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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Claudia Cardinale: uma atriz do povo e da aristocracia

Claudia Cardinale é um nome fundamental na história moderna do cinema italiano. A sua carreira vai ser recordada num ciclo integrado na Festa do Cinema Italiano — a partir de terça, 31, na Cinemateca.

'O leopardo', Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1963.

Escrito por João Lopes 

Está quase a chegar a 19ª edição da Festa do Cinema Italiano (a partir de 9 de abril). Como já é tradição, o programa integra uma “antecipação” tendo por cenário as duas salas da Cinemateca. Assim, esta quarta-feira, 1 de abril, inicia-se um ciclo de homenagem a Claudia Cardinale (1938-2025), com dezasseis títulos da sua vasta filmografia, incluindo alguns dos clássicos absolutos que, na década de 1960, lhe conferiram o estatuto de embaixatriz do cinema de Itália. Em paralelo, na quinta-feira, terá lugar a primeira de quatro sessões dedicadas a raridades de Pier Paolo Pasolini (1922-1975), incluindo a versão de Medeia (1969) em que Maria Callas surge com a sua própria voz (e não com a dobragem que circulou na altura do respetivo lançamento) - será também criada mais uma edição das “Folhas da Cinemateca”, dedicada à obra de Pasolini. 

'A rapariga da mala', o realismo depois do neorrealismo 

Os dois primeiros títulos com Claudia Cardinale podem ajudar a definir a vitalidade, e também a diversidade, de toda uma época de ouro da produção italiana. São eles Gangsters falhados (1958), de Mario Monicelli, e A rapariga da mala (1961), de Valerio Zurlini - o primeiro reconvertendo em subtil comédia social o modelo tradicional do “grande assalto”; o segundo, distinguindo-se por um realismo (também social, obviamente) que se afastava cada vez mais das componentes estéticas do neorrealismo.

São dois filmes que nos ajudam a compreender que as décadas de 1950/60 foram, de facto, tempos de superação da herança neorrealista. Não numa lógica de rejeição, mas de reconversão crítica da sua herança. Ou seja: respondendo aos sinais de um desenvolvimento económico em que os heróis das narrativas da Segunda Guerra Mundial vão dando lugar a novas personagens, masculinas e femininas, ligadas a diferentes formas de organização das famílias, dos grupos sociais e, em última instância, das classes.

'Oito e meio', o mundo assombrado de Fellini 

Nesse contexto, Claudia Cardinale afirmou-se como uma figura paradoxal cuja talento, a par de uma invulgar fotogenia, permitiu-lhe ziguezaguear entre personagens de componentes psicológicas e estatutos sociais muito diversificados - dos cenários visceralmente populares de Gangsters falhados até à aristocracia de O leopardo, de Luchino Visconti, este seguramente um dos dois filmes que mais e melhor passou a simbolizar as suas qualidades de representação (foi Palma de Ouro de 1963 no Festival de Cannes); o outro é, obviamente, Oito e meio (1962), de Federico Fellini.

Esta quarta-feira, duas sessões - A rapariga da mala e Oito e meio, às 18h30 e 21h30, respetivamente - serão apresentadas por Claudia Squitieri, filha da atriz e do realizador Pasquale Squitieri. Corleone (1978), filme em que Squitieri dirigiu Claudia Cardinale, integra também o ciclo.

Mais de 150 filmes

Italiana nascida em La Goulette, na Tunísia francesa, a 15 de abril de 1938, numa família de raízes sicilianas, Claudia Cardinale entrou no mundo do cinema depois de, com 17 anos, ter conquistado o título da “Mais bela rapariga italiana da Tunísia”. Morreu a 23 de setembro de 2025, na sua casa de Nemours, na região de Île-de-France, deixando um legado de mais de 150 filmes. Curiosamente, o derradeiro título da sua filmografia - The Island of Forgiveness (2022), de Ridha Behi - centra-se numa família tunisina de origem siciliana.

'O gebo e a sombra', com Michael Lonsdale e Luís Miguel Cintra

De modo diferente de outras grandes atrizes reveladas na mesma época, a imagem de Claudia Cardinale nunca ficou ligada a um autor “dominante” (como aconteceu, por exemplo, com Monica Vitti e Michelangelo Antonioni), mesmo se é um facto que foi dirigida por Visconti numa admirável trilogia (Rocco e os seus irmãos, O leopardo e Sandra). Ao mesmo tempo, aliás a par de alguns outros nomes emblemáticos do cinema europeu (Catherine Deneuve, em França, poderá servir de exemplo), nunca consolidou uma verdadeira carreira em Hollywood, ainda que o seu nome tenha surgido no elenco de vários títulos made in USA. A sua deriva através de universos cinematográficos plenos de contrastes temáticos e narrativos poderá ser ilustrada também através da sua participação em O gebo e a sombra (2012), derradeira longa-metragem de Manoel de Oliveira.

Cinco filmes a (re)descobrir

Apesar de o nome de Claudia Cardinale ser uma referência universal da cinefilia, alguns dos seus filmes nem sempre terão tido a divulgação, ou até mesmo a atenção crítica, que merecem. Eis um quinteto de hipóteses para rever, ou descobrir, no ciclo da Cinemateca.

A RAPARIGA DE BUBE (1963)

A partir de 1962, a carreira de Claudia Cardinale adquire uma dimensão verdadeiramente gloriosa, filmando sucessivamente Oito e meio, O leopardo, A pantera cor-de-rosa (título inaugural da saga cómica de Blake Edwards, com Peter Sellers) e La ragazza di bube. Centrado no regresso da guerra de Bube, um “partisan” da Toscânia, o filme possui a intensidade dramática típica do estilo de Luigi Comencini, cineasta “artesanal” cuja redescoberta está por fazer. No papel de Bube, surge George Chakiris, que dois anos antes tinha sido um dos protagonistas de West Side Story.


VAGHE STELLE DELL’ORSA... (1965)

Entre as raridades programadas, há também uma realização de Luchino Visconti que, em qualquer caso, ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1965. Mais conhecido pelo título internacional Sandra (nome da personagem de Claudia Cardinale), este é um drama intimista apostado em refazer para os tempos modernos a tragédia de Electra. A relação incestuosa que se estabelece entre Sandra e o irmão é filmada com os tons de uma inquieta sensualidade, rara na obra de Visconti — a notável fotografia a preto e branco tem assinatura de Armando Nannuzzi.


OS PROFISSIONAIS (1966)

Quando pensamos em Claudia Cardinale em ambiente de “western”, é inevitável citar Aconteceu no Oeste (1968), de Sergio Leone. O certo é que, dois anos antes, ela inscrevera a sua energia numa aventura do velho Oeste, contracenando com vários “duros” do género, incluindo Burt Lancaster, Lee Marvin e Robert Ryan. Com assinatura de Richard Brooks, este é um belo exemplo das transformações críticas do “western” ao longo da década de 1960, com a particularidade de a sua encenação possuir o tom festivo, por vezes paródico, de um conto moral virado do avesso. 


A AUDIÊNCIA (1972)

Não serão necessários muitos exemplos para lembrar que a humanidade segundo Marco Ferreri existe como uma imensa tribo que evolui entre a vulnerabilidade e o absurdo — lembremos apenas Dillinger morreu (1969), o seu filme anterior a este. Aqui, trata-se de encenar a odisseia enigmática do jovem Amedeo (Enzo Jannacci), apostado em conseguir uma audiência privada com o papa... O resultado é uma bizarra parábola filosófica que, além do mais, apresenta um elenco de luxo, incluindo Ugo Tognazzi, Michel Piccoli e Vittorio Gassman. 


HENRIQUE IV (1986)

Marco Bellocchio, realizador deste insólito e fascinante Enrico IV, sempre se interessou pelas ambivalências da história colectiva, a par das convulsões da mente humana. Daí o seu interesse pela adaptação da peça de Luigi Pirandello (estreada em 1922) sobre um homem que, na sequência de uma queda de um cavalo durante uma festa medieval, acredita ser o Imperador Henrique IV. Claudia Cardinale surge na personagem de Matilda, enredada no logro da figura central interpretada por Marcello Mastroianni, este numa das composições mais subtis de toda a sua carreira.  


[Fonte: www.dn.pt]

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Pasolini no té filtre

Cinquanta anys després la seva obra continua viva, i 'Xavals de carrer', com la resta del seu llegat, segueix obligant el lector a mirar la realitat sense filtres 

Pier Paolo Pasolini

Escrit per Carlos Gázquez

Aquest divendres s’ha discutit a la Biblioteca de Canyelles el llibre de Pier Paolo Pasolini Xavals de carrer (L’Agulla Daurada) en el marc del festival BCNegra 2026.

Pier Paolo Pasolini va ser un terratrèmol de dimensions enormes. Vet aquí un autor que, per davant de tot, va defensar la seva llibertat personal, artística i política malgrat les conseqüències que això pogués tenir, i que malauradament el van portar a un final fatal. Fill d’un militar amb tendències feixistes i d’una mestra a qui va estimar moltíssim, va néixer el 1922 a Bolonya, en una Itàlia que encara no sabia fins a quin punt el segle XX seria cruel. 

Va començar escrivint poesia en friülà, que ara podeu llegir en català gràcies a la traducció d’Eloi Creus a Godall Edicions. Es va fer militant del Partit Comunista Italià, del qual seria més tard expulsat per homosexual, va escriure novel·les, va dirigir pel·lícules, va publicar assajos… Com deia, es tracta d’un terratrèmol al que res se li resistia. I d’entre tota aquesta immensa obra, el festival BCNegra ha volgut centrar-se en la seva vessant novel·lística. 

El llibre Xavals de carrer, traduït al català per Joan Casas, retrata la vida dels joves dels suburbis romans amb una mirada crua, despullada de moralismes, pròpia del neorrealisme italià del qual Pasolini és un gran referent. Els protagonistes, xavals que viuen entre robatoris, violència i pobresa persistent, no són ni jutjats ni romantitzats. Simplement existeixen. I aquesta neutralitat és, de fet, una de les grans incomoditats del llibre: el lector es veu obligat a mirar de cara una realitat social sense filtres. 

El lumpenproletariat és molt present en l’univers de Pasolini, i això és fruit precisament del que ell mateix va presenciar quan caminava pels barris perifèrics de Roma després de la Segona Guerra Mundial, on les condicions de vida eren pèssimes. Ell és un artista incòmode que no té cap intenció d’embellir els seus relats, i no té cap por de ser desagradable mostrant les parts més horribles de l’experiència humana.  

La conductora de la discussió, Anna Ballbona, ha posat en valor la relació que Pasolini va tenir amb Barcelona, explicada al documental Pasolini a Barcelona (2015), dirigit per Hilari M. Pellicé. De fet, va arribar a publicar a una revista italiana un especial sobre la literatura catalana, tal com ha volgut recordar Ballbona. 

Pasolini va morir assassinat el 1975, a Ostia, en circumstàncies encara avui envoltades d’ombra. Tenia cinquanta-tres anys. Cinquanta anys després la seva obra continua viva, i Xavals de carrer, com la resta del seu llegat, segueix obligant el lector a mirar la realitat sense filtres. Llegir Pasolini és, encara avui, un acte de confrontació amb la vida tal com és, amb tota la crueltat d’aquest món. 

 

[Font: www.nuvol.com]

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Pasolini, entre el equívoco y la manipulación

Pasolini, antídotos contra el vaciamiento de un intelectual indócil


Escrito por Paolo Desogus

¿Quién fue Pier Paolo Pasolini? La pregunta podría parecer poco apropiada, si no provocadora incluso, dado que se refiere a uno de los escritores italianos entre los más más citados y debatidos. Sin embargo, son precisamente los numerosos libros y artículos, a los que hay que añadir documentales, cómics, sitios digitales, exposiciones, conferencias e incluso murales y canciones, los que corren el riesgo de eludir esta pregunta. Hasta las mejores obras, que no son pocas, tienen dificultades para encontrar su lugar, abrumadas por la sobreexposición del que se ha convertido ya en un mito posmoderno.

Como han observado desde hace tiempo muchos especialistas, el nombre de Pasolini ya no remite a la obra o a la experiencia intelectual de uno de los autores más significativos del siglo XX, sino a un personaje de ficción, a una figura opaca que ha dejado de ser fuente de sentido, espacio de interrogación.

La función de su legado es, en efecto, como mucho, la de pantalla, es decir, la de catalizador de las identidades ajenas, la de espacio de enmascaramiento de significados dispares y contradictorios que mezclan viejas frustraciones políticas y nuevos tabúes intelectuales. A esta forma de vaciamiento han contribuido sin duda las aproximaciones de aquellos intérpretes que han encontrado en la trayectoria política e intelectual de Pasolini algún pretexto para lanzar polémicas pasajeras o falsas primicias.

Ya no sorprende siquiera que a esta práctica se hayan prestado no solo periodistas y especialistas académicos faltos de ideas, sino también algunos rostros conocidos del mundo del espectáculo, la política e incluso la magistratura, a menudo instigados por improvisados operadores culturales que se enfrentan a iniciativas que pretenden ser divulgativas, pero que, salvo algunas excepciones, solo ofrecen al público una nueva masticación de discursos trillados. Si en el pasado el recurso al autor de Scritti corsari [Escritos corsarios] y Lettere luterane [Cartas luteranas] evocaba el “escándalo de la conciencia” y ponía en tela de juicio responsabilidades incómodas, hoy asistimos a una especie de inversión. De gran inquisidor de la sociedad de consumo y de la modernidad neocapitalista —para algunos, por tanto, un apocalíptico—, Pasolini se ha transformado en un autor integrado, es más, en el autor que, a pesar de su obra, guía el proceso de normalización de toda tensión dramática entre las artes y la política, entre la búsqueda expresiva y la historia por hacer.  

Se diría que es una suerte de venganza de la industria cultural, capaz de transformar al poeta de Le ceneri di Gramsci [Las cenizas de Gramsci] en objeto de entretenimiento privado de sus referencias políticas. El mito posmoderno no solo ha transformado su obra, y sobre todo su poesía, en un apéndice de su figura mediatizada, sino que también ha censurado las referencias más incómodas, como las relacionadas con el marxismo y, precisamente, con Gramsci, dejándolas de lado sin profundizar en ellas ni ir más allá del reconocimiento biográfico. El intelectual italiano elegido como ejemplo ideal del compromiso civil ya no tiene pensamiento. Es “pasión” sin “ideología”, “trashumanar” sin “organizar”.  

Prevalecen sobre él las lecturas que lo convierten en un personaje pulsional, físico, gobernado por una irracionalidad que ha transformado su investigación sobre la modernidad en una suma descompuesta de consignas, cuya verdad es solo un hecho estético. Su función política no debe superar nunca de hecho el movimiento genérico de indignación moral por la arrogancia del “Palacio” o por la omnipresencia de la “sociedad de consumo” o incluso por la amenaza de la “mutación antropológica” y el “genocidio cultural”. Es decir, no debe sobrepasar el umbral de la emotividad individual pasajera y debe permanecer dentro de los límites tranquilizadores de un compromiso cada vez más cercano a la mera petición de principio, es decir, al compromiso carente de efectividad histórico-política: exactamente lo contrario de lo que Pasolini había buscado en Gramsci y en el marxismo.   

A dicha regresión, que también le ha permitido a la derecha incluirlo en su propio panteón, ha contribuido la elevación a mito gestual, a personalidad desvinculada de su contexto histórico, de sus grandes contrastes —entre pasión e ideología— y, sobre todo, de las relaciones, a veces polémicas, con los intelectuales y las formaciones políticas de su época. De su historia se suelen destacar los episodios de enfrentamiento o las polémicas, pero desde una perspectiva antipolítica, que no sabe ver nada más allá del héroe ficticio con el que alinearse a favor o en contra. De método cognoscitivo, medio para interrogar su propia época y someter a verificación sus propias posiciones, el conflicto intelectual se ha convertido en el ingrediente de una narración que ha transformado a Pasolini en solitaria víctima sacrificial, en actor pasivo de una catarsis genérica consoladora y despolitizada.  

Ante la pregunta de quién es hoy Pasolini, hay que constatar entonces que el uso de su figura ha abandonado por completo ese espíritu comunitario de ascendencia gramsciana (la “conexión sentimental”) presente en su actividad, en su investigación en el corazón de los subalternos —los campesinos friulanos, los habitantes de los barrios marginales romanos, el sur de Italia y las realidades de África y Oriente Medio— de una percepción del mundo inédita, ajena a las fuerzas hegemónicas, capaz de sobrevivir en los dialectos, las tradiciones y los cuerpos, y de dar materia a la escritura poética y a la indagación política.  

La transfiguración postmoderna de Pasolini es, por el contrario, la expresión apagada del objeto de consumo, del producto sometido a los principios neoliberales que han sometido tanto la obra literaria como la política a la lógica de la autopoiesis típica de gran parte de la producción cultural actual. Sometida a la función de pantalla, su obra ya no es el lugar del cuestionamiento y el descubrimiento, sino el espacio de la contemplación narcisista que repudia el conflicto y renuncia a cualquier intento de transformación de las relaciones materiales y simbólicas. El Pasolini despolitizado, sustraído de la historia y entregado al presente, es, en otras palabras, el icono conciliado que disipa el “escándalo de la contradicción”. Es el mito consolador que reduce la experiencia del mundo a una extensión del yo integrado en las formas más avanzadas de la explotación capitalista actual. En lugar de reabrir la dialéctica entre el arte y la vida, entre el individuo y la historia, la falsificación del legado pasoliniano es, por tanto, su disolución.   

Franco Fortini, con el que sin duda no faltaron malentendidos e incomprensiones, pero que fue el primero en ver el peligro al que se enfrentaba la figura del amigo poeta, precisamente en las columnas de este diario, al día siguiente de su muerte, afirmó que “la única forma decente de hablar de Pasolini es leerlo”. Con estas palabras denunciaba no solo la imperecedera práctica de hablar de lo que no se conoce, a la que aún hoy se prestan muchos pasolinistas ocasionales, sino también la actitud de reducir su obra a la proyección de las expectativas del propio tiempo. 

La neutralización de su escándalo se diría, en efecto, que nace de la incapacidad de aceptar el dato extraño, diferente y no conciliado. Algo de todo esto se encuentra en su problemático apego al campo comunista, en la exploración obsesiva del pasado y las tradiciones, y también en las particulares formas de su homosexualidad, en las elecciones de su experimentalismo estilístico y en el continuo intento de renovar su conexión sentimental con los sujetos sociales en los márgenes de la historia. Se podrían hacer muchas otras referencias. Sin embargo, lo que une a estos primeros ejemplos, tan diferentes y heterogéneos, es el carácter contrastante que expresan con el presente, es su falta de actualidad o, siempre en términos de Fortini, es la manifestación brechtiana de las “equivocaciones” de Pasolini.  

“Él estaba equivocado y yo no tenía razón”, escribió Fortini en el inicio de Attraverso Pasolini. Su intención no era, sin embargo, rendirse al orden del presente, sino, por el contrario, substraerse a él junto con su antiguo compañero de poesía y de batallas políticas. Contra su normalización, el único “modo decente” es entonces leer a Pasolini para devolverlo al campo de la “no razón” o, precisamente, de la “equivocación”, que es el terreno del “escándalo de la conciencia”, de la búsqueda de la discontinuidad que genera una lucha real y que rechaza toda pacificación consoladora. Es la lectura que reaviva la chispa de la poesía, la discordia política, el rechazo del presente y de sus falsificaciones: una lectura que, tras la catástrofe de las izquierdas y la euforia postideológica, rechaza el actual orden de la verdad y acepta estar en el lado del error en el intento de reabrir la contradicción y reactivar el conflicto.

Fuente: il manifesto, 28 de octubre de 2025

Pasolini y el equívoco hegemónico

Una derecha que lleva tiempo en busca de identidad y todavía desorientada por el gran consenso electoral y el rápido ascenso al poder —de los establos a las estrellas— disfruta del éxito de las jornadas de Atreju [festival cultural de la derecha italiana]. La atención de la prensa, el desfile de estrellas y semiestrellas de la televisión y el periodismo, junto con el efecto mediático de la ofensiva lanzada contra algunas figuras simbólicas de la izquierda —Gramsci y Pasolini— parecen haber dado finalmente a la derecha esa dignidad cultural tanto tiempo ansiada y envidiada. Cuál es el proyecto y cuáles son los objetivos culturales no está, sin embargo, claro. El mismo deseo de “hegemonía” en el que se han detenido tantas veces los responsables melonianos parece frágil, motivado más por una mezcla de deseo de gloria y venganza que por un proyecto político concreto. 

Precisamente por eso, nos hace sonreír un poco el exceso de entusiasmo de Giorgia Meloni por la inclusión de la gastronomía italiana en el patrimonio de la Unesco. Más allá de las justas satisfacciones, se obtiene de hecho una idea de cultura estéril, frívola, basada en medallas que exhibir y no en la capacidad de penetrar en la sociedad, de plasmar el sentido común y, en definitiva, de transformar el país. Se ha visto también esto hace unas semanas, con motivo del congreso Pasolini conservador, en el que el escritor corsario fue elevado a trofeo junto a aquellos autores de derecha enumerados penosamente por algunos de los ponentes.

A la derecha italiana le parece, en efecto, que la cultura no es más que esto, un álbum de cromos del que presumir, quizá para dar nombre a calles o escuelas. La idea de que pueda ser un lugar problemático que hay que interrogar, capaz de substraerse a la corrupción del presente, está fuera del horizonte de esta derecha. Y quizás incluso fuera de sus capacidades. Al éxtasis por la atención mediática y por los reconocimientos simbólicos finalmente obtenidos se corresponde, de hecho, una total incapacidad ético-política, una imposibilidad de traducir palabras y pensamientos en realidad concreta.

Se ha visto esto también en el reiterado intento de reclutamiento de Pasolini, de quien también en Atreju se han debatido pasos y tomas de posición con cierta resonancia en la tradición de la derecha. Por lo demás, es difícil negar que en sus escritos hay una profunda crítica a la modernidad. Pero, ¿cómo se traduce esta actitud en la derecha? Pasolini estaba interesado en oponerse a su tiempo. Veía en el pasado una fuerza revolucionaria de la que los marxistas italianos eran herederos. Aun admitiendo algún vínculo con el pensamiento antimoderno, ¿de qué manera pretenden Fratelli d'Italia y los jóvenes de Gioventù retraducir su querella antagonista para batirse contra el presente?

La única idea de conservación que realmente funciona en el partido de Giorgia Meloni es, en realidad, la que defiende las posiciones privilegiadas de las clases más acomodadas, la que cristaliza las relaciones sociales y condena a las clases populares a un destino marcado. Es la idea que se substrae a cualquier acción contra las desigualdades, contra el desmantelamiento de la industria italiana, contra el capital financiero. La paradoja de la hegemonía meloniana, efectivamente arraigada en amplios sectores de la sociedad, es que no es cultural. Es la negación de la cultura entendida como espacio de crecimiento individual y colectivo. No tiene nada realmente gramsciano: orienta los sentimientos, juega con las frustraciones, con el malestar, pero sin ninguna intención de transformar el sentido común en buen sentido.

La hegemonía de la derecha es, de hecho, la que cultiva no la cohesión sino la desintegración, no la mejora sino la conservación, no la nueva civilización sino la destrucción de todos sus proyectos. A la hegemonía política de la derecha, de la que se deriva el éxito electoral de Giorgia Meloni, corresponde, de hecho, la subordinación a los modos de existencia importados de Estados Unidos, es decir, al neoliberalismo más burdo, que ve al ser humano como un objeto de explotación y al Estado como cámara de compensación entre los intereses particulares de las élites nacionales y el capital financiero internacional. La museificación de la cultura, su reducción a un estandarte que arrebatar a la izquierda, es funcional a esta sumisión, a esta regresión del sentido común que ha permitido a la derecha triunfar en un país en descomposición.


Fuente: Il manifesto, 20 de diciembre de 2025

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Pier Paolo Pasolini (1922-1975): en el cincuentenario de su asesinato

Con conmovida unanimidad de acentos, de derecha a izquierda, la prensa italiana llora a Pier Paolo Pasolini, el intelectual más incómodo que hemos tenido en estos años.


Escrito por Rossana Rossanda y Olivia Laing (*)

Convertido, es más, en incomodísimo. A nadie le gustaba lo que en los últimos tiempos andaba escribiendo. No a nosotros, la izquierda, porque luchaba contra 1968, las feministas, el aborto y la desobediencia. No le gustaba a la derecha porque estas salidas suyas se acompañaban de una argumentación desconcertante, para la derecha inutilizable, sospechosa.

No gustaba sobre todo a los intelectuales, porque eran lo contrario de lo que suelen ser, cautelosos destiladores de palabras y posiciones, pacíficos usuarios de la separación entre «literatura» y «vida», incluso aquellos a quienes 1968 había dado mala conciencia. Solo de entre ellos, [Edoardo] Sanguineti [poeta vanguardista del Gruppo 63] tuvo ayer el valor de escribir: «Por fin nos hemos librado de este atolondrado, residuo de los años cincuenta». Es decir, los años de la laceración, apocalípticos, trágicos. Finalmente, para el intelectual de izquierda, superados.

Esta casi total unanimidad es sin duda el segundo automóvil pesado que pasa por encima del cuerpo de Pasolini. Al igual que con el primero, quien tiene la conciencia tranquila puede decir: «Se lo ha buscado». Para quien no tiene estas certezas, es, en cambio, el último signo de contradicción de esta criatura contradictoria: una contradicción verdadera, que no puede recomponerse con ningún artificio dialéctico.

Porque si una cosa es cierta es que este repentino reconocerse todos en sus razones, ahora que ha muerto y de esta manera, es realmente la última burla que le devuelve nuestro mundo no amado. De hecho, no es el tradicional homenaje al difunto ilustre, ni la acostumbrada absolución para el difunto detestado en vida. Si todos escriben en el mismo registro (L'Unità [diario del PCI], en un emotivo artículo, esboza incluso una autocrítica, mientras que el Partido Radical lo inscribe post mortem), es porque cada uno, a partir de las razones de Pasolini, piensa hoy poder sacar provecho de ello.

¿No decía que los jóvenes son ahora como la espuma que deja la marejada que ha destruido los viejos valores? ¿Que una colectividad debe dotarse de un orden, un sistema de convivencia, un modelo? En esto todos están de acuerdo, salvo que cada uno da a este orden y a esta denuncia el signo que más le conviene.

Pasolini, el intelectual más outsider de nuestra sociedad cultural, proporciona con su indecorosa muerte la férrea prueba de que así no se puede seguir adelante. Tan cómoda, que todo lo demás se perdona. Creo que, ante este fervor y sus corolarios, Pasolini habría -si es lícito imaginar este gesto en un hombre tan humildemente amable- escupido encima. Que, si hubiera salido vivo, hoy estaría del lado del joven de diecisiete años que lo mató a golpes. Maldiciéndolo, pero con él. Y así hasta otra inevitable, quizás prevista y temida, ocasión de muerte.

Pero con él, porque era el mundo, estas criaturas de su vida más verdadera («yo los conozco a estos jóvenes, de verdad, son parte de mí, de mi vida directa, privada») en las que buscaba, obstinadamente, una luz. En ellos, no en el mundo del orden, que no son solo las comisarías de policía. Aquí volvía, porque en su visión del mundo no había otros caminos. Su denuncia del «desarrollo», de los valores del consumismo, del beneficio, del achatamiento que estos provocaban en una sociedad preindustrial en la que aún podían prevalecer las relaciones personales, no alienadas, no aceptadas pasivamente, era -como es por lo general en esta corriente, que cuenta con exponentes ilustres, católicos y laicos- tan unidimensional como la sociedad que criticaba; se vivía como el fin de la historia, como una barbarización ante la que solo cabía retroceder.

Retroceder hasta que un rechazo opuesto a este tipo de «desarrollo» -¿y quién puede oponerse a él si no es el marginal o un tercer mundo que aún no ha llegado a este umbral?- ofreciera un salvavidas. En otros lugares, no veía salvación: por eso Pasolini volvía, obstinadamente, al barrio y, cuanto más se le escapaba, más volvía a él, atormentadamente. Tanto más cuanto que, en todos los sentidos, debía presentársele como una frustración, una contradicción.

¿Buscaba una relación auténtica y no tejía, en cambio, una relación mercantilizada? ¿Buscaba una relación libre y no repetía él mismo -el intelectual rico que llega con su Alfa [Romeo] y paga al chico que tiene delante, socialmente y personalmente mucho más frágil- una relación entre opresor y oprimido? Ni la humillación que debía recibir a cambio (cuántas pruebas, menos trágicamente concluidas, de esta muerte suya debió de haber vivido; la irrisión del compañero ocasional, el rechazo, la resistencia de quien se deja usar, pero se siente usado y, por lo tanto, se rebela) podía absolverlo del hecho de que él mismo entraba en este mecanismo alienante. En el que el interlocutor se volvía cada vez más esquivo, más «objeto».

Distinto de un tiempo cuando el chico iba con él, pero manteniendo su propia figura, su dimensión no integrada, no sometible, como el Tommaso de Una vita violenta. Hoy ya no era así: el chico que lo mató tiene poco en común con el chico de barrio de antaño. Debería ser puesto en libertad mañana, de acuerdo con los valores que rigen esta sociedad (además de una humanidad elemental), porque no hay que dudar del testimonio de su barrio, y por tanto de que no tenía muchas ganas de trabajar -¿y quién las tiene?-, pero estaba dispuesto y a punto de reincorporarse al orden familiar, solo violado de forma provisional y venal.

Nada en esta historia es realmente lo que parece. No es el rico vicioso que busca amores ocultos entre los marginados, ya que nadie como Pasolini vivía más sencillamente su inclinación homosexual y podría haberla satisfecho, en una sociedad ya más permisiva, sin riesgo alguno. Tampoco el joven vicioso, que no existe: ni como vicioso, ni como delincuente, ni siquiera como desviado voluntario, rebelde a la norma. Muerte accidental en la persecución de un fantasma, se podría decir. Con satisfacción para la mayoría, con amargura para quienes estimaban y respetaban a Pasolini. Y ahora, funerales, con la asunción en la gloria por parte de quienes primero construyeron y luego exorcizaron ese fantasma.

Si Pasolini es hoy tan alabado, si probablemente muchos se reconocen de buena fe en una mitad del discurso que él hacía, es porque la otra mitad, para él esencial, aquella en la que depositaba su esperanza, no tenía fundamento. Cuántas discusiones, las pocas veces que lo veía, y siempre las mismas; las mismas que repetía, puntualmente, con Moravia. Es cierto que el capital nos ha deshumanizado. Es cierto. Es cierto que la conformidad con su modelo es monstruosa. Es cierto que es tan poderoso que se refleja incluso en quienes lo niegan: en 1968, cuando escribió el famoso poema sobre los enfrentamientos de Valle Giulia, Pasolini veía en el estudiante el producto de una clase social que puede incluso «probar» la revolución, algo que al policía, hijo de un jornalero del sur, no se le permite; y captaba una parte de la verdad.

Es cierto que hoy, y no ayer, se puede hablar de aborto, y no solo porque haya madurado el movimiento feminista, sino porque la sociedad masculina piensa en «economizarse». Es cierto que la escuela obligatoria y la televisión son organismos de consenso. Es cierto que el fascista no es tan diferente del demócrata, en sus modelos culturales, como lo era en 1922.

Todo es cierto, y todo es parcial: porque cada vez que Pasolini tocaba con la mano estas incómodas verdades, la ambigüedad del presente, daba un salto atrás, hacia la humanidad no ambigua de «antes», en lugar de captar en el estudiante, en el feminismo, en la escolarización, en la propia conformidad, el principio de una salida hacia adelante seguramente espuria, pero vital. La idea de que este itinerario debía completarse hasta el final, y a partir de ahí recuperar el hilo de un mundo devuelto a la humanidad, estaba cada vez más lejos de él.

Podría haber sido un escéptico, se convirtió, en sentido clásico, en un «reaccionario». Y esto se aprovecha hoy, este es el segundo automóvil que pasa por encima de su cuerpo. Puesto que, del valor disruptivo y violento de esta «reacción» suya nada queda en la elegía de las primeras, segundas y terceras páginas que se le dedican. Tendrá un funeral burgués y, dentro de algún tiempo, el ayuntamiento de Roma le dedicará una calle.

Lo matarán mejor sus verdaderos enemigos que el chico de la otra noche. En él, antes de morir, solo debió de ver el callejón sin salida en el que se había metido, la magnitud de su error. Y pensar que buscaba al ángel de la pasión según Mateo.

¿Qué sabía Pasolini? Cincuenta años después de su brutal asesinato, su visión del fascismo es más apremiante que nunca.

Olivia Laing

Pier Paolo Pasolini fue asesinado alrededor de la medianoche del 2 de noviembre de 1975. Su cuerpo ensangrentado se encontró a la mañana siguiente en un terreno baldío de Ostia, a las afueras de Roma, tan maltrecho que su famoso rostro era casi irreconocible. El principal intelectual, artista, provocador, conciencia nacional y homosexual de Italia murió a los 53 años, con su última y escandalosa película todavía en la sala de montaje. «Assassinato Pasolini», anunciaban los periódicos a la mañana siguiente, junto a las fotografías del joven de 17 años acusado de su asesinato. Todo el mundo conocía su gusto por los prostitutos de clase trabajadora. Un encuentro sexual que salió mal fue el veredicto instantáneo.

Algunas muertes son tan sugerentes que se convierten en emblemáticas de un tema, la lente engañosa a través de la cual se lee para siempre toda una vida. En este modo de interpretación extrañamente totalitario, Virginia Woolf siempre camina hacia el Ouse, el río en el que se ahogó. Del mismo modo, toda la obra de Pasolini está teñida por el aparente hecho de que fue asesinado por un chapero, el acto culminante de una vida implacablemente arriesgada.

Pero, ¿y si esa fuera la intención, la maliciosa astucia con la que se diseñó su asesinato? ¿Y si, en lugar del martirio instantáneo de una bala en la cabeza, Pasolini fuera asesinado de tal manera que pareciera que había buscado su propia destrucción, un castigo merecido, al menos a los ojos de los conservadores, por las manifiestas perversiones que abundaban tanto en su arte como en su vida?

Es más: ¿y si este asesinato, tanto de verdad como de su reputación, se diseñó para ahogar -contaminar, confundir- las advertencias que había estado lanzando con creciente ferocidad en los últimos años de su corta vida? «Lo sé» era el estribillo central de un famoso ensayo publicado un año antes de su muerte en Il Corriere della Sera, el principal periódico italiano. Lo que Pasolini sabía, y sobre lo que se negaba a guardar silencio, era la naturaleza del poder y la corrupción durante la brutal década de 1970 en Italia, los llamados «años de plomo», llamados así por la epidemia de asesinatos y atentados terroristas perpetrados tanto por la extrema izquierda como por la extrema derecha. En resumen, lo que sabía era que el fascismo no había terminado y que la derecha llevaría a cabo su metástasis, regresando con una nueva forma para reclamar el poder sobre una población aturdida por los halagos vulgares del capitalismo. ¿Se equivocó Pasolini en sus predicciones? Creo que todos sabemos la respuesta a esa pregunta.

Pasolini nació en Bolonia en 1922, el año en el que Mussolini se convirtió en dictador, en el seno de una familia militar. Pasó una etapa formativa en la ciudad natal de su madre, Casarsa, en la remota región rural de Friuli, después de que su padre quedara arrestado por deudas de juego. La brecha entre sus padres se agravó con el estallido de la Segunda Guerra Mundial. Susanna era maestra y amante de la literatura y el arte, mientras que Carlo Alberto era oficial del ejército y fascista declarado, y pasaría la mayor parte de la guerra en Kenia, en un campo inglés de prisioneros de guerra.

Pasolini estudió literatura en la Universidad de Bolonia, pero cuando los bombardeos hicieron que la ciudad fuera demasiado peligrosa, se retiró con su madre y su hermano menor, Guido, a Friuli. Estaba obsesionado con la belleza de la región y su dialecto puro y arcaico, su lengua materna, hablada por los campesinos y casi desconocida en la literatura. En 1942 publicó su primer volumen de poemas, Poesie a Casarsa, escrito en dialecto. Pero durante los caóticos años de lucha que siguieron al armisticio italiano, ni siquiera Friuli era un lugar seguro. Guido se unió a la resistencia y fue ejecutado en las colinas por un grupo rival de partisanos, una tragedia que unió aún más a Susanna y a su adorado hijo superviviente.

Parte del encanto de Friuli era erótico. Fue aquí donde Pasolini descubrió su sexualidad, su atracción magnética por los campesinos y los chicos de la calle, lo cual pronto lo llevó a entrar en conflicto con las autoridades. A finales de la década de 1940 fue acusado de corrupción de menores por un supuesto acto sexual con tres adolescentes. Aunque más tarde quedara absuelto, el escándalo lo llevó a él y a Susanna a mudarse de nuevo, esta vez a Roma.

Se adentraron directamente en la bulliciosa ciudad de Ladrón de bicicletas: una Roma en ruinas, con barrios marginales poblados por un nuevo proletariado urbano que huía de las privaciones del sur rural. Pasolini encontró trabajo como profesor y se sumergió en otro lenguaje secreto, el romanaccio [romanesco], el dialecto callejero que hablaban los jóvenes rebeldes con los que entabló amistad. Ragazzi di vita, los llamó en la novela de 1955 que le dio fama: chicos de la vida. Estafadores y ladronzuelos con la cara marcada por la viruela, de caderas estrechas y amorales, a menudo homófobos, casi siempre heterosexuales. Fueron estos chicos los que situó en el centro de sus libros, sus películas, sus poemas y su vida.

Se puede vislumbrar a Pasolini en fotografías de esta época, una figura delgada y esbelta con piernas arqueadas, un impermeable sobre su elegante traje, cabello oscuro peinado hacia atrás y un rostro intenso y de pómulos marcados. Un observador, un artista motivado, un apasionado jugador de fútbol. Encontró su camino hacia Cinecittà, el famoso estudio cinematográfico romano, como guionista. Ayudó a Fellini con Las noches de Cabiria y luego se lanzó por su cuenta, escribiendo y dirigiendo Accattone, un relato neorrealista de 1961 sobre un proxeneta -interpretado por un chico de la calle de la vida real, Franco Citti- y su vida arruinada en un barrio marginal romano.

Artistas menos dotados podrían haber explotado ese filón durante años, pero Pasolini pronto reveló la excepcional profundidad y singularidad de su talento. Realizó películas explícitamente políticas, como Porcile y Teorema, animado por su odio hacia la burguesía complaciente. Contó la vida de Cristo en El evangelio según San Mateo y también abordó historias clásicas, creando adaptaciones crudas y viscerales de Edipo rey y Medea, protagonizadas por Maria Callas, así como Los cuentos de Canterbury, de Chaucer, El Decamerón, de Boccaccio, y Las mil y una noches en la Trilogía de la vida.

No hay nada en todo el cine parecido a estas películas, que son obscenas y poéticas, visualmente sublimes y muy centradas en el ámbito de las ideas. Muchas de ellas están protagonizadas por el gran amor y compañero sentimental de Pasolini, Ninetto Davoli, un ingenuo desgarbado de Calabria con una sonrisa contagiosa. La tendencia de Pasolini a utilizar actores aficionados confiere a sus películas un realismo extraño e inestable, como si un cuadro renacentista hubiera cobrado vida.

A los 50 años, era mundialmente famoso, una figura controvertida, constantemente atacada. Fue candidato al premio Nobel de Literatura, pero también fue objeto de 33 juicios por cargos falsos o inventados, entre ellos obscenidad pública, desprecio a la religión y, lo más extraño de todo, intento de robo; su arma era una pistola negra cargada con una bala de oro. Pasolini ni siquiera tenía un arma.

Su arte nunca fue doctrinario, pero siempre fue político. Se había afiliado al Partido Comunista en su juventud, pero fue expulsado rápidamente por su homosexualidad manifiesta. Era criticado tanto por la izquierda como por la derecha, pero, aunque era para todos como una espina clavada, siguió aliado al comunismo y a la izquierda radical. En la década de 1970, se volvió excepcionalmente ruidoso en cuestiones políticas, utilizando los ensayos de Il Corriere para discutir la industrialización, la corrupción, la violencia, el sexo y el futuro de Italia.

En el más famoso, publicado en noviembre de 1974 y conocido en Italia como Io so, o «Yo sé», afirmaba conocer los nombres de los implicados en «una serie de golpes de Estado instituidos para la preservación del poder», incluidos los fatales atentados de Milán y Brescia. Durante estos años de plomo, la extrema derecha desplegó la llamada «estrategia de la tensión» para difamar a la izquierda y llevar al país hacia un régimen más autoritario. Pasolini creía que entre los responsables se encontraban figuras del Gobierno, los servicios secretos y la Iglesia. Se refirió a una novela que estaba escribiendo, Petrolio, en la que pretendía sacar a la luz estas corrupciones. «Creo que es poco probable que mi «novela en curso» sea errónea, es decir, que esté desconectada de la realidad, y que sus referencias a personas y hechos reales sean inexactas», añadió.

La última película es la más sombría. Ninguna película de terror de todos estos años se ha acercado a Salò (1975), ninguna película de tortura pornográfica se acerca a su gélida perfección formal o a su angustiosa intención moral. Versión de Los 120 días de Sodoma de De Sade trasladada al campo italiano en los últimos días de la Segunda Guerra Mundial, es una aterradora máscara sobre el fascismo y la sumisión, un relato de las dos caras de la moneda totalitaria. Al igual que la propia obra de De Sade, trata sobre el poder, no sobre el placer: quién lo posee y a quién destruye. Es una obra maestra apocalíptica que sigue siendo insoportable de ver; «fuera de lo común, proscrita», como observó el escritor y crítico Gary Indiana en un ensayo cinematográfico en el que alababa su capacidad, aun radiactiva, para herir al espectador.

He ambientado mi nueva novela, The Silver Book, en torno al rodaje de Salò. Quería imaginar a Pasolini trabajando, con un jersey ajustado de Missoni y gafas oscuras, corriendo de una escena a otra con la cámara Arriflex ligeramente apoyada en el hombro, supervisando la construcción de excrementos a partir de galletas trituradas y chocolate para la infame escena en la que se come mierda. No intimidaba a sus colaboradores, como hacía Fellini. Era querido y admirado, pero también alguien solitario, aislado. El cruising compulsivo, noche tras noche: en un poema titulado Soledad se preguntaba si no era simplemente una forma de estar solo.

Ninetto se había casado dos años antes y la pérdida lo había sumido en una desesperación total, un estado de ánimo que se filtró irremediablemente en la película. Había repudiado públicamente su alegre y erótica Trilogía de la vida. Ahora el sexo equivalía a muerte y dolor. En cuanto a la utopía, no quedaba ninguna posibilidad. Y, sin embargo, cuando un entrevistador le preguntó a quién iba dirigida Salò, respondió con toda seriedad: a todo el mundo. Seguía creyendo que el arte podía contrarrestar el hechizo, que podía conmocionar a la población y despertarla. No había perdido la esperanza.

Una de las teorías sobre la muerte de Pasolini es que le atrajeron a Ostia para recuperar algunas bobinas de Salò que le habían robado unos meses antes. Retomé esta historia en mi novela, pero decidí no describir directamente el asesinato de Pasolini, en el que sufrió golpes, le destrozaron la ingle, le cortaron casi toda la oreja y luego lo atropellaron con su propio Alfa Romeo plateado, lo que provocó que reventara el corazón. El chico que cumplió una condena de diez años por su asesinato tenía unas pequeñas manchas de sangre, pero ninguna herida, a pesar de que, al parecer, había golpeado a un hombre hasta matarlo. Otra frase de Io so sugiere lo que probablemente ocurrió: «Conozco los nombres de las personas sombrías e importantes que se esconden detrás de los trágicos jóvenes que eligieron las atrocidades fascistas suicidas o los delincuentes comunes, sicilianos y de otros lugares, que ofrecieron sus servicios como asesinos y sicarios».

Pasolini vio lo que se avecinaba. Como los artistas más excepcionales, tenía el don de la clarividencia, lo que es otra forma de decir que prestaba atención, que observaba y escuchaba y sabía interpretar las señales. En su última tarde, fue entrevistado por casualidad para La Stampa. Pocos días después de su muerte, sus últimas palabras grabadas se publicaron en un número agotado, una profecía desde el más allá.

Hablaba del modo en que la vida cotidiana estaba quedando distorsionada por el deseo de poseer, porque a todo el mundo se le enseñaba que «querer algo es una virtud». Dijo que esto afectaba a todos los aspectos de la sociedad, aunque los pobres pudieran usar una palanqueta para conseguir sus botines, mientras que los ricos dependían de la Bolsa. Afirmaba, refiriéndose a sus excursiones nocturnas al mundo sombrío de Roma, que descendía al infierno y traía de vuelta la verdad.

¿Cuál es la verdad?, le preguntó el periodista. La evidencia, dijo Pasolini, de «una educación compartida, obligatoria y errónea que nos empuja a poseerlo todo a cualquier precio». Describió a todos como víctimas de esto, pensando sin duda en Salò, donde víctimas y verdugos están encerrados juntos en una danza terrible. Y describió a todos como culpables, por su disposición a ignorar los costes en favor de su propio y lucrativo beneficio privado. No se trataba de culpabilidad individual o de buenos y malos actores, añadió. Era un sistema totalizante, aunque, a diferencia de Salò, había una forma de escapar, de romper el siniestro y seductor hechizo.

Como siempre, su lenguaje era más el de un poeta que el de un político: denso en metáforas, inquietante en sus advertencias. «Bajo al infierno y descubro cosas que no perturban la paz de los demás», dijo. «Pero tened cuidado. El infierno se va extendiendo hacia el resto de vosotros». Justo al final de la conversación, parece como si se sintiera frustrado por los continuos intentos del entrevistador de que aclare su postura. «Todo el mundo sabe que pago por mis propias experiencias en persona», dice. «Pero también están mis libros y mis películas. Quizás me equivoque, pero sigo diciendo que estamos todos en peligro».

El periodista le pregunta cómo cree que él, Pasolini, puede evitar este peligro. Está obscureciendo y ya no hay luz en la habitación donde están hablando. Pasolini dice que pensará en la pregunta durante la noche y que responderá por la mañana. Pero por la mañana está muerto.

Creo que Pasolini tenía razón, y estoy segura de que las advertencias que no dejaba de pronunciar fueron la causa de su muerte. Vio el futuro en el que hoy nos encontramos mucho antes que nadie. Vio que el capitalismo se corroería hasta convertirse en fascismo, o que el fascismo se infiltraría y se apoderaría del capitalismo, que lo que parecía benigno y beneficioso corrompería y destruiría las antiguas formas de vida. Sabía que la sumisión y la complicidad eran letales. Advirtió sobre los costes ecológicos de la industrialización. Previó cómo la televisión transformaría la política, aunque murió antes de que Silvio Berlusconi llegara al poder. No creo que el ascenso de Trump, un político formado al estilo de Berlusconi, le hubiera sorprendido mucho.

No era perfecto. Estaba infectado de la nostalgia de una Italia rural y campesina, cuyo coste ignoraba deliberadamente. Estaba en contra del aborto y la educación masiva; se puso del lado de la policía francesa contra los estudiantes en 1968. Su poesía puede ser autoindulgente, sus pinturas son malas. Pagaba por tener sexo con chicos de alquiler que seguían teniendo la misma edad mientras él envejecía y, por otro lado, los tomaba en serio, los escuchaba, les buscaba trabajo y les proporcionaba una fuente constante de apoyo. Era un visionario y un artista de convicciones morales inquebrantables. No se callaba.

El momento de su muerte hace que parezca que Salò fuera su última y desoladora declaración, pero incluso en su última noche, durante la cena, hablaba de su próxima película. Tenía más trabajo por delante, inimaginable en su forma, sin precedentes en su formato. Se tomó un filete y salió a ligar. Tenía hambre, ya ves. Estaba del lado de la vida, siempre.

 

(*) Rossana Rossanda (1924-2020), veterana resistente antifascista, comunista e internacionalista, fue cofundadora del diario il manifesto y miembro del Consejo Editorial de Sin Permiso.

(*) Olivia Laing novelista y crítica inglesa, es colaboradora de The Observer y The Guardian. En castellano se han publicado varios ensayos suyos, como "Por el río: Un recorrido más allá de la superficie" (Paidós, 2025), "El jardín contra el tiempo: En busca de un paraíso común" (Capitán Swing, 2024), "La ciudad solitaria: Aventuras en el arte de estar solo" (Capitán Swing, 2020), "El viaje a Echo Park: por qué beben los escritores" (Ático de los libros, 2016) o "Todos los cuerpos: un libro sobre la libertad" (Paidós, 2022), así como la novela "Crudo" (Alpha Decay, 2016).

Traducción: Lucas Antón


[Fuente: il manifesto y The Guardian - reproducido en www.suplementobitacora.net]






sábado, 3 de maio de 2025

«Poemas realistas», para non sucumbir

 


Escrito por Ramón Nicolás

Hai unha tradición poética propia, que percorre camiños parellos e que a min tanto me gusta apelar porque dalgún xeito nos explica. Nace, ou así o quero ver, co propio P. Sarmiento, pasa por Pintos, Rosalía, Curros, Lamas, Cabanillas, Celso Emilio Ferreiro, A. López-Casanova, Darío X. Cabana, Ferrín e tantas voces posteriores; tamén, por citar dúas referenciadas nestas páxinas, nas páxinas de Char ou Passolini. A ese ronsel, se se quere de poesía social ou comprometida, que actualiza, tensiona e dalgún xeito renova, incorpórase este Poemas realistas, de Daniel Salgado, editado con excelencia por Apiario e que resultaba, hai menos dunha semana, galardoado co Premio da Crítica estatal no 2024 na modalidade de poesía en lingua galega.

Participo da opinión de que galardoar este libro é homenaxear a tradición arriba amentada e facelo moi conscientemente. Como mostra véxase un dos elementos estéticos e paratextuais que se integra na edición como é a tipografía da cuberta que imita a da edición orixinal de Das Kapital de Karl Marx. O título non deixa lugar a equívocos: velaquí unha linguaxe directa, advirto que puída ata a extenuación, para revelar un universo que exhibe as contradicións dun tempo coma o noso, sometido aos ditados dun capitalismo voraz, onde se cuestiona a ética política e o exercicio do poder. 

Con todo, a estética de Salgado vai máis alá da denuncia e dun ton que mestura rebelión e melancolía: nela paira unha busca consciente dun elemento que nos axude a manter a esperanza, que sexa quen de equilibrar, coa palabra, o desatino que goberna tantas veces o noso tempo. Velaí, se callar, a procura da beleza ou da liberdade da que poder termar para sermos nós mesmos á busca de alternativas.

Un limiar, cun poema introdutorio titulado «As horas», precede unha división tripartita onde se apela á nosa condición política, para logo amosar un bloque de textos diversos onde a presenza da natureza cobra un sentido simbólico e crítico e, finalmente, concluír cun longo poema titulado «Celso»: un dos textos poéticos máis brillantes e emotivos entre os publicados nos últimos tempos, que é un revelador discurso sobre o pasado, o presente e o futuro. 

Poesía para non sucumbir.

 

[Fonte: www.lavozdegalicia.es]