzado en 1975) y “Money”, del legendario The Dark Side of The Moon, de 1973.

El material fue registrado en formato Súper 8 por un asistente al show (por ello no están los temas completos, ya que cada rollo de film tenía poca duración), y el trabajo de restauración realizado por el Reel Revival Film y Davide Capolongo logró una claridad de imagen y sonido que le da aún más valor. “El material es absolutamente increíble, nadie puede negarlo”, señalaron desde el PF Research Group. “No solo es el primer registro realmente bueno de la banda tocando ‘Wish You Were Here’ en 1977, también hay tomas asombrosas de todos los músicos, incluyendo a los invitados Snowy White en guitarra y Dick Parry en saxo”.

El concierto, además, tiene un peso histórico: dos meses después, en el cierre de gira en Montreal, Waters tuvo un incidente con una persona alienada que invadió el escenario y lo inspiró para darle forma a un disco llamado The Wall, en cuya gira la banda tocaría detrás de una pared.

[Fuente: www.pagina12.com.ar]


Byung-Chul Han: «Avui la nostra atenció gira únicament al voltant del jo, som empresaris de nosaltres mateixos»

«Segons l'ètica de l'atenció de Weil, un quart d'hora d'estar atents ja tindria més pes que el compliment de moltes bones accions», afirma el filòsof 


Davant un món dominat pel rendiment, el consum i la hiperactivitat, l'assaig Sobre Déu. Pensar amb Simone Weil ens convida a redescobrir el buit, el silenci, l’atenció i la transcendència com a formes de vida possibles i necessàries. Amb un to íntim i meditatiu, Byung-Chul Han, el filòsof sud-coreà més llegit de l’actualitat, reinterpreta l'obra de Simone Weil oferint-nos-la com una brúixola ètica i espiritual per al nostre temps. D'aquesta manera recorre set conceptes fonamentals del pensament de Weil —atenció, des-creació, buit, silenci, bellesa, dolor i inactivitat— i els posa en diàleg amb les ferides contemporànies: la saturació digital, l’individualisme, la pèrdua de sentit, el col·lapse espiritual. Us n'oferim 14 fragments:

1. La digitalització accelera de manera perillosa la possibilitat total de controlar la realitat. Ens habitua a tenir-ho tot a la nostra disposició, que es pugui calcular i que sigui consumible a l'instant. És d'aquesta manera com es malmet l'atenció. Decauen actituds com l'espera o la paciència, que ens faciliten accedir a allò no-disponible. L'estímul que ens aporta el torrent informatiu esmicola la capacitat d'atenció. Una atenció profunda no es deixa endur pels estímuls. 

2. Avui dia sempre estem distrets. Saltem d'una informació a una altra, d'un estímul al següent. [...] L'addicció funciona encara millor com menys atenció li dediquem. Els estímuls addictius atordeixen l'atenció. La societat de l'addicció d'avui en dia és una societat incapaç d'estar atenta.

3. Simone Weil assumeix que el Mal o la violència es poden atribuir a la manca d'atenció. En aquest sentit, l'atenció es podria considerar com un sedàs que destria el Bé del Mal. En conseqüència, hi hauria menys violència al món si fóssim capaços d'assolir una atenció més elevada, assimilada a la pregària. Segons l'ètica de l'atenció de Weil, un quart d'hora d'estar atents ja tindria més pes que el compliment de moltes bones accions. 

4. L'atenció també conté una dimensió social. Així doncs, el fet que es trobi en decadència comporta greus conseqüències en les relacions interpersonals. Tant l'empatia com el respecte es fonamenten a ser atents envers l'altre. La societat s'embruteix quan l'atenció cap als altres es malmet. Condueix a un increment de la violència. 

5. La mirada té, per a Simone Weil, una importància cabdal: «Una veritat primordial del cristianisme, i que avui tothom menysté per complet, és que allò que ens salva és la mirada». Estementa la «serp d'aram» de Moisès, que amb el seu esguard salvava aquell qui la contemplava: «La serp de bronze fou erigida perquè els homes, que jeien mutilats en la més profunda degradació, la poguessin contemplar i se salvessin». Simone Weil fa que la mateixa religió remeti als ulls: «Ara bé, s'hauria de reconèixer de forma pública i oficial que la religió no és res més que una mirada (un regard)».

6. La mirada atenta de l'altre, com a mirada sobrenatural, és una mirada que socorre, que no em jutja ni em condemna. No assenyala la caiguda, sinó la gràcia que em redimeix m'eleva, en lloc de deixar-me caure. Simone Weil afirma de manera lapidària: «L'esperit és atenció». L'esperit és creador. Si és atenció, no la dedica al que ja existeix. Més aviat, gràcies a aquesta atenció, fa néixer allò-que encara-no-ha-estat, allò completament altre. A la intel·ligència, en canvi, li manca aquesta atenció creadora: «No hi ha res que la intel·ligència hagi de trobar. Al que s'ha de dedicar és a esbrossar. Només val per a tasques servils». 

7. La intel·ligència artificial és quelcom sense esperit. Li falta l'atenció creadora. A causa de la seva manca d'esperit no pot fer més que processar calcular. Ens continuarà fent servei, a condició que l'esperit no se li sotmeti. Si no, tornarem a ser esclaus de les coses que nosaltres mateixos hem fabricat. 

8. El nostre present és pobre en genialitat creativa a causa de la manca d'atenció. El geni creatiu i la religiositat tenen arrels comunes en la profunda atenció contemplativa. La crisi de la religió implica, doncs, la manca de genialitat. 

9. Simone Weil il·lustra l'atenció creadora amb una rondalla: «Una faula dels esquimals narra l'origen de la llum de la següent manera: «El corb, que en la nit eterna no trobava aliment, va desitjar la llum, i es va fer clar damunt la terra». Si el desig és autèntic, si l'objecte de desig realment és la llum, el desig de llum engendra la llum. El desig és autèntic quan s'hi dedica un esforç de l'atenció». [...] El desig cedeix el seu lloc a l'impuls. A diferència del desig, a l'impuls no li cal una atenció profunda. Tanmateix, l'esperit és desig. L'època dels impulsos és també una època sense esperit. [...] Justament la manca d'atenció fa que el món d'avui sigui tan pobre en pensadors i poetes. 

10. El pensament, per a Sòcrates, té la intensitat d'una pregària. [...] També per a Emmanuel Lévinas l'atenció és un «increment de la consciència» que «pressuposa la crida de l'altre». L'altre exigeix atenció. El pensament de Lévinas és una ètica de l'altre com a ètica de l'atenció. Sense ella, som sords davant la crida de l'altre. És en l'atenció cap a l'altre on «es transcendeix el jo». 

11. En una carta a Joe Bousquet, Simone Weil escriu: «L'atenció és la forma més rara i pura de generositat». L'atenció s'ofereix. És una ofrena, una donació pura que no demana cap recompensa ni compensació. Té un caràcter asimètric. En canvi, l'economia com a simetria ens priva de la generositat. 

12. Sota la imposició de l'autenticitat, avui maldem per ser alguna cosa algú, a la desesperada. L'autenticitat s'oposa a la descreació, que ens convida a ser un no-res ningú, a practicar la renúncia d'un mateix. De la mateixa manera, l'imperatiu de la creativitat —que obeeix a la lògica productiva del neoliberalisme— ens torna cecs a la veritable creació. El frenesí creatiu neoliberal és una misèria si el comparem amb la glòria de la creació divina, o amb la bellesa de l'univers, que és un sagrament. Tot producció humana que mereixi el nom de creació obliga a la renúncia a un mateix. El geni de l'atenció no té un jo.

 13. Entre les causes estructurals de la crisi de la religió es troba, sumat a la decadència de l'atenció, l'engegantiment del jo. Avui en dia la nostra atenció gira únicament al voltant del jo. Retem culte al jo, celebrem la missa del jo. En ella, cadascú és el seu propi sacerdot. En el vocabulari del règim neoliberal, el sacerdot particular de cadascú és anomenat «l'empresari d'un mateix». Tothom es produeix i es performa a si mateix. 

14. Què és el poder? Qui l'ostenta sent que es fa gran en l'espai que ocupa. S'eixampla o es dilata. El creixement del poder es manifesta com una creixença del jo. El dèspota aspira a una màxima expansió de si mateix. Ho fa sotmetent-se a si mateix en l'altre. Així, el seu espai no es veu limitat per l'altre. El poder vigila que, en l'altre, ell continuï estant en ell mateix. El poder amplia l'espai del jo en relació amb l'altre.  

[Font: www.catorze.cat] 

ORWELL 2+2=5: anatomia da mentira organizada

O muito aguardado documentário de Raoul Peck, em estreia esta semana, é como um prenúncio distópico do mundo em que vivemos. Por isso mesmo é tão valioso conhecer este complexo historial ensaísta sobre o ímpeto totalitário de tantos candidatos a ditadores. 

Escrito por Paulo Portugal

Orwell: 2+2=5, de Raoul Peck, não é um documentário convencional - aliás, tal como Eu não sou o teu negro (2026) não era. Este pungente documento político e social resulta muito mais como um complexo ensaio fílmico que apetece rever para assimilar toda a informação (vimo-lo 3 vezes, desde a sua descoberta em São Sebastião e depois com o screener enviado pela produtora) - igualmente urgente quanto inflamado, ao aplicar uma colagem erudita sobre um passado que não se desvanece, permite que as advertências de George Orwell continuem perigosamente actuais. Peck entrelaça biografia, arquivo, interpretação crítica literária e reportagem contemporânea para demonstrar como os mecanismos de censura, manipulação e apagamento histórico que Orwell dramatizou em 1984 são ferramentas operacionais no nosso presente. E tantos de nós não se dão conta. 

O filme abre com um genérico contundente: gráficos assemelham-se a um vírus que se modifica no ecrã. No ecrã, excertos das páginas de Orwell sobrepõem-se ao título do filme apresentado com a formalidade ensaística de um Chris Marker. Essa metáfora — a desinformação como contágio — define o método de Peck. A vida de Eric Arthur Blair é explorada tanto como trajetória pessoal ou fábula instrutiva: desde a Índia colonial e a classe média indiana, passando pelo colégio beto, em Eaton, ao serviço na Polícia Imperial Indiana, até à ilha de Jura, na Escócia, onde em 1946 (portanto há precisamente 80 anos) começou a escrever o seu derradeiro romance que se tornaria 1984. Estes episódios não servem só de contexto biográfico; servem também para motivar a indignação e a sensibilidade moral do escritor.

A voz rouca de Damian Lewis tem um papel central no filme, ao corporizar os diferentes textos e diários de Orwell. São leituras que conferem ao filme um centro ético: é Orwell quem afirma que não escreve com a ambição de criar “uma obra de arte”, mas para "expor uma mentira e chamar a atenção para uma injustiça" — uma máxima que orienta todo o projecto de Peck. Intercalam-se citações e fragmentos de inúmeras obras cinematográficas e documentais (que dariam elas mesmas um pequeno ciclo temático) — desde as adaptações de 1984 (a de Michael Anderson, em 1953, ou a de Michael Radford, em 1984), mas também My Way Home de Bill Douglas (1978), Land and Freedom de Ken Loach (1995), Babi Yar Context, de Sergei Loznitsa (2021) ou Burma Storybook de Petr Lom (2017) — criando um campo polifónico onde as obsessões de Orwell (verdade vs. propaganda; consciência individual vs. brutalidade institucional) reverberam através dos tempos.

As investidas de Peck nos arquivos funcionam como um truque jornalístico: salta do trivial para o brutal — da referência recorrente a Oliver Twist, de David Lean (1948), nos diários de Orwell, para imagens contemporâneas de bombardeamentos estratégicos, Mariupol, Afeganistão, El Salvador ou Gaza. O realizador traça um fio que liga o policiamento colonial na Birmânia às operações de manutenção da ordem hoje — “operações de limpeza”, eufemismos como “operação militar especial” — e às rotações retóricas do discurso político contemporâneo. Peck nomeia actores e regimes — de Pinochet e Marcos até a líderes actuais como Putin, Orbán, Netanyahu, mesmo quando insiste que 'Israel busca a paz' — e não poupa a cena política americana, onde Bush prenuncia a invasão, em 2002, alegando as armas de destruição maciça, numa rima que se faz com o assalto ao Capitólio em 2021, ao som da voz de Trump a ironizar, em off, o grotesco do momento (“o amor que se sentia no ar”).

Essa prática de ligar contextos é ao mesmo tempo força e limite. A denúncia de Peck a uma “mentira organizada” — a contínua alteração do passado e substituição de verdades — é desarmante. Sim, o filme é vigoroso (e pesado) na forma, por vezes enciclopédica, como evoca ao cinema para expor as verdades do nosso tempo, por vezes, servindo-se de uma montagem densa que exige uma (re)leitura e atenção simultâneas.

George Orwell, in ORWELL 2+2=5

Ainda assim, a clareza moral do filme é difícil de ignorar. Peck não oferece uma visão simplista da realidade; interroga e reconhece complexidade: os oprimidos nem sempre têm razão inquestionável, e o opressor não é um desenho animado — uma ideia sublinhada por referências a Ai Weiwei (“tudo é arte, tudo é política”), por figuras contemporâneas como Edward Snowden, e por crises que vão da Birmânia à Palestina, passando por Bangladesh. Desde logo, o Orwell que Peck apresenta é um pensador forjado no império, cujas advertências são pertinentes em contextos tão diversos como a Rússia, a Ucrânia e os Estados Unidos.

O filme brilha de forma intensa ao debruçar-se sobre a linguagem, servindo-se da intuição orwelliana em que o poder se sustenta pela manipulação da verdade (ou de uma verdade reinventada) acabando por ser dramatizada em vinhetas em sublinham a repetição como forma de fabricar o consentimento. A retórica do filme é deliberadamente incisiva; a montagem e as narrações acumulam pressão moral, obrigando o espetador não só a reconhecer paralelos, mas a sentir-se implicado.

O registo humano também surge com força: episódios da experiência de Orwell na Polícia Imperial Indiana, anedotas sobre o cassetete que transportou e a cena na estrada em que se pergunta a um menino quantos dedos há — “quatro” — ilustram como até simples afirmações factuais se transformam em campo político. Isto recorda que a obsessão de Orwell pela linguagem e pela verdade nasce da experiência vivida, não de teoria abstrata.

Orwell: 2+2=5 é um filme de raiva e de cuidado; raiva contra sistemas que normalizam a crueldade, cuidado pela leitura, pela cidadania e pelo testemunho. Frustrará quem procure coesão narrativa tradicional ou uma biografia linear; como provocação, é revigorante. Peck recusa a complacência: ver o filme é confrontar a pergunta se se permitirá, dia após dia, a erosão da verdade por repetição e eufemismo, ou se se insistirá — como Orwell insistiu — que dois e dois são quatro. Mesmo que a narrativa orwelleana acaba comprovada da forma mais desconcertantes com a realidade que nos entre hoje mesmo pela televisão.

Uma coisa é certa, esta tapeçaria sobre as mentiras do nosso tempo, não é já um dos filmes deste ano de 2026 - é mesmo um dos filmes destes tempos. Algo que nos segreda para estarmos atentos, e insistirmos, mesmo no limite de todas imposições, que 2+2=4. E não 5.

[ImagensMidas Filmes - fonte: www.insider.pt]

A un siglo de su natalicio, El Rey sigue vivo en Garibaldi, donde resuenan «sus grandes poemas de amor»

 

Mariachis rinden culto a José Alfredo Jiménez frente a su mural en la cantina Tenampa. 

Escrito por Omar González Morales

José Alfredo Jiménez, El Rey, sigue vivo. La música, el amor y el género ranchero lo han eternizado. Prueba de ello son los cientos de personas que se reunieron para festejarlo ayer, a un siglo de su natalicio.

Y qué mejor sede que Garibaldi, zona de fiesta y cantinas, donde las caricias han sido el lenguaje de cientos de historias de amor, aunque también hay otras de tristeza y dolor. Aquí, las letras que creó José Alfredo se vuelven carne.

Desde las 17 horas algunos ya esperaban impacientes el concierto. En la plaza de Garibaldi resonaba una trompeta y un guitarrón provenientes de un grupo de mariachis que dedicaban una canción a una señora y su pequeña.

Sin importar el frío o que era el primer día de la semana laboral, al calor de un tequila, un mezcal o de la mano de su pareja, la música de José Alfredo volvía a animar esta plaza. En la celebración destacó la presentación de El mariachi Los gavilanes de José Alfredo, que interpretó algunas de las más de 300 canciones de El Rey, que hoy se escuchan como himnos al orgullo, al desamor, a la tristeza, y son una parte fundamental de la mexicanidad. 

El público, conformado en su mayoría por jóvenes y adultos mayores, entonaban Pa’ todo el año: “El amor no me interesa / cantaré por todo el mundo / mi dolor y mi tristeza”. 

“El día de hoy es muy especial, tengo el honor de ser su nieto menor. José Alfredo fue un hombre que supo llorar de frente y sin miedo”, expresó Ángel Jiménez de manera espontánea. 

En Madrid también le hicieron un homenaje, así como en Mazatlán y en Dolores Hidalgo, Guanajuato, donde reposan sus restos y dejó su frase histórica: “La vida no vale nada”. 

Tú y las nubes, Vámonos, Pa’ todo el año, El caballo blanco, La noche de mi mal, Paloma querida, El Rey, La mano de Dios son parte de las 300 historias que transcribió en forma de canciones, otras tantas quedaron inconclusas. 

A las 19 horas comenzó la celebración con María Elena Leal Beltrán y Gabriel Solís, hijos de Lola Beltrán y de Javier Solís, respectivamente, además de Percy y los Gavilanes de José Alfredo Jiménez, agrupación creada por el hijo del compositor. 

Las mañanitas fue la primera canción del concierto, con la que el público empezó a animarse, después siguió Mi Tenampa y posteriormente Percy interpretó Para morir iguales, con el acompañamiento de los asistentes que no pararon de corear con aplausos cuando se entonó La Mano de Dios. 

Gabriel Solís interpretó Serenata sin luna, mientras los presentes se tomaban de la mano y cantaban: “Y mandó para mí tu ternura”. A continuación, Solís interpretó Renunciación. 

En seguida se escuchó la que no podía faltar, El Rey, canción que sigue siendo voz de los corazones rotos y del orgullo. 

Frente al escenario, la emblemática cantina Tenampa, que por mucho tiempo fue su escenario y hogar de José Alfredo, lo muestra con orgullo en un mural gigante. Esta es su capilla y los mariachis le rinden culto. Su efigie en Garibaldi lo inmortaliza cantándole al cielo.  

Voces de las admiradoras  

“Yo lo conocí cuando vino a tocar a una fiesta de Santa Cecilia, y me quedé maravillado por su humildad y su cariño. No se alzaba el cuello y siempre fue muy amoroso con su público”, dijo Silvia Lugo.  

Leticia Suárez asegura que, a pesar de que pase el tiempo José Alfredo Jiménez es el más grande compositor que ha tenido este país. “Ojalá que los jóvenes pudieran aprender de sus letras, de su forma de demostrar cariño, de la prosa en la que amaba como antes, de verdad”.  

Patricia Suárez y Alejandra Molina son dos amigas que vinieron a disfrutar del espectáculo. A las dos las entusiasman las letras románticas de José Alfredo. “Crecí escuchando sus grandes poemas de amor. Lo considero el más grande de toda la historia de México. Como amigas, aprendimos mucho de la manera en la que nos enseñó a amar”.  

Sin duda, recuerda su muerte como uno de los mayores sin sabores de la vida. A sus 47 años el compositor más famoso y popular que ha visto este país falleció por un problema hepático, consecuencia de su gran gusto por las bebidas espirituosas.  

Sin embargo, por medio del cariño, de la memoria, del amor, El Rey sigue con vida en los romances, en el calor y la alegría. Y su historia como un hombre que llora de frente lo inmortaliza ante la vasta historia musical.

 

[Foto: Luis Castillo - fuente: www.jornada.com.mx]

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

«Ha anat així», de Natalia Ginzburg

Una novel·la breu per a una frustració infinita

Natalia Ginzburg

Escrit per Mar Camps Erill

Traducció d’Alba Dedeu 

Com una bala. Com una bala que travessa l’espai que s’empetiteix entre el lector i el llibre, i l’impacta. I amb l’embranzida del tàvec que es precipita ansiós sobre el plat ple d’engrunes que ha quedat sobre la taula. Amb la mateixa força obre Natalia Ginzburg la seva segona obra, ara emmarcada en el projecte de recuperació de les cinc novel·les breus de l’autora que Edicions de la Ela Geminada va emprendre el 2016. El segell gironí oferia, per primera vegada, l’edició en català d’aquesta selecció. 

Ha anat així traça la història entrebancada d’una obsessió amorosa. Publicada en plena postguerra, tot just dos anys després de la Segona Guerra Mundial, la narració ressegueix la impotència que inunda la protagonista fins a arribar a disparar contra el seu marit. 

Escrita a través d’una veu en primera persona que ens argolla al text i que prové de la jove que mata el marit, ens ofereix el testimoni gairebé confessional del desesper que assota els seus dies des de fa massa temps. Detalla fil per randa els fets i els sentiments que l’han fet prémer el gallet. Ho fa sense pressa, serenament, com qui ens fa seure per explicar-nos els motius d’una decisió aparentment precipitada. 

Per via d’una prosa senzilla i sense ornaments, però d’una gran fondària, descriu a pinzellades la decadència i la hipocresia d’una Itàlia que tot just es refà del tràngol del feixisme. Desenvolupa amb lucidesa i precisió els arguments d’una noia de poble i d’orígens humils que es muda a la gran ciutat empesa per les fantasies de modernitat i progrés de l’època. Amb les vies del tramvia brodant les places i els carrers de les ciutats que procuraven tornar a florir després de la Segona Guerra Mundial, amb les seves cafeteries i els seus abrics de pell, se’ns desplega tot un univers de possibilitats que no fan sinó alimentar el desconsol de la protagonista. 

L’Alberto, el marit que ja és mort a la primera pàgina, se’ns presenta misteriós d’entrada. Aquest halo que recobreix el personatge ens l’allunya així com ens el mostra entotsolat, solitari, egoista i mentider. Per contrast amb ella, ell prové d’un entorn acomodat i la fortuna familiar li permet de viure alimentant les seves excentricitats i els seus aires d’intel·lectual.  

Natalia Ginzburg, Ha anat així, Ela Geminada (2017)     

L’acompanya un altre personatge cabdal en la trama: l’Augusto. La relació entre ell i l’Alberto serveix per accentuar l’altivesa d’aquest darrer, que impregna el vincle entre el marit i la jove, que no tindrà mai la sensibilitat per apreciar Rilke. Ella, empetitida no només pel distanciament que l’amic i el marit li imposen, sinó també per les infidelitats constants que engreixaran fora mesura les seves inseguretats, narra amb deteniment, fins a ínfims detalls, la relació amorosa amb l’Alberto, per qui, malgrat l’amor foll, sent una profunda aversió.  

De mica en mica anem coneixent el buit de la protagonista, un buit que es va fent ample a puntades i que augmenta amb el menyspreu del marit pel seu caràcter dèbil i sentimental. La raó és que  

“quan una noia passa molt de temps sola i fa una vida monòtona i laboriosa, amb pocs calerons al moneder i els guants gastats, persegueix un munt de coses amb la fantasia, i està indefensa davant els errors i els perills que la fantasia prepara cada dia a totes les noies”. 

La protagonista enveja la lleugeresa amb què transiten les dones del seu entorn —com la seva amiga Francesca. Escriu: “Em semblava que havien trobat una manera de viure que era justa i natural, que no era trista”.  

A moments, el relat pren el to d’un dietari on s’acumulen les vivències tintades d’angoixes sovint soterrades; les pròpies d’una noia sota els mandats patriarcals d’un món que, malauradament, no és aigua passada. La mirada de la Christina de Modigliani la representa perquè n’entreveiem les ombres i les ferides, la insatisfacció crònica davant del verd del paisatge que sembla a tocar, però que mai no arribarà a palpar.  

Aquesta exposició directa dels malestars provocats pels mites de l’amor romàntic farà dialogar la narrativa de Ginzburg amb la segona onada del feminisme, amb els reclams per l’assoliment de drets i llibertats de les dones. Alguns fragments traspuen amb claredat la crítica a les exigències constrenyedores d’una societat pregonament masclista:

“Li vaig explicar com em sentia quan fèiem l’amor i li vaig preguntar si era així per a totes les dones. Em va dir que no sabia com dimonis era, per a les dones, i que jo havia de tenir una criatura, que aquesta era la cosa més important [...] I em va dir que havia de desfer-me d’aquell vici de mirar sempre fixament el que tenia a dins”.

Ha anat així conté la potència de qui decideix escriure després d’un acte brutal per processar-lo. Per amuntegar-ne les raons. Per explicar-se. Redimir-se? No, no sembla que la seva escriptura persegueixi aquest objectiu. Més aviat es perfila des del desig de construir un relat per fer comprendre l’estranyesa, les nits en vetlla, els ulls inflats.

A la vegada, recull la força de qui entoma el timó, un gest que sempre li ha estat negat. Ella, sempre dòcil, mal·leable, ingènua i poca traça, decideix resoldre el camí fressat prenent un altre revolt.


[Font: www.laveudelsllibres.cat]

Israel: del genocidio a la autodestrucción

El genocidio en Gaza radicaliza el proyecto colonial de larga data del sionismo. Pero el rechazo abierto de los dirigentes israelíes a cualquier posibilidad futura de un Estado palestino socavó su propia legitimidad internacional. 

El primer ministro israelí Benjamin Netanyahu brinda una conferencia de prensa junto al presidente Donald Trump en Mar-a-Lago, el 29 de diciembre de 2025, en Palm Beach, Florida.

Una entrevista con Avi Shlaim

Traducción: Pedro Perucca 

Entrevista de Bafta Sarbo[1]

Pasaron tres meses desde que se anunció el alto el fuego en Palestina, impuesto como consecuencia del llamado plan de paz de Donald Trump. En noviembre, el Consejo de Seguridad de las Naciones Unidas ratificó este «plan de paz», destinado a regir la organización y reconstrucción de la Franja de Gaza. Si bien se establece que debería existir «un camino creíble hacia la autodeterminación y la estatalidad palestinas», casi no contiene medidas políticas concretas que garanticen ese proceso.

Mientras tanto, la destrucción de Gaza continúa. Según la BBC, las fuerzas israelíes demolieron miles de edificios adicionales desde el inicio del alto el fuego. Expertos estiman que más del 80 por ciento de los edificios de Gaza están destruidos o, al menos, gravemente dañados. Más del 10 por ciento de la población está muerta, herida o desaparecida.

Debido a la brutalidad de la conducción israelí de la guerra, los primeros observadores formularon la acusación de genocidio ya el 7 de octubre de 2023, aunque esa acusación fue y sigue siendo discutida, especialmente en Alemania. Uno de los primeros en hablar abiertamente de genocidio fue Avi Shlaim, historiador israelí-británico de origen judío iraquí. Profesor emérito de relaciones internacionales en la Universidad de Oxford, integra la nueva generación de historiadores israelíes que impulsan una historiografía más allá del mito nacional sionista oficial. 

Su libro más reciente, Genocide in Gaza: Israel’s Long War on Palestine [Genocidio en Gaza: la larga guerra de Israel contra Palestina], publicada cerca del alto el fuego, recibió una acogida especialmente controvertida en Alemania. En una entrevista realizada originalmente para la edición alemana de Jacobin, Shlaim explica hasta qué punto la guerra reciente y el genocidio en Gaza representaron una continuidad de la política histórica de Israel.

En tu libro, recientemente publicado, incluiste un prólogo especial para la edición alemana. En la conferencia de prensa en Berlín, tu editor, Abi Melzer, habló de cómo el título generó un gran revuelo entre algunos periodistas en Alemania. ¿Podrías explicar por qué elegiste ese título?

Ninguno de mis libros anteriores se tradujo al alemán, así que estaba especialmente interesado en llegar a un público alemán. Westend Verlag se mostró interesado en publicar la edición alemana, pero finalmente se acobardaron y sugirieron agregar un signo de interrogación, de modo que el título fuera «¿Genocidio en Gaza?». No acepté agregar un signo de interrogación porque, para mí, ya no existe ninguna duda de que Israel es culpable de genocidio. Abi Melzer, un judío alemán y antisionista, decidió entonces publicarlo con el título original, sin signo de interrogación.

En el prólogo de la edición alemana dije que no me resultó fácil acusar a Israel de genocidio. Parecía casi perverso acusar al Estado judío de cometer genocidio cuando los judíos fueron las principales víctimas del genocidio nazi durante la Segunda Guerra Mundial. Además, hace un par de años publiqué una autobiografía titulada Three Worlds: Memoirs of an Arab Jew [Tres mundos: memorias de un judío árabe]. Soy un judío árabe porque nací en Bagdad y crecí en Israel. Ese libro es una crítica feroz del sionismo y, en particular, de su trato hacia los judíos de los países árabes. Pero agregué que, pese a todos sus pecados, Israel nunca había cometido genocidio.

Esa era mi posición antes del estallido de la guerra en Gaza. Incluso, al comienzo de la guerra, no me parecía que Israel estuviera cometiendo genocidio. El punto de inflexión para mí fue cuando Israel utilizó el hambre como arma de guerra a gran escala. Cuando Israel suspendió toda la ayuda internacional a Gaza y privó a su población de agua, alimentos, combustible y suministros médicos, eso me convenció de que se trataba de un genocidio.

Luego está la definición jurídica de genocidio. En 1948 se concluyó la «Convención para la Prevención y la Sanción del Delito de Genocidio» con el objetivo de evitar la repetición de lo que les ocurrió a los judíos bajo la Alemania nazi. El mensaje del Holocausto fue «nunca más»: nunca más para nadie, no solo para los judíos.

La convención define al genocidio como los actos cometidos con la intención de destruir, total o parcialmente, a un grupo étnico, religioso o racial. Lo que Israel hizo en Gaza fue un intento de destruir a un grupo étnico entero. La convención enumera cinco criterios, cinco actos, que constituyen genocidio, e Israel es culpable de todos ellos.

Uno es matar a miembros del grupo. Israel mató a unas 69.000 personas en Gaza y dejó heridas a casi 200.000. El segundo es infligir sufrimiento mental y físico a la población. El tercero es crear condiciones de vida que hagan muy difícil la supervivencia del grupo. Israel volvió Gaza inhabitable. El cuarto es impedir los nacimientos dentro del grupo. Israel hizo eso al atacar todo el sistema de salud, incluidas las salas de maternidad de los hospitales. El quinto acto es el traslado de niños del grupo a otro grupo. De eso Israel no es culpable. Pero lo que Israel hizo es mucho, mucho peor. Israel mató a más de 20.000 niños en Gaza y dejó huérfanos a 40.000. En un sentido muy real, se trata de una guerra contra los niños.

Por lo tanto, concluyo que Israel es indiscutiblemente culpable de genocidio en Gaza. No se trata solo de mi opinión: muchos de los principales expertos israelíes en el Holocausto, como Omer Bartov, Amos Goldberg y Raz Segal, concluyeron que este es un caso clásico de genocidio.

¿Podrías profundizar en cómo este genocidio afecta especialmente a los niños palestinos? En tu libro escribes que los hospitales de Gaza tuvieron que introducir un nuevo acrónimo, WCNSF (niño herido, sin familiares sobrevivientes, por sus siglas en inglés). También incluiste dibujos y fotografías de niños heridos en Gaza.

El ataque contra los niños es particularmente angustiante, y el ataque contra la población civil es profundamente condenable, e Israel hizo ambas cosas. Matar civiles está mal, tanto si lo hace Hamas como si lo hace Israel; es un acto terrorista. Considero esta guerra y los siete ataques militares israelíes anteriores contra Gaza como actos de terrorismo de Estado. La distinción principal que establece el derecho internacional humanitario es entre combatientes y no combatientes. Israel borró esa distinción. Por ejemplo, Israel afirmó que, si ordena a los civiles evacuar y estos se niegan, se convierten en objetivos militares legítimos. Eso es falso. El desplazamiento forzado de civiles es en sí mismo un crimen de guerra, e Israel cometió este crimen de guerra casi a diario durante los últimos dos años.

Algunos civiles fueron desplazados diez veces o incluso más. En muchos casos, cuando los civiles obedecieron las órdenes de evacuación de las Fuerzas de Defensa de Israel (FDI), luego fueron bombardeados y asesinados desde el aire. Por lo tanto, no existen zonas seguras en Gaza. No hay ningún lugar donde los civiles puedan sentirse a salvo.

Más del 70 por ciento de las víctimas de esta guerra fueron mujeres y niños. El ataque deliberado, el asesinato y la mutilación de niños son particularmente atroces porque están completamente indefensos. El presidente Isaac Herzog dijo, al comienzo de la crisis, que no hay personas inocentes en Gaza. Los 20.000 niños que fueron asesinados en Gaza, por lo tanto, no serían inocentes según su definición. El ataque contra los niños estuvo acompañado por declaraciones genocidas de dirigentes israelíes que decían: maten a las serpientes, porque si los niños crecen se convertirán en terroristas. Esa es la perversa justificación moral israelí para matar niños en Gaza.

Por eso, en mi libro hay un énfasis particular en la guerra contra los niños. Y como señalaste, hay toda una sección de fotografías sobre los niños durante la guerra en Gaza, con imágenes muy perturbadoras de crueldad real, incluso de sadismo. Pero las fotografías también transmiten la resiliencia y el coraje de los niños de Gaza.

Por estos crímenes de guerra existe una orden de arresto contra Benjamin Netanyahu. En tu libro describís cómo las acciones de Netanyahu a lo largo de toda su carrera política estuvieron orientadas a impedir la creación de un Estado palestino. ¿Hasta qué punto dirías que el rumbo actual es el desenlace lógico de toda su trayectoria política?

Benjamin Netanyahu creció en un hogar sionista muy nacionalista y siempre estuvo en el ala derecha del movimiento sionista. Encarna algunos de los aspectos más negativos del sionismo, como el racismo, el militarismo y la supremacía judía, pero, por sobre todo, la ambición territorial de la derecha israelí, que es el Gran Israel. Su carrera política estuvo dedicada a impedir el surgimiento de un Estado palestino junto al de Israel.

Pero no está solo: el partido Likud nunca aceptó la idea de una solución de dos Estados. Las directrices políticas del actual gobierno de Netanyahu afirman que los judíos tienen un derecho exclusivo a la soberanía sobre toda la Tierra de Israel, lo que para los nacionalistas incluye Cisjordania o, como prefieren llamarla, Judea y Samaria. Esto constituye una negación tajante de cualquier derecho nacional palestino en cualquier punto de la Palestina histórica. La posición del gobierno de Netanyahu es más extrema que la ley del Estado nación judío de julio de 2018, que afirmaba que los judíos tienen un derecho único a la autodeterminación en el Estado de Israel. Aquella ley reclamaba derechos judíos exclusivos a la estatalidad dentro de las fronteras anteriores a 1967, pero no reclamaba la soberanía judía sobre Cisjordania.

Antes del ataque de Hamas del 7 de octubre de 2023, Netanyahu solía jactarse de que Israel había ganado, de que los palestinos estaban derrotados y de que, sin conceder nada a los palestinos, Israel podía firmar tratados de paz con los Estados árabes. Se refería a los Acuerdos de Abraham, los acuerdos de paz entre Israel, Emiratos Árabes Unidos, Bahréin, Marruecos y Sudán, impulsados por Donald Trump durante su primer mandato como presidente de Estados Unidos en 2020. Para Netanyahu, esto fue una gran victoria diplomática: paz con Estados árabes suníes sin hacer concesiones en la cuestión palestina.

Antes existía una posición árabe colectiva sobre la paz con Israel, plasmada en la Iniciativa de Paz Árabe, adoptada en la cumbre de la Liga Árabe en Beirut en 2002. Esta iniciativa establecía que Israel podía tener paz y normalización con los veintidós miembros de la Liga Árabe a cambio del fin de la ocupación y de un Estado palestino independiente en Cisjordania y Gaza, con Jerusalén Este como capital. Netanyahu siempre rechazó esta oferta y reivindicó una soberanía judía exclusiva sobre todo el territorio, desde el río hasta el mar. El supuesto de esta política era que Hamas podría gobernar Gaza, contenido dentro de una prisión a cielo abierto sin amenazar la seguridad de Israel.

Pero el 7 de octubre Hamas lanzó el ataque más devastador contra israelíes desde 1948, lo que socavó la posición de Netanyahu. El ataque de Hamas envió un mensaje contundente: los palestinos no serán marginados; la cuestión palestina seguirá en la agenda internacional; y la resistencia a la ocupación israelí continuará bajo el liderazgo de Hamas. Netanyahu entonces cambió su discurso y dio marcha atrás con su política. Ahora afirmó que Hamas es completamente inaceptable bajo cualquier forma. Su nuevo objetivo de guerra pasó a ser la erradicación total de Hamas. Pero eso es imposible, porque mientras haya gente en Gaza, habrá resistencia. La prueba es que, después de dos años de bombardeos implacables, Hamas sigue en pie y sigue combatiendo.

El otro objetivo de guerra de Netanyahu es el control militar israelí permanente sobre Gaza. El objetivo de guerra no declarado es volver inhabitable a Gaza. Netanyahu avanzó enormemente hacia ese objetivo al destruir más del 80 por ciento de las viviendas y la infraestructura civil de Gaza, al destruir el sistema de salud, mediante la destrucción sistemática del sistema educativo y al reducir drásticamente la capacidad de los habitantes de Gaza para producir su propio alimento. Hasta ahora, logró impedir el nacimiento de un Estado palestino.

Me preguntaste si este es el desenlace lógico de la carrera de Netanyahu. En cierto sentido, lo es, aunque fue demasiado lejos y se involucró en un genocidio, algo que nunca formó parte de ningún plan israelí previo. Esto es profundamente dañino a largo plazo, porque destruyó cualquier pretensión de Israel de ocupar una posición moral superior. Esto queda encapsulado en la orden de arresto de la Corte Penal Internacional, porque ahora el primer ministro de Israel es un criminal de guerra, lo que significa que Israel es un Estado criminal. Netanyahu infligió un daño permanente a la reputación internacional de Israel. Dentro de Israel enfrenta un juicio por graves cargos de corrupción y, además, es un prófugo de la justicia internacional. Y sabe que, si hay elecciones, su partido perdería, se terminaría su inmunidad y probablemente acabaría en prisión. La guerra en Gaza fue un desastre estratégico para Israel, y una de las razones principales para llevarla adelante fue el deseo de Netanyahu de mantenerse fuera de la cárcel.

¿Podrías explicar cómo, incluso antes de Netanyahu, nunca existió un camino real hacia la estatalidad palestina?

Existe un consenso internacional muy amplio en torno a la solución de dos Estados. En términos prácticos, esto significa un Estado palestino independiente en Gaza y Cisjordania, con Jerusalén Este como capital; un Estado junto a Israel, no en lugar de Israel. En el plano retórico, algunos dirigentes del Partido Laborista israelí aceptaron la solución de dos Estados, pero en la práctica no hicieron nada para concretarla. La prueba es que, tanto bajo gobiernos laboristas como del Likud, desde 1967 se produjo una expansión constante de los asentamientos, lo que demuestra que no había ninguna disposición a ceder la totalidad de Cisjordania a un Estado palestino.

Se puso de moda decir que la solución de dos Estados está muerta. Israel la mató al construir asentamientos, al anexionar Jerusalén Este en junio de 1967 y al construir la barrera de seguridad en Cisjordania, que en los hechos anexa alrededor del 10 por ciento del territorio y separa a Jerusalén del resto de Cisjordania. Lo que queda son enclaves palestinos aislados en Cisjordania, rodeados por bases militares israelíes y asentamientos. Eso no es una base para un Estado palestino viable y territorialmente continuo.

Yo sostendría que la solución de dos Estados no solo está muerta. Nunca nació, porque ningún gobierno israelí, de ningún signo, desde 1967, ofreció una fórmula concreta de solución de dos Estados que fuera aceptable siquiera para los dirigentes palestinos más moderados. Esa es la primera razón. La segunda es que ninguna administración estadounidense presionó a Israel para alcanzar un acuerdo, por lo que el statu quo persistió. Hasta ahora, todos los presidentes estadounidenses, excepto Trump, apoyaron la solución de dos Estados.

A políticos occidentales como Joe Biden y Sir Keir Starmer les resulta conveniente decir que apoyan una solución de dos Estados. Suena razonable. Pero no hicieron nada para concretarla. Estoy cansado de repetir que la solución de dos Estados está muerta. Tengo una asistente de investigación alemana, una exestudiante de posgrado, y le pregunté: «¿Cómo se dice eso en alemán?». Y ella me respondió: «Die Zwei-Staaten-Lösung ist tot».

Después de que Hamas ganó las elecciones en Gaza en 2006, Israel, Estados Unidos y la Unión Europea respondieron no con el reconocimiento, sino con una guerra económica contra Gaza. ¿Podrías describir las consecuencias de las elecciones de 2006 y cómo Gaza fue sistemáticamente subdesarrollada en términos económicos y políticos?

Israel y sus aliados sostienen que el ataque de Hamas del 7 de octubre fue un rayo en cielo despejado y que la historia comienza ese día. Pero el conflicto empezó, como mínimo, en junio de 1967. En realidad, no se trata de un conflicto, sino de una ocupación colonial de tierras palestinas. El verdadero problema es la ocupación militar israelí. Es la ocupación militar más prolongada y brutal de los tiempos modernos. Ese es el verdadero trasfondo; el ataque de Hamas del 7 de octubre es una expresión de la resistencia palestina a la ocupación israelí. Mucha gente no conoce la historia de este conflicto entre Israel y Hamas. El pasado es crucial para entender cómo llegamos hasta acá. Como historiador, mi tarea es situar el comportamiento de Hamas en su contexto histórico adecuado.

Quisiera señalar algunos puntos de inflexión clave de este conflicto y comenzar por la victoria de Hamas en las elecciones palestinas de enero de 2006. Fue una elección libre y justa en todos los territorios ocupados, y Hamas la ganó. Israel se negó a reconocer al gobierno democráticamente elegido y recurrió a la guerra económica. Israel recauda impuestos en nombre de la Autoridad Palestina y siempre puede retenerlos de manera arbitraria.

Israel hizo todo lo posible para generarle condiciones de ingoberanbilidad al gobierno electo. Estados Unidos y la Unión Europea, para su eterno descrédito, se alinearon con Israel al negarse a reconocer a ese gobierno. Las potencias occidentales dicen que su objetivo es promover la democracia en Medio Oriente. Y ahí había un ejemplo luminoso de democracia en acción bajo las condiciones más difíciles de ocupación militar, pero las potencias occidentales ignoraron por completo el resultado electoral. En los hechos, lo que estaban diciendo es que la democracia es una buena idea en teoría, pero que en este caso la gente votó al grupo equivocado de políticos y, por lo tanto, no podían aceptarlos como un gobierno legítimo.

Luego se implementaron una serie de medidas económicas y políticas destinadas a socavar al gobierno de Hamas. En marzo de 2007, Hamas formó un gobierno de unidad nacional con Fatah y le ofreció a Israel negociar un alto el fuego de largo plazo, de diez, veinte o treinta años. El objetivo previo de Hamas había sido un Estado islámico unitario desde el río hasta el mar, pero una vez en el poder se volvió más pragmático y estuvo dispuesto a conformarse con un Estado palestino en los territorios ocupados. Israel se negó a negociar y el gobierno de unidad nacional colapsó en junio de 2007.

Hoy sabemos, a partir de los Palestine Papers, una colección de 1.600 documentos del proceso de paz filtrados a Al Jazeera, que existió un complot contra Hamas cuando estaba en el gobierno. En ese complot participaron Fatah, Israel, Estados Unidos y los servicios de inteligencia egipcios. Formaron un comité secreto llamado Comité de Gaza. El objetivo era aislar, debilitar y, en última instancia, expulsar a Hamas del poder. Israel y Estados Unidos armaron y alentaron a Fatah para que diera un golpe contra Hamas. En junio de 2007, Hamas se adelantó a un golpe de Fatah y tomó el control de Gaza.

Desde entonces, Gaza y Cisjordania quedaron firmemente separadas por Israel para impedir un movimiento de resistencia unificado. Una vez que Hamas tomó el poder, Israel impuso el bloqueo a Gaza. Un bloqueo es un acto de castigo colectivo prohibido por el derecho internacional, y el bloqueo de Gaza rige desde 2007. Esta historia es fundamental para entender el contexto del ataque de Hamas contra Israel el 7 de octubre.

La principal experta en Gaza, Sara Roy, es una académica judía de Harvard. El primero de sus cinco libros sobre Gaza se tituló The Gaza Strip: The Political Economy of De-Development [La Franja de Gaza: La economía política del desdesarrollo]. Su tesis es que Israel, desde 1967, siguió una política sistemática para impedir que Gaza desarrollara comercio con el exterior, agricultura e industria pesquera. Gaza fue explotada como fuente de mano de obra barata y como mercado para productos israelíes. Gaza no es pobre ni está subdesarrollada porque su población sea perezosa o incompetente. Es pobre y está subdesarrollada por una política israelí sistemática de desdesarrollo. Y la última y más crucial etapa de esta política coherente es la destrucción física de Gaza que ocurrió en los últimos dos años.

Volviendo a la separación sistemática entre Cisjordania y Gaza: mientras la atención del mundo está puesta claramente en Gaza, ¿cuál es la situación en Cisjordania?

El gobierno actual, encabezado por Netanyahu, tiene algunos socios de coalición extremistas, en particular Bezalel Smotrich, líder del Sionismo Religioso, e Itamar Ben-Gvir, líder de Poder Judío. Se trata de partidos abiertamente racistas, de extrema derecha, extremistas, mesiánicos y sionistas religiosos. Son, ante todo, supremacistas judíos. La agenda explícita es la anexión eventual y formal de Cisjordania como parte de la Tierra de Israel, y la vienen impulsando desde que llegaron al poder en 2022.

En los últimos dos años, la guerra en Gaza concentró la mayor parte de la atención internacional y desvió la mirada de Cisjordania. Esto fue aprovechado por los sectores de derecha de este gobierno para expandir los asentamientos e intensificar la limpieza étnica en Cisjordania, que viene desarrollándose de manera sostenida desde hace años. En los últimos dos años vimos una escalada masiva de la violencia de los colonos contra la población palestina. Y esto ocurre con el aliento del gobierno y la protección del ejército. Hay que mirar en paralelo lo que Israel hizo en Gaza y en Cisjordania. En Gaza comenzó con el objetivo de una limpieza étnica y degeneró en genocidio, y en Cisjordania hubo una intensificación masiva de la violencia contra la población, con el objetivo de la limpieza étnica de toda Palestina.

Terminaste de escribir tu libro en octubre de 2024. Pero en la conferencia de prensa en Berlín hablaste de tu evaluación de cómo surgió el plan de paz de Trump. ¿Podrías explicar por qué este llamado plan de paz apareció en ese momento y no antes, cuando Israel atacó a varios Estados soberanos?

Estados Unidos le da a Israel 3.800 millones de dólares anuales en ayuda militar y protección diplomática, utilizando su derecho a veto en el Consejo de Seguridad de  la ONU para bloquear cualquier resolución que no sea del agrado de Israel. El problema del apoyo estadounidense a Israel es que no está condicionado al respeto del derecho internacional ni de los derechos humanos palestinos. Joe Biden fue un defensor de esta política de apoyo incondicional a Israel. Durante la guerra en Gaza, su administración le dio a Israel 21.700 millones de dólares en ayuda militar.

Trump continuó esta política hasta que Israel atacó Doha, la capital de Qatar. Cuando Israel atacó Irán, Estados Unidos terminó interviniendo y también atacó ilegalmente a Irán. Irán es un enemigo, pero Qatar es un aliado cercano de Estados Unidos. Qatar venía desempeñando un papel constructivo en los intentos de mediación para un alto el fuego entre Israel y Hamas. Los líderes políticos de Hamas tenían su base en Doha, e Israel intentó asesinar a las personas que estaban negociando un alto el fuego. La mayor base militar estadounidense en Medio Oriente está en Qatar. Este ataque no solo asustó a los qataríes, sino a todos los gobernantes del Golfo, porque Estados Unidos no los protegió. Trump obligó a Netanyahu a llamar al primer ministro de Qatar para disculparse por el ataque y luego dio garantías de que no volvería a ocurrir.

Recién después de ese ataque a Doha, Trump ejerció una presión efectiva sobre Israel para imponer un alto el fuego. Pero el llamado plan de paz de Trump para Medio Oriente no es un plan de paz.

No quiero minimizar la importancia de este desarrollo. Implicó el fin de los combates, la reanudación de la ayuda humanitaria a Gaza y un intercambio de rehenes israelíes por prisioneros palestinos, de modo que de allí surgieron tres avances muy positivos. El plan es extremadamente vago en los detalles, pero los pocos que incluye prevén una junta internacional encabezada por Trump y, por debajo, un comité ejecutivo de palestinos «no políticos», es decir, personas que no pertenezcan a Hamas, seleccionadas a dedo y aceptables para Israel, que deberían administrar Gaza. Los palestinos no tendrían ninguna agencia ni voz en la conducción de sus propios asuntos. Tampoco hay ningún plan para elecciones. Lo obvio al final de una guerra sería permitir que la población que vive allí gobierne sus propios asuntos. Pero se trata de un proyecto colonial, impuesto por Estados Unidos e Israel sobre los palestinos. No aborda en absoluto el problema de fondo, que es la ocupación israelí de Cisjordania y Gaza.

Hay otra dimensión. Israel devastó por completo Gaza, y llevará años simplemente remover los escombros antes de iniciar cualquier reconstrucción. El plan de Trump no exige que Israel pague reparaciones a la población de Gaza, ni Estados Unidos planea aportar fondos para la reconstrucción. La idea es que paguen los Estados ricos del Golfo. Y entonces surge la pregunta: ¿por qué algún gobierno árabe debería aceptar poner dinero en la reconstrucción de Gaza cuando el próximo ataque israelí puede ocurrir en cualquier momento y volveríamos al punto de partida? Hay muchas preguntas sin respuesta.

Si este no es un plan de paz viable, ¿cómo podría alcanzarse una paz duradera? El gobierno israelí de extrema derecha suele ser criticado internamente. Sin embargo, sus acciones en Gaza gozan de un amplio apoyo tanto de la oposición política como de la población en Israel. De hecho, existe una fuerte demanda de un enfoque mucho más duro hacia Gaza. ¿Ves alguna posibilidad de que Israel impulse cambios positivos desde adentro?

Esa es exactamente la gran paradoja actual. Netanyahu es muy impopular en Israel, pero la guerra en Gaza no lo es. Una encuesta de opinión pública mostró que más del 50 por ciento de los israelíes cree que las FDI no usaron la suficiente fuerza y que deberían usar más. Existe un dicho israelí: «Si la fuerza no funciona, usa más fuerza». Es una noción completamente idiota, porque la fuerza no toca el problema político de fondo. El problema es la ocupación colonial israelí. Israel lanzó ocho ataques militares contra Gaza, empezando por la Operación Plomo Fundido en diciembre de 2008. Los generales israelíes llaman a estos ataques «cortar el pasto». Cortar el pasto es algo que se hace mecánicamente cada tanto, pero no impide que el pasto vuelva a crecer, así que hay que seguir atacando e infligiendo más muerte y devastación sobre Gaza.

Este gobierno refleja el corrimiento a la derecha de la sociedad israelí en los últimos veinticinco años, desde la Segunda Intifada. Representa a la opinión pública israelí y sus posiciones. Por eso, no veo ninguna perspectiva de reforma desde adentro. No puedo imaginar que un día la sociedad israelí despierte y entre en razón y diga que estuvo mal usar la fuerza, que eso no le dio seguridad y que solo condujo a más violencia y derramamiento de sangre. Si va a haber algún cambio en la posición de Israel, tendrá que ser como resultado de la presión externa. Y la presión externa sobre Israel está creciendo; se refleja en el aumento del número de países que reconocen a Palestina. Fueron especialmente significativos los reconocimientos de Reino Unido y Francia. Esto significa que hoy, en el Consejo de Seguridad, cuatro miembros permanentes —Rusia, China y ahora Reino Unido y Francia— reconocen a Palestina. Estados Unidos es el único que queda afuera, todavía ofreciendo protección diplomática a Israel. Pero esto no puede durar para siempre.

Creo que, con el tiempo, Israel seguirá el mismo camino que Sudáfrica. Estados Unidos e Israel fueron los últimos apoyos del régimen del apartheid sudafricano, y Estados Unidos será el último sostén del régimen de apartheid israelí. Es un proceso de largo plazo, en el que Israel pierde apoyo internacional y pierde legitimidad.

Mientras tanto, surge la pregunta: ¿cuál es la solución a este conflicto? Yo apoyé durante mucho tiempo la solución de dos Estados, hasta que Israel la mató con los asentamientos. Por eso ahora defiendo un solo Estado desde el río hasta el mar, con igualdad de derechos, con libertad, dignidad e igualdad para todas las personas que viven en este espacio. Se puede decir que esto es una fantasía, y no me importa, porque la verdadera elección hoy no es entre una solución de dos Estados y una de un solo Estado. La verdadera elección es entre el statu quo, el colonialismo, el apartheid, la supremacía judía y la fuerza bruta, algo totalmente inaceptable para mí, y otra solución, que es la del Estado único, en la que creo. Lo que me importa no es si hay uno o dos Estados, sino la igualdad. No puede haber democracia si existen dos clases de ciudadanos. Y desde el río hasta el mar, los palestinos, incluidos los ciudadanos palestinos del Estado de Israel, son ciudadanos de segunda clase.

Por eso, lo que quiero ver es igualdad de derechos para todas las personas que viven en este espacio. Esto implica la liberación no solo de los territorios palestinos ocupados, sino también del Israel anterior a 1967.

Nota:

Notas
1Bafta Sarbo es editor de la edición alemana de Jacobin

[Foto: Joe Raedle / Getty Images - fuente: www.jacobinlat.com]