sábado, 17 de outubro de 2026

Lettre à Delphine Horvilleur, rabbin

Delphine Horvilleur vient de publier Sermons sous les décombres (Éditions Olivier Nora) 

Écrite par Jean-Pierre Peyrard

Professeur de lettres classiques

Madame,

Dans la page du Monde (13/10/202) vous vous interrogez sur l’intérêt de votre dialogue avec la journaliste dont vous pensez que « les gens ne vont pas le lire ».

 

Je ne sais pas qui sont « les gens ».

Je l’ai lu.

 

Le questionnement que je vous propose concerne essentiellement cette assertion « Un effondrement des mots nous menace. »

 

Je dirai que ce n’est pas les mots qui peuvent s’effondrer, mais les références de sens. Un exemple. « Il m’a fallu du temps pour replacer certains mots dans ma bouche, en particulier à partir du printemps 2024, de la souffrance des Palestiniens innocents. » Là, vous parlez de votre émotion. En même temps, « Je me suis toujours considérée comme sioniste », dites-vous, malgré la complexité que vous soulignez de son signifié . Là, c’est le choix assumé de l’ambiguïté.

 

Je ne mets pas en cause la sincérité de votre discours dont je partage certains aspects, en particulier votre qualification « bombe à déflagration » de la colonisation de la Cisjordanie.

 

Cependant, vos mots ne sont pas les mêmes selon que vous parlez du réel (je le distingue de « réalité ») politique d’Israël ou du réel de la Palestine.

 

« La réalité, c’est que l’État d’Israël existe et que son droit à l’existence est indiscutable. De la même manière, les Palestiniens ont une pleine légitimité à trouver sur cette terre une sécurité, une dignité et une autodétermination. »

 

La réalité, votre réalité, est que vous utilisez le mot État pour Israël, et que vous ne l’utilisez pas pour les Palestiniens.  

 

Plus symptomatique – je préciserai juste après de quoi – ceci : « Il serait obscène de déresponsabiliser le Hamas de sa culpabilité depuis le 7 octobre et tout au long de ces années où il a fait de Gaza une rampe de lancement de missiles vers Israël. Simultanément, tant de choses sont importantes dans les choix politiques israéliens, à commencer par le fait que, trois ans après la catastrophe, ce gouvernement soit opposé à la création d’une commission d’enquête d’État. »

Symptomatique d’un discours qui substitue le phénomène (ce qui apparaît, se voit) à l’analyse de ce qui le produit, sa cause, autrement dit, pour ce dont vous parlez, le processus historique : le Hamas n’est pas tombé du ciel, il est le produit instrumentalisé d’une carence pérenne et le massacre du 7 octobre n’est pas un événement « en soi ». J’ai expliqué dans "le-blog-de-jean-pierre.com" en quoi il est, en deçà de toutes les intentions imaginables,  un suicide – ce que la suite a confirmé. Le suicide d’un peuple – j’utilise le mot dans son sens politique, autrement dit je ne parle pas de la population – quand il ne lui reste pas d’autre voie possible que sa mort accompagnée du plus grand nombre possible d’autres morts, acte sur lequel est unanimement collée l’étiquette commode de « terrorisme ». Commode en ce sens qu’elle donne l’illusion d’une explication.

La question essentielle que pose ce massacre, la seule qui soit susceptible de faire bouger les lignes du discours et interroger le sens des mots,  concerne ce qui l’a rendu possible, aussi bien du côté palestinien qu’israélien.

Dans le même paragraphe cité plus haut, une phrase pour la culpabilité du Hamas, une phrase sur le dysfonctionnement (militaire, technique, politique… ) israélien qui n’a pas pu empêcher le massacre, autrement dit, et malgré votre mise en cause du « campisme » en vous situant dans un camp, celui du phénomène, des effets,  qui exclut celui de l’analyse de la cause, autrement dit du processus.

Je vous soumets cette question : est-ce que l’émergence du Hamas, à laquelle a contribué la politique israélienne, et, en même temps, l’inexistence politique de l’Autorité palestinienne qui y a également contribué, s’expliquent autrement que par l’absence d’un État palestinien ?

Supposez un instant que le processus enclenché par les accords d’Oslo (= tourner la page de la question du « commencement ») ait été poursuivi et qu’il ait abouti à la création d’un État palestinien. Diriez-vous qu’aurait existé l’espace politique, idéologique, religieux, fanatique qui a vu naître le Hamas, espace dans lequel se développe l’extrémisme religieux israélien ?

« Les angles morts sont partout autour de nous ». Vous avez raison.

 

Pour terrifiant et insupportable qu’il puisse être, le 7 octobre n’est qu’un moment du processus qui conduit deux entités à persister depuis plus de 80 ans dans un conflit – dont l’asymétrie est aussi un problème – qui pose la question de son besoin pour exister.

C’est un angle mort.

 

[Source : blogs.mediapart.fr/jean-pierre-peyrard]

 

Naza, um relato sobre a banalidade do mal e a urgência da dessionização do território palestino

 

NAZA (filme de Yuval Abraham e Rachel Szor)

Escrito por Rafael Domingos Oliveira

[…] os crimes que Israel comete contra os civis árabes, dos quais o massacre de Kafar-Qassim é um exemplo chocante, não decorrem de uma “má” aplicação da “excelente” herança sionista, mas sim de uma excelente aplicação da terrível herança sionista.

Mahmud Darwich, 1973, sobre o massacre de Kafar-Qassim em 1956

Em Tel Aviv, alguém prepara uma refeição. Uma televisão permanece ligada, os carros atravessam a cidade, uma criança é colocada para dormir. Cenas do cotidiano, da vida acontecendo nos edifícios da capital econômica de Israel. Nos terraços destes mesmos edifícios, homens e mulheres contam como participaram da destruição de outras casas, em Gaza, onde também havia crianças, televisões e pessoas esperando o jantar. É desse encontro terrível entre o que se vê e o que se ouve que Naza, de Yuval Abraham e Rachel Szor, retira boa parte de sua força. A vida segue em Tel Aviv. E a facilidade com que pode seguir, enquanto a algumas dezenas de quilômetros famílias inteiras são assassinadas, torna-se uma das questões mais perturbadoras deste documentário que revela uma sociedade vivendo na zona de interesse.

Filmados à noite, com rostos e vozes protegidos, 24 integrantes das forças militares e da inteligência israelense descrevem procedimentos de vigilância, seleção de alvos e autorização de ataques contra Gaza. O título vem de nezek agavi, expressão hebraica para “dano colateral”, que na linguagem dos operadores são pessoas cuja morte é prevista antes de um bombardeio. Elas não são mais pessoas; tornam-se uma quantidade de “naza”. Essa contabilidade antecede os cadáveres. O filme registra o trabalho necessário para produzi-los, as permissões que o tornam executável e as justificativas com que seus agentes voltam para casa. Seu valor como documento histórico está, desde aí, na possibilidade de acompanhar a violência sendo organizada por aqueles que conhecem bem seus procedimentos, já que os executam.

Assisto Naza e vem à mente Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt (1963), sobretudo pela relação entre linguagem, julgamento e responsabilidade. Ao acompanhar o julgamento, em 1961, do funcionário nazista encarregado pelo planejamento e operacionalização da chamada “solução final”, Arendt encontrou uma desproporção assombrosa entre a enormidade dos crimes e a pobreza das fórmulas com que ele explicava sua atuação. A banalidade dizia respeito a essa maneira de agir e pensar, incapaz de considerar a posição do outro, sem diminuir a gravidade do que se havia feito.1 No filme, impressiona a desenvoltura com que conhecimentos sofisticados convivem com uma compreensão moral tão estreita da própria atividade. Aqueles agentes israelenses sabem fazer cálculos, operar sistemas, interpretar informações. O que deixam de sustentar é a pergunta sobre o direito de fazer aquilo. Arendt examina as regras de linguagem que permitiam aos funcionários nazistas conhecer o extermínio sem associá-lo às palavras pelas quais reconheciam um assassinato. O vocabulário de Naza cumpre uma função que podemos ler nessa chave. A criança continua ali, mas aparece no cálculo sob uma designação que dispensa imaginar sua vida. Há uma distância fabricada dentro da própria frase.

Quando um entrevistado diz que, se questionassem o que faziam, o sistema desmoronaria, ele revela o trabalho político exigido para conservar essa distância. Outro oferece uma justificativa familiar: “Se não fosse eu fazendo isso, seria outra pessoa”. A possibilidade de substituição é apresentada como dispensa de responsabilidade, embora confirme que houve alguém disponível para realizar a tarefa.

Também merece atenção a passagem em que Arendt descreve o alívio de Eichmann diante da adesão das autoridades reunidas em Wannsee: a aprovação da sociedade respeitável autorizava sua consciência.2 Em Naza, a confiança na hierarquia, nos especialistas e nos procedimentos oferece uma proteção semelhante ao julgamento de quem executa. Tudo recebeu uma autorização; portanto, cada um pode ocupar-se de sua parte. Essa divisão faz o crime atravessar muitas mãos, e cada uma delas procura entregá-lo à seguinte. A responsabilidade, porém, precisa percorrer o caminho inverso, reconstruindo quem decidiu, quem autorizou e quem realizou.

Há ainda algo que excede a imagem do funcionário indiferente. O intelectual palestino Abdaljawad Omar, em sua crítica ao filme, chama a atenção para a satisfação de alguns entrevistados com o poder que exerciam. Ele encontra uma inflexão no conhecido modelo israelense de “atirar e chorar”: aparecem o prazer da operação bem-sucedida e a perda daquele poder quando o serviço termina.3 Essa observação deve acompanhar a leitura arendtiana. A rotina pode conviver com entusiasmo, racismo e orgulho profissional. A morte administrada não deixa de ter desejos por trás dela. É justamente por conservar essas diferenças, sem oferecer a todos um mesmo roteiro de arrependimento, que Naza consegue ser tão incômodo.

Os aspectos formais do filme sustentam as ambivalências. As entrevistas acontecem no alto dos edifícios, contra uma cidade iluminada, e a câmera observa pelas janelas a continuidade da vida doméstica. A noite protege as fontes, mas também permite ver a sociedade que abriga seus relatos. A ausência de trilha musical entrega a cena às vozes, às pausas e aos sons da cidade. O cotidiano entra pelos ouvidos com uma indiferença que nenhuma música precisaria acentuar. Enquanto escutamos a descrição de uma família atingida, vemos a intimidade preservada de outra. Os diretores nos fazem permanecer nessa simultaneidade, sem o alívio de uma emoção previamente conduzida. Os prédios em construção de Tel Aviv, intercalados com os relatos da destruição de Gaza, dão espessura material a essa relação. De um lado, novas moradias projetam vidas futuras; do outro, a destruição das casas impede o retorno. Os terraços de onde se fala se opõem, nessa geografia do filme, à vida palestina empurrada para baixo das lajes, aos corpos soterrados, aos sobreviventes procurados entre ruínas. A verticalidade tem uma distribuição política. A cidade que cresce pode continuar a reconhecer-se como lugar de progresso enquanto participa da eliminação das condições de existência de outra população. O florescimento de uma vida aparece protegido da obrigação de responder pela devastação da outra.

A inteligência artificial amplia a escala dessa administração. Lavender, o sistema de inteligência artificial investigado pelo próprio diretor do documentário, Abraham Yuval, na +972 e no Local Call em 2024, classificava palestinos como suspeitos de vínculo com organizações armadas. Segundo as fontes da reportagem, o sistema chegou a assinalar cerca de 37 mil pessoas, com verificações humanas de apenas vinte segundos. Eram suspeitos produzidos por um procedimento de classificação, sem que isso comprovasse a condição de combatente de cada pessoa.4 O intervalo entre uma recomendação e um ataque torna-se tão curto que a revisão corre o risco de funcionar apenas como um carimbo. A responsabilidade humana permanece na definição dos critérios, na aceitação dos resultados e na decisão de transformar uma indicação em sentença de morte.

Já o sistema chamado Where’s Daddy? (onde está o papai?), também apresentado na voz dos depoentes genocidas do documentário, acrescenta uma perversidade a esse processo: a volta de alguém à casa da família pode produzir o alerta para um ataque. Os relatos incluem a escuta de telefones e o acesso à intimidade doméstica. Um agente pode saber que há crianças, reconhecer conversas, ouvir a vida acontecendo e autorizar sua destruição. A distância tecnológica convive, portanto, com uma proximidade invasiva. Aquelas pessoas são suficientemente conhecidas para serem localizadas, mas seus vínculos não lhes conferem proteção. Na entrevista à NPR, Rachel Szor destaca precisamente o quanto os operadores sabiam sobre as famílias que seriam bombardeadas. Yuval recorda ainda o depoimento sobre incendiar casas e destruir seus álbuns e cadernos: apagavam-se as marcas de quem vivera ali.5 A técnica organiza uma forma de conhecimento da qual se procura retirar toda obrigação diante do conhecido.

É nesse ponto que a expressão “efeito colateral” precisa enfrentar o que pretende encobrir. Prever mortes civis, nos níveis macabros em que são descritas e normalizadas, demonstra a intenção específica exigida para caracterizar genocídio. A questão envolve os alvos, os meios empregados, as precauções, os padrões de destruição e os objetivos políticos. Um dos oficiais ouvidos resume sua compreensão da missão: “Você entende que o objetivo é destruir”. Em Naza, a repetição dos procedimentos torna insuficiente a explicação de um acidente ou de um excesso localizado. A casa palestina torna-se unidade recorrente de ataque e a população perde os meios de permanecer no território. É necessário examinar a finalidade do conjunto, em vez de aceitar que cada família morta seja isolada da seguinte por um novo cálculo.

A noção de genocídio por atrição permite compreender essa destruição continuada das condições que permitem a um povo sobreviver: água, alimento, abrigo, cuidados médicos. Ela se combina com a morte imediata provocada pelos bombardeios. A Convenção de 1948 inclui a imposição deliberada de condições de vida destinadas à destruição física, total ou parcial, de um grupo, quando presente a intenção de destruí-lo enquanto tal. Foi examinando atos e intenção que a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU concluiu, em setembro de 2025, que Israel cometeu genocídio em Gaza.6 O filme acrescenta relatos internos a esse conhecimento. A supressão de uma casa alcança também a possibilidade de recomeçar nela. Destruir o lugar a que alguém poderia voltar prolonga a violência para além do instante da explosão.

Os depoimentos também dificultam a tentativa de atribuir tudo a Netanyahu e aos setores mais ostensivamente fascistas de seu governo. Como observa Sebastian Ben Daniel, estão sob exame integrantes das unidades prestigiosas, ligados ao universo educado e tecnológico que a sociedade israelense costuma apresentar como sua face liberal. Há uma base social para essa violência. Em pesquisa do Pew realizada em 2024, apenas 4% dos judeus israelenses entrevistados consideravam que a resposta militar havia ido longe demais, diante de 74% entre os cidadãos classificados pelo instituto como árabes israelenses (palestinos que vivem em Israel).7 Esses números mostram uma enorme desigualdade na disposição de reconhecer o excesso, que depende, curiosamente, do pertencimento identitário de cada entrevistado. A normalidade filmada em Tel Aviv tem instituições e convicções que ajudam a sustentá-la. A ocupação e a despossessão palestina atravessam governos; sua continuidade não se explica pelo temperamento de um primeiro-ministro, por pior e grotesco que seja.

Essa cadeia de decisões estende-se para além de Israel. Segundo levantamento do projeto Costs of War, da Universidade Brown, e do Quincy Institute, os Estados Unidos destinaram ao menos US$ 21,7 bilhões à ajuda militar a Israel entre outubro de 2023 e setembro de 2025.8 Essa continuidade material precisa entrar na discussão sobre a posição internacional diante do genocídio. A iniciativa da África do Sul na Corte Internacional de Justiça e as mobilizações pela Palestina enfrentam uma ordem em que governos podem reconhecer o sofrimento e, ao mesmo tempo, continuar fornecendo os meios de produzi-lo. A fabricação de uma bomba, seu financiamento e sua entrega têm responsáveis. O procedimento burocrático atravessa fronteiras antes de encontrar o operador que aparece na tela. Também as disputas no interior das comunidades judaicas fazem parte dessa história. Em janeiro de 2024, a CONIB condenou o apoio brasileiro à ação sul-africana e sustentou que Israel apenas se defendia. Coletivos como Vozes Judaicas por Libertação e Jewish Voice for Peace, por sua vez, organizam-se como movimentos judaicos antissionistas, denunciam o genocídio e exigem o fim do fornecimento de armas.9 São escolhas políticas que impedem tratar judaísmo, sionismo e Estado de Israel como uma única coisa. As organizações que legitimam a violência devem responder por suas posições concretas, sem receber das identidades que invocam uma imunidade à crítica, como deseja Israel. A dissidência judaica importa porque rompe a pretensão de que a segurança dos judeus dependa necessariamente da sujeição dos palestinos. Essa ruptura precisa produzir consequências para os que seguem submetidos à violência.

A perseguição aos realizadores ajuda a compreender o que está em disputa. Abraham e Szor foram ameaçados de perder a cidadania; extremistas se manifestaram diante da casa da família de Szor, com palavras de ordem pedindo a morte de traidores. No início de outubro de 2026, Netanyahu pediu uma investigação contra os participantes do filme e que fossem processados.10 A proteção das fontes tem, portanto, razões concretas. A denúncia pode expor quem fala a uma punição que os crimes relatados não produziram, isto é, uma espécie de punição pelo “crime errado”. Esse esforço de intimidação torna ainda mais necessário defender o filme e seus autores, mantendo diante de nós a pergunta sobre os atos de cada entrevistado. Ter rompido o silêncio não apaga o que alguém fez antes de falar.

As críticas palestinas são indispensáveis para que essa defesa não se acomode. Ayat Abou Shmeiss, poeta palestina de Jaffa que perdeu familiares num bombardeio, escreveu sobre a proposta e a recepção de Naza, declarando que não o havia visto e não o pretendia ver. Ela reconhece a importância de acessar decisões internas às quais os palestinos dificilmente teriam acesso. Seu incômodo está na possibilidade de que sua família, suas casas e seus mortos se tornem a matéria de uma recuperação moral israelense. O que acontece depois que os responsáveis se olham? Quem deve receber a reparação?11

Segundo essa crítica, a exposição tem valor, mas não contém, por si, uma resposta a essas perguntas. O sofrimento de um povo não pode terminar convertido em recurso para que seus algozes voltem a sentir-se humanos. Essa tensão alcança a recepção internacional.

O médico Omar Abdel-Mannan questiona por que as denúncias ganham uma credibilidade diferente quando chegam pelas vozes israelenses e adverte que assistir a Naza deve ampliar a escuta dos palestinos.12 Há nisso uma expressão do apartheid cognitivo, noção que venho defendendo neste debate: as vítimas produzem conhecimento sobre a própria destruição, mas seu relato permanece sob suspeita até receber a confirmação de quem ocupa uma posição reconhecida de autoridade. Os jornalistas palestinos já haviam mostrado famílias exterminadas e hospitais destruídos. Muitos pagaram com a vida por esse trabalho. O filme deve ser incorporado a esse arquivo, preservando a precedência e a autonomia de quem documentou a violência enquanto a sofria.

Acredito que Naza deve ser visto também por isso. Um documento histórico não precisa inaugurar o conhecimento de um crime para ter importância. Pode revelar sua organização, registrar vocabulários, fornecer elementos para reconstruir responsabilidades e dificultar a negação. A proteção jornalística de uma fonte, por meio do anonimato preservado no documentário, não equivale a uma absolvição. O filme pode ganhar força política nos usos que faremos dele: sua circulação pode alimentar investigações, ampliar a pressão pelo fim da cooperação militar e fortalecer exigências palestinas de justiça. A emoção da sessão não deve encerrar o assunto.

Durante quase todo o documentário, ouvimos mais porque vemos menos de Gaza. A ausência prolongada de suas imagens concentra nossa atenção nos mecanismos descritos, até que o desfecho nos leva a um pai procurando os filhos sob os escombros. A passagem é devastadora. Também permanece aberta à pergunta palestina sobre o lugar atribuído às vítimas: depois de tanto tempo escutando os operadores, que existência lhes é devolvida? Para mim, a cena deve ser recebida como a interrupção brutal da linguagem que as havia reduzido a uma quantidade. Ali, o que se procura é alguém. Um filho, com uma história que o filme não nos pode restituir inteira.

A consequência política dessa leitura ultrapassa a mera troca de governo ou a promessa de procedimentos militares mais “humanizados”, como querem sionistas moderados (assassinos moderados?). Assim como muitos movimentos palestinos e de judeus antissionistas, não vejo solução justa e duradoura fora da construção de um único Estado democrático em todo o território da Palestina histórica, com igualdade de direitos para palestinos e judeus. Isso exige um processo de dessionização daquela sociedade: o desmonte das instituições que organizam o privilégio nacional e a despossessão palestina, acompanhado de um processo de justiça, retorno dos refugiados e reparação. A igualdade deve assegurar a permanência, a segurança e a liberdade religiosa e cultural de todos, sem expulsões ou punições coletivas. Os palestinos precisam participar como sujeitos da definição desse futuro, com o direito de recuperar sua terra, sua memória e suas condições de vida. Os sionistas precisam ir ao banco dos réus, e serem julgados pelos seus crimes, como ocorreu em Nuremberg. A paz não pode continuar sendo o nome dado à administração da derrota palestina.

Em “Alarme de incêndio”, Walter Benjamin escreve sobre a urgência de interromper um processo histórico destrutivo antes que a centelha alcance a dinamite.13 A imagem conserva sua força porque exige uma intervenção no tempo presente. Em Gaza, o incêndio já começou; há muito começou. Naza pode fazer seu alarme atravessar algumas das paredes que ainda protegem a indiferença, embora eu acredite que mesmo isso, depois de tudo o que já vimos, seja quase impossível. Diante da banalidade do mal, a tarefa é reconhecer as decisões que mantêm o fogo aceso e agir sobre elas.

* * *

Enquanto ouvimos, ainda há gente sob os escombros.

* * *

Notas

1.     ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal (1963). Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. ↩︎

2.     ARENDT, op. cit., caps. VII (Conferência de Wannsee) e VIII (dever e obediência). ↩︎

3.     OMAR, Abdaljawad. Shooting and craving: on NAZA and the mediated obscene. Mondoweiss, 8 out. 2026. ↩︎

4.     ABRAHAM, Yuval. ‘Lavender’: The AI machine directing Israel’s bombing spree in Gaza. +972/Local Call, 3 abr. 2024. ↩︎

5.     FADEL, Leila. ‘NAZA’ filmmakers on what they learned making the doc and the backlash it received. NPR/WUSF, 30 set. 2026. Entrevista com Abraham e Szor. ↩︎

6.     ONU. Convenção do Genocídio, art. II; Comissão Internacional Independente de Inquérito. Conclusão sobre genocídio em Gaza, 16 set. 2025. Trata-se da conclusão da Comissão, não de sentença definitiva da Corte Internacional de Justiça. ↩︎

7.     BEN DANIEL, Sebastian. Why ‘NAZA’ terrifies Israel’s liberal elite. +972, 2 out. 2026; PEW. Views of the Israel-Hamas war, 30 maio 2024. Entrevistas de 3 mar. a 4 abr. 2024. ↩︎

8.     HARTUNG, William D. U.S. Military Aid and Arms Transfers to Israel, October 2023 – September 2025. Costs of War/Quincy Institute, 7 out. 2025. ↩︎

9.     CONIB. Condenação do apoio brasileiro à ação sul-africana, 10 jan. 2024; JEWISH VOICE FOR PEACE. Over two years of unspeakable loss. No more., consulta em 13 out. 2026. ↩︎

10.   [1] CPJ. Netanyahu escalates threats against ‘NAZA’ filmmakers, 17 set. 2026; MOSKOWITZ, Sarah. Netanyahu demands prosecution of ‘NAZA’ film participants. The Jerusalem Post, 11 out. 2026, atualizado em 12 out. ↩︎

11.   ABOU SHMEISS, Ayat. ‘NAZA’ is forcing Israelis to reflect. But we Palestinians are not your mirror. +972, 23 set. 2026. ↩︎

12.   ABDEL-MANNAN, Omar. Naza and whose testimony we believe. Middle East Monitor, 8 out. 2026. ↩︎

13.   BENJAMIN, Walter. “Alarme de incêndio”. In: Rua de mão única (1928). ↩︎

**** Rafael Domingos Oliveira é Historiador e educador, doutorando em História pela UNIFESP e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas das Afro-Américas (NEPAFRO). É autor de Vozes Afro-Atlânticas: autobiografias e memórias da escravidão e da liberdade (Elefante, 2022) e organizador de Gaza no coração: história, resistência e solidariedade na Palestina (Elefante, 2024) e Diários de Gaza, volume 1: a memória é uma casa indestrutível (Tabla, 2024). Atua nas áreas de história da escravidão e abolição nas Américas, história pública e memória palestina. 

 

 [Fonte: blogdaboitempo.com.br]