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| Estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana |
Na semana passada, falei de uma declaração da ministra Cármen Lúcia a respeito da questão
"presidente" x "presidenta". Supus que fosse desnecessário
dizer que a "decisão" sobre a "existência" da palavra
"presidenta" não depende de ideologia, mas enganei-me.
Nos "comentários" (note as aspas, por favor),
algumas pessoas simplesmente ignoraram as provas documentais (o registro nas
edições antigas e nas atualíssimas dos nossos mais importantes dicionários e do
"Vocabulário Ortográfico", da Academia Brasileira de Letras).
Nada convence os que odeiam Dilma e sua trupe de que a
questão linguística nada tem que ver com a questão ideológica, política,
partidária etc. Uma "comentarista" chegou a dizer que tem dó dos meus
alunos. Certamente ela queria que eu tivesse dito que a existência ou não do
termo "presidenta" depende do credo político: no mundo petralha, o
termo existe; no mundo tucanalha, não. Cara leitora, caros leitores, um fato
técnico não tem ideologia.
Ou será que Drummond, o grande Carlos Drummond de Andrade, já
antevia a chegada ao mundo de Dilma Rousseff (14/12/1947), a posterior chegada
dela à presidência da República e ainda a obsessão de Dilma pelo emprego de
"presidenta"?
Explico: como bem lembrou o eminente professor Renato Janine
Ribeiro, na histórica tradução que Drummond fez do célebre romance "As
Relações Perigosas" ("Les Liaisons Dangereuses"), de Pierre
Choderlos de Laclos, aparece a expressão "a presidenta de Tourvel".
Essa tradução foi publicada em 1947. Petralha que era (já em 1947!), Drummond
preparou o terreno para Dilma...
Peço licença a Caetano Veloso, que, na genial "Podres
Poderes", diz assim: "Será que esta minha estúpida retórica terá que
soar, terá que se ouvir por mais zil anos?". Sim, sinto-me um estúpido ao
ter de dizer (mais uma vez) que o comentário da ministra Cármen Lúcia foi
tecnicamente equivocado. Usar como argumento a inexistência de
"estudanta" para justificar a inexistência de "presidenta"
é como dizer que, se não existe o inicial do mês (ou da semana), não pode
existir o final do mês (ou da semana). PODE EXISTIR, SIM, ou melhor, EXISTE!!!
E por que não se usa "inicial do mês" se se usa
"final do mês"? Por uma razão bem simples: porque não se usa. Como já
afirmei N vezes, nem todos os fatos da língua são cartesianos. "Final do
mês" e "fim do mês" são expressões equivalentes.
Na internet e nas redes antissociais, circulam essas e outras
bobagens ("inicial do mês", "estudanta" etc.). Os
argumentos técnicos são ignorados; quando alguém se atreve a usá-los, tem de
aturar "especialistas" (note as aspas, por favor).
As pessoas têm todo o direito de gostar ou de não gostar de
certa palavra ou expressão; só não podem inventar argumentos infundados. Eu
mesmo disse que me parece infantil a obsessão por "presidenta".
Embora o termo TENHA REGISTRO HÁ MUITO TEMPO (e o registro decorre do uso), o
seu emprego, correto, é minoritário, por isso causa estranheza.
Pelo jeito, se um petralha disser a um tucanalha que a Lua
existe, o tucanalha dirá com toda a convicção que a Lua não existe, mesmo que o
petralha mostre dados técnicos, fotos etc. Por sua vez, o tucanalha dirá ao
petralha que o Sol existe, e aí será a vez do petralha, que dirá aos quatro
ventos que o Sol é uma miragem. Triste país. É isso.
[Foto: Paulo
Campos/Folhapress – fonte: www.folha.com.br]

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