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terça-feira, 19 de março de 2019

A família e o sexo


Quem quiser valorizar a família faria melhor se não a transformasse em repressão

 

Escrito por Contardo Calligaris  

No começo dos anos 1970, Paris era um parque de diversões. O presidente Georges Pompidou, que concebeu o centro que carrega o seu nome, detestado por parte da esquerda, era um liberal, um homem de letras, racional, sem simpatia pela direita católica da Action Française —talvez, aliás, fosse um tanto libertino. Resultado: a cultura francesa floresceu como nunca, e a vida noturna parisiense, também.
Nos sex shops da rua Saint Denis ou de Pigalle, era possível encontrar mapas noturnos do grande parque ao oeste de Paris: o Bois de Boulogne. 
Você podia aprender onde oficiavam travestis e transexuais, onde mulheres fellinianas prendiam seus clientes entre duas árvores e os açoitavam com gosto, onde era possível fazer sexo apimentado pelos olhares dos voyeurs e, enfim, onde se reuniam as surubas. 
De vez em quando, aparecia na imprensa a carta de um “cidadão de bem” escandalizado. Mas o que todos se perguntavam era: por que diabo o tal cidadão se aventurara no meio do bosque de madrugada? Ele esbarrara em algo que não queria ver ou fizera de tudo para ver e, portanto, dizer-se ultrajado?

Nestes últimos dias, só pude pensar nas conversas daquela época sobre o que constitui um ato obsceno em lugar público. Se você entrar num cinema pornô do centro, vai se dizer ofendido porque um casal, ao seu lado, faz sexo oral? 
E se você for a um bloco de Carnaval que se chama Blocu, pode se dizer ofendido porque alguém brinca com seu ânus ou mostra o pinto e faz xixi em outra pessoa? Bizarras, para mim, foram as reações. 
“Veja aonde chegamos!” Pois bem, chegamos ao lugar muito familiar de onde nunca saímos: entre fezes e urina, onde se situam os órgãos de nossa sexualidade.
“Isso não pode continuar. As pessoas não podem achar isso normal.” Pois bem, as brincadeiras dos dois artistas (eles declararam ser uma performance) não têm nada de extremo. 
O sexo anal é trivial, nas relações hétero e homossexuais; crianças pequenas brincam com seu dedo e o seu ânus quando começam a se masturbar. Quanto ao xixi, é suficiente ter tentado ajudar uma criança com enurese noturna para saber que a micção tem um valor erótico desde muito cedo. 
Enfim, tanto o “fingering” (não é preciso perguntar no Twitter: significa “a dedada”) quanto o golden shower são práticas sexuais tão comuns que já foram temas de artigos de revista feminina, entre elas a Cosmopolitan.
Diante da ingenuidade de quem se escandaliza ou não entende do que se trata, só resta concluir que é preciso mesmo aprofundar e detalhar as cartilhas de educação sexual distribuídas nas escolas. Mas talvez esse seja um problema de velhos que cresceram na censura ou sem internet.
Nota: quando o Blocu passar na rua da minha casa, minhas crianças decidirão se ficarão na sacada ou não, mas entendo, obviamente, que outro cidadão não queira que seu filho ou sua filha assista à tal performance.
Enfim. Depois de sua indignação no Twitter, o presidente Bolsonaro declarou que governa o país ao lado daqueles que “respeitam a família”. 
Alguns comentadores entenderam que ele continuava a birra com os artistas do Blocu —ou seja, entenderam que a família seria o que se opõe aos excessos do Carnaval e do sexo.
Agora, eu sou cristão demais para fazer da família um valor em si; mesmo assim, reconheço que a família é o que inventamos de melhor para criar filhos e nos reproduzir social e culturalmente. 
Mas cuidado: se quisermos que a família continue exercendo essa função, não podemos invocá-la como a instituição que deveria reprimir o desejo e as fantasias sexuais dos casais. Se pedirmos da família que ela sirva para normalizar a vida sexual, vamos condená-la a desaparecer num mar de tédio sem amor.
Ao redor da estação Porte Dauphine, na Paris dos anos 1970, nas noites de sexta e de sábado, era um vaivém de casais, que procuravam companhia para fazer a festa. O Bois de Boulogne se tornava uma espécie de casa de swing a céu aberto.
Desde aquela época, os casais mais unidos que encontrei, inclusive na tarefa de criar seus filhos, sempre foram aqueles para quem a família não era um sacrifício —não valia pela repressão, mas pela aventura de inventar a vida juntos (inclusive a sexual).
Quem quiser realmente valorizar a família faria melhor se nunca a transformasse em pretexto para repressão. Ela não serve para isso. Serve para facilitar o acesso à variedade dos desejos por parte de todos seus membros.

[Ilustração: Mariza Dias Costa - fonte: www.folha.com.br]

quarta-feira, 6 de março de 2019

Escola com estudo


Vamos deixar a brincadeira para o recreio e simplesmente estudar?

 


Escrito por Contardo Calligaris

Vittorio Alfieri (1749-1803) é o maior autor de tragédias da literatura italiana (a safra de autores italianos de tragédias é bem mediana).
Suas peças, no secundário, eram leitura obrigatória, mas eram chatas. Em compensação, a gente se interessava pela vida de Alfieri.
Ele gostava de farra. De amada em amada e de viagem em viagem, escrevinhou “Antonio e Cleopatra”, que fez sucesso, e a partir de então, decidiu-se levar a sério.
Para vencer seu espírito impulsivo e inquieto, ele inventou um remédio contra o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, TDAH (que acomete de 5% a 7% das crianças de hoje): ele pedia para ser amarrado na cadeira onde sentava para escrever. O mordomo, que o amarrava, só podia soltá-lo à noite.
O remédio funcionava pela determinação de Alfieri. Sem isso, mesmo amarrado, ele brincaria com sua caneta e sonharia com aventuras e amores, sem escrever nada.
Supõe-se que o TDAH resulte de um desenvolvimento lento do córtex pré-frontal —a área do cérebro que nos torna mais prudentes. O transtorno é recorrente numa mesma constelação familiar, mas isso não prova que seja herdado: falta de foco e agitação também se transmitem pelo exemplo dos próximos.
Agora é comum pensar (ou suspeitar) que o TDAH e seu diagnóstico tenham-se tornado mais frequentes nas últimas décadas.
Muitos pensam que as crianças de hoje sofrem mais de TDAH porque são expostas a mais estímulos do que no passado. Concordo, mas elas são também privadas de uma boa parte de suas obrigações: portanto, só lhes resta se divertir, o que é eminentemente ansiógeno.
Como me divertirei? O que me divertirá? E se —Deus não permita— eu me entediasse?
Comparado com essas perguntas, a lista dos deveres de casa é pacífica: basta ler a agenda, está lá o que tenho para fazer, e vai me ocupar até o jantar.
O que angustia não é tanto a obrigação de sentar e estudar, mas a de “se divertir”.
Minha coluna de 14/2, tratava dos efeitos (ruins, mundo afora) da diminuição das exigências escolares a partir dos anos 1960.
Uma amiga, Nathalia Botura, doutora em pedagogia, comentou que, no Brasil, a coisa começou com a Escola Nova dos anos 1930: “Vamos acabar com a palmatória e conferir ‘humanidade’ aos pirralhos”.
Deu lugar à Escola Ativa, que, escreve Nathalia, “glorificava ‘o impulso espiritual’ da criança que criaria naturalmente as condições para seu desenvolvimento e autonomia”.
Pergunta: “Como a criança vai construir seu próprio saber, sem os ‘insumos’ intelectuais para tanto? Até mesmo a função psicológica da ‘criatividade’ é aprendida, é um músculo a ser exercitado”.
Consequências catastróficas para o ensino: acabou a “responsabilidade do estudo —não apenas por parte dos alunos, mas por parte dos professores que não são treinados para estudar”.
Enfim, Nathalia cita uma nota nos “Cadernos do Cárcere” de Gramsci (muito citado ultimamente por quem não o lê):
“A criança que quebra a cabeça com os barbara e baralipton [para quem se divertiu e não estudou: são formas de silogismos na lógica de Aristóteles, que qualquer estudante na minha época decorava] certamente se cansa, e deve-se fazer com que ela só se canse o indispensável e não mais; mas é igualmente certo que será sempre necessário que ela se canse a fim de aprender a se autoimpor privações e limitações de movimento físico, isto é, a se submeter a um tirocínio psicofísico. Deve-se convencer muita gente de que o estudo é também um trabalho, e muito cansativo, com um tirocínio particular próprio, não só intelectual, mas também muscular-nervoso: é um processo de adaptação, é um hábito adquirido com esforço, aborrecimento e até mesmo sofrimento. A participação das massas mais amplas na escola média traz consigo a tendência a afrouxar a disciplina do estudo, a provocar ‘facilidades’”.
Em suma, Gramsci com Alfieri, com Nathalia e comigo: vamos deixar a brincadeira para o recreio e simplesmente estudar? Vamos parar de nos preocuparmos com escolas com ou sem partido, para fazer uma escola com estudo?
Mas essas são questões já ultrapassadas. Tudo vai mudar na educação brasileira, agora que o ministro da Educação decidiu que as crianças vão cantar o hino nacional. Volto sobre esse incrível e hilário achado pedagógico na semana que vem.


[Ilustração: Mariza Dias Costa - fonte: www.folha.com.br]

 


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Com ou sem confiança

Somos condenados ao atraso porque confiar nos outros é perigoso no Brasil

Escrito por Contardo Calligaris

Numa das primeiras aulas do curso de paraquedismo, o instrutor mostrou como se dobra um paraquedas. Se você errar, o paraquedas não abrirá direito.
O instrutor acrescentou que, no primeiro pulo, cada um de nós (éramos 15) usaria um paraquedas dobrado por outro, não por ele mesmo.
Era uma pegadinha, mas houve uma longa troca de olhares, tensa e silenciosa, em que tentávamos entender se os outros eram "confiáveis" (e nos perguntávamos: o que eles veem? Será que me acham confiável?).




Nosso instrutor era um sargento paraquedista do Exército suíço. Ele queria instilar na nossa turma de estudantes universitários o nível de cooperação e confiança recíproca que é o padrão de um Exército.
Se estamos no mesmo pelotão, eu preciso confiar que meu camarada de sentinela das 2h às 4h não vai dormir. Sem isso, eu não poderei descansar e estar pronto para tomar o lugar dele às 4h, no turno seguinte.
Nas caçadas do domingo, na minha adolescência, sempre eram grupos de três que entravam num campo de milho ainda não cortado, atrás de faisões. Com os cães na frente, os três caçadores avançavam sem poder enxergar onde estavam exatamente os outros. Mas nunca duvidei: ninguém atiraria numa ave antes de ela levantar voo bem alto.
Esses três exemplos apresentam grupos com um coeficiente alto de cooperação e confiança. Qual seria o exemplo oposto?
Francis Fukuyama, cientista político, publicou o famoso (como de costume, mais discutido do que lido) "O Fim da História e o Último Homem", em 1992 (Rocco). Três anos depois, veio "Confiança - As Virtudes Sociais e a Criação da Prosperidade" (Rocco), no qual Fukuyama analisa o impacto dos hábitos morais compartilhados sobre a prosperidade de uma sociedade.
A confiança é um dos fatores cruciais que fazem que uma sociedade seja próspera ou não.
Fukuyama define a confiança assim: uma expectativa compartilhada de que o comportamento dos outros será honesto e cooperativo —e isso, claro, fora do quadro familiar (os hábitos morais só têm interesse se funcionarem fora da família e sem intervenção do governo).
É fácil imaginar porque as sociedades com alto nível de confiança seriam mais prósperas. Assim como é fácil imaginar como a falta de confiança recíproca condena uma sociedade (o que sobrar dela sem confiança recíproca) à estagnação na pobreza.
Veja só. Você mora no último andar. Um dia, chove na sua casa, pelo teto. O síndico, solícito, chama uma empresa, a qual, em tese, faz o necessário. Você confia.
Alguns meses depois, num temporal, chove novamente na sua casa. O empreiteiro reaparece, diz que verificou as calhas etc. e vai embora garantindo o resultado. Você confia.
Volta a pingar água. O empreiteiro é convocado, comenta que a chuva foi excepcional e garante que, desta vez, está resolvido. Você não confia mais...
O serviço acabará, enfim, com outro empreiteiro, que saberá o que fazer e, monitorado, usará os materiais certos, que são levemente mais caros.
Essa pequena história só é engraçada porque ela não tem vítimas. Mas ela tem custos: seu custo social não é apenas o tempo desperdiçado por todos (zelador, síndico, empreiteiro, mão de obra, funcionários etc.), mas a própria deterioração da confiança (de todos) na competência, na honestidade e na eficiência do trabalho.
Logo antes do Painel da GloboNews de sábado passado, tomei um café com José Adércio Leite Sampaio, o procurador que coordena as forças-tarefas dos desastres do Rio Doce (Mariana) e de Brumadinho.
Perguntei se ele atribuía as mortes de Brumadinho à incompetência ou à negligência. Ele me respondeu que, no começo, ele tinha dado uma chance à ideia de que fosse um acidente. Rapidamente teve que levantar a hipótese da incompetência, logo a da negligência e, enfim, rendeu-se às provas de que a catástrofe era fruto de uma fraude.
Mariana, Brumadinho, o CT do Flamengo, a boate Kiss, os desmoronamentos da chuva no Rio, para uma amiga, são eventos que anunciam o fim do mundo e provam que, por alguma culpa, somos desafetos de Deus. Para mim, esses eventos só acumulam razões para cultivar a desconfiança social.
Podemos mitigar os riscos pessoais: por exemplo, para quem pode, não viver encostado numa barragem ou no morro do Vidigal. Mas, como comunidade, somos condenados ao atraso porque aqui, no país em que vivemos, confiar nos outros é perigoso.

 [Ilustração: Mariza Dias Costa/Folhapress – fonte: www.folha.com.br]

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Brasil pós-moderno?

País se modernizou sem mudar estruturas tradicionais e autoritárias de poder

 

Escrito por Contardo Calligaris

 

Tento resumir ao essencial meu estranhamento com o novo governo e com as eleições que o levaram ao poder. Chego a isso: eu achava que vivia numa sociedade pós-moderna, e estava enganado.
O que definia a sociedade pós-moderna na qual eu achava que vivia (e me considerava feliz de estar vivendo)? Essencialmente:​
1) Uma liberdade e diversidade ampla de desejos e atos, ou seja, um mundo em que os desejos e os atos dos outros só me dizem respeito caso eles transgridam uma norma do Código Penal. Em matéria de sexo, por exemplo, o ato do outro só me diz respeito em caso de estupro ou de abuso de menor ou incapaz —quanto ao resto, que cada um goze como lhe sai melhor;
2) Uma definição do comportamento moral como sendo inspirado por escolhas no foro íntimo de cada um —e seu corolário: é imoral qualquer escolha inspirada pela obediência a "valores" coletivos, que não sejam inventados e defendidos pela singularidade de cada um de nós.
Nesse mundo, em que eu achava que vivia, a tolerância era extrema, a diversidade valorizada e a boçalidade (ou seja, a vontade de impor nossas regras aos outros) existia só como um resto de passados arcaicos, em via de extinção. De onde vinha minha ilusão?
Ilustração de Mariza Dias Costa para Contardo Caligaris de 10.jan.2019.
Talvez do ambiente que mais frequento: pessoas que viajam, leem jornais e livros, agnósticos (em sua maioria) ou ateus, intelectuais que falam várias línguas e desprezam a ideia de nação (ou, pior, de pátria) etc.
Talvez da internet, que, no mínimo, prolonga a ilusão de que o mundo não tenha fronteiras e de que, nele, todos tenham direito à mesma plena cidadania. Talvez da fala dos alarmistas que citam Zygmunt Bauman e se queixam de estarmos vivendo num mundo líquido, e eu acredito e me alegro com isso. Talvez ainda das ficções que, em tese, eu pensava, retratam nosso mundo.
Pensei, aliás, na relevância das ficções quando vi apoiadores de Bolsonaro, no dia da posse, gritando "Facebook" e "WhatsApp" contra jornalistas da Rede Globo. Claro, eles criticavam o jornalismo profissional, manifestando sua preferência pelo boca a boca das redes sociais. Mas não era só isso. Explico.
Durante muitos anos, pensei que, no Brasil, a televisão era o grande agente de transformação das consciências. Um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo na novela das 20h me parecia afastar a boçalidade nacional mais do que qualquer ensaio ou ação política. A cultura de massa rivalizava com os preconceitos e me parecia que, nessa luta, a cultura de massa estivesse ganhando.
Ninguém, eu pensava, iria "voltar atrás", contrariar ciência e experiência e inventar que só existe um desejo sexual certo ou que só tem dois gêneros. Se algo apareceu na novela, é que está aceito e firme na consciência nacional.
As eleições mostraram diferente. Na TV, a gente pode se apresentar como uma sociedade tolerante, diversa, libertária e libertina, mas, de fato, somos pós-modernos só na TV.
Ou melhor, a televisão não simula nossas vidas de classe média, mas um mundo urbano, laico, informado, relativamente culto, elegante e menos preconceituoso do que o nosso. É o primeiro mundo ao qual fazemos de conta que pertencemos. Mas é só um fazer de conta e uma tentativa de imitar.
Imitamos como? Consumindo. Tentamos comprar o acesso ao primeiro mundo à força de cintos, bolsas e perfumes, mas essa é a única simulação que nos permitimos. Nada de direitos humanos para as minorias, nada de feminismo básico compartilhado, nada de tolerância e liberdade dos indivíduos. E só conseguimos ser eternos turistas caipiras errando por um shopping center, de cartão de crédito na mão.
Por que não estamos preparados para o primeiro mundo que criamos e com o qual brincamos na TV? Por que nossa pós-modernidade é apenas um sonho de consumo?
Por falta de cultura e de história que nos levem a isso? É possível. Por medo? Se negros e mulheres se tornarem cidadãos como nós, quem vamos escravizar? E, se os desejos desviantes forem permitidos, quem controlará nossos próprios desejos inconfessáveis e inconfessados? Também é possível.
O Brasil já se modernizou, nos anos 1960, sem alterar as estruturas tradicionais e autoritárias de poder. Foi a dita modernização conservadora. Hoje, descubro que a aparente pós-modernidade brasileira também era conservadora: só consumo e uma feira de vaidades, sem transformação cultural.

 

 

[Ilustração: Mariza Dias Costa - fonte: www.folha.com.br]

 

 


sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Os toscos e os boçais

O tosco-boçal tem opiniões por puro preconceito e quer impô-las aos outros



Escrito por Contardo Calligaris

Não tenho fé na Razão com "r" maiúsculo, mas tenho alguma fé na capacidade humana de se instruir, pensar e dialogar. Essa capacidade é antiga e passou por muitos altos e baixos.
Entre os séculos 15 e 18, no Ocidente, foi um dos altos: muitos redescobriam a alegria de estudar, argumentar, ler, escrever, mudar de ideia, criticar aos outros e a si mesmos.

Tudo isso nunca tinha parado de acontecer, mas, especialmente nos séculos 15 e 16, muitos correram o risco de renunciar às baboseiras nas quais a maioria acreditava até lá —e acreditava por consideração pelas autoridades constituídas (ou por medo delas) e também por preguiça: aceitar os preconceitos mais facilmente compartilhados dá menos trabalho do que pensar por conta própria.

Um exemplo de como a coisa mudou. A Reforma Protestante começou quando alguém perguntou a um padre: "Mas por que acreditaria em você?" O padre respondeu: "Porque sou padre". Mas, de repente, o argumento não valeu mais: "E daí que você é padre? O que você vai fazer para ganhar meu respeito?".

Na mesma linha, alguém escutaria que a Terra está ao centro do universo ou que Deus a criou em sete dias e perguntaria "Quem disse isso?". O padre responderia que foi Deus. E o indivíduo responderia o que ele se permitiu aprender, ou seja, que não foi Deus, mas um escritor de 2.600 anos atrás, o qual queria consolar o povo judaico depois do cativeiro na Babilônia.

Fomos longe por esse caminho. A mesma pergunta colocada ao padre pode ser hoje colocada aos pais: "Obedecer a vocês por quê?". "Porque somos seus pais." "E daí? Ganhem primeiro minha confiança."

O poder se tornou um lugar mais incômodo. E a sociedade, em geral, tornou-se um lugar mais livre e interessante —claro, à condição, como disse, de se instruir, pensar e dialogar.

A partir do século 18, também aconteceu que a própria razão funcionasse como uma desculpa do poder. "Você quer mandar por quê?". "Porque meu plano é racional", responderia Stalin em 1928, acrescentando que, por um plano "racional", valeria a pena sacrificar milhões de dissidentes.

Os fascismos e o comunismo demonstraram que a razão em si (separada da concretude da vida) pode ser tão abusiva quanto os preconceitos e a deferência diante da tradição e da autoridade.

A vontade moderna de se instruir, pensar e dialogar é ameaçada por dois grupos opostos e ambos toscos: 1) os que não querem aprender, estudar e dialogar e recorrem aos preconceitos da "tradição" para poder assim deixar de pensar (que é uma tarefa cansativa); 2) os que tampouco querem aprender, estudar e dialogar, e recorrem à "razão" abstrata como a uma camisa de força que pode ser imposta à realidade, sem se dar a pena de sequer, primeiro, conhecê-la.

Nas últimas colunas, propus minha definição do boçal: o boçal é quem quer decidir o que os outros deveriam pensar, sentir e fazer da vida. O tosco (nisso diferente do boçal) é quem tem opiniões sobre quase tudo sem fazer o esforço para conhecer a realidade sobre a qual opina: ele não precisa se inteirar de nada, porque opera a partir de preconceitos.

Nota: está na moda perdoar os toscos porque, sei lá, não tiveram boas escolas, faltaram livros em casa quando eram crianças etc. Entendo, mas ser tosco é também uma decisão de vida, comandada por uma tremenda preguiça de ler, aprender e se instruir.

Nos últimos tempos, houve, aliás, intelectuais que se especializaram na tarefa de desculpar os toscos, ou seja, de permitir que eles pudessem continuar opinando sem instrução e sem culpa. Voltarei sobre isso outra vez.

Continuo: muitos boçais são também toscos e muitos toscos são também boçais. O tosco-boçal tem opiniões por puro preconceito (ou seja, por ignorância), e são justamente essas opiniões que ele quer impor aos outros.

Enfim, uma receita para não ser tosco. Imaginemos que seja inevitável você se posicionar sobre um tema (sei lá, se o gênero corresponde ao sexo aparente?). Para não ser tosco, você vai precisar ler no mínimo quatro livros recentes sobre o tema. Ao menos dois desses livros precisam ser boas histórias gerais do assunto (como surgiu, como foi tratado até hoje etc.).


Com isso, será que sua opinião será fundamentada? De fato, com isso, você vai desistir de manifestar sua opinião, porque vai ter descoberto que só tosco opina. Para os outros, a vida é complexa demais para ser matéria de opinião.


[Ilustração: Mariza Dias Costa - fonte: www.folha.com.br]

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Ex-pajés, seitas e crenças

As crenças servem para evitar a descoberta de que o mundo não tem sentido algum



Escrito por Contardo Calligaris

"Ex-Pajé”, de Luiz Bolognesi (menção especial no Festival de Berlim), entra em cartaz no Brasil hoje. É uma obra-prima: a câmera narra e comenta a história melhor do que qualquer voz em off.
Os índios paiter-suruís se apresentam assim: “Desde 1968, quando Nós, os Paiter, começamos a ter contato ‘oficial’ com o homem branco, as relações com não indígenas vêm provocando profundas mudanças em nossa sociedade. Essas mudanças, porém, não apagaram o nosso espírito guerreiro, que nos motivou a lutar pelo reconhecimento e integração de nosso território” (www.paiter.org).
E o filme começa com uma citação de Pierre Clastres, antropólogo, lembrando que, para cometer etnocídio, não é preciso matar os membros de uma comunidade, basta matar sua alma.
Bolognesi conta a história do pajé de uma aldeia paiter que é levado a ser bedel da Igreja Batista, a qual trouxe novas crenças e impôs que as antigas fossem abandonadas. Quando a realidade aperta, alguns membros da aldeia resgatam o pajé, na esperança de que o deus antigo ainda o escute.
O filme é perfeito para pensar na facilidade com a qual os brancos modernos acreditam na superioridade de suas crenças e assassinam culturas (curei-me um pouco dessa culpa histórica lendo “O Remorso do Homem Branco”, de Pascal Bruckner, ed. Dom Quixote, que ainda aconselho).
O cristianismo é a religião perfeita para o imperialismo cultural. Antes do cristianismo, cada povo tinha seu deus. Um povo era derrotado porque seu deus era mais fraco que o deus dos outros —ou porque o povo tinha pecado, e seu próprio deus tinha deixado de protegê-lo.

O cristianismo inventou uma religião que podia ser proposta aos derrotados como uma verdadeira consolação. Nós acabamos com suas crenças e seu deus, mas nosso Deus, justamente, adora os derrotados, pois Ele mesmo triunfou sendo crucificado.
Mais um detalhe: o pastor mantém sua fé convertendo os outros, enquanto o pajé não sairia da aldeia para propagar a crença no deus do rio. O cristianismo, pretendendo-se universal e sendo essencialmente missionário, precisava de um deus que consolasse os que seriam derrotados e convertidos.
O que é trazido pelo pastor não é menos bizarro do que as antigas crenças. A existência do espírito do rio, de onde vêm os peixes que alimentam a aldeia, é mais provável que um Espírito Santo que viria encher apenas nosso coração.
Mas uma nova crença não ganha da antiga fazendo apelo à razão. As crenças (novas e antigas) proporcionam atalhos para dar sentido ao mundo. Elas servem para evitar a descoberta de que o mundo não tem sentido algum ou, no mínimo, para nos poupar os esforços que faríamos para encontrar, na nossa própria vida, uma migalha de sentido.
O pastor e o pajé não são diferentes: eles estão lá para compensar o medo e a preguiça da aldeia inteira. Seguindo as instruções deles, todos ganham o direito de não pensar.
Um exemplo. A serpente que te morde é o espírito de teu inimigo. Ou, então, a serpente é o Diabo. Tanto faz. O que importa é não pensar que a serpente é só um bicho assustado, que passava por aí e te picou: você vai morrer, e isso não faz sentido algum.
Acabo de ler “Seita”, de Paula Picarelli (Planeta), que talvez seja um romance ou talvez um relato documental (muito divertido, aliás) de como a narradora se envolveu no Portal da Divina Luz (centro de ayahuasca na São Paulo de hoje) a ponto de não saber mais se era dependente da droga ou se tinha se perdido num culto religioso.
De fato, o Portal tem tudo para ser um culto: campanhas de doações, grupos de estudo, anjos, rituais emprestados do psicodrama, segredos, hierarquias, doutrinas sobre extraterrestres e espíritos etc.

Mas o mais surpreendente e inquietante para mim, no livro de Picarelli, foi a docilidade dos personagens, a espécie de predisposição que faz com que eles sejam imediatamente seduzidos pela “espiritualidade” do Portal.

Eu pensava assim: o mundo perdeu seu encanto —não tem gnomos, não tem elfos, não tem demônios nem anjos, e é bem possível que não tenha Deus e que não haja além onde continuar vivendo depois da morte. É uma perda, mas, em compensação, não tem inquisidores, e somos mais livres para fazer o que outrora e alhures seria punido como pecado.
Pois é, estava errado: os vagos anseios espirituais dos anos 1970 estão vivos como nunca. A Era de Aquarius mal começou.


[Ilustração: Mariza Dias Costa/Folhapress - fonte: www.folha.com.br]