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sábado, 17 de outubro de 2026

Naza, um relato sobre a banalidade do mal e a urgência da dessionização do território palestino

 

NAZA (filme de Yuval Abraham e Rachel Szor)

Escrito por Rafael Domingos Oliveira

[…] os crimes que Israel comete contra os civis árabes, dos quais o massacre de Kafar-Qassim é um exemplo chocante, não decorrem de uma “má” aplicação da “excelente” herança sionista, mas sim de uma excelente aplicação da terrível herança sionista.

Mahmud Darwich, 1973, sobre o massacre de Kafar-Qassim em 1956

Em Tel Aviv, alguém prepara uma refeição. Uma televisão permanece ligada, os carros atravessam a cidade, uma criança é colocada para dormir. Cenas do cotidiano, da vida acontecendo nos edifícios da capital econômica de Israel. Nos terraços destes mesmos edifícios, homens e mulheres contam como participaram da destruição de outras casas, em Gaza, onde também havia crianças, televisões e pessoas esperando o jantar. É desse encontro terrível entre o que se vê e o que se ouve que Naza, de Yuval Abraham e Rachel Szor, retira boa parte de sua força. A vida segue em Tel Aviv. E a facilidade com que pode seguir, enquanto a algumas dezenas de quilômetros famílias inteiras são assassinadas, torna-se uma das questões mais perturbadoras deste documentário que revela uma sociedade vivendo na zona de interesse.

Filmados à noite, com rostos e vozes protegidos, 24 integrantes das forças militares e da inteligência israelense descrevem procedimentos de vigilância, seleção de alvos e autorização de ataques contra Gaza. O título vem de nezek agavi, expressão hebraica para “dano colateral”, que na linguagem dos operadores são pessoas cuja morte é prevista antes de um bombardeio. Elas não são mais pessoas; tornam-se uma quantidade de “naza”. Essa contabilidade antecede os cadáveres. O filme registra o trabalho necessário para produzi-los, as permissões que o tornam executável e as justificativas com que seus agentes voltam para casa. Seu valor como documento histórico está, desde aí, na possibilidade de acompanhar a violência sendo organizada por aqueles que conhecem bem seus procedimentos, já que os executam.

Assisto Naza e vem à mente Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt (1963), sobretudo pela relação entre linguagem, julgamento e responsabilidade. Ao acompanhar o julgamento, em 1961, do funcionário nazista encarregado pelo planejamento e operacionalização da chamada “solução final”, Arendt encontrou uma desproporção assombrosa entre a enormidade dos crimes e a pobreza das fórmulas com que ele explicava sua atuação. A banalidade dizia respeito a essa maneira de agir e pensar, incapaz de considerar a posição do outro, sem diminuir a gravidade do que se havia feito.1 No filme, impressiona a desenvoltura com que conhecimentos sofisticados convivem com uma compreensão moral tão estreita da própria atividade. Aqueles agentes israelenses sabem fazer cálculos, operar sistemas, interpretar informações. O que deixam de sustentar é a pergunta sobre o direito de fazer aquilo. Arendt examina as regras de linguagem que permitiam aos funcionários nazistas conhecer o extermínio sem associá-lo às palavras pelas quais reconheciam um assassinato. O vocabulário de Naza cumpre uma função que podemos ler nessa chave. A criança continua ali, mas aparece no cálculo sob uma designação que dispensa imaginar sua vida. Há uma distância fabricada dentro da própria frase.

Quando um entrevistado diz que, se questionassem o que faziam, o sistema desmoronaria, ele revela o trabalho político exigido para conservar essa distância. Outro oferece uma justificativa familiar: “Se não fosse eu fazendo isso, seria outra pessoa”. A possibilidade de substituição é apresentada como dispensa de responsabilidade, embora confirme que houve alguém disponível para realizar a tarefa.

Também merece atenção a passagem em que Arendt descreve o alívio de Eichmann diante da adesão das autoridades reunidas em Wannsee: a aprovação da sociedade respeitável autorizava sua consciência.2 Em Naza, a confiança na hierarquia, nos especialistas e nos procedimentos oferece uma proteção semelhante ao julgamento de quem executa. Tudo recebeu uma autorização; portanto, cada um pode ocupar-se de sua parte. Essa divisão faz o crime atravessar muitas mãos, e cada uma delas procura entregá-lo à seguinte. A responsabilidade, porém, precisa percorrer o caminho inverso, reconstruindo quem decidiu, quem autorizou e quem realizou.

Há ainda algo que excede a imagem do funcionário indiferente. O intelectual palestino Abdaljawad Omar, em sua crítica ao filme, chama a atenção para a satisfação de alguns entrevistados com o poder que exerciam. Ele encontra uma inflexão no conhecido modelo israelense de “atirar e chorar”: aparecem o prazer da operação bem-sucedida e a perda daquele poder quando o serviço termina.3 Essa observação deve acompanhar a leitura arendtiana. A rotina pode conviver com entusiasmo, racismo e orgulho profissional. A morte administrada não deixa de ter desejos por trás dela. É justamente por conservar essas diferenças, sem oferecer a todos um mesmo roteiro de arrependimento, que Naza consegue ser tão incômodo.

Os aspectos formais do filme sustentam as ambivalências. As entrevistas acontecem no alto dos edifícios, contra uma cidade iluminada, e a câmera observa pelas janelas a continuidade da vida doméstica. A noite protege as fontes, mas também permite ver a sociedade que abriga seus relatos. A ausência de trilha musical entrega a cena às vozes, às pausas e aos sons da cidade. O cotidiano entra pelos ouvidos com uma indiferença que nenhuma música precisaria acentuar. Enquanto escutamos a descrição de uma família atingida, vemos a intimidade preservada de outra. Os diretores nos fazem permanecer nessa simultaneidade, sem o alívio de uma emoção previamente conduzida. Os prédios em construção de Tel Aviv, intercalados com os relatos da destruição de Gaza, dão espessura material a essa relação. De um lado, novas moradias projetam vidas futuras; do outro, a destruição das casas impede o retorno. Os terraços de onde se fala se opõem, nessa geografia do filme, à vida palestina empurrada para baixo das lajes, aos corpos soterrados, aos sobreviventes procurados entre ruínas. A verticalidade tem uma distribuição política. A cidade que cresce pode continuar a reconhecer-se como lugar de progresso enquanto participa da eliminação das condições de existência de outra população. O florescimento de uma vida aparece protegido da obrigação de responder pela devastação da outra.

A inteligência artificial amplia a escala dessa administração. Lavender, o sistema de inteligência artificial investigado pelo próprio diretor do documentário, Abraham Yuval, na +972 e no Local Call em 2024, classificava palestinos como suspeitos de vínculo com organizações armadas. Segundo as fontes da reportagem, o sistema chegou a assinalar cerca de 37 mil pessoas, com verificações humanas de apenas vinte segundos. Eram suspeitos produzidos por um procedimento de classificação, sem que isso comprovasse a condição de combatente de cada pessoa.4 O intervalo entre uma recomendação e um ataque torna-se tão curto que a revisão corre o risco de funcionar apenas como um carimbo. A responsabilidade humana permanece na definição dos critérios, na aceitação dos resultados e na decisão de transformar uma indicação em sentença de morte.

Já o sistema chamado Where’s Daddy? (onde está o papai?), também apresentado na voz dos depoentes genocidas do documentário, acrescenta uma perversidade a esse processo: a volta de alguém à casa da família pode produzir o alerta para um ataque. Os relatos incluem a escuta de telefones e o acesso à intimidade doméstica. Um agente pode saber que há crianças, reconhecer conversas, ouvir a vida acontecendo e autorizar sua destruição. A distância tecnológica convive, portanto, com uma proximidade invasiva. Aquelas pessoas são suficientemente conhecidas para serem localizadas, mas seus vínculos não lhes conferem proteção. Na entrevista à NPR, Rachel Szor destaca precisamente o quanto os operadores sabiam sobre as famílias que seriam bombardeadas. Yuval recorda ainda o depoimento sobre incendiar casas e destruir seus álbuns e cadernos: apagavam-se as marcas de quem vivera ali.5 A técnica organiza uma forma de conhecimento da qual se procura retirar toda obrigação diante do conhecido.

É nesse ponto que a expressão “efeito colateral” precisa enfrentar o que pretende encobrir. Prever mortes civis, nos níveis macabros em que são descritas e normalizadas, demonstra a intenção específica exigida para caracterizar genocídio. A questão envolve os alvos, os meios empregados, as precauções, os padrões de destruição e os objetivos políticos. Um dos oficiais ouvidos resume sua compreensão da missão: “Você entende que o objetivo é destruir”. Em Naza, a repetição dos procedimentos torna insuficiente a explicação de um acidente ou de um excesso localizado. A casa palestina torna-se unidade recorrente de ataque e a população perde os meios de permanecer no território. É necessário examinar a finalidade do conjunto, em vez de aceitar que cada família morta seja isolada da seguinte por um novo cálculo.

A noção de genocídio por atrição permite compreender essa destruição continuada das condições que permitem a um povo sobreviver: água, alimento, abrigo, cuidados médicos. Ela se combina com a morte imediata provocada pelos bombardeios. A Convenção de 1948 inclui a imposição deliberada de condições de vida destinadas à destruição física, total ou parcial, de um grupo, quando presente a intenção de destruí-lo enquanto tal. Foi examinando atos e intenção que a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU concluiu, em setembro de 2025, que Israel cometeu genocídio em Gaza.6 O filme acrescenta relatos internos a esse conhecimento. A supressão de uma casa alcança também a possibilidade de recomeçar nela. Destruir o lugar a que alguém poderia voltar prolonga a violência para além do instante da explosão.

Os depoimentos também dificultam a tentativa de atribuir tudo a Netanyahu e aos setores mais ostensivamente fascistas de seu governo. Como observa Sebastian Ben Daniel, estão sob exame integrantes das unidades prestigiosas, ligados ao universo educado e tecnológico que a sociedade israelense costuma apresentar como sua face liberal. Há uma base social para essa violência. Em pesquisa do Pew realizada em 2024, apenas 4% dos judeus israelenses entrevistados consideravam que a resposta militar havia ido longe demais, diante de 74% entre os cidadãos classificados pelo instituto como árabes israelenses (palestinos que vivem em Israel).7 Esses números mostram uma enorme desigualdade na disposição de reconhecer o excesso, que depende, curiosamente, do pertencimento identitário de cada entrevistado. A normalidade filmada em Tel Aviv tem instituições e convicções que ajudam a sustentá-la. A ocupação e a despossessão palestina atravessam governos; sua continuidade não se explica pelo temperamento de um primeiro-ministro, por pior e grotesco que seja.

Essa cadeia de decisões estende-se para além de Israel. Segundo levantamento do projeto Costs of War, da Universidade Brown, e do Quincy Institute, os Estados Unidos destinaram ao menos US$ 21,7 bilhões à ajuda militar a Israel entre outubro de 2023 e setembro de 2025.8 Essa continuidade material precisa entrar na discussão sobre a posição internacional diante do genocídio. A iniciativa da África do Sul na Corte Internacional de Justiça e as mobilizações pela Palestina enfrentam uma ordem em que governos podem reconhecer o sofrimento e, ao mesmo tempo, continuar fornecendo os meios de produzi-lo. A fabricação de uma bomba, seu financiamento e sua entrega têm responsáveis. O procedimento burocrático atravessa fronteiras antes de encontrar o operador que aparece na tela. Também as disputas no interior das comunidades judaicas fazem parte dessa história. Em janeiro de 2024, a CONIB condenou o apoio brasileiro à ação sul-africana e sustentou que Israel apenas se defendia. Coletivos como Vozes Judaicas por Libertação e Jewish Voice for Peace, por sua vez, organizam-se como movimentos judaicos antissionistas, denunciam o genocídio e exigem o fim do fornecimento de armas.9 São escolhas políticas que impedem tratar judaísmo, sionismo e Estado de Israel como uma única coisa. As organizações que legitimam a violência devem responder por suas posições concretas, sem receber das identidades que invocam uma imunidade à crítica, como deseja Israel. A dissidência judaica importa porque rompe a pretensão de que a segurança dos judeus dependa necessariamente da sujeição dos palestinos. Essa ruptura precisa produzir consequências para os que seguem submetidos à violência.

A perseguição aos realizadores ajuda a compreender o que está em disputa. Abraham e Szor foram ameaçados de perder a cidadania; extremistas se manifestaram diante da casa da família de Szor, com palavras de ordem pedindo a morte de traidores. No início de outubro de 2026, Netanyahu pediu uma investigação contra os participantes do filme e que fossem processados.10 A proteção das fontes tem, portanto, razões concretas. A denúncia pode expor quem fala a uma punição que os crimes relatados não produziram, isto é, uma espécie de punição pelo “crime errado”. Esse esforço de intimidação torna ainda mais necessário defender o filme e seus autores, mantendo diante de nós a pergunta sobre os atos de cada entrevistado. Ter rompido o silêncio não apaga o que alguém fez antes de falar.

As críticas palestinas são indispensáveis para que essa defesa não se acomode. Ayat Abou Shmeiss, poeta palestina de Jaffa que perdeu familiares num bombardeio, escreveu sobre a proposta e a recepção de Naza, declarando que não o havia visto e não o pretendia ver. Ela reconhece a importância de acessar decisões internas às quais os palestinos dificilmente teriam acesso. Seu incômodo está na possibilidade de que sua família, suas casas e seus mortos se tornem a matéria de uma recuperação moral israelense. O que acontece depois que os responsáveis se olham? Quem deve receber a reparação?11

Segundo essa crítica, a exposição tem valor, mas não contém, por si, uma resposta a essas perguntas. O sofrimento de um povo não pode terminar convertido em recurso para que seus algozes voltem a sentir-se humanos. Essa tensão alcança a recepção internacional.

O médico Omar Abdel-Mannan questiona por que as denúncias ganham uma credibilidade diferente quando chegam pelas vozes israelenses e adverte que assistir a Naza deve ampliar a escuta dos palestinos.12 Há nisso uma expressão do apartheid cognitivo, noção que venho defendendo neste debate: as vítimas produzem conhecimento sobre a própria destruição, mas seu relato permanece sob suspeita até receber a confirmação de quem ocupa uma posição reconhecida de autoridade. Os jornalistas palestinos já haviam mostrado famílias exterminadas e hospitais destruídos. Muitos pagaram com a vida por esse trabalho. O filme deve ser incorporado a esse arquivo, preservando a precedência e a autonomia de quem documentou a violência enquanto a sofria.

Acredito que Naza deve ser visto também por isso. Um documento histórico não precisa inaugurar o conhecimento de um crime para ter importância. Pode revelar sua organização, registrar vocabulários, fornecer elementos para reconstruir responsabilidades e dificultar a negação. A proteção jornalística de uma fonte, por meio do anonimato preservado no documentário, não equivale a uma absolvição. O filme pode ganhar força política nos usos que faremos dele: sua circulação pode alimentar investigações, ampliar a pressão pelo fim da cooperação militar e fortalecer exigências palestinas de justiça. A emoção da sessão não deve encerrar o assunto.

Durante quase todo o documentário, ouvimos mais porque vemos menos de Gaza. A ausência prolongada de suas imagens concentra nossa atenção nos mecanismos descritos, até que o desfecho nos leva a um pai procurando os filhos sob os escombros. A passagem é devastadora. Também permanece aberta à pergunta palestina sobre o lugar atribuído às vítimas: depois de tanto tempo escutando os operadores, que existência lhes é devolvida? Para mim, a cena deve ser recebida como a interrupção brutal da linguagem que as havia reduzido a uma quantidade. Ali, o que se procura é alguém. Um filho, com uma história que o filme não nos pode restituir inteira.

A consequência política dessa leitura ultrapassa a mera troca de governo ou a promessa de procedimentos militares mais “humanizados”, como querem sionistas moderados (assassinos moderados?). Assim como muitos movimentos palestinos e de judeus antissionistas, não vejo solução justa e duradoura fora da construção de um único Estado democrático em todo o território da Palestina histórica, com igualdade de direitos para palestinos e judeus. Isso exige um processo de dessionização daquela sociedade: o desmonte das instituições que organizam o privilégio nacional e a despossessão palestina, acompanhado de um processo de justiça, retorno dos refugiados e reparação. A igualdade deve assegurar a permanência, a segurança e a liberdade religiosa e cultural de todos, sem expulsões ou punições coletivas. Os palestinos precisam participar como sujeitos da definição desse futuro, com o direito de recuperar sua terra, sua memória e suas condições de vida. Os sionistas precisam ir ao banco dos réus, e serem julgados pelos seus crimes, como ocorreu em Nuremberg. A paz não pode continuar sendo o nome dado à administração da derrota palestina.

Em “Alarme de incêndio”, Walter Benjamin escreve sobre a urgência de interromper um processo histórico destrutivo antes que a centelha alcance a dinamite.13 A imagem conserva sua força porque exige uma intervenção no tempo presente. Em Gaza, o incêndio já começou; há muito começou. Naza pode fazer seu alarme atravessar algumas das paredes que ainda protegem a indiferença, embora eu acredite que mesmo isso, depois de tudo o que já vimos, seja quase impossível. Diante da banalidade do mal, a tarefa é reconhecer as decisões que mantêm o fogo aceso e agir sobre elas.

* * *

Enquanto ouvimos, ainda há gente sob os escombros.

* * *

Notas

1.     ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal (1963). Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. ↩︎

2.     ARENDT, op. cit., caps. VII (Conferência de Wannsee) e VIII (dever e obediência). ↩︎

3.     OMAR, Abdaljawad. Shooting and craving: on NAZA and the mediated obscene. Mondoweiss, 8 out. 2026. ↩︎

4.     ABRAHAM, Yuval. ‘Lavender’: The AI machine directing Israel’s bombing spree in Gaza. +972/Local Call, 3 abr. 2024. ↩︎

5.     FADEL, Leila. ‘NAZA’ filmmakers on what they learned making the doc and the backlash it received. NPR/WUSF, 30 set. 2026. Entrevista com Abraham e Szor. ↩︎

6.     ONU. Convenção do Genocídio, art. II; Comissão Internacional Independente de Inquérito. Conclusão sobre genocídio em Gaza, 16 set. 2025. Trata-se da conclusão da Comissão, não de sentença definitiva da Corte Internacional de Justiça. ↩︎

7.     BEN DANIEL, Sebastian. Why ‘NAZA’ terrifies Israel’s liberal elite. +972, 2 out. 2026; PEW. Views of the Israel-Hamas war, 30 maio 2024. Entrevistas de 3 mar. a 4 abr. 2024. ↩︎

8.     HARTUNG, William D. U.S. Military Aid and Arms Transfers to Israel, October 2023 – September 2025. Costs of War/Quincy Institute, 7 out. 2025. ↩︎

9.     CONIB. Condenação do apoio brasileiro à ação sul-africana, 10 jan. 2024; JEWISH VOICE FOR PEACE. Over two years of unspeakable loss. No more., consulta em 13 out. 2026. ↩︎

10.   [1] CPJ. Netanyahu escalates threats against ‘NAZA’ filmmakers, 17 set. 2026; MOSKOWITZ, Sarah. Netanyahu demands prosecution of ‘NAZA’ film participants. The Jerusalem Post, 11 out. 2026, atualizado em 12 out. ↩︎

11.   ABOU SHMEISS, Ayat. ‘NAZA’ is forcing Israelis to reflect. But we Palestinians are not your mirror. +972, 23 set. 2026. ↩︎

12.   ABDEL-MANNAN, Omar. Naza and whose testimony we believe. Middle East Monitor, 8 out. 2026. ↩︎

13.   BENJAMIN, Walter. “Alarme de incêndio”. In: Rua de mão única (1928). ↩︎

**** Rafael Domingos Oliveira é Historiador e educador, doutorando em História pela UNIFESP e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas das Afro-Américas (NEPAFRO). É autor de Vozes Afro-Atlânticas: autobiografias e memórias da escravidão e da liberdade (Elefante, 2022) e organizador de Gaza no coração: história, resistência e solidariedade na Palestina (Elefante, 2024) e Diários de Gaza, volume 1: a memória é uma casa indestrutível (Tabla, 2024). Atua nas áreas de história da escravidão e abolição nas Américas, história pública e memória palestina. 

 

 [Fonte: blogdaboitempo.com.br]

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

JOHANN CHAPOUTOT, historiador: «El pueblo nunca votó mayoritariamente a los nazis. A Hitler lo auparon militares y empresarios»

No es fácil concertar una cita con Johann Chapoutot, el autor de Los irresponsables. ¿Quién llevó a Hitler al poder?, libro que, desde que se publicó en febrero de 2025, se ha convertido en un éxito comercial inesperado, con más de 70.000 ejemplares vendidos en Francia y traducciones a múltiples idiomas. Año y medio después no parece haber día en que el historiador de La Sorbonne, que nació hace 48 años en un pueblo pescador de Provenza, no aparezca en varios canales de la esfera pública francesa. 

Johann Chapoutot

Escrito por Sebastiaan Faber

Es lógico. El 10 de septiembre, Chapoutot publicó La Bascule (El balancín), que retoma el relato donde lo dejó Les Irresponsables. El libro salió cuatro días después de que la ultraderechista Alternativa por Alemania (AfD) registrara una victoria electoral histórica –un 44 por ciento– en el estado de Sachsen-Anhalt. En abril y mayo, Francia celebrará sus propias elecciones presidenciales, en las que participará Marine le Pen, la líder del ultraderechista Rassemblement National, quien, a pesar de su reciente condena por corrupción, encabeza los sondeos con más de un 30 por ciento de la intención de voto. Los franceses, en fin, buscan explicaciones y consejos, y Johann Chapoutot está encantado de dárselos. Como escribe en el epílogo a La Bascule: “Nos guste o no, la historia de 1933 nos habla”.

Los libros anteriores de Chapoutot, que se centraban en las raíces culturales y filosóficas del nazismo, levantaban polémica porque identificaban las huellas del nazismo en el presente mundo neoliberal. Así, Libres para obedecer. El management desde el nazismo hasta hoy (2020), vincula el pensamiento nazi con la cultura empresarial del siglo XXI. Les Irresponsables, en cambio, es una obra de historia política: abarca el período desde marzo de 1930 a enero de 1933, cuando el bloque liberal-autoritario alemán –en el que se reunían intereses empresariales, partidos conservadores y nacionalistas, medios reaccionarios y élites tradicionales– se preocupó ante su pérdida de apoyo popular y decidió intentar conservar el poder del modo que fuera. Acabó no solo por aliarse con la extrema derecha sino por instalarla en el poder. La Bascule narra los seis meses siguientes, del 30 de enero al 14 de julio de 1933, en los que se produjo la propia toma del poder de los nazis.

Entre ambos libros, Chapoutot propone tres argumentos centrales. Primero demuestra que, en contra de lo que se suele afirmar, nunca hubo una mayoría electoral alemana que apoyara a los nazis. Segundo, explica que estos solo pudieron hacerse con el poder porque las élites –unas élites altamente irresponsables– les allanaron el camino. Tercero, recalca la importancia de investigar estos hechos históricos de forma rigurosa en la medida en que nos permiten comprender nuestro propio presente político. El propósito de La Bascule, escribe en el epílogo, ha sido explicar, “retroiluminado por la actualidad que desfilaba ante nuestros ojos atónitos”, cómo “una banda de granujas incompetentes, corruptos y violentos, halagados, financiados y sostenidos por todos los colaboradores que el capitalismo es capaz de encontrar, hacía bascular a un país hacia el fascismo”. Y: “Si alguien todavía se preguntaba cómo pudieron actuar los nazis, con toda serenidad, entre 1933 y 1939 ha tenido la respuesta casi a diario desde enero de 2025”.

Para los medios franceses, Chapoutot es el invitado ideal. Se expresa de forma clara y comprensible, no rehúye las aseveraciones polémicas y logra transmitir la relevancia –y la urgencia– de la investigación histórica. “Hoy como ayer”, escribe, “la ultraderecha seduce a una parte del electorado, pero no lo suficiente como para llegar al poder ella sola”. Subraya que “nada está escrito”: la historia, siempre contingente, nos da pistas que nos permiten evitar que se repita. Eso sí, hay que ponerse las pilas –las antifascistas, para entendernos–.

El profesor me atiende en francés, por videoconferencia, a finales de septiembre.

La historia política es para usted un campo relativamente nuevo.

En efecto. Mis libros anteriores a Les irresponsables se dedicaban a la historia cultural, partiendo de la idea de que vale la pena tomar en serio los discursos de los actores sociales. Trabajé sobre la visión nazi de la historia –en particular, del mundo clásico– y, posteriormente, sobre la normatividad nazi en el derecho y la filosofía moral. Solo hace dos años decidí interesarme por la forma en que los nazis se hicieron con el poder y cómo pudieron prosperar en él.

Algo tendría que ver la situación política que atraviesa Europa.

Evidentemente, como en toda historia, las preguntas que le planteo al pasado son las del presente. Y como ciudadanos europeos, estadounidenses u occidentales del siglo XXI, es comprensible que nos llame la atención la forma en que se crean los movimientos de extrema derecha y cómo se instalan en el poder.

Las sociólogas francesas Sarah Gensburger y Sandrine Lefranc sostienen que el auge de la extrema derecha en Francia y el resto de Europa pone de manifiesto el fracaso de la enseñanza de la historia y de las políticas de memoria, sobre todo con respecto al Holocausto.

Me parece que tienen toda la razón, sobre todo en la medida en que las llamadas “políticas de la memoria” suelen revestir, más bien, una forma de catecismo. Al hablar del “deber” de la memoria, al moralizar la relación con el pasado y al enfocarlo como una cuestión de valores, se acaba por desarrollar un discurso que está totalmente desvinculado de la realidad social que viven los alumnos, los estudiantes o los ciudadanos. Como historiador, considero que, más que formular un discurso sobre la memoria, es preferible, directamente, hacer historia. Y eso es lo que intento hacer en estas dos últimas obras. Trato de analizar una realidad histórica concreta, con los archivos en la mano, para hacerme una pregunta también muy concreta: ¿Quiénes fueron los actores sociales que decidieron que era pertinente, razonable, racional y deseable llevar a la extrema derecha al poder? Creo que la verdadera escuela de ciudadanía no es la recitación conmemorativa, que llega a ser una especie de versión degenerada de la religión –una religión, además, mecánica y bastante aburrida–; no, la verdadera escuela de ciudadanía está en el cuestionamiento activo, vivo, del pasado. Esto es, en hacer historia.

En su trabajo, identifica a los facilitadores del ascenso del nazismo: las élites económicas, el ejército, la Iglesia católica, las universidades, el funcionariado –incluida la judicatura– y la prensa. No sorprende que el gran capital prefiera un régimen no democrático a un gobierno democrático que pueda amenazar sus intereses. ¿Es posible que hoy desempeñe un rol similar?

Como demuestro en el libro, la patronal alemana de los años treinta cambió de bando con bastante rapidez, incluso antes de que los nazis llegaran al poder. Pero me parece que la patronal actual estaría menos dispuesta a aprobar una solución de este tipo. Por un lado, porque no deja de pesar la memoria de los años treinta y cuarenta, que, en este caso, se manifiesta como un vago remordimiento por la actuación del gran capital alemán bajo el nazismo. Por otra parte, hay una cuestión de interés inmediato, y es que la patronal alemana necesita la inmigración. Si no se sube al carro de la ultraderecha, en otras palabras, no es por ninguna sublime filantropía, sino simplemente por un cálculo oportunista.

En el relato que nos cuenta sobre la subida al poder nazi, no deja de chocar la complicidad de las universidades y la prensa.

Bueno, esto es importante verlo en el contexto de la época. Los universitarios en 1933 procedían de un grupo social muy reducido, en el que los valores –digamos– del progresismo y el universalismo no eran los más extendidos. Más bien eran personas procedentes de los sectores más conservadores de la sociedad, incluso los más reaccionarios. Como ya descubrí cuando estaba haciendo mi tesis doctoral sobre el nazismo y la Antigüedad, en el mundo universitario había excelentes antinazis que llegaron a ser auténticos nazis.

¿Y hoy?

Lo veo más difícil. En los años treinta, los universitarios tenían una concepción particularista de la cultura. Nosotros, en cambio, tenemos una concepción universalista. Después de 1945, y sobre todo en los años sesenta, se produjo una masificación de la educación superior, acompañada de una mayor diversidad social. Hoy tenemos una concepción más abierta del acceso a la cultura y una concepción más universalista de la inteligencia.

En Estados Unidos, sin embargo, hemos visto cómo muchas universidades se han plegado, casi sin chistar, a las exigencias de Trump.

Sí, pero es importante señalar que si las universidades son objeto de ataques por parte de la extrema derecha –como lo son las norteamericanas, pero también, por ejemplo, las argentinas– es precisamente por esos cambios que se produjeron desde los años sesenta. También es cierto que para los nazis fue más fácil atacar a las universidades. Hoy, los ataques se enfocan ante todo en los canales de financiación de la investigación. Y sí, la actitud de algunas universidades en Estados Unidos ha sido lamentable, aunque Harvard impugnó al Gobierno de Trump en los tribunales y ganó. También es importante recordar que ha habido amenazas explícitas contra ciertos investigadores, como a Mark Bray, un gran especialista en antifascismo, quien tuvo que abandonar Estados Unidos y refugiarse en España.

Los académicos están en primera línea de fuego.

La ultraderecha ha puesto a  los intelectuales en el centro de la diana, se han convertido en una fuerza de combate.  Y esto se aplica aún más, si cabe, al campo historiográfico. Por su enfoque de elucidación crítica, para la ultraderecha siempre constituirá un peligro, una presencia insoportable. Por tanto, siempre tendrá en la diana a las y los historiadores.

Usted no ha rehuido esa primera línea. Como intelectual público, ha asumido un papel destacado como analista crítico de la ultraderecha, tanto en Alemania como en Francia, subrayando sus vínculos históricos con movimientos nacionalsocialistas y fascistas.

Yo me considero un profesor e investigador de la Historia. Y este, para mí, no es un papel que se limite a mi universidad. En primer lugar, porque la enseñanza es un servicio público. Pero fíjate que, en Francia, además, el vínculo entre Historia y ciudadanía –y entre Historia y República– es consustancial. Recordemos que fue la Tercera República la que hizo obligatoria la enseñanza de la historia en todos los niveles educativos, desde los seis hasta los 18 años. Por lo tanto, cabe decir que existe una especie de osmosis o fusión entre la historia y la ciudadanía en la Francia contemporánea. La actividad de profesor-investigador en Historia, en otras palabras, es consustancial con la reflexión política. Desde ese punto de vista, no tengo la impresión de estar haciendo nada extravagante al responder a solicitudes de los medios de comunicación o a invitaciones a conferencias para hablar de los resultados de mis trabajos en el ámbito público.

Pero en su caso ese ámbito no se limita al territorio francés: escribe sobre Alemania, un país cuya relación con Francia siempre ha sido compleja. ¿Cuál ha sido la recepción de su trabajo al otro lado del Rin?

Tengo el privilegio y el honor de que mis obras se traduzcan al alemán, algo que no es nada fácil. Cuando eres un extranjero, no es seguro que te traduzcan en el país sobre el que investigas. Y la verdad es que mis trabajos han tenido buena acogida. Por otra parte, lo que digo en Les irresponsables y en La bascule se ajusta bastante bien a lo que hacen mis colegas alemanes sobre el tema –colegas a los que, por supuesto, leo y cito con frecuencia–. El último libro de Peter Longerich, por ejemplo, también hace hincapié en la escasa adhesión de los alemanes al nazismo en sus inicios.

Yo estaba pensando en la influencia que tuvo, en su día, un historiador extranjero como Robert Paxton en la autoimagen de Francia y el colaboracionismo de Vichy.

Ya. Pero a estas alturas, en temas como Vichy o el Tercer Reich, el intercambio internacional es intenso. Existe una comunidad internacional de investigadoras e investigadores. Mantenemos un diálogo entre todos, nos relacionamos, nos invitamos mutuamente, etcétera. Por lo tanto, yo diría que la nacionalidad de cada uno ya no entra en juego tanto. Quizá para mí el ser francés fuera un factor cuando era un historiador novato. Cuando mi tesis sobre la percepción de la Antigüedad en el nacionalsocialismo se publicó en Alemania, yo era un desconocido, por lo que hubo reacciones por el hecho de que, como historiador francés y sin ser clasicista, trabajara ese tema. Pero eso se desvaneció rápidamente en favor del reconocimiento de que yo hacía un tipo de historia que mis colegas alemanes no hacían. Por ejemplo, mis investigaciones sobre la visión nazi de la historia o sobre la normatividad nazi jurídica y moral pertenecen a lo que se podría llamar una historia culturalista. No es un tipo de historia que los alemanes suelan practicar. El suyo es más bien un paradigma de historia social, externalista y objetivador. Pero al final esa diferencia solo ha servido para que se interesaran más en mi trabajo.

Hablemos de Francia. ¿Cuál ha sido el papel de Emmanuel Macron en el ascenso de la ultraderecha?

Macron ha sido elegido dos veces para hacer de barrera contra la extrema derecha. En las segundas vueltas fue elegido, directamente, por personas que solo querían evitar que la extrema derecha llegara al poder. Pero en lugar de actuar como barrera a la extrema derecha, le ha abierto un bulevar. Ha tendido un puente con ella al retomar sistemáticamente sus términos, temas y tesis.

Otro paralelo con 1933, pues.

La actitud y actuación de Macron constituyen un ejemplo más de lo que yo denomino “los irresponsables”. Se basa en la connivencia entre la extrema derecha y el extremo centro: entre la extrema derecha que conocemos y ese centro que se autoproclama moderado –por encima de los partidos, y más allá de la derecha y la izquierda–, pero que en realidad es extremista en su voluntad de concentrar el poder, de centralizar las cosas y de rechazar toda oposición. Se consideran los más competentes y estiman que el poder les corresponde de hecho. Los puntos de alianza entre la extrema derecha y el centro extremo son muy numerosos. Tienen el mismo electorado –básicamente jubilados que quieren proteger sus prestaciones o ricos que quieren proteger sus rentas–. Tienen los mismos mecenas, el gran capital. Tienen la misma filosofía antropológica, el darwinismo social. Y tienen el mismo enemigo, que es la izquierda, sea cual sea. No sorprende, por tanto, que la alianza funcione bastante bien. De hecho, cabe decir que la fusión entre la extrema derecha y el extremo centro ya se ha producido. Los votos de los diputados macronistas, tanto en la Asamblea Nacional francesa como en el Parlamento Europeo, son casi siempre idénticos a los de la extrema derecha. Defienden los mismos intereses. Tienen la misma concepción de la sociedad y del Estado. Y la misma concepción del futuro.

Hablando del futuro: en sus libros y entrevistas se opone al fatalismo histórico, subrayando que “nada está escrito”. Pero las analogías con el pasado que establece, ¿no acaban precisamente por fomentar el fatalismo?

No, al contrario. Porque identificar esas analogías permite distinguir a los actores sociales, sus intereses y sus tácticas o estrategias. Así pues, permite identificar quién está moviendo los hilos y, por lo tanto, permite actuar de forma cívica a la hora de votar –por ejemplo, evitando votar a quienes allanan el camino a la extrema derecha, participando en manifestaciones, etcétera–. La reflexión analógica es, en definitiva, un trabajo de elucidación histórica que nos permite comprender mejor a qué nos enfrentamos y qué está en juego. Y, por lo tanto, nos invita a la acción. Una acción, además, informada.

Con respecto a la posibilidad de resistencia, usted subraya que, en la Alemania de 1933, la izquierda antifascista era mayoritaria, pero se encontraba fracturada por la tremenda hostilidad que había entre los socialistas del SPD y los comunistas del KPD.

Exacto. Además, hay que matizar. El SPD, que rechazó la alianza con los comunistas en 1932 y que luego rechazó la acción conjunta en 1933, había aprobado durante varios años, desde septiembre de 1930, la política de austeridad. El problema no solo fue el conflicto con el KPD, sino el hecho de que una izquierda que renuncia de forma tan rotunda a ser de izquierdas no consigue despertar el entusiasmo, la adhesión y la resistencia de los ciudadanos.

Una pregunta final. En su lectura de la historia alemana, atribuye una gran responsabilidad a las élites. ¿Es un historiador populista?

Bueno, el término “populista” es complejo y, además, se utiliza mal en el ámbito público de Estados Unidos; hace referencia a una filosofía política del siglo XIX, aunque hoy también se usa para describir una estrategia política. Yo no me incluyo ni en uno ni en otro. Yo lo que hago es nombrar a los actores sociales y describir las estrategias de aquellos actores sociales que llevaron a los nazis al poder –y que luego permitieron que los nazis prosperaran durante los primeros seis meses de 1933–. ¿Cuál era el contexto alemán en aquella época? A partir de la dimisión del canciller socialdemócrata, en marzo de 1930, ya no hay democracia en Alemania. Los gobiernos y los cancilleres son nombrados independientemente del resultado de las elecciones. Todo se concentra, en virtud de los poderes de excepción del artículo 48, apartado 2, en manos del presidente del Reich y de su entorno. Así pues, los principales actores sociales que están al mando de Alemania en aquella época no son las masas populares, ni los sindicatos, ni los partidos de izquierda. Se trata de un grupo muy reducido –la famosa camarilla, como se decía con una expresión española– que, por otra parte, representa a sectores sociales bien identificados: hay militares, banqueros, grandes terratenientes y empresarios. Y fueron precisamente esos grupos sociales los que tomaron la decisión de llevar a los nazis al poder. Por lo tanto, yo como historiador no me adhiero a ningún “ismo”, salvo a una forma de positivismo histórico que consiste en decir cuál es la realidad. Y lo hago, además, con el fin de desmontar los discursos fantasiosos que se mantienen sobre este periodo, según los cuales sería el pueblo alemán el responsable del ascenso de Hitler, cuando nunca se votó mayoritariamente a los nazis. ¡Pero nunca! Es un discurso que también vemos resurgir hoy. Otro tipo de discurso fantasioso que ha vuelto hoy es que todo sería la culpa de la izquierda. Del mismo modo que los megaincendios en España y en Francia de este verano serían culpa de… ¡los ecologistas! Es todo totalmente descabellado.

 

[Foto: Francesca Mantovani - fuente: www.ctxt.es]