Isac Nunes da Luz Cordeiro
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Tradutor Público e
Intérprete do Comércio
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Idiomas: francês, espanhol, catalão e galego ***
Matriculado na Junta Comercial do Estado do Paraná
*** Curitiba ***
República Federativa do Brasil
A ignorância sobre centenas de referências com que o leitor atual
de 'Os Maias' se defronta no romance tem agora uma mãozinha
eletrónica para ser ultrapassada através de códigos QR.
Antes de Camilo,
Herculano, Garrett e Júlio Dinis, é Eça quem vai demonstrar qual é o potencial
da aliança entre tecnologia e o livro tradicional.
Escrito
por João Céu e Silva
138 anos após a publicação de Os Maias de Eça de Queiroz e
quando se pensava que seria impossível reinventar as edições sucessivas deste
romance, a editora Quetzal decidiu avançar com uma nova fórmula para seduzir os
leitores: a inclusão das novas tecnologias nas páginas em papel através dos
códigos QR. A justificação para esta novidade eletrónica incluída numa obra
centenária é oferecida numa cinta sobre a capa, na qual se escreve: “Edição
especial com códigos QR para explicar referências, lugares, datas e figuras
históricas do romance. Página a página.” E que referências são estas?
Entre muitas outras: “O que era um mantelete? Ou um boudoir? E o
Duque de Saldanha? Onde ficavam o Aterro, o Jockey ou o Hotel Bragança?” Ou
seja, evitam-se o que poderiam ser as habituais notas de rodapé para colocar
centenas de códigos QR no mesmo lugar, ficando as 709 páginas do romance que
foi publicado em 1888 em dois volumes polvilhado de quadrados que levam o
leitor até ao universo virtual da maior enciclopédia atual.
Quanto mais não fosse, esta novidade permite um julgamento sobre o
que os responsáveis da edição consideram ser as falhas culturais dos leitores,
o seu esquecimento de protagonistas da cultura e da sociedade antigos e a
ignorância sobre factos históricos. A maioria dessas situações bem merecerá um
QR, como é o caso das expressões Geórgicas ou Belle
Helène, mas quando o leitor desconhece quem foi Pilatos ou
onde fica a estação de Santa Apolónia e recorre aos QR, então
pode perguntar-se o que estará a fazer embrenhado nesta prosa farfalhuda e
culta de Eça? Uma resposta poderá ser a que se encontra no texto da contracapa: “Retrato
implacável, cómico e trágico de um tempo, de uma classe, de um país e de uma
cidade, Os Maias está cheio de referências culturais,
políticas, gastronómicas, históricas, geográficas ou do quotidiano de Lisboa no
século XIX.” Sim, Os Maias é isso tudo e muito mais e
o leitor mais ignorante também terá a partir de agora o direito a ler de forma
integral um romance escrito por um autor que, apontavam os rivais e detratores,
só conhecia Portugal e as suas gentes na sua vida adulta através de um vislumbre
de passagens breves pelo país e fazendo um retrato mais completo devido à
intensa leitura da imprensa da época mal se libertou das estadas
administrativas em Évora e Leiria e abalou para o estrangeiro.
O editor da Quetzal, Francisco José Viegas, acredita no projeto. Tanto que
após Os Maias está já prevista uma continuação de cinco novos
volumes que completam esta prospeção do mercado no formato papel+QR: Camilo
Castelo Branco e o clássico Amor de Perdição (fevereiro de
2027), mais tarde A Queda de Um Anjo; Almeida Garrett
com Viagens na Minha Terra, Alexandre Herculano no Eurico,
o Presbítero, e As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio
Dinis. Após enumerar esta meia-dúzia de obras-primas na literatura portuguesa,
diz: “Se correr bem, haverá mais títulos”.
A crença na necessidade destes Maias é grande em José
Viegas, como justifica: “Muitas expressões no romance pertencem a outra
época e já não se usam. Quando o leitor não as conhece, o que faz é passar à
frente e perde características importantes. É o caso do primeiro QR,
logo na primeira página, sobre a visita do Núncio Apostólico ao Ramalhete. O
que é «Núncio»? Depois, continuam a surgir inúmeras dificuldades, que não o
eram em 1880, e que são normais hoje devido à passagem do tempo; referências
que os jovens desconhecem, os pais também, bem como muitos professores”.
Conclui: “Ora, sendo um livro de leitura obrigatória e central no nosso cânone
e memória cultural, esta inclusão dos códigos QR poderá permitir uma leitura
completa do romance”. O editor dá como exemplo o seu caso: “Quando o li pela
primeira vez, deparei-me com o nome Guizot. Achei que seria uma personagem
divertida e só após a consulta de uma enciclopédia é que entendi que era um
historiador.”
Para Francisco José Viegas, esta edição de Os Maias deve-se
“à grande paixão por um grande livro e os códigos QR facilitam essa leitura,
porque o leitor pode estar permanentemente a esclarecer dúvidas através da
ligação a sites e assim saber em tempo real do que é que o Eça estava a falar.
Se queríamos associar ao livro tradicional uma ferramenta que hoje é um
instrumento de fácil acesso, os códigos QR representam bem essa função”.
Acrescenta argumentos: “É um absurdo ler um livro e não saber a
diferença entre, por exemplo, corregedor e juiz; desconhecer o que foi a
Abrilada ou saber onde é o Hotel Lawrence. Ou ler sobre o Hino da Carta e
não o conhecer, bem como a peça de Mendelssohn referida ou a Traviata. Até
se pode revelar uma brincadeira de Eça ao referir a existência de um quadro de
Rubens, que estava desaparecido à época, e que ele o coloca numa parede do
Ramalhete. São muitas as referências da nossa história e os códigos QR podem
facilitar a vida dos estudantes e dos que leem o romance por prazer.
Afinal, Os Maias não é só uma paixão, também cumpre a função
de lembrarmo-nos de um dos escritores e criadores mais importantes da nossa
língua.”
A nova edição traz também um bónus, um folheto com cem perguntas coligidas
por André Canhoto Costa sobre factos e detalhes do romance, e que permite
avaliar o conhecimento sobre Os Maias. A primeira questão é “Onde é
que Carlos da Maia viu Maria Eduarda pela primeira vez?” As respostas estão à
distância de um clique num código QR.
OS MAIAS
Eça de Queirós
Quetzal
709 páginas
QUEIROZ X QUEIRÓS
O escritor dizia ao amigo Ramalho Ortigão que o convite para escrever
folhetins para a brasileira Gazeta de Notícias poderia ser uma
boa oportunidade para publicar “talvez, depois um livro tolerável”. Assim
aconteceu, como se pode ler na ótima e sintética nota final de Helena Cidade
Moura a estas Cartas de Paris. Os artigos do escritor/jornalista
foram impressos na Gazeta entre 1893 e 1897 e reuniram
opiniões que a organizadora deste volume considera serem a reprodução no Brasil
da “notícia da vida intensa da Europa” a partir do “seu centro de observação –
Paris”, repletos de uma “confiança para contar e criticar o mundo em que
vivia”. Acrescenta que esta componente de relato é um elemento muito importante
na “criação do estilo adulto de Eça”. Esta edição reúne num único volume os
dois anteriores, Ecos de Paris e Cartas Familiares e
Bilhetes de Paris, que não foram revistos pelo escritor, como desejava,
mas, considera Moura, “a prosa que deixou, longe de ser desleixada e frouxa, é
nervosa e viva, cheia do valor da espontaneidade, simples e eficaz”.
Apesar do debate da grafia do apelido de Eça não fazer parte deste Cartas
de Paris, é curioso notar que neste volume se utiliza “Queiroz” enquanto a
versão utilizada na nova edição de Os Maias (à esquerda) é
“Queirós”. Sendo a divergência fruto do Acordo Ortográfico de 1945, vê-se que
após 81 anos ainda permanece uma disputa entre queirozianos e queirosianos.
Chegou às livrarias um quarteto imperdível: Thomas Mann, Espinosa,
Wittgenstein e Proust. Bons exemplos de escritores cuja obra sobreviveu a quem
a quis apagar, como a religião e o nazismo.
O escritor Thomas Mann em 1936, momento em que se dá
ascensão do nazismo e a proibição de vários livros.
Escrito por João Céu e Silva
O leitor português recordará
Thomas Mann por várias vias: a do romance, devido à
Montanha mágica, a da novela devido à
Morte em Veneza, dois entre tantos outros títulos que estão a ser
reeditados em Portugal após os direitos de autor dos seus livros terem entrado
no domínio público. No entanto, este regresso de Thomas Mann tem um benefício
inesperado, a reunião de muitos dos seus ensaios e a tradução para a língua
portuguesa numa edição de responsabilidade e prefaciada pelo germanista da
Universidade de Coimbra, António Sousa Ribeiro.
O tradutor começa por enquadrar o género ensaio no
longo prefácio que antecede a recolha de dezoito textos, que “a partir do gesto
fundador de Montaigne, havia muito que ganhara direito de cidadania nas letras
europeias”, e relacionar o registo com a exaustiva produção de Mann. O conjunto
de ensaios começa com A minha vida num relance,
texto solicitado pela Academia Sueca após ter recebido o Nobel da Literatura, e
no qual desfaz o provável bom comportamento que um escritor galardoado deveria
ter tido enquanto aluno: “Detestava a escola e, até ao final, não estive à
altura das suas exigências.” Justifica este comportamento pela sua
“indolência”, entre outras razões, acabando por confessar que tudo teve a ver
com a escolha errada do curso. Percebe-se nestas “confissões” que a prática
literária estava bem mais certa para Mann do que ser comerciante, como era suposto.
Sousa Ribeiro abre com o seu prefácio as portas para as quinhentas
páginas que se seguem deste volume intitulado, simplesmente, Ensaios e
consegue oferecer um bom roteiro para o que se irá conjugar entre o
autobiográfico e o futuro de uma carreira como a conhecemos. É interessante
rever um percurso literário e as sensibilidades do escritor; como uma narrativa
inicial,
Perdida; de outra, o pequeno senhor Friedemann,
até publicar Os Buddenbrooks em dois volumes. A
partir daí, tudo o mais que veio a publicar é história. Como refere o
prefaciador, estamos perante um autor que após um discurso em 1922, a propósito
do assassínio de Walter Rathenau, fez com que Thomas Mann “traduzisse a adoção
definitiva da figura do intelectual público” e que foi sempre prevalecendo numa
“figura de escritor associada com clareza à defesa da ideia republicana”. Após
o exílio no ano de 1933, pode ler-se nestes ensaios, Mann impôs a sua visão
crítica do nazismo, regime que em muito contribuiu para o romance O
doutor Fausto. Daí que este Ensaios, tal como a
leitura das suas alocuções aos microfones da rádio durante a II Guerra Mundial,
devam merecer uma boa atenção nestes tempos em que o mundo está perante uma
complexa encruzilhada.
ENSAIOS
Thomas Mann
Relógio D’Água
504 páginas
O historiador Ian Buruma, especialista no Japão e na China, dedicou-se a um
filósofo neerlandês que diz muito aos portugueses, Espinosa, e publicou há dois
anos um volume intitulado O Messias da
Liberdade, recentemente traduzido por Jorge Melícias. O texto começa com o
capítulo O Espinosa de cada um de nós e termina
com Espinosismo, atravessando
entretanto vários momentos da vida e do pensamento deste protagonista, como o
relatado no capítulo Nascido para o confronto. Tudo começa pelo
fim do filósofo: “Os ossos de Benedictus, ou Baruch ou Bento de Espinosa estão
enterrados nos terrenos de uma bela igreja protestante barroca na localidade
neerlandesa de Haia”. As páginas que se seguem pretendem contar o significado
do que foi a vida do filósofo que tem influenciado tantos pensadores (Marx e
Freud, por exemplo); relatar a grande crise filosófica e teológica de 1656, que
prestigiou em muito as suas teorias no confronto com as de Descartes, ou a
relação epistolar com Leibniz, entre muitas particularidades a que Buruma dá
atenção neste trabalho biográfico e filosófico. Curioso o aviso que deixa nas
últimas páginas: “A sua defesa da liberdade de pensamento foi absoluta”.
Ian Buruma
ESPINOSA – O MESSIAS
DA LIBERDADE
Quetzal
296 páginas
Se se procura um dos filósofos mais desconcertantes e ao mesmo tempo herdeiro
da filosofia tradicional, uma das respostas mais interessantes está em Ludwig
Wittgenstein. Daí que esta espécie de enciclopédia intitulada Ludwig Wittgenstein - filosofia na era dos aviões (tradução de
Jorge Melícias) seja muito oportuna para quem queira em poucas e certeiras
penadas conhecer o seu pensamento e, principalmente, a sua personalidade. O
autor, Anthony Gottlieb, faz uma resenha bem extensa do percurso do filósofo,
mostrando a sua difícil forma de ser, por exemplo, citando Keynes aquando do
regresso de Wittgenstein a Cambridge: “Bem, Deus chegou”. Muitas das boas páginas
desta biografia devem-se ao relato da relação entre o filósofo e Bertrand
Russel, uma cumplicidade que viria a terminar menos bem. Não será por acaso que
sobre Wittgenstein um colega tenha dito: “Fez com que a nossa geração de
filósofos se tornasse insegura em relação à própria filosofia”.
LUDWIG WITTGENSTEIN
Anthony Gottlieb
Edições 70
205 páginas
Apesar de se terem passado 120 anos sobre a escrita de Elogio
da leitura, o texto e futuro prefácio para um livro de John Ruskin,
o que nele escreveu Marcel Proust ainda hoje tem uma enorme atualidade. Quanto
mais não seja porque permite aos leitores de agora compreenderem o significado
dos clássicos e de como os antigos autores-escultores utilizavam a língua do
seu tempo e o que nela incorporaram a partir da sua capacidade inventiva. Feito
de poucas páginas, será o melhor volume para contrariar os desmandos de quem
quer diminuir José Saramago e a única obra em português capaz de ter
interessado àquele prémio chamado Nobel.
ELOGIO DA LEITURA
Marcel Proust
Guerra & Paz
101 páginas
A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA
Desde há um mês que a editora Quetzal está a publicar várias obras
numa coleção a que deu o nome de A biblioteca de Alexandria. Os primeiros dois
volumes que chegaram às livrarias foram A vida de Lazarillo de Tormes e suas
fortunas e adversidades, datado de 1554 e de autoria desconhecida,
e o clássico Robinson Crusoe, datado de 1719 e de
Daniel Defoe (respectivamente traduzidos por Margarida Amado Acosta e João
Pedro Vala). Seguindo a proposta que deu origem à biblioteca mais importante da
antiguidade, a de preservar o conhecimento e o saber através de textos
impressos, esta coleção vai ter um terceiro volume ainda esta semana, o romance A
cidade e as serras de Eça de Queiroz.
As histórias que contam são bem conhecidas: a vida do jovem pobre
Lázaro, que convive com uma sociedade pouco justa e humana, numa narrativa que
tem seduzido milhões de leitores desde há quatro séculos; com menos cem anos de
publicado que o anterior romance, a difícil sobrevivência de um náufrago
transformou-se num clássico da literatura da aventura e de carácter lutador;
datado de 1901, a vida de Jacinto tem interessado e divertido com o seu humor
uma enorme corte de leitores que “viajam” de Paris para o Douro com um
protagonista tipicamente português.
Proposta de revisão das Aprendizagens
Essenciais, em consulta pública até 28 de abril, prevê que deixe de ser
obrigatório estudar o único autor português distinguido com o Nobel da Literatura
Escrito
por Rui Frias
As obras "Memorial do convento"
e "O ano da morte de Ricardo Reis", de José Saramago, vão deixar de
ser de leitura obrigatória no 12.º ano, segundo a proposta de revisão das
Aprendizagens Essenciais atualmente em consulta pública até 28 de abril.
O documento, elaborado pelo Ministério da Educação, Ciência e
Inovação, prevê uma maior flexibilidade na escolha das obras literárias,
permitindo aos professores optar entre diferentes autores. Entre as novidades
está a introdução de "Um deus passeando pela brisa da tarde", de
Mário de Carvalho, como alternativa possível no currículo.
Na prática, os docentes passam a poder escolher entre um romance
de Saramago ou a obra de Mário de Carvalho, deixando de existir a
obrigatoriedade de abordar o único autor português distinguido com o Nobel da
Literatura, prémio que recebeu em 1998.
Apesar desta alteração, mantêm-se como obrigatórias no 12.º ano
obras de Fernando Pessoa e o conto “George”, de Maria Judite de Carvalho. Já no
11.º ano, continuam no programa autores como Padre António Vieira, Almeida
Garrett, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e Antero de Quental, reforçando
a presença de clássicos da literatura nacional.
A revisão curricular integra um conjunto mais vasto de mudanças,
incluindo a introdução de Educação Física logo no 1.º ano e a manutenção do
ensino de Inglês a partir do 3.º ano.
As alterações deverão entrar em vigor no ano letivo 2027/2028,
após a fase de consulta pública, que o Governo descreve como uma etapa de
“aperfeiçoamento e validação” com contributos da comunidade educativa e da
sociedade civil.
Fernando Venâncio publicou em 1999 Os Esquemas de Fradique. Está de volta uma nova edição.
Escrito
por João Céu e Silva
Conta-se na
biografia de Fernando Venâncio que acompanha a nova edição do seu romance Os Esquemas
de Fradique que “inaugurou a sua carreira linguística aos dois
anos, quando passou do aconchego alentejano para a capital, extasiando-se
com os modos de exprimir-se dos lisboetas”. Não se pode deixar de
desconfiar dessa precocidade, mesmo quando volta à carga na biografia ao dizer
que “aos dez anos, novo êxtase o esperava, agora em Braga, essa
herdeira do território criador do idioma, orgulhosa disso até à intolerância”.
No entanto, pode-se fazer fé na terceira fase da sua vida neste campo
linguístico, ao informar que “quando Portugal se tinha tornado num fascinante
mapa de falares, sotaques e soluções gramaticais, vai instalar-se num
mundo inteiramente outro, o de língua neerlandesa” É na cidade de Amesterdão
que escreverá o romance em causa, publicado em
1999, e que agora regressa às livrarias em nova edição.
O seu último ensaio, Assim Nasceu uma
Língua (2019), refletia em muito este percurso de
interesses, após ter estudado Filosofia, Teologia e, principalmente,
Linguística, momento a partir do qual começa a lecionar em universidades
no país para onde foi viver. Não esqueceu, no entanto, as
origens e acabou por se doutorar com uma tese sobre a
linguagem em Portugal na época de Castilho, bem como a sua recusa em
aceitar o Acordo Ortográfico de 1990 e outras modas linguísticas.
Os Esquemas
de Fradique tem uma intenção muito bem conseguida, que é o do regresso
a uma geração de personagens portugueses como Eça de Queiroz, Antero de
Quental e Jaime Batalha Reis. Figuras muito esquecidas, a não
ser Eça, e que têm no seu passado um momento de criatividade a que
Venâncio se agarra para implantar este romance, o de quando o trio decide
inventar Fradique Mendes e que Venâncio torna tema deste romance.
Através de uma prosa que interroga essa
falsa existência, esse retorno a Fradique Mendes é a aposta para
quase duas centenas de páginas, numa espécie de palco e em três
atos, em que vai destacar uma brigada de (des)interessados na investigação
da possibilidade de tal figura ter existido. Para tal, vai buscar
provas e, ao mesmo tempo, desmentir essa tese. Tal como nos romances
de Eça de Queiroz, existem figuras que desdenham Fradique, como o
personagem Eugénio, bem como várias mulheres que cirandam as hipóteses que
Venâncio explora de forma bem humorística e com vários
volte-faces. Aliás, o registo do livro leva a que o leitor tenha sempre um
sorriso nos lábios, divertindo-se com cenários que fazem lembrar os romances
de Eça.
A investigação sobre o passado de Fradique Mendes é oferecida a um
jornalista jovem, Martinho da Telha, que se esforça para solucionar a
tarefa que lhe é entregue por um alegado avô da figura. Página a página
vão-se percorrendo épocas contemporâneas do trio que inventou Fradique
Mendes e colocando achas numa atualidade para manter essa
fogueira acesa. Diga-se que a história de Fradique Mendes é conhecida,
mas este romance consegue pôr no leitor dúvidas – tal como em vários
dos seus personagens – sobre se terá existido ou não.
A história refere que Fradique Mendes tem a sua génese num
primeiro momento em que Eça de Queiroz, Antero de
Quental e Jaime Batalha Reis, lhe dão vida. Decorre dos encontros
no Cenáculo e sob a fórmula de um poeta “satânico”,
antiburguês e inspirado em Baudelaire. A ousadia do trio vai
mais longe e dá-lhe um corpo literário que será publicado no jornal A
Revolução de Setembro. Escrevem-lhe também um livro, Poemas
do Macadame, e deixa no ar que existe mais obra
poética, sob o título Lapidárias, que
será publicado posteriormente à sua morte, e que os estudiosos
da obra de Eça encontraram no espólio deste.
Não se fica a inspiração poética de Fradique Mendes apenas por Poemas
do Macadame e Lapidárias,
pois o mesmo Eça de Queiroz, na parceria com Ramalho Ortigão, no folhetim
publicado em 1870 no Diário de
Notícias, O Mistério
da Estrada de Sintra, faz entrar em cena Fradique
Mendes e dá-lhe mais vida. Fradique irá ainda ter
dimensão existencial em mais Eça de Queiroz, como no livro Correspondência
de Fradique Mendes, e Cartas Inéditas
de Fradique Mendes. Poderia a invenção Fradique Mendes ter ficado
pelo século XIX, mas não foi o que aconteceu, pois em 1997,
o escritor angolano José Eduardo Agualusa recupera-o no seu romance Nação
Crioula, a investigadora checa Nicole Márfaldi escreverá uma
tese sobre o personagem e o cineasta José Barahona recupera-o em O
Manuscrito Perdido, entre outras “apropriações” desta figura
que se torna mítica.
Voltando à biografia de Fernando Venâncio incluída nesta reedição,
à parte em que se diz: “Nunca deixaram de inquietá-lo as
formas e as estruturas da sua língua materna, e também
os processos históricos delas”. É tudo isto também que encontramos também
neste labiríntico Os Esquemas
de Fradique, a que não faltam episódios próprios para manter
viva a existência de um personagem tão falso
historicamente e que só a teimosia da ficção faz superar a
realidade. Em boa hora esta reedição.
O arroz de favas com galinha corada descrito por Eça no romance A Cidade e as Serras
Escrito por Pedro Correia
1
Come-se pouco e mal na literatura portuguesa. E bebe-se ainda pior.
Percorremos centenas e centenas de páginas escritas pelos nossos mais reputados escritores sem deparar com um almocinho homérico ou um jantarinho opíparo. Falta vibração latina aos literatos lusos na hora de comer.
Por motivos que não vêm ao caso, tenho percorrido nas últimas semanas largas dezenas de obras de ficção de autores nacionais sem deparar com uma só refeição memorável. Tirando as excepções da praxe, Eça e Camilo sobretudo, dir-se-ia que os nossos romancistas fizeram votos perpétuos de castidade gastronómica.
Pessoa, Torga, Miguéis, Ferreira de Castro, Vergílio Ferreira, Régio, Sophia, Namora, Ruben A, Sena, Sttau Monteiro, Abelaira, Urbano, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Santareno, Nuno Bragança: obra após obra, capítulo após capítulo, página após página sem um repasto digno de nota.
O mesmo para Saramago ou Lobo Antunes. De Aquilino, retive sobretudo as trutas – o que me parece coisa pouca.
Já nem menciono os neorrealistas puros e duros - um Redol, um Soeiro, um Manuel da Fonseca – para quem a frugalidade era uma bandeira e qualquer comezaina soava a pecado mortal no Portugal salazarista.
2
Desde quando a gula ficou arredada das letras pátrias?
Não era assim na época e na arte de Camilo, que nos legou inesquecíveis parágrafos de volúpia refeiçoeira – como bem documentou José Viale Moutinho na sua obra Camilo Castelo Branco e o Garfo (Âncora Editora, 2013). Ou nas incontáveis incursões de Eça pelos prazeres da boa mesa, culminando na ascensão de Jacinto a Tormes, onde comeu o melhor arroz de favas da sua vida.
3
Gostava que a literatura portuguesa se reconciliasse com a gastronomia, seguindo o excelente exemplo desses nossos maiores.
Gostava que nos legasse manjares perpétuos, como a magnífica paelha real invocada por Manuel Vázquez Montalbán no seu romance Os Pássaros do Sul (Los Mares del Sur, 1979) – «a do país autêntico, a que se fazia antes de ter sido corrompida pelos pescadores ao afogarem peixe em refogado». Com os ingredientes descritos assim: «Meio quilo de arroz, meio coelho, meio frango, um quarto de quilo de bajocons [variedade de feijão verde catalão], dois pimentos, dois tomates, salsa, alhos, açafrão, sal e nada mais. Tudo o resto são estrangeirismos.» Ou as superlativas beringelas gratinadas com gambas e presunto, descritas com minúcia na mesma obra. Tudo regado talvez com um Albariño Fefiñanes, «uma das melhores coisas que nos chegaram através da estrada de Santiago».
4
Gostava que a arte culinária deixasse de ser encarada como um pecado social pelos nossos escritores que cultivam uma prosa ensimesmada e meditabunda, sem vestígios de risos ou alegria. A ditadura passou há muito, mas legou-nos uma atmosfera de clausura que tarda em dissipar-se - como a nossa ficção literária bem demonstra.
Apetece-me pedir aos romancistas: deixem as vossas personagens comer e beber e gargalhar à vontade. Façam como Montalbán. Ou como Rex Stout, um dos mestres maiores da literatura que nunca se fica pela sala ou pelo quarto: entra sempre na cozinha.
«Quando terminámos o sumo das amêijoas, Fritz apareceu com a primeira dose de pastelinhos, quatro para cada um. Um dia gostaria de saber durante quanto tempo conseguiria comer os pastelinhos de Fritz, feitos com tutano de vaca picado, pão ralado, salsa (cebolinho, hoje), casca de limão ralada, sal e ovos, escalfados durante quatro minutos em caldo de carne forte. Se ele os escalfasse todos ao mesmo tempo, ficariam moles depois dos primeiros oito ou dez, mas ele só faz oito de cada vez, e continuam sempre a chegar.»
Deliciosas linhas contidas no romance Clientes a Mais (Too Many Clients, 1960). De ler e chorar por mais.
[Foto: blogue Outras Comidas) - fonte: delitodeopiniao.blogs.sapo.pt]
Existem maneiras diferentes de avaliar livros. Algumas pessoas apreciam sobretudo o valor do objecto (capa dura, papel de qualidade, tipo de letra, ilustrações, etc.), outras interessam-se apenas pelo texto. Há edições especiais que são autênticas obras de arte, mas, a mim, bastam-me as palavras. Um livro de Eça de Queirós, Jane Austen ou Thomas Mann será sempre uma obra de arte, mesmo tratando-se de uma edição barata, impressa em papel pardo. Claro que aprecio edições especiais, principalmente, tratando-se de colectâneas fotográficas, ou fac-similes de códices medievais. Mas raramente gasto dinheiro num livro desses, costumo apreciá-los em exposições ou bibliotecas.
Os livros podem tornar-se, aliás, peças de colecção, à semelhança de selos e moedas, atingindo valores astronómicos, em caso de edições raras, independentemente da qualidade da sua edição. Um livro antigo e publicado sem grandes cuidados pode possuir um valor incalculável. Por exemplo? O primeiro livro de Franz Kafka, de 1912, com o título Betrachtung (desconheço a tradução portuguesa). A tiragem ficou-se pelos trezentos exemplares. Dessa primeira edição, apenas se sabe da existência do exemplar guardado na sua editora, a Rowohlt, uma das mais conhecidas na Alemanha. Na altura, a Rowohlt não fazia ainda ideia que aquele jovem e desconhecido autor se tornaria num ícone da literatura mundial. Porque guardou então um exemplar do livro? Porque o fazia com todos os livros por si publicados. E chego assim ao verdadeiro tema deste meu postal: 35.000 exemplares, tudo primeiras edições, guardados nos arquivos da Rowohlt, desde o seu início, em 1908, incluindo nomes como Jean-Paul Sartre, Max Frisch e Jonathan Franzen. Um verdadeiro tesouro.
Biberhaus, Hamburgo
Este tesouro vai passar agora para a Biblioteca Municipal/Universitária de Hamburgo. A Rowohlt mudou-se para a Biberhaus, perto da estação principal, e verificou-se que o edifício, apesar de enorme, não suportaria o peso de todos os livros constantes do seu arquivo. A editora propôs, então, à Biblioteca de Hamburgo, a transferência dessas 35.000 primeiras edições para um seu armazém muito especial. Trata-se de uma antiga e enorme garagem subterrânea, mantida a uma temperatura de 18ºC e 50% de humidade.
Desses 35.000 volumes, as joias da coroa são a primeira edição de Kafka e outra de Hans Fallada, intitulada Kleiner Mann, was nun?, em português, E agora, Zé Ninguém? (Dom Quixote 2011). Na Alemanha, há vários filmes baseados nos romances de Hans Fallada. A nível internacional, verifica-se um redescobrir deste autor, falecido em 1947, principalmente, no mercado anglo-americano, onde se têm vendido centenas de milhar de exemplares do seu livro Jeder stirbt für sich allein (em português, Morrer sozinho em Berlim, Relógio d’Água, 2016).
Apesar do entusiasmo que reina na Biblioteca de Hamburgo, vai ser demorada a inventariação dos 35.000 livros. Só depois eles ficarão disponíveis. E talvez só para estudantes, mas ainda não há certezas. Um outro projecto plausível será a de uma exposição a efectuar, pelo menos, com os exemplares mais valiosos. A concretizar-se, não a perderei.
Antonio Muñoz Molina apuesta por una escritura realista e intimista para retratar el reencuentro y periplo vital de dos antiguos amantes separados medio siglo atrás.
Escrito por Elios Mendieta
No te veré morir (Seix Barral, 2023) es la decimosexta novela de Antonio Muñoz Molina, autor que ha transitado en los últimos años por senderos tan dispares como la ficción novelística, el ensayo, el diario, los relatos y, en formato semanal, los artículos periodísticos. En su retorno a la invención novelada tras Tus pasos en la escalera (2019), la escritura del ubetense desprende en todas sus páginas una cuidada y reconfortante elegancia, y se nota con claridad cómo vuelve a frecuentar, por medio de sus personajes, esos refugios en los que el propio creador se siente tan cómodo y que le alejan del ruido ensordecedor de la actualidad: el deleite artístico, la persistencia del amor o el cuidado por los modales y la educación exquisita.
También repite respecto a sus escritos anteriores el continuo juego con el tiempo, la reflexión sobre el modo en que el pasado aún altera el momento actual, por muchos años que hayan transcurrido. El presente narrativo convoca en una habitación del madrileño barrio de Salamanca a Gabriel Aristu y Adriana Zuber –los dos sujetos centrales del libro, pero no los únicos con importancia en el andamiaje estructural–, dos personajes que se amaron en los años sesenta, hasta que él dejó su vida en la rancia España franquista y se instaló en Norteamérica, en 1967, para abrazar un futuro mejor. Desde entonces, Aristu y Zuber no se han vuelto a ver, y 47 años después, esa promesa de lo que pudo ser si él no la hubiese abandonado, estalla en las conversaciones de su reencuentro, pero el transcurrir vital ha caído como una losa sobre ambos. Es la “epidemia terminal del tiempo”, como escribe Muñoz Molina: “Qué sentido tenía, al cabo de tantísimos años, no dos antiguos amantes sino dos viejos, él y ella, él recuperándose de un cáncer, ella impedida, y en realidad desconocidos el uno para el otro”. Hay mucho de “órfico” en la historia de amor pretérita, y en el viaje de Aristu, medio siglo después, para rescatar a su particular Eurídice: pero como en el mito, sabrá que la ha perdido cuando decida volver a mirarla.
Pese a experimentar con el lenguaje en el primero de los cuatro bloques que componen No te veré morir –las 73 primeras páginas constituyen una única frase, sin ningún punto, como una larga perorata omnisciente en la que se entrelazan las biografías de los antiguos amantes–, el volumen posee una estructura realista que privilegia el retrato de la intimidad, abrazando, por momentos, la melancolía a fuerza de placer, por decirlo con Rafael Berrio. Si bien, la gran originalidad de la novela llega cuando entra en escena un inesperado protagonista, el narrador Julio Máiquez, que relata en primera persona las aventuras norteamericanas de Aristu y su reencuentro con Zuber en el segundo y cuarto bloque. Máiquez se convierte, de forma azarosa, en el sujeto que posibilita el reencuentro, pero sus desgracias vitales –su desdicha familiar o su incapacidad para el éxito laboral– le convierten en un personaje de notable interés.
Otro personaje secundario, pero también relevante, es el padre de Gabriel Aristu. Es el perfil de hombre instruido del periodo de entreguerras, de cuidados modales y dotes para la conversación en las tertulias, que también han retratado en su literatura autores como Jorge Semprún –para referirse, por ejemplo, a su padre– o Álvaro Pombo, que frecuentaba la compañía de Federico García Lorca, Manuel de Falla o Pau Casals. Pese a no significarse, su simpatía monárquica y el hecho de escribir sobre música clásica en el ABC le lleva a ser detenido por los defensores de la República en Madrid, durante dos años. Una vez que los sublevados vencen es liberado, pero cuando llega a su casa no lo reconoce ni su mujer, con un rostro y un cuerpo raquítico, como si fuese un reflejo de El hombre que camina, esa escultura que Giacometti creará en el ecuador del siglo. Tan mal lo pasó el padre durante la contienda que su objetivo vital se convierte en evitar cualquier penuria a su hijo: le da una educación que casi no puede costear y lo redirige a estudiar fuera de la España nacional-católica, en Estados Unidos, donde vivirá ininterrumpidamente desde 1967, para pena de Adriana.
La profunda indagación en el sentir de los personajes conforme Chronos hace sus estragos es uno de los aspectos destacables de la novela. Pero también tiene mucha importancia el elemento espacial. Quedan excluidos los emplazamientos propios de la posmodernidad, tanto lugares de memoria, por decirlo con Pierre Nora, como esos no lugares sin identidad que definió Marc Augé. Son espacios que el propio escritor conoce bien: el barrio madrileño en el que tanto tiempo ha residido, la ciudad de Nueva York en la que vivió como director del Instituto Cervantes o el estado de Virginia, en el que pasó un tiempo y donde contextualiza los primeros pasos americanos de Máiquez. Estados Unidos tiene mucha relevancia en la trama, y se diría que perfila los cambios de la sociedad norteamericana en tres momentos clave: la desinhibida California de la contracultura, los prometedores y neoliberales noventa, y el trumpismo más reciente, al que hace referencia en las páginas finales.
El tiempo es inabarcable, y esa es la gran lección que deja No te veré morir. En Sefarad, el ubetense escribió: “No quedará nada cuando se haya extinguido mi generación, nadie que se acuerde, a no ser que alguno de vosotros repitáis lo que os hemos contado”. El modo de evocar el pasado está en el meollo de la novela, y el combate entre el onirismo y la memoria es una constante. Sabe Muñoz Molina que la memoria es muy frágil, como supo ver Paul Ricoeur, y concede inusitada relevancia en su último libro al modo en que se rememora el pretérito anhelado en el mundo de los sueños, por lo que la invocación inconsciente parece ganar la partida a la invocación consciente. Asevera Aristu: “A mí la vida antigua empezó a volverme no en los recuerdos, sino en los sueños”.
Los recuerdos también están asociados al deleite artístico, al elogio de lo intertextual que compone el autor a lo largo de unas páginas por las que desfilan creadores como Eça de Queirós, Montaigne, Proust, Hopper –al que ya dedicó un excepcional ensayo en su libro El atrevimiento de mirar (2012), denominado “Las ventanas de Hopper”–, Stravinski o Bach.
No te veré morir no es la gran obra del Príncipe de Asturias de las Letras en 2013, más aún habiendo escrito en las últimas décadas obras de altísimo nivel como Beatus Ille (1986), Sefarad o La noche de los tiempos (2009), pero sí supone la enésima constatación de que Muñoz Molina continúa cultivando un notable interés dentro del panorama contemporáneo de las letras hispánicas.
O “Guia de Portugal” constitui uma obra fundamental, escrita sob o impulso de Raul Proença, a partir de 1924, reeditada e completada na sua versão original pela Fundação Gulbenkian, graças a Santana Dionísio com o grafismo de Raul Lino. O país descrito é muito diferente do atual, mas a colaboração de personalidades marcantes da cultura portuguesa faz dos seis volumes, divididos em oito tomos, um precioso instrumento para a compreensão das raízes portuguesas. Jaime Cortesão, Miguel Torga, Jorge Dias, Aquilino Ribeiro, Reinaldo dos Santos, Teixeira de Pascoais, Vitorino Nemésio, Ferreira de Castro, Egas Moniz, Rodrigues Miguéis, Afonso Lopes Vieira e António Sérgio são os autores de textos essenciais que mantêm atualidade. E Proença cita Unamuno: “Estas excursões não são só um consolo, um descanso e um ensinamento; são, além disso e porventura sobretudo, um dos melhores meios para encontrar apego e amor à pátria”.
Se refiro o “Guia de Portugal” como pequeno monumento pátrio, é para salientar a importância do conhecimento e da compreensão do património cultural, como realidade aberta e viva. Quando lemos a “Viagem a Portugal” de José Saramago, compreendemos como esse percurso tem subjacente o exemplo deixado por Raul Proença. “Ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já”. Eis o que está em causa. Se fomos mundo afora, temos de conhecer o que temos dentro. E quando hoje se exige um esforço sério e determinado para a recuperação económica – num tempo em que o trabalho cultural foi seriamente afetado pela pandemia, como pela crise financeira, urge delinear uma ação capaz de ligar os objetivos de desenvolvimento sustentável e de recuperação do atraso. A reforma que se nos exige é assim educativa, profissional, científica, cultural e artística. Não falamos de medidas avulsas ou de uma visão centrada no consumismo e no curto prazo. A qualidade na aprendizagem, a exigência e o rigor são mais importantes que nunca. Só poderemos recuperar e avançar se cuidarmos de adequar os objetivos e os meios. E, na introdução histórica, ao “Guia”, António Sérgio salienta a necessidade de conhecer melhor a história, de impulsionar os estudos científicos e de favorecer a fixação e o investimento reprodutivo, reformando o organismo da produção.
Pôr a cultura no centro das nossas preocupações não é a considerar como mero ornamento, mas como catalisador, numa palavra, como um incentivo ou um impulso criativo e inovador. E assim as artes e a investigação científica tornar-se-ão naturalmente complementares, tendo em vista a equidade, a eficiência e o progresso. Eis por que razão por exemplo o turismo cultural, pedagógico e científico e a mobilidade das pessoas devem ganhar em rigor e qualidade. Valorizemos a relação com a natureza e a paisagem, as artes tradicionais, o artesanato, a gastronomia, mas também a capacidade inovadora dos cientistas, pensadores e artistas contemporâneos. O turismo literário é apenas um exemplo e permite-nos usufruir do talento e da sensibilidade dos nossos escritores. E as qualidades da natureza, do clima e das gentes serão fatores de enriquecimento da qualidade de vida e da criatividade. Poderíamos falar de outros artistas e de outras artes, mas lembremo-nos de Eça de Queiroz, de Camilo Castelo Branco, de Guerra Junqueiro, de Teixeira de Pascoais, de José Régio, de Fernando Pessoa, de Miguel Torga, de Aquilino Ribeiro, de Agustina Bessa Luís, de Fernando Namora, de Orlando Ribeiro ou de Ruben A. – e a riqueza dos roteiros que podemos construir em torno da sua memória, das suas casas, numa integração natural, enriquecida pelo talento literário… O património cultural é vida. Sejamos capazes de ligar com imaginação essa referência à capacidade de sermos mais exigentes, de modo a recusarmos o fatalismo e a inércia.
O célebre quadro de José Malhoa «Praia das Maçãs» (1926) constitui a ilustração do que dissemos. Aqui está o mar e o encontro da terra. Estamos no limite do Mediterrâneo no Atlântico. Como compreender Portugal sem esta ligação que torna a Península Ibérica base para a aventura do mundo?
La novela negra portuguesa es uno de esos grandes tesoros ocultos. No estamos hablando de un botín de grandes cantidades de doblones de oro o de piezas de a ocho capaces de motivar la imaginación de cualquier moderno filibustero obsesionado por la cantidad de piezas recobradas en el pecio descubierto, sino de esas joyas literarias buscadas con el afán de quien se consagra a la caza y captura de la esmeralda perfecta. El proceso de ocultación tiene mucho que ver, desde la perspectiva hispánica, con el discurso tradicional de menosprecio hacia el país vecino, un país capaz de colocar a candidatos al premio Nobel cada año y de seducir a los lectores de medio mundo con sus propuestas literarias, como testimonian los nombres de José Luis Peixoto, Walter Hugo Mãe, João Tordo, Dulce Maria Cardoso o Gonzalo M. Tavares entre los más jóvenes, y la santísima trinidad formada por Saramago, Cardoso Pires y Lobo Antunes entre los seniors, amén de los africanos Mia Couto y José Eduardo Agualusa entre los asimilados de la literatura africana, pero con un proceso de recepción muy escaso en España. La inmensa mayoría tienen pocas o ninguna traducción al español y en cambio cosechan los mayores galardones literarios franceses y centroeuropeos, amén de una pléyade de lectores en el mundo entero.
Gonzalo M. Tavares - fotografía del autorPues bien, la novela negra portuguesa padece en España de un doble proceso de ocultación: en primer lugar el ya comentado de la escasa recepción de la literatura lusa; en segundo lugar el propio proceso de menosprecio hacia la literatura de género que se encuentran sus autores en el propio Portugal: aún hoy en día la literatura negra (lo mismo que la histórica y la casi inexistente erótica) se considera una subliteratura por parte de editores, críticos literarios y sobre todo por la academia, a pesar de que se han detectado algunos cambios en los últimos tiempos.
José Saramago - fotografía del autor
Pero no siempre ha sido así. Eça de Queiroz y Ramalho Ortigão trajeron de cabeza a los lectores del Diario de Noticias cuando en 1870 publicaron en su primera versión O Misteiro da Estrada de Sintra (la definitiva en libro seria en 1884) en sus páginas. Otro clásico como Camilo Castelo Branco publicó el monumental Os Misterios de Lisboa en 1854, título que recordaba y de alguna manera emulaba al clásico de Eugène Sue, Les Mystères de Paris publicado solo doce años antes. Es decir, la literatura portuguesa se había incorporado con total normalidad y rapidez a las propuestas de la literatura policíaca surgida a mediados del siglo XIX.
De todas maneras, los avatares históricos –los 48 años de dictadura entre 1926 y 1974- comportaron un atraso notable en la evolución del género en Portugal. En este proceso las similitudes son notables con el caso español: dos dictaduras que intentan crear la imagen de seguridad en el territorio nacional y que, por tanto, prohíben o relegan la publicación de novelas negras (cuyo componente social era lo que realmente molestaba a ambas dictaduras) y condenan a los autores y editores a iniciar el camino del seudónimo en el primer caso y la ambientación de las historias normalmente en escenarios no nacionales. En este sentido cabe destacar entre los autores portugueses la figura de Dick Haskins (cuyo nombre real es Antonio de Andradre Albuquerque), que inicio su trayectoria en 1959, publicó más de 20 novelas negras y además ejerció como director literario y editor de todo tipo de colecciones y que obtuvo un notable reconocimiento internacional. Otros autores destacables son Dinis Machado (Denis Mc Shade); António Damião o Roussado Pinto (Ross Pynn).
Claro que el género en Lusitánia había tenido sus momentos de gloria. En los años 20 se consolidaron las parodias de las obras de tipo anglosajón de Reinaldo Ferreira, conocido como el Repórter X. Mientras tanto, el escritor portugués más conocido de todos los tiempos, Fernando Pessoa, gran lector de novela policiaca, creaba los cuentos protagonizados por el singular detective Quaresma, que no se publicaron hasta el 2008, pero que acompañaron al escritor desde la época de su prosa inglesa hasta el final de sus días en 1935.
La llegada de la revolución de 1974 y de la consecuente democracia podría haber traído una cierta normalidad a la literatura de género portuguesa, pero en aquellos momentos se consideraba como una literatura poco seria, poco profunda y de evasión y por tanto pasó también a ser poco considerada por los sectores intelectuales más de izquierdas, que abogaron por una literatura más aferrada a la realidad inmediata de la sociedad portuguesa y que intentaron promover la novelización de la resistencia contra la dictadura y la novelización de la brutalidad de la guerra colonial, además de dedicar numerosos esfuerzos a la edición de ensayos de orientación marxista-leninista, que en muchos casos habían sido prohibidos, y a la traducción de los grandes libros de la literatura universal, que también habían sido prohibidos o censurados. A la novela negra le tocaba esperar.
LOS AÑOS OCHENTA
En los años ochenta empieza un ligero atisbo de normalidad. El hecho más destacable es que los escritores solo hacen esporádicas incursiones en el género como la que realizó José Cardoso Pires –uno de los grandes nombres de la literatura portuguesa- en 1982 con Balada da Praia dos Cães, una novela ambientada en los años 60 que muestra a la perfección el clima de opresión de la sociedad salazarista y cuyo argumento es una alegoría del asesinato real del general Humberto Delgado, el gran opositor interno al régimen, liquidado en Villanueva del Fresno (Extremadura) en 1965. Cardoso Pires ya había experimentado algunos recursos de la literatura policial con anterioridad en O Delfim. Pero no debemos leer la novela de Cardoso Pires como un intento de normalizar el género negro en Portugal, sino como lo que es, la herramienta que más perfectamente le permite indagar sobre la propia historia portuguesa.
Es en este campo en el que tenemos que enmarcar otras obras puntuales de escritores portugueses de reconocido prestigio que utilizaron fórmulas y estructuras rayanas en la novela negra para desarrollar sus ficciones de interrogación sobre la reciente historia portuguesa. Y así, y tal como explica Briones (2007: 267-280) debemos destacar O rio triste de Fernando Namora (1986); Square Tolstói, de Nuno Bragança (1981); Adéus, princesa, de Clara Pinto Correia (1985); e incluso Eugenia e Silvina, de Agustina Bessa Luis, publicada en 1987.
En paralelo hay que destacar que existen otros creadores con objetivos más prosaicos. La obra más paradigmática y de mayor éxito popular de la década es la Cronica dos bons malandros, de Mário Zambujal, publicada en 1980 y con más de 35 ediciones hasta el momento e incluso una película (muy mala) de 1984. En español no se ha traducido, pero si en catalán (Crònica dels bons trinxerarires, Alrevés). El libro entronca con la tradición de la narrativa picaresca y nos presenta a una banda de ladrones extremadamente desgraciada a la que le han encargado, a través de un contacto internacional, un gran atraco. La novela se centrará en cada uno de los componentes de esta singular banda y con ellos podremos radiografiar el Portugal contemporáneo.
Hasta finales de la década no nos encontraremos con un creador de los que, decididamente, apuestan por el género negro, intentando aportar la pátina de normalidad a la literatura portuguesa. Es el caso de Francisco José Viegas, nacido en 1962, que en 1989 publica Crime em Ponta Delgada y abre una serie protagonizada por el inspector Jaime Ramos. El mismo año es también cuando se inicia la producción de Ana Teresa Pereira, aunque su corpus lo asimilemos más a la tradición de la novela enigma y a la hibridación y al juego con referentes cinematográficos. El precedente de ambos podría haberlo establecido en 1987, el poeta, editor y periodista Orlando Neves, que también se dio a conocer en el género, llegando a publicar cuatro novelas negras. Hasta el momento todo habían sido incursiones sin continuidad, como la de Maria Estela Guedes en 1984 y la de otros autores que en esta década se animaron a intentar escribir novela negra gracias a la convocatoria del premio que otorgaba la editorial Caminho. Son escritores como Modesto Navarro, Maria do Céu Carvalho o Ana Nobre de Gusmão que hicieron incursiones puntuales en este género motivados por la convocatoria.
En este sentido la escritora Felipa Melo, artífice de la renovación en el nuevo mileno, explica (Melo: 2005: 112) lo siguiente:
Tengo la convicción de que, sobre todo cuando se la compara con la de otros países europeos, no existe una escuela o corriente original de literatura policíaca oriunda de Portugal. Únicamente existen ejemplos de obras o de autores que, de forma singular, adoptan el género o sus subgéneros a partir de modelos extranjeros o como soporte para el desarrollo de un estilo literario particular.
Así pues, la novela negra portuguesa se basa, como hemos visto, más bien un conjunto de aportaciones individuales, en muchas ocasiones de una sola obra, y no como en otras literaturas de un grupo de autores nutrido que persevera en el género (con las excepciones de Viegas y Pereira antes comentadas). Y esta tendencia se mantendrá también en el nuevo milenio.
LOS PUNTOS DE INFLEXIÓN CONTEMPORÁNEOS
A mi entender tenemos dos puntos de inflexión que marcarán nuevos caminos, posibilidades y perspectivas para la novela negra europea, todas ellas procedentes de las incursiones puntuales pero de extrema calidad realizadas por escritores portugueses. Son las esmeraldas de las que hablábamos al principio del texto.
El primero lo marca la aparición de Este é o meu corpo, de Filipa Melo, en 2001. Nacida en Angola en 1972, forma parte de la misma generación de los autores jóvenes portugueses que ahora están causando furor en todo el mundo (y que incomprensiblemente no se han consolidado en España). Este e o meu corpo era su primera novela y obtuvo el premio Revelación de la Feria del Libro de 2001, así que una novela negra conseguía uno de los premios más prestigiosos de la literatura portuguesa y abría el camino para apartar del aura de literatura menor al género negro, un camino en el que todavía tendrá que trabajarse mucho.
La novela de Melo narra una autopsia a un cuerpo desconocido acabado de encontrar desollado cerca de un río en una ciudad de provincias y que sirve como analogía del propio Portugal contemporáneo. Melo cosechó un notable éxito de ventas y las críticas fueron unánimes en Portugal (en España, cuando el libro apareció en 2004, no hubo esa unanimidad) y para nuestros intereses lo que debe remarcarse es que su libro abrió perspectivas nuevas sobre la calidad de la literatura de género y acabó con algunos preconceptos: de repente, los lectores en Portugal leían masivamente una novela negra escrita originalmente en portugués, de una escritora joven, y con críticas favorables que se leían en blogs, en prensa diaria e incluso en las publicaciones de tipo universitario.
El segundo gran punto de inflexión es el marcado por Antonio Lobo Antunes en 2007 cuando publicó O meu nome é legião. El internamiento en el género negro de uno de los grandes –Lobo Antunes ha sido candidato al premio Nobel en múltiples ocasiones- no se producía desde hacía 25 años y en esta ocasión la novela no sirvió para rendir cuentas con el pasado, sino para internarse en la realidad y en el presente más lacerante del Portugal contemporáneo. En esta obra seguimos a ocho delincuentes de un barrio deprimido de Lisboa (inciso, de cada vez son más) y a Gusmão, el policía que les persigue. El punto de vista de la narración es el informe policial, pero donde se mezclan, como no podía ser de ninguna otra manera tratándose de una obra de Lobo Antunes, las hazañas de los delincuentes, cargadas de crueldad y violencia, con los sentimientos, los comentarios y los monólogos interiores que son uno de los rasgos definitorios de la literatura de Lobo Antunes. Estamos ante una indagación en el infierno del desamor, del desarraigo y de la soledad extrema que entusiasmó a lectores y a crítica. Una novela negra extraordinaria, que rompe con todos los esquemas del género y que se nutre de los grandes recursos narrativos para abrirnos nuevas posibilidades, nuevas opciones.
Entre medias nos quedan buenas propuestas, sólidas e interesantes que han llegado los últimos años: Pedro García Rosado; José Prata y sobretodo las novelas de Fernando Sobral –muy recomendable su L.Ville, de 2012- y O Bairro da Estrela Polar, de Francisco Moita Flores, otro gran éxito con película y serie de televisión basada en esta novela de 2012 que nos explica también la historia de una banda marginal en un barrio del extrarradio de Lisboa. El camino abierto por Lobo Antunes empezaba a dar fruto con obras más cercanas a la ortodoxia canónica.
Sea como sea, y a modo de conclusión, podemos afirmar que la novela negra en Portugal, a pesar de los esfuerzos y de la popularización de su consumo en versión nacional y también en versión traducida, aún es un género repudiado en muchos ámbitos: está desprestigiado desde el punto de vista académico; faltan colecciones, una apuesta editorial y una mayor visibilidad para los títulos que se publican, y sobretodo falta que los autores que hacen incursiones puntuales apuesten definitivamente por la novela negra y tengan una continuidad en su trayectoria.
Ahora bien, quedémonos con la parte positiva. En los últimos tiempos se está hablando mucho sobre la crisis de la novela negra, sobre el encasillamiento de sus modelos y sus maneras de hacer. Creo sinceramente que los autores portugueses de los últimos 15 años –igual que sus congéneres de los años 80- han propuesto soluciones narrativas imaginativas, muy interesantes y de mezcla e hibridación de géneros que podrían abrir nuevos caminos siempre y cuando la recepción de las obras fuese la correcta, sin el prejuicio de la superioridad y con la mente abierta a dejarse arrollar por una literatura de extrema calidad. Su lectura es imprescindible si queremos que el género negro tenga nuevos modelos en los que indagar. Son la rara esmeralda del tesoro más preciado: la originalidad.
BIBLIOGRAFÍA
-BRIONES, A.I (2007). “Género policial e contragénero. Tópicos do Romancde policial na narrativa portuguesa dos anos oitenta como via de reflexão histórica”. Revista de Fiolología Românica 15, pp 267-280.
-MELO, Filipa (2005). “En el lugar del muerto (la novela negra portuguesa)”. En Primer encuentro europeo de novela negra. D.Barba (ed) pp 111-117. Barcelona: Planeta.
-PINHEIRO SILVA CARDOSO MENDES, M.do Carmo (2011). “Las novelas negras de Ana Teresa Pereira”. En Género negro para el siglo XXI. J.Sánchez Zapatero y À.Martín Escribà (eds), pp 113-122, Barcelona: Laertes