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domingo, 8 de março de 2026

Antonio Lobo Antunes, o escritor sen Nobel que converteu nun milagre a literatura

Antonio Lobo Antunes deixa este mundo tras crear algunhas das máis fermosas páxinas da historia da escritura 

Escrito por Ramón Loureiro 

Por desgraza, é certo: Antonio Lobo Antunes xa habita o que nós chamamos morte. Foise a vivir alén do río, á eternidade. E un, envolvido na dor que trae consigo a noticia da súa marcha —a noticia da desaparición dun dos máis grandes autores que lle deu ao mundo a literatura europea—, non quere dicir o que, no seu momento, xa Torga dixo de Pessoa: que o seu país o viu pasar sen preguntarse quen era. Porque o certo é que Portugal, o noso querido Portugal, o noso Portugal irmán, si foi moi consciente da grandeza da obra de Lobo Antunes. Como tamén o foi España, grazas ao esforzo, entre outros, de Dolores Vilavedra, de Mario Merlino e do conde de Siruela. Pero o mundo das letras (e que significará iso do mundo das letras...?), en xeral, non estivo á altura dun creador que abriu novas portas á escritura, como no seu momento as abriron Joyce (Si, si, Joyce, estou a dicir exactamente o que digo...!) ou Faulkner.  

E son moitos quen se pregunta, a esta hora, por que Lobo Antunes non recibiu o Premio Nobel de Literatura. Por que foise sen ese galardón que tampouco recibiu Antonio Tabucchi (como non o recibiron, polo menos ata o de agora, nin Pierre Michon nin Claudio Magris). Nós poderiamos responder a esa pregunta, e saír do paso, esgrimindo un tópico vello: que os premios, aos libros, non lles cambian nin unha soa coma; ou dicindo o que Tabucchi díxome un día, cando lle preguntei precisamente polo Nobel: que escribir é algo tan fermoso que non merece a pena perder o tempo pensando en galardóns, en cousas como esa. Pero non é bo, ou polo menos así mo parece a min, que o tempo de Lobo Antunes non fose capaz de recoñecer que tiña ante si a un escritor que fixo que as nosas vidas fosen mellores e que nos ensinou a ver máis aló as sombras.  

Hai libros que son para grandes lectores, é verdade. Libros, como os de Antonio Lobo Antunes, que esixen, de quen os le, un esforzo que ás veces roza o titánico. Pero eses libros (non están vostedes de acordo comigo...?) fan que as nosas vidas merezan ser vividas. Ningúns, e quero dicilo en voz ben alta, estaremos en débeda con Lobo Antunes sempre... e para sempre. Foise sen que puidésemos darlle as grazas, e iso, neste instante, aínda fai máis grande a nosa dor.  

 

[Imaxe: BENITO ORDOÑEZ - fonte: www.lavozdegalicia.es ]

domingo, 12 de novembro de 2023

Lídia Jorge vence Prémio Médicis Étranger com romance «Misericórdia»

É a primeira autora de língua portuguesa distinguida com o galardão criado em França em 1970

                      A escritora Lídia Jorge em entrevista ao DN

O romance "Misericórdia" (2022), de Lídia Jorge, venceu o Prémio Médicis Étranger, ex-aequo com o romance "Impossibles Adieux", da sul-coreana Han Kang, segundo o anúncio do júri.

Lídia Jorge, 77 anos, é a primeira autora de língua portuguesa distinguida com o galardão criado em França em 1970, sublinham as Publicações D. Quixote, que editam a escritora.

O prémio foi entregue pela primeira vez ao italiano Luigi Malerba e já distinguiu, entre outros, autores como Milan Kundera, Julio Cortázar, Doris Lessing, Umberto Eco, Elsa Morante, Antonio Tabucchi, Philip Roth, Orhan Pamuk, Antonio Muñoz Molina e David Grossman.

"Misericórdia" foi traduzido para francês por Elisabeth Monteiro Rodrigues, e editado pela Métailié.

O romance foi distinguido, na passada quarta-feira, com o Prémio Fernando Namora, por unanimidade, depois de já ter vencido o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, e os prémios Urbano Tavares Rodrigues, P.E.N. Clube Português e o de Melhor Livro Lusófono publicado em França.

"Misericórdia" foi escrito por Lídia Jorge quando a mãe, internada numa instituição para idosos, no Algarve, várias vezes lhe pediu que escrevesse um livro com este título.

A história decorre entre abril de 2019 e abril de 2020, data da morte da mãe da autora, que foi uma das primeiras vítimas da covid-19 no sul do país.

"A minha mãe pediu-me várias vezes para escrever um livro que se chamasse 'misericórdia', porque ela achava que havia um desentendimento no tratamento das pessoas, achava que as pessoas procuravam ser amadas, mas não as entendiam. Pediu-me que escrevesse um livro chamado 'misericórdia', para que se tivesse compaixão pelas pessoas e as tratássemos como se fossem pessoas na plenitude da vida", revelou a autora em entrevista à agência Lusa, quando da publicação do romance.

Segundo a escritora, este não é um livro "mórbido" e a sua escrita não lhe suscitou sentimentos de tristeza ou dor. Antes, é um "livro sobre o esplendor da vida que acontece quando as pessoas estão para partir", sobre os "atos de resistência magníficos, que as pessoas têm no fim da vida".

Segundo a editora portuguesa da escritora, "Misericórdia" tem "já os direitos de publicação vendidos para Espanha (La Umbria y La Solana), Alemanha (Secession), Colômbia (Tragaluz) e México (Elefanta), com publicação durante a Feira Internacional do Livro de Guadalajara, que se realiza a partir de 25 de novembro até 3 de dezembro, para a qual Lídia Jorge é uma das escritoras convidadas.

O outro romance com o qual Lídia Jorge reparte o Médicis Étranger, "Impossibles Adieux" ("Adeus Impossíveis"), de Han Kang, vai ser publicado em Portugal no próximo ano, adianta a editora do grupo LeYa.

O júri do Prémio Médicis foi presidido por Anne F. Garréta e composto por Marianne Alphant, Michel Braudeau, Marie Darrieussecq, Dominique Fernandez, Patrick Grainville, Frédéric Mitterrand, Andreï Makine, Pascale Roze e Alain Veinstein.

Em 2019, a escritora foi finalista do Prémio Médicis com o romance "Estuário".

Em abril passado, Lídia Jorge foi distinguida com o Prémio Vida Literária da APE e, em setembro, com o Prémio Eduardo Lourenço de carreira.

Lídia Jorge estreou-se com a publicação de "O Dia dos Prodígios" (1980). Desde então tem publicado romance, conto, ensaio, teatro, crónica e poesia. As suas narrativas foram adaptadas a teatro, televisão e cinema.

Entre outros prémios, Lídia Jorge recebeu o Correntes d'Escritas, em 2004, Prémio Albatros, da Fundação Günter Grass, em 2006, e o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas, das Feira do Livro de Guadalajara, no México, em 2020.

No ano passado o vencedor do Prémio Médicis Étranger foi o ucraniano Andreï Kourkov o romance "Abelhas Cinzentas".

Hoje foram também conhecidos os vencedores do Prémio Médicis de Ensaio, Laure Murat pela obra "Proust, roman familial" ("Proust, um romance familiar"), e o canadiano Kevin Lambert venceu o Médicis da Francofonia, com "Que notre joie remaine" ("Que a nossa alegria permaneça").


[Foto: Paulo Alexandrino / Global Imagens - fonte: www.dn.pt]

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Marco Ferrari: «Foi interessante descobrir como um homem do campo governava o império colonial mais extenso do planeta»

O autor italiano diz que ainda nenhuma biografia, até aqui, tinha destacado “a contradição entre um homem religioso e a sua prática de terror”.

Publicado por JOSÉ CABRITA SARAIVA

Nascido em La Spezia em 1952, Marco Ferrari visitou Portugal pela primeira vez poucos dias depois da Revolução dos Cravos. Desde então manteve uma ligação afetiva, amigos e um interesse pelo nosso país e a sua cultura, de que resultaram livros como Alla Revolucione sulle Due Cavalli (Para a Revolução num 2 Cavalos), que foi adaptado ao cinema mas nunca traduzido para português, e Le Nuvole di Timor (As Nuvens de Timor). É licenciado em Geografia, curso que tirou na Universidade de Florença, mas trabalhou desde jovem como repórter, e fez toda a sua carreira entre o jornalismo, a escrita e a televisão.

Quando começou a interessar-se por Portugal e pela cultura portuguesa?

Tive a sorte de chegar a Portugal alguns dias depois da Revolução dos Cravos. Era eu jovem repórter, e tinha-me tornado amigo de um exilado português que trabalhava na redação do meu diário como humilde distribuidor dos jornais pelos quiosques (viria a tornar-se secretário de Estado). Quando se deu a Revolução, e como tantos exilados políticos, também ele se pôs a caminho de Lisboa e eu segui-o pouco depois, apanhando um barco em Génova até Barcelona, prosseguindo à boleia até Madrid e metendo-me num comboio noturno para a capital portuguesa. Fui recebido na fronteira por um marinheiro. A atmosfera que se respirava situava-se entre a efervescência e a surpresa, a felicidade e a inquietude típica das democracias recém-nascidas.

Tem laços afetivos, amigos em Portugal?

Naquela época nasceram amizades que foram importantes na minha vida, como os dois realizadores a quem este livro é dedicado, José Fonseca e Costa e Manuel Carvalheiro, prematuramente mortos. Com Manuel Carvalheiro também frequentei a casa do Glauber Rocha [importante cineasta brasileiro] em Sintra, antes da sua morte prematura; dediquei-lhe o meu livro Lembra-se do Glauber.

O nome e a história de Salazar são conhecidos em Itália?

Não muito, na verdade. O meu livro, publicado em Itália para a Laterza, foi um grande sucesso e fez com que uma personagem complexa como Salazar fosse descoberta. A Revolução dos Cravos teve um grande eco em Itália e fez-nos descobrir um país distante, mais atlântico do que europeu. Felizmente, Portugal é hoje um dos países mais pró-europeus e, portanto, totalmente integrado no continente.

Onde fez a sua pesquisa e quanto tempo demorou?

Fiz a minha pesquisa no Arquivo Nacional Torre do Tombo. Com o tempo, escondi muito material sobre Salazar. Também naquele ano de 1974 colecionei livros escritos por muitos que foram perseguidos politicamente e que foram publicados livremente após décadas de ditadura. São livros comprados na rua que talvez nem existam nas bibliotecas portuguesas. Não é por acaso que o capítulo principal do livro é dedicado ao terror da ditadura, aspeto pouco conhecido em Portugal.

Fala português?

Estudei um pouco de português, mas com o tempo perdi-o. Felizmente, o meu dialeto genovês é quase semelhante ao português e tem a mesma cadência.

Neste livro não esconde a sua antipatia por Salazar. Essa antipatia mistura-se com um certo fascínio?

Tenho acompanhado de perto a evolução da cultura portuguesa desde a Revolução dos Cravos. Não conheci o período anterior [ditadura], ao qual o meu amigo Antonio Tabucchi dedicou o lindo livro Afirma Pereira. Desses dias dos cravos que passei em Portugal, permanecia no entanto uma inquietante sombra estendida sobre a vida de tantas pessoas: António Salazar. Tinha morrido alguns anos antes, mas era como se atravessasse as ruas ou pudesse surgir ao virar da esquina, estivesse num camarote do Teatro de São Carlos ou subisse no Elevador de Santa Justa para observar as pessoas abaixo, julgando tê-las ainda na mão. Passaram quase cinquenta anos e essa sombra tornou-se um conjunto de documentos, livros, estudos, filmes que me levaram a definir a figura da ditadura mais longeva da Europa. Foi certamente interessante descobrir como um simples homem do campo governava o império colonial mais extenso do planeta.

Esta parece-me, sobretudo, a história de Salazar contada do ponto de vista da oposição. Foi sempre essa a sua intenção ou procurou ser imparcial?

Sem preconceitos, tentei entrar no caminho do pensamento e da atuação de António Salazar, um homem aparentemente simples, dedicado ao Estado, com uma forte tradição religiosa, que, no entanto, ocultava um sistema de terror feroz e desumano. A razão de Estado não é suficiente para justificar o que fez com a tortura e prisão de milhares de antifascistas. Muitos jovens escolheram o exílio em vez de acabarem a morrer em África. Houve cerca de 8.000 desertores e 200.000 refratários que se preferiam mudar para o estrangeiro, nomeadamente para França ou Alemanha, Estados Unidos e Brasil, em vez de vestirem a farda do exército. Em 1966, os portugueses residentes no estrangeiro atingiram o número impressionante de 4 milhões e 800 pessoas. Um quarto dos emigrantes da década de 1960 eram ilegais, com picos de saída de 37 mil pessoas em 1964. A sua política colonial, que levou à morte de milhares de nativos e mesmo à perda de uma geração de jovens portugueses que, de facto, se rebelaram contra a ditadura, também não pode ser justificada. Enquanto as outras potências coloniais concediam a autodeterminação, Salazar achava que Portugal não podia viver sem as colónias. Foi um erro fatal para o sistema ditatorial que acabou por pôr fim, depois da falsa ficção de poder de Salazar, à trágica comédia da política portuguesa.

Pareceu-me, também, que colocou a tónica sobre os defeitos de Salazar e do regime. Não encontra qualidades no homem e aspetos positivos nos 40 anos em que governou Portugal?

É injustificável que, para governar, se eliminem as liberdades políticas, crie-se uma polícia política terrível e mantenha-se o sistema de escravos nas colónias. Eram mais de 20 mil os agentes da PIDE/DGS (assim lhe chamaria Marcelo Caetano a partir de 1969), entre inspetores, subinspetores, chefes de brigada, agentes, funcionários e técnicos, embora se tenha calculado que os colaboradores ascenderiam a 200 mil. As pessoas assassinadas e torturadas foram mais de 22 800, em quase 50 anos de ditadura. Existem muitas biografias de Salazar, mas nenhuma destacou a contradição entre um homem religioso e a sua forma de realizar uma prática de terror. Esta foi a derrota de Salazar. Mesmo se, como Franco, ficando fora da guerra, pôde morrer tranquilamente na sua cama.

A sua experiência como escritor de ficção foi-lhe útil neste livro? Houve momentos em que deu mais liberdade ao romancista que há em si para escrever esta história?

Normalmente os meus romances têm um fundo histórico, mesmo os que estão ligados à cultura portuguesa, como Para a Revolução num 2 Cavalos ou As nuvens de Timor. Certamente, ao lidar com uma figura como Salazar você também precisa de um toque de imaginação e de capacidade de descrição. O mesmo vale para outras personagens, como Dona Maria, o maior mistério da ditadura portuguesa.

Recorda-se do dia 25 de abril de 1974? As notícias da revolução chegaram a Itália?

Uma onda de emoção espalhou-se pelo mundo com a Revolução dos Cravos, em que as canas das espingardas dos soldados estavam cheias dessas flores vermelhas. O meu romance mais famoso, Para a Revolução num 2 Cavalos, que foi adaptado ao cinema e ganhou o Festival de Locarno em 2001, fala sobre isso. É a aventura de dois rapazes que saem de Paris para virem a Lisboa acompanhar a revolução. Mas chegam quando tudo já está terminado. Tenho pena de que o livro tenha sido traduzido para muitas línguas, mas não para o português.

Sabia que Salazar foi eleito o maior português da História num programa de televisão em 2007? Isso choca-o?

Não me chateia que grandes protagonistas do século XX, como Churchill ou Estaline ou Mussolini, sejam considerados personagens importantes. Napoleão também resiste com o seu charme, mesmo Átila ou Aníbal. O problema é sempre o mesmo: do ponto de vista que olhamos para a História. Cristóvão Colombo era um grande navegador ou o precursor do extermínio dos índios? Razão de Estado parece ser uma necessidade para ditadores, mas a visão da democracia não a justifica.

 

[Fonte: ionline.sapo.pt]

 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Les sortilèges portugais d’Antonio Tabucchi

Lire en été


L'écrivain Antonio Tabucchi

Écrit par Jérôme Leroy

Lire en été: au hasard des bouquinistes, des bibliothèques des maisons de vacances, des librairies, le plaisir dilettante des découvertes et des relectures, sans souci de l’époque ou du genre.

Le Portugal est une utopie, un sortilège, un rêve. Il est à la fois baroque, latin, atlantique : c’est le pays de toutes les attentes et de toutes les nostalgies. Il a même inventé un mot intraduisible pour dire son rapport au monde : la saudade, une tristesse calme qui dit aussi le plaisir d’être triste, une nostalgie d’un avant incertain, une espérance d’un retour, peut-être celui du Cinquième Empire et du Roi Absent, peut-être celui de l’être aimé, peut-être celui de l’enfance, la sienne et celle du monde.

Tabucchi, le plus italien des Portugais… ou le contraire

Le Portugal invite à une littérature de l’intranquillité pour reprendre un terme de Fernando Pessoa, méconnu de son temps et devenu gloire nationale, Pessoa qui était à la fois personne et la multitude. Antonio Tabucchi (1943-2012) écrivain italien a découvert Pessoa à Paris en 1953. Tabucchi deviendra son traducteur en italien et sera toute sa vie fasciné par le Portugal, ce pays où les jeux de miroirs sur la Mer de Paille à Lisbonne au couchant et les torsades manuélines du couvent de Saint-Jérôme feront de lui un lisboète d’adoption au point d’écrire directement en portugais Requiem et dont il supervisera la traduction… en français et qui paraîtra en 1992 chez Christian Bourgois.

« Si l’on me demande pourquoi cette histoire a été écrite en portugais, je répondrais qu’une histoire pareille ne pouvait être écrite en portugais. » déclare Tabucchi à propos de Requiem qu’il refuse d’appeler roman mais pour lequel il préfère le terme révélateur d’« hallucination » et dans lequel il raconte sa propre errance dans Lisbonne par un dimanche caniculaire de juillet, le jour le plus chaud de l’année.

Un merveilleux porto 1952

Il se souvient vaguement qu’il ne devrait pas être là d’ailleurs, mais plutôt endormi quelque part en Alentejo où il fait sa sieste dans le jardin d’une villa. Les personnes qu’il va rencontrer, en attendant un rendez-vous à minuit avec un maître mystérieux qui est en fait Pessoa lui-même, sont bien bel et bien réels même si certains d’entre eux sont morts depuis des années comme son ami Tadeus. Il revoit ainsi, dans la chambre d’une pension, son père en jeune homme, ou encore, après avoir bu un merveilleux porto 1952, Isabel, son amour disparu et jamais oublié. Finalement, à Lisbonne, pour qui sait se perdre, la vie et la mort ne sont plus des catégories réellement pertinentes.

Requiem est une errance initiatique, poignante et somptueuse, dont la clé est peut-être dans le détail d’un tableau de Jérôme Bosch, peut-être dans la prédiction de cette Gitane qui mendie à l’entrée du Cimetière des Plaisirs : « Écoute, me dit la vieille, tu ne peux pas vivre des deux côtés à la fois, du côté du rêve et du côté de la réalité, cela provoque des hallucinations, tu es comme un somnambule qui traverse un paysage, les bras tendus, et tout ce que tu touches commence à faire partie de ton rêve. »




Une horloge qui tourne à l’envers

Il y aurait sans doute une étude à faire de ce tropisme lusitanien chez certains artistes du vingtième siècle, comme si une manière de vérité était à trouver dans cette périphérie calme de l’Europe. Ainsi, en 1998, Requiem de Tabucchi sera-t-il magnifiquement adapté au cinéma par Alain Tanner, le patriarche du cinéma suisse qui lui aussi a été fasciné par Lisbonne comme labyrinthe de tous les possibles puisqu’il a donné de cette ville une de ses plus belles représentations avec Dans la ville blanche en 1983. On y voit ce plan inoubliable de Bruno Ganz, marin en rupture de ban, qui s’égare dans un café de l’Alfama et, tout en prenant une bière au comptoir, qui s’aperçoit que l’horloge au-dessus de la serveuse tourne à l’envers… Ce qui est un parfait résumé, en plus, de toute l’œuvre d’Antonio Tabucchi dont on recommandera aussi, entre autre, Nocturne indien et Pereira prétend.
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[Photo: LEONARDO CENDAMO / Leemage via AFP - source : www.causeur.fr]


terça-feira, 11 de junho de 2019

« Et enfin septembre vint », le dernier écrit d'Antonio Tabucchi

Une nouvelle inachevée d’Antonio Tabucchi paraît aux éditions Chandeigne, sept ans quasiment jour pour jour après la disparition de l’écrivain italien. Sa voix revient, reconnaissable entre toutes dans la littérature européenne. Et enfin septembre vint est publié dans une édition trilingue : la version italienne a été traduite en portugais par Maria José de Lancastre et en français par Martin Rueff, qui est également l’auteur d’une postface, capitale pour comprendre la démarche de création tabucchienne mais aussi l’entreprise éditoriale, l’une n’allant pas sans l’autre ici.


Écrit par Gabrielle Napoli 


Antonio Tabucchi, Et enfin septembre vint. Traductions française et portugaise de Martin Rueff et Maria José de Lancastre. Chandeigne, 96 p., 11 €

On peut se demander ce que serait le texte de Tabucchi sans Maria José de Lancastre et Martin Rueff qui en ont préparé l’édition et en assurent l’entière intelligibilité. La postface de Martin Rueff, qui intègre une note de Maria José de Lancastre, expose les conditions de création de la nouvelle. « Et enfin septembre vint » date de quelques mois avant la mort de l’auteur : elle a été écrite d’un seul jet et est consacrée à un souvenir raconté à l’écrivain. Alors qu’elle était étudiante à la faculté des lettres de l’université de Lisbonne dans les années 1970, Helena Abreu a participé à un voyage organisé par son professeur de linguistique portugaise, dans un petit village de la région de Trás-os-Montes, au nord-est du pays, afin d’enquêter, sur le terrain, sur certaines particularités linguistiques. Cette expédition a été marquée par le surgissement de l’innommable, de l’inarticulable, dont elle a été témoin.  

Antonio Tabucchi

Le texte de Tabucchi s’interrompt, brutalement, au moment même où l’événement, ce qui fait événement, se produit. Le noyau du souvenir d’Helena Abreu est raconté dans la postface. Ce qui fait événement, ce qui suscite l’écriture même de la nouvelle, ne se produit pas dans le texte, n’est pas articulé dans le langage tabucchien. À la place, un trou. C’est la fin du récit, brutale, dont on sait aussi qu’elle correspond à la disparition de l’auteur. Double manque qui fait de cette nouvelle un hurlement silencieux. L’événement perfore le texte et surgit à côté, dans la parole de l’autre, celle de Maria José de Lancastre, grâce à laquelle ce texte existe aujourd’hui pour nous, accompagnée de celle de Martin Rueff. Quoi de plus tabucchien que cette mise en scène de la parole, faite d’autres paroles, autour, qui plus est d’un personnage fantomatique, celui de l’écrivain disparu ? Comment ne pas penser à Pereira et ses fantômes, dans le magnifique Pereira prétend, errant, fantomatique, dans un Portugal pourri par Salazar ? Et à l’élaboration même du récit, né de la visite du doutor Pereira, un soir de septembre 1992, cet homme aux traits pas encore bien définis, « personnage en quête d’auteur » présenté par l’auteur dans une note sur le texte, genre qu’il affectionnait tant ?
Le texte de Tabucchi seul aurait la puissance poétique caractéristique de l’écrivain italien. Son inachèvement en fait la force, précisément parce que ce qui manque, et ce qui crie et fait retour avec force, ce qui hante, coïncide avec ce que Tabucchi avait à cœur de dire dans la nouvelle et correspond donc à l’impulsion même du geste d’écriture. On retrouve la voix de l’immense auteur de Tristano meurt dans la forme même de la nouvelle. Le titre même, formule inaugurale de la nouvelle qui la rythme ensuite, « Et enfin septembre vint », qu’il faudrait entendre en italien, « E finalmente arrivò il settembre », fait renaître la force d’évocation des rythmes et des images de l’auteur, qui en quelques lignes fait voir et sentir le Tage, une piste qui traverse l’Alentejo, les montagnes de Monchique, les plages de l’Algarve, à l’époque où il n’y avait rien ni personne, hormis « de rares villages de pêcheurs, des cabanes de feuilles çà et là, très loin, sur ces étendues de sable, le paysan vendait melons, figues et pastèques ». La poésie des lieux, des odeurs, de ces gens qui hantent les récits de Tabucchi, renforce encore la réflexion de l’auteur. Tout est lié, poésie des sens, langue et politique. Et la langue devient l’objet même de ce texte inachevé, cette langue qui « appartient au ciel », car « le corps est une misère faite de chair, d’os et de sang, il souffre si on le touche ». Il n’est jamais question, faut-il le préciser, d’un hymne à une langue, et une seule, mais bien d’à quel point on se fait voix lorsqu’on est écrivain, à l’image de Tristano, voix émergeant des draps trempés de fièvre et salis par la gangrène, qui s’interroge, à l’aube du XXe siècle, sur la démocratie.
Manuscrit d’Antonio Tabucchi

Dans Et enfin septembre vint, ceux qui croyaient fermement en la démocratie ont disparu, comme ce professeur de linguistique qui fait naître une « nostalgie déchirante », car à l’époque de Salazar, explique la voix, malgré évidemment la tragédie que vit le Portugal, « au-delà du puits dans lequel nous nous sentions enfoncés, nous étions persuadés qu’il y avait une flammèche, comme la veine d’or d’une mine cachée dans les viscères de la terre, et qu’il nous appartenait de découvrir cette veine, et qu’une fois que nous l’aurions trouvée, nous serions remontés à la surface de la terre en tenant dans nos mains une poudre d’or et que nos amis et nos parents qui nous attendaient inquiets nous auraient embrassés, pleins de reconnaissance pour le trésor que nous remontions des viscères de la terre ». Il semble que cet espoir, vivace alors même que les morts s’accumulent, dans ces pays où les jeunes Portugais sont envoyés et se font tuer pour une « guerre absurde », n’a plus lieu d’être. Et enfin septembre vint est aussi une réflexion politique sur l’Europe d’aujourd’hui par une voix qui, malheureusement, se tait, brutalement et nous laisse un peu plus seuls. La voix de Tabucchi manque cruellement aujourd’hui, ce texte nouvellement paru est une invitation à le lire et le relire, à se souvenir de sa luminosité politique et poétique. 

[Photos : Éditions Chandeigne - source : www.en-attendant-nadeau.fr]

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

«Los trenes que van a Madrás», por Antonio Tabucchi







Traducción: Joaquín Jordá



Los Trenes que van de Bombay a Madrás salen de Victoria Station. Mi guía aseguraba que una salida de Victoria Station vale por sí sola un viaje a la India, y éste era el primer motivo que me había llevado a preferir el tren al avión. Mi guía era un librito un poco excéntrico que daba consejos perfectamente incongruentes, y yo lo estaba siguiendo al pie de la letra. El hecho era que también mi viaje era perfectamente incongruente, así que aquel libro estaba hecho ex profeso para mí. No trataba al viajero como a un saqueador ávido de imágenes estereotipadas al que se aconsejan tres o cuatro itinerarios obligatorios como en los grandes museos visitados a toda prisa, sino como a un ser vagabundo e ilógico, disponible para el ocio y el error. En avión, decía, disfrutará de un viaje cómodo y rápido, pero se perderá la India de las aldeas y de los paisajes inolvidables. Con los trenes de largo recorrido se enfrentará al riesgo de paradas fuera de programa y puede incluso llegar un día más tarde de lo previsto, pero verá la verdadera India. Pero, si tiene la suerte de tomar el tren adecuado, será puntualísimo y confortable, dispondrá de comida excelente y un servicio perfecto, y un billete de primera clase le costará menos de la mitad que un billete de avión. Y no olvide además que en los trenes indios se pueden tener los encuentros más imprevistos.


Estas últimas consideraciones me habían convencido definitivamente; y puede que también me hubiera tocado en suerte el tren adecuado. Había atravesado paisajes de excepcional belleza, o en cualquier caso inolvidables por la humanidad que había visto; el vagón era de una comodidad extraordinaria, el aire acondicionado agradable, el servicio impecable. Estaba cayendo el crepúsculo y el tren atravesaba un paisaje de montañas rojas y abruptas. el criado entró con un tentempié sobre una bandeja de madera lacada, me ofreció una toallita húmeda, me sirvió el té, me informó con discreción de que nos hallábamos en el centro de la India. Mientras yo comía, él arregló mi litera, señaló que el vagón restaurante estaba abierto hasta medianoche y, si deseaba cenar en mi compartimento, bastaba con que tocara el timbre. Le di las gracias con una pequeña propina y le devolví la bandeja vacía. Luego me quedé fumando y contemplando por la ventanilla aquel panorama ignoto, pensando en mi extraño itinerario. Ir a Madrás a visitar le Sociedad Teosófica y emplear, además, dos días de tren, era, para un agnóstico, una empresa que probablemente habría sido del agrado de los extravagantes autores de mi extravagante guía de viaje. Pero la verdad era que una persona de la Sociedad Teosófica podría proporcionarme una información que me interesaba muchísimo. Era una tenue esperanza, tal vez una ilusión, y no quería quemarla en el breve espacio de un viaje aéreo: prefería mimarla y saborearla con cierta comodidad, como es preferible hacer con las esperanzas a las que nos sentimos muy apegados y que sabemos que tienen pocas posibilidades de realizarse.


El frenazo del tren me arrancó de mis consideraciones, y puede que de mi sopor. Probablemente me había adormilado unos pocos minutos y el tren ya había entrado en una estación sin que yo pudiera leer su nombre en el cartel. Había leído en la guía que una de las paradas intermedias era Mangalore, o quizá Bangalore, no lo recordaba bien, pero ahora no tenía ganas de ponerme de nuevo a hojear el libro para buscar el itinerario de la vía férrea. Debajo de la marquesina había escasos viajeros: indios vestidos a la occidental con aspecto de personas adineradas, un grupo de mujeres, unos cuantos faquires atareados. Debía de ser una ciudad importante e industrializada. En la lejanía, más allá de las vías, se veían las chimeneas de una fábrica, grandes edificios y avenidas arboladas.


El hombre entró mientras el tren se estaba poniendo en marcha. Me saludó con prisas, comprobó que el número de la litera disponible correspondía al de su billete y, después de haber comprobado que no había errores, me pidió disculpas por su intrusión. Era un europeo de una gordura fláccida, vestía un traje azul bastante fuera de lugar teniendo en cuenta el clima y un elegante sombrero. Como equipaje solo llevaba un maletín de fin de semana de piel negra. Se sentó en su lugar, sacó del bolsillo un pañuelo blanco y se limpió cuidadosamente las gafas, sonriendo. Tenía un aire afable pero reservado, casi compungido.


– ¿Usted también va a Madrás? – me preguntó sin esperar respuesta–. Este tren es muy puntual, llegaremos mañana por la mañana a las siete.


Hablaba un inglés correcto con acento alemán, pero no me pareció alemán. Holandés, se me ocurrió pensar sin saber por qué, o quizá suizo. Tenía aspecto de hombre de negocios, a primera vista parecía tener unos sesenta años, pero puede que fuera más viejo.


– Madrás es la capital de la India dravídica – añadió –, si nunca ha estado allí tendrá cosas extraordinarias para ver.


Hablaba con la desenvoltura un poco distanciada de los europeos que conocen la India, y me preparé para una conversación basada en banalidades. Decidí que era oportuno informarle de que podíamos cenar en el vagón, prefiriendo intercalar los previsibles tópicos del inevitable diálogo con los necesarios silencios previstos por una cena consumida civilizadamente.


Mientras caminábamos por el pasillo me presenté, disculpándome por la distracción de no haberlo hecho antes.


– Oh, ahora las presentaciones se han convertido en un formalismo inútil – afirmó con su aire afable. Esbozó una leve inclinación con la cabeza –. Yo me llamo Peter –concluyó.


En la cena resultó ser un valioso experto. Me desaconsejó las chuletas vegetales hacia las que me estaba inclinando por mera curiosidad, «porque las verduras tienen que ser muy variadas y elaboradas – dijo –, y es difícil que esto pueda producirse en las cocinas de un tren». Sugerí tímidamente otros platos al azar, suscitando siempre su desaprobación. Al final consintió con el tandoori de cordero que había elegido para él, «porque el cordero es un alimento noble y sacrificial, y los indios tienen el sentido de la ritualidad de la comida».


Hablamos mucho de las civilizaciones dravídicas, mejor dicho, habló casi siempre él, porque mis intervenciones se limitaban a las típicas preguntas del profano, a alguna tímida objeción, y, fundamentalmente, al consenso incondicional. Me describió con profusión de detalles los relieves rupestres de Kancheepuram y la arquitectura del Shore Temple, me habló de cultos arcaicos y desconocidos, ajenos al panteísmo hinduista, como el de las águilas blancas de Mahabalipuram; del significado de los colores, de los ritos fúnebres, de las castas. Le expuse con ciertos titubeos lo que yo sabía: mis conocimientos sobre la penetración europea en las costas del Tamil; hablé de la leyenda del martirio de Santo Tomás en Madrás, del fallido intento de los portugueses de fundar otra Goa en aquellas costas, de sus guerras con los reyes locales, de los franceses de Pondicherry. El completó mis informaciones y corrigió algunas de mis inexactitudes sobre las dinastías indígenas citando nombres, fechas, lugares y acontecimientos. Hablaba con seguridad y competencia, y su erudición denotaba una vastedad de conocimientos que llevaban a suponer que era un calificado experto, tal vez un profesor universitario o un ilustre estudioso. Se lo pregunté de manera directa, con una ingenuidad evidente, convencido de que la respuesta sería afirmativa. El sonrió, no sin falsa modestia, y movió la cabeza.


– Solo un simple aficionado – dijo –, es una pasión que el destino me ha invitado a cultivar.

Su voz tenía un tono dolorido, me pareció, como un lamento o una pena. Sus ojos brillaban, y su rostro lampiño parecía más pálido bajo la luz del vagón restaurante. Tenía las manos delicadas y los gestos cansados. Había una especie de inconclusión en su aspecto, algo a medio terminar, pero era difícil decir qué: pensé en algo enfermizo y oculto, como una vergüenza.


Regresamos a nuestro compartimento sin dejar de conversar, pero ahora su verborrea se había debilitado y nuestro coloquio iba intercalado de largos silencios. Mientras nos disponíamos a prepararnos para la noche, solo por decir algo, sin un motivo específico, le pregunté por qué viajaba en tren y no en avión. Creía que para una persona de su edad resultaría más fácil y cómodo utilizar el avión, en lugar de soportar un viaje tan largo; y probablemente yo esperaba que me confesara su temor a semejante medio de transporte, como les sucede a veces a las personas que no se habituaron a él en su juventud.


El señor Peter me miró perplejo, como si no hubiera pensado nunca en ello. Luego se le iluminó el rostro de repente y dijo:


– En avión realizan viajes cómodos y rápidos, pero se salta la India auténtica. Es verdad que los trenes que hacen largos recorridos corren el riesgo de llegar hasta con un día de retraso; pero si se tiene la suerte de dar con el tren adecuado se puede hacer un viaje muy confortable y llegar con absoluta puntualidad. Y además en tren siempre existe el placer de entablar una conversación, cosa que el avión no permite.


Fue más fuerte que yo y murmuré:


– India, a travel survival kit.


– ¿Qué? – dijo él.


– Nada – contesté –, me he acordado de un libro. – Y luego dije con seguridad – : Usted no ha estado nunca en Madrás.


El señor Peter me miró con candor.


– Para conocer un lugar no siempre es preciso haber estado en él – afirmó.


Se quitó la chaqueta y los zapatos, metió su maletín debajo de la almohada, corrió la cortina de su litera y me deseó buenas noches.


Me habría gustado decirle que también él tenía una tenue esperanza, y que por eso había tomado el tren: porque prefería mimarla y saborearla largo rato, en lugar de quemarla en el breve espacio de un viaje aéreo, estaba seguro. Pero naturalmente no dije nada, apagué la luz central, dejé la veilleuse azul, corrí mi cortina y le deseé buenas noches.


***


Nos despertó la molestia de la luz encendida de repente y una voz que pedía algo. Por la ventanilla se divisaba una barraca de tablones iluminada por una débil luz, con un letrero incomprensible. El revisor iba acompañado de un policía muy oscuro de aire sospechoso.


– Estamos entrando en el país Tamil Nadu – dijo el revisor con una sonrisa –, es un mero formalismo.


El policía tendió la mano y dijo:


– Documentación, por favor.


Examinó mi pasaporte con aire distraído y lo cerró inmediatamente. Sobre el documento del señor Peter se entretuvo con mayor atención. Mientras lo examinaba descubrí que era un pasaporte israelita.


– ¿Míster… Shi…mail? – silabeó dificultosamente el policía.


– Schlemihl – corrigió mi compañero de viaje –, Peter Schlemihl.


El policía nos devolvió los documentos, apagó la luz y se despidió fríamente. El tren corría de nuevo por la noche india, la luz de la bombilla azul creaba una atmósfera onírica, permanecimos largo rato en silencio, después al final yo hablé.


– Usted no puede llamarse así – dije –, existe un único Peter Schlemihl, es un invento de Chamisso, y usted lo sabe perfectamente. Algo semejante solo se lo cree un policía indio.


Mi compañero de viaje no contestó. Después me preguntó:


– ¿Le gusta Thomas Mann?


– Algunas cosas – repliqué.


– ¿Qué le gusta?


– Los relatos, algunas novelas cortas, Tonio Kröger, Muerte en Venecia.


– No sé si conoce un prólogo de Peter Schlemihl – dijo –, es un texto admirable.


El silencio se hizo de nuevo. Pensé que mi compañero se había dormido, pero no podía ser, claro. Solo esperaba que hablara yo, y yo hablé.


– ¿Qué tiene que hacer en Madrás?


Mi compañero de viaje tardó en responder. Tosió ligeramente.


– Voy a ver una estatua – susurró.


– Es un largo viaje para ver una estatua.


Mi compañero no contestó. Se sonó la nariz varias veces.


– Quiero contarle una pequeña historia – dijo luego –, tengo ganas de contarle una pequeña historia.


Hablaba en voz baja y su voz me llegaba afelpada desde el otro lado de la cortina.


– Hace muchos años, en Alemania, conocí a un hombre. Era médico, y tenía que visitarme. Estaba sentado detrás de un escritorio y yo estaba desnudo de pie delante de él. Detrás de mí había una cola de hombres desnudos que él tenía que visitar. Cuando nos llevaron a aquel lugar nos dijeron que nosotros servíamos para el progreso de la ciencia alemana. Junto al médico había dos guardias armados y una enfermera que llenaba las fichas. Él nos hacía preguntas precisas referentes a nuestras funciones viriles, la enfermera procedía a realizar ciertos análisis sobre nuestros cuerpos, y después escribía. La cola avanzaba con rapidez, porque aquel médico tenía prisa. Cuando ya había pasado mi turno, en lugar de continuar hacia la habitación a la que nos conducían, me entretuve unos instantes, porque mi mirada fue atraída por una estatuilla que el médico tenía sobre el escritorio. Era la reproducción de una divinidad oriental, pero yo no la había visto nunca. Representaba una figura danzante, con los brazos y las piernas en posiciones armónicas y divergentes inscritas en un círculo. En aquel círculo solo quedaban unos pocos espacios abiertos, pequeños vacíos que esperaban ser cerrados por la imaginación de quien los miraba. El médico se dio cuenta de mi arrobo y sonrió. Tenía una boca delgada y burlona. Esta estatua representa el círculo vital, dijo, en el que deben entrar todas las escorias para alcanzar la forma superior de la vida que es la belleza. Le deseo que en el ciclo biológico previsto por la filosofía que concibió esta estatua usted pueda tener, en otra vida, un peldaño superior al que le ha correspondido en su vida actual.


Mi compañero de viaje se calló. Pese al ruido del tren podía percibir perfectamente su respiración pausada y profunda.


– Siga, por favor – le dije.


– No hay mucho que añadir – dijo él –, esa estatua era la imagen de Shiva danzante, pero yo entonces no lo sabía. Como ve, todavía no he entrado en el círculo de la renovación vital, y mi interpretación de aquella figura es otra. Lo he estado pensando todos los días, es en lo único que he pensado en todos estos años.


– ¿Cuántos años han pasado?


– Cuarenta.


– ¿Se puede pensar en una única cosa durante cuarenta años?


– Creo que sí, si se ha comprobado su mala influencia sobre nosotros.


– ¿Y cuál es su interpretación de esa figura?


– Creo que no representa en absoluto el círculo vital. Representa simplemente la danza de la vida.


– ¿En qué consiste la diferencia? – pregunté yo.


– Oh, es muy distinto – susurró el señor Peter –. La vida es un círculo. Hay un día en que el círculo se cierra, y no sabemos cuál. – Se volvió a sonar la nariz y luego dijo –: Y ahora discúlpeme, estoy cansado, si me permite me gustaría intentar dormir.


***


Me desperté en las afueras de Madrás. Mi compañero de viaje ya estaba afeitado y vestido con su impecable traje azul. Su aspecto era reposado y sonriente, había subido su litera y me mostraba la bandeja del desayuno colocada encima de la mesa al lado de la ventanilla.


– He esperado a que se despertara para tomar el té juntos – dijo –. No he querido molestarle, dormía tan a gusto.


Entré en el cuartito de baño y me lavé con rapidez, recogí mis cosas, ordené mi equipaje y me senté delante del desayuno. Comenzábamos a atravesar un lugar habitado, una zona de aldeas populosas con los primeros indicios de la ciudad.


– Como ve, vamos perfectamente bien de horario – dijo mi compañero –, son las siete menos cuarto. – Dobló cuidadosamente su servilleta –. Me gustaría que también usted fuera a ver esa estatua – añadió –, se encuentra en el museo de Madrás. Me gustaría saber qué le parece.


Se levantó y cogió su maletín. Me tendió la mano y me saludó en su tono afable.


– Le agradezco a mi guía de viaje que me aconsejara este medio de transporte – dijo –, es cierto que en los trenes indios se pueden tener los encuentros más inesperados: su compañía ha sido para mí un placer y un estímulo.


– El placer ha sido recíproco – repliqué –, yo soy quien está agradecido a los consejos de mi guía.


Estábamos entrando en la estación, frente a un andén atestado de gente. El tren accionó los frenos y el convoy se paró suavemente. Le cedí el paso y él bajó en primer lugar, saludándome con la mano. Mientras se alejaba le llamé y él se volvió.


– No sé dónde podría comunicarle mi opinión – grité –, no tengo su dirección.


Él retrocedió, con ese aire perplejo que yo ya conocía, y reflexionó un instante.


– Déjeme un mensaje en el American Express – dijo –, pasaré a recogerlo.


A continuación cada uno de nosotros se perdió entre la multitud.


***

Solo pasé tres días en Madrás. Fueron días intensos, casi febriles. Madrás es una ciudad enorme de casas bajas y de inmensos espacios sin edificar, atascada por un tráfico de bicicletas, de autobuses inconexos y de animales; para recorrerla de una punta a otra hace falta mucho tiempo. Una vez resueltas las obligaciones que me esperaban me quedó un solo día de libertad, y preferí, antes que el museo, hacer una visita a los relieves rupestres de Kancheepuram, que distan muchos kilómetros de la ciudad. También en esta ocasión mi guía resultó ser una compañía fundamental.


La mañana del cuarto día me encontraba en una estación de los autobuses que hacen el recorrido a Kerala y a Goa. Faltaba una hora para la salida, hacía un calor tórrido y las marquesinas del enorme hangar de la estación eran el único refugio contra el ardor de las calles. Para distraer la espera compré el diario en lengua inglesa de Madrás. Era un diario de solo cuatro hojas, con aspecto de hoja parroquial, muchos anuncios de todo tipo, resúmenes de películas populares, crónica urbana. En la primera página, muy destacada, estaba la noticia de un homicidio sucedido el día anterior. La víctima era un ciudadano de nacionalidad argentina que vivía en Madrás desde 1958. Se le describía como un señor esquivo y discreto, sin amistades, setentón, que vivía en un chaletito del barrio residencial de Adyar. Su mujer había fallecido tres años antes por causas naturales. No tenían hijos.


Había muerto de un disparo en el corazón. Era un homicidio aparentemente inexplicable, porque el asesino no había actuado con intención de robar. La casa estaba en orden, no había nada roto. El artículo describía la vivienda como una residencia sencilla y sobria, con algunas piezas artísticas de buen gusto y un pequeño jardín. Parecía que la víctima era un entendido en arte dravídico; el diario mencionaba algunos servicios prestados a la catalogación del museo local y publicaba la fotografía de un desconocido: el rostro de un anciano calvo, de ojos claros y boca delgada. Era una descripción neutra y anodina. El único detalle curioso era la fotografía de una estatuilla pegada al rostro de la víctima. Se trataba sin duda de una aproximación plausible, porque la víctima era un entendido en arte dravídico y la danza de Shiva es la pieza más famosa del museo de Madrás, una especie de símbolo. Pero aquella aproximación plausible suscitó en mí otra aproximación. Todavía faltaban veinte minutos para la salida, busqué un teléfono y marqué el número del American Express. Me contestó una amable señorita.


– Querría dejar un mensaje para el señor Schlemihl – dije.


La señorita me rogó que aguardara un instante y luego dijo:


– De momento no tenemos a nadie registrado bajo ese nombre, pero si lo desea puede dejar de todas maneras su recado, le será entregado tan pronto como pase. Oiga, oiga – repitió la telefonista, que ya no oía mi voz.


– Un segundo, señorita – dije –, déjeme pensar un segundo.


¿Qué podía decir? Pensé en la ridiculez de mi recado. ¿Que había entendido? ¿Y qué había entendido? ¿Que para alguien el círculo se había cerrado?


– No tiene importancia – dije –, he cambiado de idea.


Y colgué.


No descarto la posibilidad de que mi imaginación haya volado más de la cuenta. Pero si hubiese adivinado cuál era la sombra que el señor Schlemihl había perdido, y si alguna vez se da la casualidad de que lea este relato, por el mismo extraño azar que nos llevó a encontrarnos aquella noche en el tren, me gustaría hacerle llegar mi saludo. Y mi pena.



*Publicado en “Pequeños equívocos sin importancia”, Editorial Anagrama S.A., Barcelona, España, 1997.




[Fuente: www.shortstoryproject.com]