Por baixo de Boi, Bala e
Bíblia existe uma sociedade marcada por relações históricas de propriedade,
desigualdade, coerção e disputa pelo consenso.  |
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Sessão de discussão
e votação de propostas legislativa na Câmara dos Deputados do Brasil em 3 de
setembro.
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Escrito por Julio Lisandro Cañón
Licenciado
em Historia pela Universidad Nacional de Mar del Plata (Argentina)
Há letras que parecem explicar a realidade porque a
conseguem condensar. "BBB" tornou-se, no Brasil, uma forma corrente
de identificar setores associados ao latifúndio e ao agronegócio, às políticas
de armamento e segurança punitivista e ao conservadorismo religioso,
especialmente em segmentos evangélicos. Mas três letras não explicam uma
sociedade. Apenas nomeiam uma convergência. É justamente essa convergência que
precisa de ser explicada.
Boi, Bala e Bíblia não constituem uma organização única
nem expressam interesses idênticos. O que existe é uma articulação entre forças
sociais distintas. Interesses diferentes podem convergir na defesa de uma mesma
ordem social. O Congresso é apenas um dos lugares onde essa relação de forças
se torna visível: antes de chegar ao Parlamento, um interesse precisa existir
socialmente e possuir organização, recursos e representação. Compreender a BBB
exige reconstruir histórias diferentes –a questão agrária, os aparelhos
coercivos e a transformação de organizações religiosas em forças políticas– e
compreender quando é que elas encontram uma zona de convergência.
Essa convergência tem uma base material. A
concentração da terra está inscrita na formação brasileira. A colonização
organizou a apropriação territorial em torno da grande propriedade e da
exploração do trabalho; a escravatura sustentou essa estrutura e a abolição não
transformou a propriedade fundiária. A terra é relação social de poder, produz
riqueza e controlo territorial. O capitalismo agrário representa uma nova forma
de valorização do capital. Em 2015 o 25,13% do PIB. O Boi é a relação entre
território, propriedade e poder.
Onde a propriedade precisa ser defendida, a questão
económica encontra a coerção. A Bala não representa apenas aqueles que defendem
armas, mas uma conceção segundo a qual, diante do conflito, deve haver mais
coerção; diante da criminalidade, mais prisão; diante da pobreza, mais polícia.
O punitivismo transforma conflitos sociais em problemas criminais e produz um
inimigo. A criminalização posterior à abolição converteu desigualdades
históricas em indícios de criminalidade. Em 2025, 69,6% das pessoas privadas de
liberdade eram negras. A Bala expressa uma disputa sobre como e contra quem o
Estado exerce a sua coerção.
Força política
Mas nenhuma ordem social é sustentada apenas
pela força. É preciso produzir consenso. É nesse terreno que aparece a Bíblia.
Politicamente, importa a transformação de igrejas e redes de sociabilidade em
forças capazes de produzir identidade, organização e representação. Em 2022,
26,9% da população brasileira declarava-se evangélica. As igrejas formam
lideranças e difundem interpretações sobre família, propriedade, sexualidade e
autoridade. A desigualdade pode aparecer como mérito, a pobreza como fracasso e
a violência institucional como resposta legítima. A disputa cultural passa,
então, a reforçar a estrutura económica.
É
nesse ponto que Boi, Bala e Bíblia se articulam. A propriedade precisa de
proteção, a coerção precisa de legitimidade, o consenso pode naturalizar a
propriedade e legitimar a coerção. Uma aliança permite transformar diferenças
em unidade política. A hegemonia não depende de conspiração: depende da
capacidade de organizar interesses diferentes sob determinada direção política,
em cada conjuntura histórica concreta.
Essa força procura converter-se em força política por meio de
partidos, orçamento, legislação e decisões do Estado. A questão não é saber se
a BBB "controla" o Estado, mas quanto da sua força consegue
transformar em política de Estado. Uma reivindicação particular pode aparecer
como defesa da liberdade, da ordem, da segurança ou da família. É nesse
deslocamento que interesses particulares adquirem aparência universal. A hegemonia,
porém, não é absoluta: movimentos camponeses e indígenas, pastorais sociais,
comunidades eclesiais de base e a Teologia da Libertação disputam território,
consenso e instituições.
A
pergunta histórica não deve ser "quem está por trás da BBB?", como se
existisse um sujeito oculto. A pergunta é que relação de forças torna possível
essa convergência. As três letras são apenas a superfície. Por baixo delas
existe uma sociedade marcada por relações históricas de propriedade,
desigualdade, coerção e disputa pelo consenso. O capitalismo brasileiro não
reproduz simplesmente estruturas herdadas: reorganiza-as. O passado não
desaparece; é transformado no presente. Boi, Bala e Bíblia são três formas
diferentes de organizar forças sociais distintas em torno de uma disputa essencial:
quem possui, quem manda e quem consegue fazer com que essa ordem pareça
natural.
[Foto:
Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados do Brasil - fonte: www.nosdiario.gal]