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quarta-feira, 16 de março de 2022

Com censura e sem afeto, feministas sepultam o lirismo sadio de Chico e Nara Leão

 

Escrito por Eduardo Affonso

Depois de ter sido (a contragosto) a musa da Bossa Nova e ter-se lançado no projeto de ir além do barquinho e da flor, e descobrir o Brasil do morro e do sertão, Nara Leão encontrou em Chico Buarque um dos seus autores preferidos.

Dele, gravou “Olê olá”, “A banda”, “A noite dos mascarados” e “Com açúcar, com afeto” — o melhor da produção inicial daquele que viria a ser um dos maiores compositores brasileiros (se não o maior).

Um dos momentos mais surpreendentes do excepcional documentário “O canto livre de Nara Leão” é quando, candidamente, Chico admite que renega “Com açúcar”, escrita a pedido da cantora. E não é que considere pobre a melodia, fraca a letra. As feministas não gostaram e “Vou sempre dar razão às feministas”, diz ele.

“Quando a noite enfim lhe cansa / Você vem feito criança / Pra chorar o meu perdão. (...) E ao lhe ver assim cansado / Maltrapilho e maltratado / Ainda quis me aborrecer? / Qual o quê / Logo vou esquentar seu prato / Dou um beijo em seu retrato / E abro os meus braços pra você.” Quantas mulheres não se enxergaram nesse espelho, e assim tomaram consciência da manipulação, do abuso?

“Mulher nenhuma precisa ser tratada assim”, explica Chico. Mas assim precisa ser retratada, porque essa mulher e esse homem existem, e a arte tem o papel de fazer refletir sobre a realidade.

Será que ele vai banir do repertório a obra-prima “Toda noite ela diz pra eu não me afastar / Meia-noite ela jura eterno amor / E me aperta pra eu quase sufocar / E me morde com a boca de pavor”, em que desnuda o vazio desesperador de uma existência — e que as feministas poderão qualificar de gaslighting?

O que fará se elas descobrirem a ainda mais incisiva “Sem açúcar” (Dia útil ele me bate / Dia santo ele me alisa. / Longe dele eu tremo de amor / Na presença dele me calo / Eu de dia sou sua flor / Eu de noite sou seu cavalo)? Será uma romantização da violência?

Verão objetificação do corpo feminino em O meu amor / Tem um jeito manso que é só seu / De me fazer rodeios / De me beijar os seios / Me beijar o ventre / Me deixar em brasa / Desfruta do meu corpo / Como se o meu corpo fosse a sua casa”?

E se não entenderem a ironia de Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas / Sofrem por seus maridos, poder e força de Atenas? Se julgarem homofóbico o Joga pedra na Geni / Joga bosta na Geni / Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir?

Se resolverem investir contra a lancinante “Atrás da porta” (Dei pra maldizer o nosso lar / Pra sujar teu nome, te humilhar / E me vingar a qualquer preço / Te adorando pelo avesso / Pra mostrar que inda sou tua); exigirem o “Não é não” das mulheres que só dizem sim, em “Folhetim”, e o fim do desdém por Rosa (demente, falsa, vadia, bandida, espinho cravado em minha garganta)?

Chico passou a ver opressão onde havia lirismo, empatia e denúncia. Nara, que sempre cantou livre, recusou rótulos, desdenhou panelinhas, talvez fizesse hoje, aos 80 anos, um belíssimo disco com essas canções — e ainda encomendaria mais uma, sobre a mulher que não se dobra nem se cala. 

 

[Fonte: oglobo.globo.com]

Vivendo em comunidade

 

Escrito por Eduardo Affonso

Tenho sido muito injusto com meus vizinhos. Não me devia queixar deles, mas agradecer-lhes do fundo dos cafundós da minh’alma.

O vizinho de baixo deve saber que moro sozinho e tenta enturmar-me fazendo festas na varanda, de modo que pareça haver 20 pessoas na minha sala. No meu sofá. Abrindo minha geladeira e pegando minha última latinha de cerveja.

Deve saber que fico zapeando na Netflix sem achar quase nada interessante, então compartilha comigo as laives sertanejas. Sacrifica-se, altruisticamente, ouvindo-as num volume que lhe há de avariar os tímpanos, só para que eu possa escutar tudo perfeitamente onde quer que eu esteja no meu apartamento.

A vizinha de cima deve saber que não malho, e faz o possível para me incentivar a abandonar o sedentarismo. Ela poderia exercitar-se em qualquer lugar, mas prefere fazê-lo na varanda, logo de manhã cedo, de maneira que a música de academia (tum tum tum), os pesos caindo no chão (TUM TUM) e as batidas ritmadas na laje (piso dela, teto meu) não me deixem dúvidas de que eu tinha de estar queimando calorias, não tentando completar, a duras penas, as oito horas de sono.

Ela deve intuir que eu vivo em total solidão e apiedar-se deste ermitão desgarrado. Por isso toda noite, ali por volta das 23h, faz questão de que eu saiba que não estou sozinho no mundo. Que há alguém por perto.

Outra mais abusada ligaria para dizer “boa noite, vizinho; se precisar de algum coisa, estou aqui”. Mas ela é educada demais para telefonar para um desconhecido a essa hora e, talvez, parecer incômoda. Então arrasta os móveis: cama, mesa, cadeiras, sofás, geladeira, cômoda.

Devo estar exagerando. Como o barulho é bem acima da minha cabeça, suponho que arraste só a cama, o armário embutido e a mesinha de cabeceira.

Pela manhã, depois da malhação, sabendo que não tenho amigos nem família, faz questão de que eu participe de todas as suas ligações telefônicas. Jamais telefona da sala, do quarto ou – para dizer coisas mais íntimas – sentada no banheiro. Debruça-se na varanda, e me põe a par de todos os seus assuntos, por inteiro.

Os vizinhos do prédio em frente certamente estranham de que eu não tenha gosto musical – já que nunca ouviram nenhum som a mais de 500 decibéis oriundo aqui do meu cafofo. Isso explica sua generosidade em dividir comigo, tão efusivamente e com tanto gosto, o gosto que têm. “Pé na areia, caipirinha, água de coco, cervejinha. Pé na areia, água de coco, beira do mar”, repetem – uma, dez, cem, cem mil vezes, todo fim de semana, talvez receosos de que eu ainda não tenha decorado a letra e por isso continue, silencioso, aqui no meu canto.

Supõem que eu não tenha dinheiro para comprar carne, e churrasqueiam não só nas churrasqueiras mas também nas varandas, repartindo comigo o cheirinho da sua proteína animal.

E eu, ingrato, ainda reclamo. Mas eles sabem que quando escrevo aqui e no livro de ocorrências para reclamar, é porque os amo. Quando digo que não quero mais essa muvuca, é porque eu quero. Eu tenho medo de abrir meu coração e confessar que estou em suas mãos, e não posso imaginar o que vai ser de mim se eu me mudar um dia.

Por isso, chega de mentiras, de negar o meu desejo. Eu quero mais que tudo ouvir – noite adentro – funk, sofrência e sertanejo. Eu entrego a minha vida para os vizinhos (de baixo, de cima, da frente) fazerem o que quiserem de mim. Só espero que isso – assim como minha ingratidão – um dia tenha fim.

 

[Fonte: tianeysa.wordpress.com]

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Concorrência desleal

 concorrencia

Escrito por Eduardo Affonso

Muitas mulheres reclamam (com razão) da opressão dos padrões estéticos impostos pelo patriarcado.

Isso começa na infância, com as Barbies – cópias de seres possivelmente alienígenas, de proporções incompatíveis com a anatomia humana – e prossegue vida afora com as modelos, que não são modelo de nada, porque não há cristão que consiga sobreviver à base de rúcula e cigarro.

Musas fítines com barriga negativa, glúteos de granito e coxas de jatobá também já deviam ter sido banidas da mídia. Blogueirinhas de moda, em quem qualquer roupa cai bem, idem.

As mulheres normais querem ver, nas vogues, nas marriclér, nos telejornais, na novela das nove, outras mulheres normais – ou seja, com estria, culote, bigode chinês e pé de galinha. Se possível, também com papada, pelanca, cotovelo escamado, joanete, dedo do pé encavalado e canela ruça.

Como manter a autoestima sabendo que o marido (ou amante, ou namorado ou match no tinder) tem fantasias com as coelhinhas do pôster central da Playboy americana – criaturas de seios inefáveis, virilha aveludada, púbis de pelúcia, pele esfumada e sem um poro sequer no corpo inteiro? Ou com as russas e ucranianas com roupa de menos e fotoxope de mais que insistem em procurar amor verdadeiro em saites suspeitos?

Pois saibam que os homens também sofrem com a opressão dos padrões sociais – no caso, os padrões eróticos impostos pela indústria dos filmes adultos e das sexxopes. Se duvida, digite “Rocco” na Netflix. Vai ver como a natureza não é justa.

Mas pelo menos o Rocco é um ser humano – sujeito, portanto, à câimbra, à dor nas juntas, à fadiga, ao “isso nunca me aconteceu antes”. Agora, como concorrer com um vibrador de 16 velocidades, diâmetro regulável, cabeçote giroscópico, modelo Turbo, feito de liga de aço-carbono, que funciona em modo “pulsar” e, se lhe pudessem acoplar uma hélice, bateria claras em neve com um pé nas costas?

Diante de equipamentos assim – disponíveis em tamanhos inverossímeis, com bateria de lítio e carga para duas horas ininterruptas – a opressão da celulite e das gorduras localizadas é pinto.

Se as mulheres querem ver atrizes sem maquiagem e sem fotoxope, e ter modelos pluçaize nos editoriais de moda, os homens deviam exigir direitos similares.

Por exemplo, vibradores com, no máximo, 12 cm de comprimento e consistência de mariola, dotados de bateria de 15 minutos – e meia hora para recarga. Sujeitos a dar tela azul assim, do nada, e não voltar a apresentar vitais nem com São Judas Tadeu na causa.

Vibradores sujeitos a estresse. Com boletos vencendo na segunda. Sensíveis a gatilhos do tipo crianças dormindo no quarto ao lado, referências ao ex, dúvida se a camisinha foi colocada direito ou se não soltou lá dentro.

Se inventarem o vibrador que diz “eu te amo” e liga no dia seguinte, até o Rocco tá lascado.

 

[Fonte: tianeysa.wordpress.com]

sábado, 19 de setembro de 2020

Inclusive

 Inclusive

Escrito por Eduardo Affonso

Muita gente criticou um vídeo sobre linguagem inclusiva, com as novas regras para a neutralização do idioma.

Machistas estruturais, homofóbicos crônicos, transfóbicos empedernidos, todos profundos desconhecedores do mistérios da linguagem e da neurolinguística, sentiriam que estariam sendo privados desse instrumento de opressão que é a língua de Camões, Vieira, Machado, Dilma e Carluxo.

Serenados os ânimos, apaziguados os espíritos, todos já devem ter compreendido que a linguagem neutra só trará benefícios, pondo fim à violência lexical e à polarização verbal.

Quem antes passava pela Glória, pela Avenida Atlântica e pela Praça do Ó, abria o vidro do carro e gritava “Traveco filho da puta!”, agora poderá abrir o vidro do carro e gritar “Traveque filhe de pute” – e isso não constituirá mais nenhuma ofensa, porque todo o caráter insultuoso terá sido neutralizado. Em vez de lhe erguer o dedo médio, as profissionais do sexo acenarão felizes, como misses na passarela, sentindo-se acolhidas na sua diversidade. 

Quem poderá se sentir agredido/a/e ao ser chamado/a/e de “arrombade”? De “canalhe”, “escrote” ou “babaque”?  Toda a carga negativa, advinda do caráter sexista da língua, terá sido zerada, reduzida a pó.

Ao fim das manifestações contra e pró Freixo ou Crivella, Lula ou Bolsonaro, Fefito ou Giromini, a turma de vermelho e a turma de amarelo poderão se reunir para um chope na orla ou uma catuaba selvagem na Praça São Salvador, se tratando cordial e neutralmente de “petiste corrupte” e “bolsomínie fasciste”. Não haverá briga nem na hora de rachar a conta, porque o “garçom de merde” admitirá que houve um pequeno equívoco naqueles dois zeros a mais na quantidade de pedidos, pedirá desculpas em nome daquele “corne do caixa” e todos cantarão, com cantos e contracantos, o hino nacional e a internacional socialista.

Chame-o de “escrote”, e o guardinha não multará seu carro estacionado irregularmente.

Diga que ele é um “babaque”, e o segurança te deixará entrar (“Mas só desta vez, hein?”) sem máscara no shopping.

Explique que não curte “gorde”, e a moça não ficará magoada – e tampouco você se sentirá humilhado se ela fizer comentários sobre seu “mau hálite”, “falta de pegade” e “pau pequene”.

Por tudo isso, seu idiote, volte lá no vídeo e retire tudo o que disse. Graças àquele troca-troca de vogais, teremos finalmente a serenidade, o entendimento e o respeito de que precisamos para conviver civilizadamente. Tá esperando o quê, caralhe?

 #paz

 

[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Étimo, que vem do grego ‘etymon’, “sentido verdadeiro”

 Étimo, que vem do Grego ‘etymon’, “sentido verdadeiro”

Escrito por Eduardo Affonso

Ele desaba para um lado, com o suor escorrendo na testa.
Ela toma fôlego, e murmura, ainda arfante.

– Uau! Você foi formidável…

– Sério? Tão ruim assim?

– Não. Foi formidável. Sensacional.

– Ah, tá. É que “formidável” vem do latim “formidabilis, e significa “o que causa medo, terrível”.

– É? Não sabia. O que eu quis dizer é que você foi bárbaro. 

– Desculpe. Não quis ser grosseiro com você.

– Mas não foi!

– Você disse que fui bárbaro. E bárbaro, do grego “barbaros”, quer dizer “estrangeiro, estranho, ignorante”.

– Imagina! Eu te achei ótimo. Um homem com pegada, porém intelectualmente sofisticado…

– Como assim? Eu não sou falso!

– Não falei que você é falso!

– Falou. Disse que sou sofisticado, e “sofisticado” vem de “sophisticare”, que é o mesmo que “alterar, adulterar, modificar com má intenção”, e de onde, inclusive, vem a palavra “sofisma”.

– Não! Eu quis dizer é que você é um homem ao mesmo tempo viril e fino (no bom sentido, claro!), do tipo que a gente não pode deixar escapar.

– Mas eu não estou usando capa.

– Hã?

– “Escapar” vem do latim “excappare”, de “ex” (movimento para fora) + “cappa” (capa) e o sufixo “are” (que indica ser um verbo). Ou seja, escapar é livrar-se da capa. A menos que você se refira à camisinha…

– Não, não. Já estou até arrependida de ter pedido para você pegar essa famigerada dessa camisinha.

– Mas famigerada – que é uma palavra latina, composta de “fama” + “gerere” – quer dizer algo afamado, que goza de boa reputação. E saiba que achei você muito esquisita

– Esquisita? Eu? (Cata as roupas no chão). Tô fora!

~ Espere! “Esquisito” tem origem no latim “exquisitus“, “procurado com atenção”, portanto, “de escolha especial, coisa muito boa” e… (ela bate a porta). Droga, de novo!

~

Moral da história: nunca vá para a cama com um etimologista. Ele sempre dará um jeito de explicar a origem das palavras – e acaba por complicar tudo. Aliás, “complicar” e “explicar” têm a mesma raiz, do latim “plicare” (ato de dobrar um papel), com os prefixos “com” (em companhia de) ou “ex”(para fora de), e é de onde também vieram suplicar, duplicar, explicitar e até de “cúmplice”, no sentido de… ok, deixa pra lá.

 

[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

 

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Superlativinho, diminutivíssimo

 Superlativinho, diminutivíssimo

Escrito por Eduardo Affonso

Tem coisas que só a língua portuguesa faz por você.
Ou só a língua portuguesa do Brasil, eu acho.

O diminutivo não ser pouco, mas muito.

Ficar pertinho é ficar muito perto.
Ficar quietinho é ficar muito quieto.

O diminutivo não ser só pra diminuir, mas pra tornar intenso.

O superlativo ser mais que um grau mais elevado: tornar-se um grau épico.

Na concessionária, há o carro novo, o seminovo e o seminovíssimo.

Em que outro idioma um carro conseguiria ser meio novo - logo, meio velho - (o prefixo latino “semi” quer dizer “metade”), e, ainda assim, novíssimo?

O seminovíssimo é a metade que alcança a plenitude. O meio cheio e meio vazio que transborda.  

Nas imobiliárias, há o imóvel “na quadra da praia”. Isso quer dizer que pelo menos um dos lados da quadra é de frente para o mar.

Um apartamento “na quadra da praia” nunca é de frente para o mar, ou seria “apartamento de frente para o mar”.

Há apartamentos, entretanto, que não chegam a estar cara a cara com o oceano, mas tampouco estão num lugar qualquer. Eles estão na quadríssima.

A quadríssima não é uma quadra como as outras. É “a” quadra – seja isso lá o que for.

Ela pertence à variação linguística falada no Rio de Janeiro.  Não há notícia de quadríssimas em Belo Horizonte – até porque lá seria quarteirãozíssimo, e belo-horizontino algum conseguiria pronunciar isso.

Nos anúncios classificados, oferecem-se os serviços das profissionais do gozo. Há as ninfetas, as ninfetas completas, as ninfetas completinhas e as ninfetas completíssimas.

O que faltará às ninfetas básicas para atingir a completude? Como o diminutivo de intensidade conseguirá completar o já completo? E, uma vez completas e completinhas, qual será o plus, o dom, o dote que as levará ao grau superlativo de “completíssima”?

Tem coisas que só a língua portuguesa faz por você.
Ou só a publicidade, eu acho.

 

[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

domingo, 16 de agosto de 2020

Enquanto isso, no cafezinho de uma corte suprema…

 Enquanto isso, no cafezinho de uma corte suprema…

Escrito por Eduardo Affonso

– Excelência…

– Bom dia, ilustríssimo.

– Um cafezinho, por favor. Vossa senhoria soltou hoje o preso que eu mandei prender ontem?

– Sim, vossa magnificência, mandei. Dois, por favor.

– Alicerçado em que jurisprudência, eminência? O meu sem açúcar.

– Adoçante para mim. Eu me basto jurisprudencialmente, vossa reverendíssima.

– Vossa santidade acha mesmo que pode fazer isso? Me vê um biscoitinho desses de nata.

– Posso, e não há nada que vossa alteza possa fazer. Um amanteigado pra mim.

– Vossa majestade imperial sabe que seu comportamento é teratológico – mais um, por favor – e exordialmente, incabível?

– Uma delícia esse amanteigado! Embrulha um pacotinho para eu levar para minha digníssima consorte. Vossa mercê está equivocado,

– Vossa graça exorbita. Um pacote para mim também, e pode misturar os de nata com uns de chocolate.

– Vossa alteza senhoril, summum jus, summa injuria. Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus.

– Salus populi suprema lex esto, mas vossa onipotência se acha o próprio onipotente!

– Ora ora, vejam quem fala! O egrégio meritíssimo que quer para si todos os méritos!

– Passar bem, insigne sumidade!

– Passar bem, supremo e excelso indigente togado!

(Os dois, em uníssono)

–  Pendura a conta, Onofre!

 

[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Dasdores


Escrito por Eduardo Affonso

O problema da inteligência artificial, pelo menos dessa que está ao meu alcance, é que ela é burra.

Pesquisei outro dia sobre aparelhos de celular. O meu estava do meio-dia pra tarde há algum tempo. Mal se aguentava por 12 horas, falhava nos momentos críticos e já não tinha memória para nada. Igualzinho ao dono.

Comparei modelos, escolhi um que me atendia e estava a preço promocional, comprei onlaine e fui buscar na loja física.  Pois desde então o FB e todos os portais de notícia me bombardeiam com anúncios do modelo de celular que agora tenho em mãos.

Como é que pode a internet ser tão inteligente e deduzir que eu estava procurando telefone (afinal, pesquisei no gúgol) e tão burra a ponto de não ter percebido que efetuei a compra?

Uma inteligência artificial que fosse pelo menos esforçada me perguntaria:

- E aí, Edu, tudo joia? Comprou o samsuguezinho?

(Uma inteligência artificial mediana trataria de ser amigável – daí me chamar de Edu, não de sr. Affonso – e teria coletado informações básicas a meu respeito – o que explicaria o “tudo joia”, expressão que, extinta em 1970, só sobrevive em Minas).

- Oi, I.A., tá boa, fia? Comprei, sim. Popará com os anúncios.

- Que bom. Vi que você comprou um aparelho vermelho. Era isso mesmo? Não foi errado e prefere comprar outro, de uma cor mais compatível com sua faixa etária? Azul ou cinza, por exemplo?

- Comprei sem me dar conta de que o da promoção era vermelho, mas não tenho preconceito de cor. E, antes que você inunde todas as páginas da internet com modelos de capas de celular, informo que já comprei uma. Preta.

- Joia. Vou voltar com as propagandas de camisas coloridas e pizza, então.

- Não, pelamordideus. Só pesquisei camisas coloridas para ilustrar um texto – jamais compraria aquilo. E a pizza foi um ato isolado, num momento de fraqueza. Era uma gigante por preço de média, e demorou tanto pra eu conseguir dar cabo dela que mais uns dias ela podia pedir usucapião da prateleira de baixo da geladeira.

- Beleza. Precisando de alguma coisa, estou por aqui. É só digitar no gúgol que eu apareço, tá?

- Obrigado, I.A.

- Pode me chamar de Dasdores.

- Vaicundeus, Dasdores.

Será tão difícil desenvolver um aplicativo assim? Que identificasse meu dialeto, minhas necessidades, que usasse um nome personalizado levando em conta meu bequigráunde cultural? Que me ajudasse a encontrar o que me falta, mas entendesse que ninguém precisa continuar correndo atrás da condução depois que já a pegou? Que tivesse realmente o desejo de facilitar minha vida?

“A emulação máxima da inteligência humana (que também serve ao Desejo) seria a soma do Desejo com a Consciência. Só não estou seguro de que isso seja... desejável. Uma I.A. desejante poderia tornar reais os pesadelos da ficção científica e querer dominar o mundo.” (F.D.)

Eu não me importaria que a I.A, quer dizer, a Dasdores, dominasse o mundo. Desde que parasse de encher minhas telas com celulares da Samsung. Ainda mais esses maiores, melhores e mais baratos que o que comprei. E, ainda por cima, azuis.

 

[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

terça-feira, 28 de julho de 2020

Colocando os pingos nos yy:




Escrito por Eduardo Affonso

“Despiorar” existe.

É verbo transitivo e intransitivo, e significa tornar ou ficar menos mau (ou menos mal). É o mesmo que melhorar.

“Desmelhorar” também existe.

É transitivo quando no sentido de impedir o melhoramento, intransitivo na acepção de tornar pior.

Quando uma coisa piora menos do que vinha piorando, há quem diga que começou a melhorar. E quem prefira dizer que está despiorando. Questão de copo meio cheio ou meio vazio.

Existe também “desconcordar”, que é quando você apenas não concorda, sem, entretanto, discordar. Lamentavelmente, “desdiscordar” não existe – ou você dá o braço a torcer ou fica quieto.

O antônimo de “amor” pode não ser ódio ou indiferença, mas “desamor”. Desamor é uma indiferença magoada, levemente ressentida, sem ânimo para ser ódio. Não chega a ser desprezo; é só uma desafeição. Um destesão.

É para isso que o prefixo “des” existe: para para indicar ação contrária. Mentir, desmentir. Fazer, desfazer. Carregar, descarregar. É bonito usá-lo porque (filósofos me ajudem nesta hora!) é uma negação que traz a afirmação dentro de si.

Desconhecer não é o mesmo que ignorar. Desiludir não é o mesmo que frustrar.

Nos dicionários até pode ser. Mas isso só para quem acredita em sinônimos.

Sinônimo quer dizer semelhante, não idêntico.

Mas nada é idêntico. “Só nós somos iguais a nós próprios”, escreveu o Fernando Pessoa, que era tão dessemelhante de si mesmo a ponto de se estilhaçar em tantos eus.

Taí outra palavra linda: “dessemelhante”. Tão bonita quanto “díspar” (sem par), e a gente a usa tão pouco.

“Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
”

Esse era o Gregório de Matos, mas lá no século 17, quando o barroco pedia mais e mais antíteses, dualidades, contradições e paradoxos (como uma palavra trazer dentro da barriga aquela que pretendia matar).

Para entender “despiora”, pode-se também lembrar que “desinfeliz” não é alegre: é mais que infeliz. “Desinquieto” é bem mais que inquieto, não o inerte.

“Despiora” – intuo –  pode ser uma melhora a contragosto. Uma melhora indigna da sua etimologia (“melhor” quer dizer “mais forte”, o que é diferente de “menos fraco”).

Essa talvez não seja uma questão linguística, mas filosófica. Ou só acessível por meio da poesia.

Sugiro começar com Camões:

“Amor com brandas mostras aparece:
Tudo possível faz, tudo assegura;
Mas logo no melhor desaparece.
Estranho mal! Estranha desventura!
Por um pequeno bem, que desfalece,
Um bem aventurar, que sempre dura!“
Ou, sem as dicotomias do aparece / desaparece, bem aventurar e desventura,  com Aldir Blanc: “Pior que a morte é desviver”.
Quando começar a desmelhorar, a gente retoma o tema.

[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Catequese

Catequese

Escrito por Eduardo Affonso

O ser humano tem uma vocação atávica para a catequese. Seja por bem, tentando convencer com argumentos, seja batendo de porta em porta no domingo de manhã, domingo após domingo, até vencer pela exaustão; seja desovando clichês cada vez que a oportunidade se apresenta.

O paraíso há de ser um mundo em que não haja escolhas – logo, não existam erros, inexistam perdas. Ninguém há de se questionar sobre ter-se casado com a pessoa errada, porque não haveria outro cônjuge possível. Nem outra profissão, outro modelo de celular, outra cor de vestido. O paraíso não tem bifurcação – logo, dispensa as placas de retorno.

A opção do outro é sempre um questionamento à nossa. Eu vou à Bola Preta, você vai ao Boitatá. E se o Boitatá bombar e na Bola Preta rolar tiro, porrada e bomba? Era melhor que houvesse um só bloco naquele dia, e só fosse permitida uma fantasia, para eu não me sentir chinfrim demais ou demasiadamente sem noção. Era preciso que não houvesse, no mundo, o diabo da escolha, a besta fera da comparação.

Só isso explica a compulsão de tanta gente com a conversão alheia. Não para que o outro fique melhor, mas para que o proselitista se sinta menos mal com suas escolhas.

Não faltam heterossexuais empenhados em salvar gays e lésbicas. Afinal, gays não sabem o que estão perdendo, e as lésbicas apenas não encontraram o homem certo, certo?  Na outra ponta, também não faltam gays e lésbicas achando que não há heterossexual, mas gay mal cantado ou mulher que ainda não experimentou transar com quem sabe exatamente onde ficam e como funcionam certas partes da anatomia. Ou seja, todo mundo é hétero, só precisa vencer o trauma – e todo mundo é homo, só falta um empurrãozinho.

Com os ateus não seria diferente. O ateu sabe que Deus existe, e está apenas fazendo charme. É claro que Deus existe! Olha o pôr do sol, o sorriso de uma criança, o milagre de uma flor! Como é que pode um ateu ser escritor, cantor, fotógrafo, se todos os dons são dádivas divinas?  Não faz sentido um ateu gente boa (do tipo que dá bom dia, paga imposto, joga lixo na lixeira) porque os religiosos (assim como os esquerdistas) detêm o monopólio da bondade. Fora de Deus só há o satanismo, as seitas com bebês sacrificados e as laives sertanejas.

A prova disso – todo mundo sabe - é que não há ateus em avião caindo.  Podem reparar: no chequim dos aeroportos há uma triagem secreta, e só é permitido aos ateus o embarque em voos sem chance de queda. Se você vai viajar, certifique-se de que haja um ateu a bordo. Isso é sinal de que o voo será seguro. Havendo agnósticos, são altas as chances de turbulência (agnósticos precisam ser postos à prova). Sem ninguém com pinta de ateu (ou seja, sem camisetas vermelhas com pentagrama, tatuagens de tridente subindo pelo pescoço ou livro de São Cipriano a tiracolo), pule fora enquanto é tempo.

Sim, pode dizer “vai com Deus” (que significa “vá em paz, que nada de mal lhe aconteça). Mas evite elogios do tipo “Difícil acreditar que uma pessoa com tanta sensibilidade se defina como ateu”.

Esse elogio equivale a  "É tão inteligente que nem parece mulher”, "É incrível que uma pessoa tão limpa, não cuidadosa, tão educada, seja preta", "Quando é que eu poderia imaginar que um homem tão corajoso, tão respeitável, fosse gay?” ou “Apesar de judeu, ele é super honesto, super confiável.” Acredite: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. E não perca seu tempo tentando convencer a namorar no pedalinho quem prefere um 69 na montanha russa.


[Fonte: www.eduardoaffonso.com]




segunda-feira, 13 de julho de 2020

Vila do sossego




Escrito por Eduardo Affonso

Alguém sugeriu - e eu encampei - a ideia de um condomínio para pessoas que queiram viver em paz.  Uma comunidade de ermitões, por assim dizer (pode parecer um paradoxo, mas a vida seria muito sem graça sem uns despropósitos aqui, uns oximoros acolá).

Dois lotes já estão reservados, um para mim e outro para a Chica da Silva. Por sermos os primeiros, teremos a prerrogativa de escolher. Ela deve ficar com o lote A; eu, para manter o distanciamento social, com o Z.  Como o loteamento é circular, acabaremos vizinhos de porta, que é como estava desde sempre destinado a ser.

Nosso empreendimento oferecerá uma fabulosa infraestrutura aos futuros moradores. NÃO terá quadras de esporte, NÃO terá piscina, NÃO terá cozinha gurmê. Nada de salão de festas, pleigráunde ou churrasqueira. Terá ar puro, silêncio e mato. Afinal, é um condomínio para pessoas de bom gosto, gente de fino trato.

As ruas – ou melhor, alamedas – terão árvores frutíferas, garantindo o café da manhã. Aqui e ali - porque a gente também come com os olhos - um ipê, uma quaresmeira, um flamboiã.
A taxa condominial será paga em serviços. Chica se dispõe a fazer faxina, eu me habilito a passear cachorro. Os candidatos aos lotes remanescentes não precisarão apresentar comprovante de renda, mas declaração de habilidades. Não haverá restrições de sexo, gênero, orientação, ideologia ou idade.

Tampouco será preciso nenhum talento excepcional, nem dotes paranormais ou superpoderes. Mas passar roupa será tão inútil quanto ser amolador de colheres. Ser cozinheiro de mão cheia vale mais que saber, como eu, descongelar comida pronta. Lavar roupa à moda antiga, com anil e quarador, contará mais que o saldo em conta.  

Os moradores poderão conversar com plantas e os animais, sem medo de serem vistos como malucos Até porque um pouco de maluquice é uma questão de higiene. Pede-se apenas que não falem muito alto nem entrem em tretas com as maritacas (como costuma fazer o Novaes, pretendente ao lote N).

O silêncio será permitido antes e depois das 22. Pensando bem, durante também, para não deixar brecha jurídica (vai que o Helinho, candidato ao lote H, resolva se mudar pra lá e venha com chicana para aprontar uma das suas).

O lote G é do Gomide, desde que não descuide do isolamento acústico, mantenha a adega liberada e tenha sempre alguma opção vegana no cardápio (pelo menos umas 20).  E, claro, se comprometa a terminar os saraus antes das 6 horas (do dia seguinte).

A Ana Zinger –que abarca todo o alfabeto – pode escolher o lote que quiser. E também como quer pagar a taxa do condomínio - se em aula de canto, de fotografia ou dividindo uma cerveja (duas, três, quatro...) ao cair do dia.

Com os lotes A e G já tomados, o André Gabeh poderá ficar com o C, de Carvalho – árvore à cuja sombra há de escrever, desenhar e cantar para que a gente o aplauda. E, sim, como não?, pode trazer dona Alda.

Como o lote N já tem dono, a Yara terá preferência para o Y, e o compromisso de cultivar ali uma nogueira (a quem chamaremos, com carinho, de Sylvinho).  Aninha Franco terá poderes plenipotenciários para estabelecer no lote F uma embaixada da República do Pelourinho.  Márcia Valle, seu ateliê de costura no lote V. A parceira Dina Tavares, para facilitar as parcerias, há de ocupar o D.

A Laïs pode ocupar o lote L, ali ao lado da Praça Claudinha Telles, para as oficinas de roteiro. A Cristiana Beltrão já tem alvará para uma filial do Bazzar no lote B, e não há de faltar candidato a aprendiz de cozinheiro.

O R é da Maria Roberto – ninguém ali precisará de contadora, mas, para o caso de falta de inspiração, é sempre bom ter uma musa por perto. 

Se as regras para o empreendimento estiverem muito complicadas, depois a gente simplifica. Mas algo me diz que tem tudo pra dar certo. Não concorda, Chica?



[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Dark lá, sombrio aqui

Escrito por Eduardo Affonso

Quem disser que entendeu “Dark”, a série alemã cuja última temporada estreou semana passada na Netflix, certamente estará mentindo. Porque o grande mérito da trama, que envolve viagens no tempo e entre mundos alternativos, é colocar Tico e Teco em pânico.

Nos acostumamos às novelas, em que tudo é reiterado, regurgitado, concebido de modo que se possa brincar com o gato no sofá ou levantar para pegar água na geladeira, sem perder o fio de meada. Em “Dark” todos os fios permanecem, até o último minuto, soltos – e desencapados. Piscou, perdeu. Não piscou, perdeu do mesmo jeito.

Mais ou menos como o Brasil.

Em que ano estamos? Depende. Tem hora que é 2020, tem hora que é 1964 ou 1968. Por vezes é 2018, ainda no auge da campanha eleitoral – ou nos vemos confinados em um perpétuo 1984, só que no universo paralelo do Orwell.
(…)
Em “Dark” o presente influencia o passado. Exatamente como acontece no Brasil, onde descobrimos que o nazifascismo é agora, e temos que rever o que houve na Alemanha dos anos 30 e 40. Vivemos num apartheid e até o Valter Hugo Mãe embarcou na narrativa do genocídio tupiniquim, o que exige reavaliação imediata das tragédias da África do Sul, da Armênia, do Camboja, de Ruanda.

Se na série é difícil saber quem são Mikkel, Mads e Magnus, aqui temos Weintraub, Wajngarten e Wassef, que não ficam atrás. Se lá o paradoxo é uma personagem ser avó de si mesma (ih, esqueci de avisar que tinha espóiler!), aqui a questão é se seria Chauí um Olavo de franja, ou Olavo uma Chauí de cachimbo.

(…)
“Ele não quer salvar o mundo do mal. Ele é o Mal”, diz alguém em “Dark”. É ou não é puro Brasil isso daí?

“O bem e o mal são uma questão de perspectiva”, filosofa Mikkel – ou seria algum pregador do “ódio do bem” nas redes sociais?

“Não é estranho sentirmos aversão às pessoas que são mais parecidas conosco?”, indaga-se o enigmático Adam – assumindo o que se passa na mente dos que negam peremptoriamente qualquer simetria entre o que temos hoje e o que tínhamos até alguns anos atrás.

Na política, como em “Dark”, o ontem e o hoje (e, presumivelmente, o amanhã e o depois de amanhã) não se sucedem, mas estão conectados em um círculo infinito. O eterno retorno do populismo, do fascínio pelo autoritarismo e – desgraça pouca é bobagem – do Centrão.


[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Teimosia




Escrito por Eduardo Affonso

Ali pelos 15, 16 anos, era mais difícil disfarçar a timidez e/ou a falta de traquejo no convívio social. As cantadas, então, estavam totalmente fora de cogitação. O jeito era deixar que outros dissessem por mim – e nisso a música romântica era imbatível.
Havia bailes; dançava-se de rosto colado; a respiração junto à orelha, a mão dedilhando a alça do sutiã ou descendo pelos quadris, a coxa roçando a coxa - tudo isso ajudava a verbalizar o que a voz não ousava.
E, se houvesse que haver uma voz, que fosse a do Paul McCartney dizendo “uô uô uô uô uô uô uô uô, my love does it good”, a do Elton John pedindo “fly away, skyline pigeon, fly” (eu jurava que era Skylab pigeon, mas isso é assunto para outro texto), ou Junior confessando que ”when you're near, reality loses its hold and loneliness' tears wet my soul”. Mas, tirando o uô uô uô uô uô uô uô do Paul, eu não entendia patavina. O que ajudava bastante.
O problema era quando as letras eram em português.
Em princípio, isso era um facilitador. Bastava cantar junto (ou fingir que cantava, tipo segunda voz de dupla sertaneja) e o recado estava dado. Se colasse, colou. Se não colasse, eu estaria só cantando a música, sem quaisquer décimas oitavas intenções.
Uma das minhas favoritas – para o bem e para o mal – era “Minha teimosia, uma arma pra te conquistar”, do Jorge Ben (ainda não era Benjor).
Era uma cantada perfeita. Direta. Para dançar com direito a olhares de promessa e um arremedo de gingado que podia ajudar na conquista pelo caminho da comiseração – mas, naquela idade, quem liga?
O problema era o meu apego à gramática. Eu tentava cantar corrigindo a letra, o que me tirava totalmente o foco. E, claro, ferrava com a métrica.
“A minha teimosia é uma arma
pra te (2º do singular) conquistar.
Eu vou vencer pelo cansaço
Até você (3º do singular)
gostar de mim, mulher, mulher.
Mulher graciosa, alcança a honra.
Você (3º do singular) alcançou, mulher.
Minha amada, minha querida, minha formosa
Vem (2º do singular) e me fala (2º do singular)
que eu sou o seu (3º do singular) lírio
e você (3º do singular) é minha rosa.
Mostra-me (2º do singular) teu (2º do singular) rosto
Fazei-me (2º do plural!!) ouvir a tua (2º do singular) voz
Põe (2º do singular) estrelas em meus olhos
Músicas em meus ouvidos
Põe (2º do singular) alegria em meu corpo
Junto com amor de você (3º do singular)
Mulher, mulher
Lá, lá, lá, lá
Mulher, mulher.”
Eu tentava pôr tudo na segunda pessoa do singular – e não funcionava. Tudo na terceira pessoa do singular – e não dava certo. E (vejam o nível de desespero) até mesmo tudo na segunda do plural. Em vão. A minha teimosia com as pessoas gramaticais acabou tornando-se uma arma para não conquistar ninguém. O jeito era vencer pelo cansaço – e ir de com força no lá lá lá lá do final para tentar apagar a má impressão do gingado.



[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

terça-feira, 30 de junho de 2020

Dialetos

  Escrito por Eduardo Affonso
- Amiga, cansei de sororidade.
- Eu também. Desapeguei.
- Ficou tão quarta-feira passada...
- Nem me fale. Quando comecei a usar, ninguém usava. Agora...
- Daqui a pouco está sendo usada até em novela bíblica da Record.
- Junto com empoderamento. Lembra do pré-lançamento?
- Lindo. Só para convidadas. Evento VIP, garçons étnicos, música autossustentável. Depois...
- Depois virou arroz de festa, que nem empatia.
- Comigo foi saberes.
- Você foi no lançamento de saberes?
- Fui, menina! Usei saberes quando só aparecia em tese de Humanas.
- Que luxo! Quando saberes chegou, eu já estava na fase da objetificação e achei que não ia combinar.
- Objetificação tem que ter muito critério, ou fica over.
- Acho que cai bem com cultura do estupro e micromachismo, e olhe lá.
- Super cai bem!  E olha que micromachismo não é pra qualquer uma.
- Não mesmo. Tem que saber dosar. Tipo gaslighting.
- Gasligting era tudo, né?
- Mas sabe que eu era mais o combo mansplaining, manspreading e mantrrupting? Porque tinha uma leitura, dialogavam.
- Diferente de patriarcado e androcentrismo...
- Totalmente. Androcentrismo pede, sei lá, uma atitude com mais conceito.
- Bem na vaibe da misoginia e do feminicídio.
- Isso. Se bem que eu fique mais à vontade na disparidade de gênero, sabe como? Uma coisa light, cool, fim de tarde, apperol.  Nessa linha.
- E qual é a tendência para hoje? Fiquei vendo laive da Katy Perry até de madrugada, acordei tarde e nem tive tempo de me atualizar.
- Interseccionalidade.
- Jura? Amei!
- E dá pra usar com tudo.
- Amiga, só vou tirar essa máscara de avocado orgânico e começar a interseccionalizar agora mesmo.
- Mas interseccionaliza logo, porque acabei de ver que já estão usando no UOL. E quando isso acontece, já sabe, né?
- Sim. Daqui a pouco vira gratiluz.
- Vai lá. Beijo no coração, amiga! Gratiluz!
- Gratiluz, amada!

[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Implicância


Escrito por Eduardo Affonso

Cuidado com as suas implicâncias. Lenta e inexoravelmente, elas irão tomar conta de você e se tornar obsessões.

Minha mãe sempre implicou com edifícios sobre pilotis. Criada em casa de chão de terra batida, não sentia firmeza nas construções empoleiradas naquelas perninhas finas. Resmungava cada vez que via um prédio desses – ou seja, resmungava sempre que ia à rua. 

Com a idade - e o Alzheimer - as vigas e pilares das construções nas encostas (trem mais comum em Minas que que chamar as coisas de trem) se tornaram uma ideia fixa. Um incômodo palpável. Era preciso distraí-la (“Olha que cor horrorosa aquela casa!”) sempre que seu olho se sentia atraído pelos monstrengos em pernas de pau encarapitados em cada aclive, declive, murundu ou pirambeira. Porque minha mãe também implicava com as cores das casas, mas os roxos, laranjas, vermelhões e verdes bandeira não eram páreo para as construções levantadas do chão.

Desde então venho pensando: qual será o meu piloti quando eu ficar velho (mais velho) e chato (mais chato)?

Tenho vários candidatos.

Os vícios de linguagem são os mais óbvios. São eles que me impedem de assistir à programação da CNN, porque minha cota diária de tolerância a barbarismos se esgota em cerca de 60 segundos.

Também tem a franja. Eu entendo a sombra verde, os óculos com correntinha, a sobrancelha imitando a logo da Nike, o pírcim no lábio – mas franja está além da minha compreensão.

Implico com gente falando alto ao celular em local público. Implico com gente falando alto. Ultimamente, dei para implicar com gente, mesmo calada, em local público – mas isso vai passar com a pandemia.

Implico com as rimas dos louvores evangélicos, sempre na base do luz / cruz / Jesus e glória / história / vitória. Tudo bem que não dê pra enfiar cuscuz, avestruz e arcabuz, nem rescisória, inflamatória e vibratória.  Mas no campo semântico de um louvor não há de faltar oportunidade para falar em belzebus e em nota promissória.

Implico com tatuagem. Com sotaque carioca em filme dublado. Com cachorro usando roupa. Com barba desenhada. Com locutor de supermercado.

Mas, correndo por fora e com grandes chances de chegar ao pódio, está a ombreira.

O que leva um ser humano do gênero macho a inflar artificialmente os ombros e ficar parecendo um jogador de futebol americano que botou um terno por cima do shoulder pad?

O Merval Pereira conta que, num voo, sentou-se ao seu lado um sujeito espaçoso, cheio de correntes de ouro e que não largava o celular, ignorando os pedidos da aeromoça para que desligasse o aparelho. Era o Wassef. Suponho que estivesse com o cabelo emplastado. E, possivelmente, com suas inseparáveis ombreiras – que o Merval não menciona, mas que não me escapariam.


A ombreira é o viagra do paletó.


A ombreira define o homem.

Diz-me se usas ombreira e eu te direi quem és.


Eu não reparo no cabelo do Guga Chacra. No olho de gatinha da Renata Vasconcelos. Na franja da Nina Lemos. Nunca reparei na peruca do Chico Xavier, nos anéis do Walter Mercado, no nariz do Juca Chaves, na boca da Cleo Pires, no busto (digamos assim) da Inês Brasil, no pescoço rabiscado do Fogaça.

A suposta participação do Wassef numa seita satânica pode dizer alguma coisa do seu caráter. Mas as ombreiras dizem tudo.



[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Quem não tem cão…



Escrito por Eduardo Affonso

Duda está ficando cega. Sobre o olhinho direito começa a baixar uma névoa.
Descobri quando passou a ter medo de andar por lugares onde sempre transitava lepidamente. O que os lugares tinham em comum era o piso escuro.
Ela não tem medo do escuro. Tem medo, possivelmente, do abismo que vê – ou pressente – diante de si.
Damos uma volta na garagem para evitar o piso de ardósia, diante do qual ela trava.  Ao descer pela escada de incêndio, esperamos que vença a hesitação diante do primeiro degrau de cada lance.
Tião foi o primeiro a se adaptar à nova rotina. Ele enxerga perfeitamente, mas intui o que a Duda não vê, e faz o caminho que ela faria. Ele seria um bom cão guia.
Tião vê o que os outros não veem.
Ele assiste à televisão. Acompanha, atento, a disparada do leão no encalço da gazela. Segue, ziguezagueando com a cabeça, a tentativa desesperada de fuga. Posso quase intuir que torça pelo caçador, nunca pela caça, porque relaxa quando a presa é finalmente abatida.
Tião vê filmes de terror comigo. Duda e Chico apenas se aninham no sofá, ao meu lado - seja o lado direito, o lado esquerdo ou, no mais das vezes, o lado de cima mesmo. Não dão à tevê mais atenção do que ao fogão ou à geladeira. Tião percebe que a tela é um portal para outra dimensão, onde acontecem coisas não tão gostosas quanto no forno ou na gaveta das frutas, mas muito mais excitantes.
Ele se assusta quando o assassino salta das sombras. Se contrai nas facadas. Às vezes somos pegos, ambos, de surpresa, e sempre rio dos sustos que ele leva.  Por vezes, late, para afugentar alguém, para alertar do perigo.
Chico dorme. Durante o filme, durante o documentário sobre vida selvagem, durante o que for. Ainda não entendeu – talvez jamais entenda - que há caminhos por onde Duda prefira não ir. Que aquelas manchas se movimentando no retângulo que tem diante de si sejam um drama de vida e morte.
Chico não é Tião, que não é Duda. São três personalidades distintas. Com níveis distintos de percepção, com diferentes capacidades de compreensão.
Tião é carente, pede colo, lambe lambe lambe. Duda é não pede nada: exige. Seu relógio biológico sabe a hora exata do passeio, e qualquer atraso a deixa intratável.  Chico aguarda. Aceita carinho, mas não o procura. Ao contrário do Tião e da Duda, que sonham placidamente, Chico tem pesadelos. Talvez pressinta vazios sob seus pés, como a Duda; talvez seja ele a presa numa caçada onírica, ou a vítima do psicopata. Vá entender o inconsciente de um cachorro...
Cada um tem seu pote de comida, proporcional ao tamanho. Mas a ração do pote ao lado parece sempre mais gostosa – ainda que seja a mesma.  Houve um tempo em que Chico comia ração de adulto e Duda, a de filhote. Quem teve irmão caçula (eu tive quatro!) sabe que a comida do filhote é sempre mais gostosa, e Chico pegou gosto pelo pote pequeno da Duda, onde mal cabe seu focinho. Depois foi a vez da Duda migrar para a ração de adultos, e ser do Tião a de filhote. E havia que o proteger para que os mais velhos não lhe tomassem a comida.
Tião chegou por último, sabe seu lugar na hierarquia, e cede sempre. Duda foi a segunda a chegar, mas isso não a impediu de ser a alfa da matilha. É ela, a menor dos três, quem fica sempre com a melhor parte. Chico, macho desconstruído, não se importa.
Com a mesma comida em todos os potes, Duda ora prefere o pote vermelho do Tião, ora o enorme pote amarelo do Chico. Ambos se afastam quando ela vem farejar o cardápio. Brigam, os dois machos, pelas bolinhas de borracha, pelo canto no sofá, mas vão procurar outra coisa, outro lugar, se ela resolver que é hora de sofá, que é hora de bolinha.
Chico tem pelo mais comprido, e precisa ser escovado quase que diariamente, ou a casa vira uma nuvem de pelo. Duda tem pelo mais curto e não aprecia muito o processo. Tião, o de pelo curtíssimo, e que não precisa ser escovado, entra assim mesmo na fila, e aguarda impaciente sua vez de ganhar aquilo que ele deve achar ser uma forma superior de carinho. Escovo-o, sem que saia um fio, para que fique feliz. E ele fica.
Foi ele o primeiro a entender a logística da limpeza das patas ao voltar do passeio. O primeiro a levantar voluntariamente a patinha dianteira quando me vê pegar a esponja. Duda o seguiu, a contragosto. Chico ainda prefere que eu lhe levante cada uma das patas pesadas. 
Com dois meses de quarentena, Tião já ergue as patinhas – inclusive as traseiras! - sempre na mesma ordem. Duda ainda prefere levantar as patas traseiras apenas para o xixi (cercada por machos, nunca fez xixi agachada).  Chico... bem, o grandão deve achar que essa coisa de pandemia e limpeza de patas vá passar logo, e não vale a pena incorporar o procedimento à sua rotina.
Quem não convive com cachorros jamais vai entender por que os chamamos de filhos. Por que conversamos com eles. Por que nos curvamos a algumas das suas vontades – o lado da cama, a posse do sofá, a hora exata do passeio.  
Quem não convive com cachorros há de pensar que projetamos neles nossa personalidade. Se for assim, devo ter transtorno dissociativo de identidade, porque convivo com três criaturas absolutamente únicas, que só têm em comum uma história de abandono.
Talvez não estivessem mais vivos se meu caminho não se tivesse cruzado com o deles – na Cidade de Deus, no Catete, em Jacarepaguá. Eu certamente seria menos feliz, e um pouco mais morto, se o caminho deles não se tivesse cruzado com o meu.



[Fuente: www.eduardoaffonso.com]