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terça-feira, 8 de setembro de 2026

“Miroirs No. 3”: o gesto e o resto

Miroirs No. 3 (2025), de Christian Petzold

Escrito por Daniela Rôla 

“A simplicidade é a complexidade resolvida.”

Constantin Brâncusi

Era uma vez… uma jovem chamada Laura, que viajava de carro com o namorado por estradas tranquilas. No caminho, algo muito triste aconteceu, e Laura ficou sozinha e perdida, sem saber para onde ir.

Uma senhora chamada Betty encontrou Laura e levou-a para sua casa, que ficava num lugar calmo, com árvores, silêncio e rotinas simples. Betty cuidou dela com atenção, deu-lhe comida, descanso e um lugar seguro para ficar.

Laura conheceu também o marido e o filho de Betty. Aos poucos, todos aceitaram Laura, e ela passou a ajudá-los nas pequenas tarefas do dia a dia. Juntos, comiam, trabalhavam e partilhavam o tempo, quase como se fossem uma família.

Mas aquela casa escondia uma tristeza antiga, e Laura percebeu que, ao estar ali, fazia os outros lembrar alguém que já tinha partido. E compreendeu que não podia ocupar esse lugar.

Então, quando chegou a hora, Laura partiu também. Voltou à sua cidade, sentou-se ao piano e tocou. A música não apagou a tristeza, mas mostrou que ela podia continuar.

Miroirs No. 3 (2025) poderia ser um conto infantil, no tom leve que acima se sugere. Christian Petzold conta esta história sem ornamentos, sem excessos, quase em voz baixa. O que acontece é mínimo – alguém perde, alguém acolhe, alguém parte – mas é precisamente nessa simplicidade que o filme toca algo de essencial. Ao retirar o dramatismo, a necessidade de explicar tudo e a psicologia barata, Petzold deixa a descoberto gestos elementares: cuidar, permanecer, deixar ir. O filme parece pequeno, nos seus 86 minutos e na sua escala, quase frágil, mas é exactamente aí que reside a sua força: como os contos, fala de algo que todos conhecemos antes das palavras.

A história de Laura (Paula Beer) corre como um conto para crianças, despojado de pormenores supérfluos. Mas, como no tema de Ravel que lhe empresta o nome, Miroirs No. 3 não é simples por ser pobre, mas por ser rigoroso: cada gesto, cada silêncio e cada rotina quotidiana funcionam como ondas que vão e vêm, reflectindo perdas, ausências e pequenas presenças.

O filme integra o elemento do ar, sugerindo liberdade, respiração e espaço entre as personagens, como se cada gesto e cada olhar fossem movimentos atmosféricos que atravessam o cenário e ligam passado, presente e memória. Essa simplicidade é sofisticada: ela permite que a narrativa, aparentemente leve como o vento, toque algo universal sobre a experiência humana, funcionando como um espelho onde o espectador se reconhece.

A ideia de reflexo está ainda na forma como cada personagem funciona como espelho do outro: Laura vê em Betty (Barbara Auer) a dor da perda; Betty vê em Laura a presença da filha; o marido e o filho veem nelas uma forma de relacionarem-se com a perda. Mas também no seu interior o filme encerra outros espelhos, de situações, de figuras, de objectos, de gestos. Se Jacques Demy concebia a exuberância de cor e de música como enigma para encerrar o essencial não dito, Petzold consegue fazer algo de semelhante sob um manto de ascetismo bressoniano.

O espelho manifesta-se também em relação a outros filmes do realizador alemão, em particular aos que integram a parte inicial da sua sequência dos elementos:  Undine (2020), – água – e Roter Himmel (Céu em Chamas, 2023) – fogo. Neles é possível encontrar objectos que dialogam entre si (a máquina de lavar a roupa de Rotter Himmel e a máquina de lavar a louça de Miroirs No. 3), bem como sons mínimos, distintos, que assumem protagonismo (os mosquitos num filme, os pássaros no outro).

São gestos que se reiteram, tanto no interior de cada filme como de filme para filme – o andar de bicicleta, o olhar através da janela, o gesto de virar a cabeça para trás, o carro que acelera, as peças de roupa, ou ainda, no contexto de Miroirs No. 3, as frases recorrentes (“esqueci-me da carteira”; “eles devem querer estar sozinhos”) ou o olhar frontal dirigido à cortina da janela do apartamento.

A natureza toma forma no ar, que é, por definição, ausência de forma. Parece confuso? Na verdade, é de uma extrema simplicidade: um artifício que opera de modo singelo – mais uma vez, o contrário do artifício – para contar uma história.

São os pequenos ruídos do quotidiano que provocam ou traduzem uma hipersensibilidade: o tilintar dos pratos e talheres, os passos que fazem ranger o soalho, o som distante das obras no terreno da oficina. Em contraponto, surgem os grandes ruídos que se impõem e perturbam: o acidente de automóvel, a explosão da máquina de lavar a louça.  

A progressão narrativa opera, assim, com recurso a pequenos nadas, a sinais quase imperceptíveis. Assistimos à recomposição de um casal que se havia afastado e que agora caminha de mãos dadas, furtando-se a outros olhares; vemos Betty tornar-se mais bela, mais cuidada, mais sofisticada na sua forma de vestir.  

Acompanhamos Laura e Betty no processo de recuperação de um trauma, cada uma habitada pelos seus próprios fantasmas, ligadas por uma entreajuda inconsciente. O trauma de Laura não decorre apenas da perda do namorado; note-se que existe já nela uma perturbação anterior ao acidente. As duas mulheres relacionam-se sem saberem – e sem que saibamos nós, espectadores – de que matéria é feito o seu passado, quem são fora daquele encontro. Apresentam-se como uma “folha limpa”, sem qualquer carga prévia, uma perante a outra. São, simplesmente, duas mulheres que se relacionam. 

Estamos no território dos vivos, dos fantasmas, dos sonhos? Desde logo, o nome Laura evoca a personagem homónima de Gene Tierney, que regressava ao mundo dos vivos quando Dana Andrews despertava de um sonho. A Laura de Paula Beer sobrevive miraculosamente a um grave acidente de viação, com o automóvel abandonado na natureza como se fosse uma instalação artística, um corpo estranho que remete para o prodigioso Les choses de la vie (As Coisas da Vida, 1970), de Claude Sautet, com as longas divagações mentais do moribundo Michel Piccoli. Mas Miroirs No. 3 é também um parente próximo de Yella (2007), o que nos coloca, enquanto espectadores, num estado de desconfiança desde o momento do acidente, numa incerteza da realidade.

O encontro entre Laura e Betty (já depois daquele primeiro reconhecimento, uma fugaz troca de olhares quando Laura seguia no automóvel) ocorre num mundo estranho, despojado, num minimalismo quase opressivo, marcado pelas ausências de som, de objectos, de pessoas – de passado! – que exacerba tudo aquilo que está presente. A simples tarefa de pintar uma cerca adquire a dimensão de uma tarefa de uma vida.

Há algo que é difícil de agarrar, está lá e não está, sem que saibamos explicar o que torna este ambiente, desprovido de grandes ornamentos, tão irreal (e neste ponto se reforça o paralelismo com Yella). O ornamento é crime, diria Adolf Loos. Laura e Betty são duas mulheres suspensas entre a vida e a morte, num lugar da vida que roça a loucura. Esse isolamento em relação ao mundo (uma espécie de esclarecimento superior) torna possível a comunicação entre ambas, abrindo um espaço de compreensão e empatia.

Durante um longo período, o filme pertence quase integralmente a estas duas mulheres. Os homens (“os meus homens”, como afirma Betty) apenas entram em cena mais tarde, convocados pela iguaria preparada por Laura, as célebres Königsberger Klopse.

Em Petzold, o ofício de representar passa pelo corpo, por uma fisicalidade vincada que aqui se afirma de forma exemplar. A maneira como cada personagem caminha torna-se expressiva: Laura, titubeante no início, vai ganhando firmeza; Max (Enno Trebs) move-se como um adolescente em ponto grande; Betty, por vezes, parece pairar, deslocar-se como se fosse impelida apenas pelo sopro do vento.

Neste micromundo, perdido na vastidão da paisagem campestre, a câmara encontra espaço apenas para os quatro rostos que compõem esta família inquinada – Betty, Max, Richard (Matthias Brandt) e Laura, que vem ocupar o lugar da filha. Quando os quatro se encontram no alpendre da casa, os vizinhos espreitam; a sua arrogância é palpável, mas deles pouco mais vemos do que um pequeno rosto que se perde na tela. São rostos imaginados, ainda assim não menos agressivos, tanto no modo abusivo como observam uma casa que não lhes pertence, como na forma como julgam aquela família. 

A pergunta a que ambas as mulheres, Laura e Betty, procuram dar resposta é, afinal, a mesma: como recuperar de um trauma? Uma interrogação que tanto vale para um indivíduo como para uma nação – regressando, assim, aos múltiplos jogos de espelhos do filme. No final, a recuperação do trauma assume a forma de um gesto de extrema simplicidade: o olhar de Laura, que volta a deter-se na janela do seu apartamento, tal como no início do filme. A cortina de uma outra janela, a da casa que ela abandonou, conservava o grão próprio de uma cópia de película riscada após muitos visionamentos, carregada de passado. Mas é nesta casa que renasce uma vitalidade nova, uma confiança num futuro possível.

★★★★☆

 

 

[Fonte: www.apaladewalsh.com]

domingo, 6 de setembro de 2026

El México de postal

La exposición “México: ruta y destino” desentraña la forma en que cristalizó una imagen de México como nación, que se convirtió en postal y souvenir. 

Jorge González Camarena, El perico, 1927, Óleo sobre tela. Museo Nacional de Arte, INBAL

Escrito por Carlos Rodríguez

Hay que aprovechar, con el deceso reciente de Elsa Aguirre, y ver Acapulco (1952). Es una película menor de Emilio “El Indio” Fernández, pero eso no le resta interés ni encanto. La sinopsis es irresistible: una joven, que finge una posición económica acaudalada, se hospeda en un lujoso hotel para atrapar a un millonario y casarse con él. En “la bahía más famosa del mundo”, como dice el eslogan, la guapísima Elsa es la estampa de la frivolidad. Esta fantasía tiene nombre: turismo, viaje de placer, que, según la muestra México: ruta y destino, es una deriva del proyecto de inicios del siglo XX para construir la imagen del país.

El Museo Nacional de Arte (MUNAL) recibe a los visitantes con una obra de exuberante colorido, un bodegón de Jorge González Camarena donde una hierática tehuana sostiene un perico en la mano; como si fuera un generoso capullo, un recipiente ofrece apetitosas frutas que hacen juego con los senos de la mujer, enmarcados en una blusa ribeteada de color naranja. No falta el textil, un mantel limpio y simple, en la parte inferior del cuadro; al lado, un enorme guaje casi viril. Toda la composición parece estar envuelta y surgir de una gran cactácea coronada por el tocado de la figura femenina, como un halo bondadoso, abundante, pletórico. El óleo, de 1927, introduce el tema de la exposición y remite a los atributos de “lo mexicano”.

Ezequiel Negrete Lira, Enramada de Juchitán, 1957, oleo sobre tela. Museo Nacional de Arte, INBAL

La muestra del MUNAL esboza de forma oportuna cómo cristalizó la imagen de México como nación, que se convirtió en postal, guía turística, souvenir; imagen homogénea de exportación, decorativa y no por ello menos potente en términos formales. Estampas de trazos y colores que lo mismo cuelgan en museos, ilustran libros o adornan refrigeradores.

En el presente, México se llena de nómadas digitales, un nuevo tipo de turismo fluctuante; por otro lado, Acapulco, Puerto Vallarta, Zipolite o Tulum son destinos turísticos con problemas sociales y ecológicos urgentes. El interés crítico por revisar el asunto, su estado y contrariedades, toma fuerza. Se puede ver en el cine, con Rotting in the sun (2023), de Sebastián Silva, que aborda el caso de la Ciudad de México y Zipolite; en la fotografía, un ejemplo notable es el libro de Adam Wiseman Elvis nunca estuvo en Acapulco (2024); y en la literatura reciente, Sweet Acapulco (2026) de Brenda Ríos.

Con habilidad, México: ruta y destino desplaza su lectura del muralismo. Regresa a los viajes de los europeos por México en los siglos XIX (Désiré Charnay en Uxmal y Chichén Itzá; Carl Nebel en las ruinas de La Quemada, en Zacatecas) y XX (Edward Weston en la pirámide del Sol en Teotihuacán). También lo hace a partir de creadores cuya obra rara vez se expone, y cuya presencia ayuda a entender la complejidad del proyecto que se convirtió en un programa de comunicación que encontró la mesa ya servida, pues se basó en las búsquedas artísticas sobre la identidad mexicana que habían empezado hacía tiempo, motivadas por los vaivenes políticos que incitaron la revolución.

La imagen de México es un popurrí cuya articulación requirió de un proceso muy rico de aglutinamiento de imágenes diversas, principalmente de carácter descriptivo, que hoy es sello de lo mexicano. Por un lado, las artes populares: ahí están los cacharros de barro de Cecil Crawford O’Gorman y el zarape de El de San Luis (1918) y La criolla del rebozo (1916), dos óleos admirables de Saturnino Herrán. También El vendedor de loza (1920) de Leandro Izaguirre y La vendedora de talavera (1920) de Fernando Best Pontones. Las obras se pueden ver en conjunto con piezas del Fondo Roberto Montenegro, uno de los pioneros coleccionistas de arte popular, que ahora tiene su propia muestra en el Palacio de Bellas Artes.

V. R. Machado, Acapulco Chart for escapists, en Mexico This Month, mayo de 1957.
Impresión a varias tintas sobre papel. Museo Nacional de Arte, INBAL

Las tradiciones del folclor del pueblo, como las danzas de Yautepec que pintó Fermín Revueltas y los huapangos de Ramón Cano Canilla, también están presentes. La muestra ha decidido fijarse en estos gestos en lugar de otras imágenes que retoman manifestaciones mayores como el Día de Muertos, plenamente identificada con la idea de México tanto al interior del país como en el extranjero.

Otro aspecto en que se fijaron los artistas de inicios del siglo pasado es la arquitectura, sobre todo religiosa y del periodo novohispano. Josefina Zetina Osorio, Francisco Romano Guillemín y Concha Toussaint, artistas prácticamente olvidados, pintaron cúpulas y vistas de templos y catedrales.

La pieza monumental del primer núcleo de México: ruta y destino, dedicada a los “Imaginarios”, es Vista panorámica de la ciudad de Puebla (1929), la única obra mural que se conserva de Gerardo Murillo, que pintó las cúpulas poblanas como una galería de formas exquisitas. La presencia del Dr. Atl es apropiada: su mural coincide con los proyectos editoriales que coordinó, por ejemplo Iglesias de México (1924-1927), con el apoyo de la Secretaría de Hacienda. La conformación de la imagen del país fue también un programa orquestado desde las instituciones, interesadas en contribuir para integrar cierta visión del país en la cultura nacional e internacional.

Uno de los aportes más significativos de la exhibición es presentar obras de Alfonso X. Peña, magnífico pintor tamaulipeco, poco conocido, de carácter estilizado, autor de las pinturas Tehuana (1947), Huasteca II (1945) y Mercado (1950). Su trazo y mirada apelan a la belleza y la armonía. En sus cuadros, que retratan la actividad comercial en tianguis y mercados, hay quietud y sumisión; detallan una delicada descripción de personajes, principalmente indígenas, motivos decorativos, objetos, frutas y flores.

Luego viene en la muestra la sección “Rutas y destinos”, donde aparece una obra inusual de Leopoldo Méndez que hace una síntesis de la transformación tecnológica y social de la movilidad, que se confirmó a mediados del siglo XX. Ya a color, Nuevos caminos (1953) es una xilografía dividida en dos partes: arriba, un automóvil pintado de verde, con grandes neumáticos, donde viaja una pareja moderna a gran velocidad, el aire revolotea sus cabellos; abajo, un coche lento, un carruaje, con dos personas apacibles y serias. La construcción de vías y carreteras, en especial la carretera Panamericana, abre, de cierta manera, el territorio nacional. Y no solo eso, se invierte en un esfuerzo editorial por crear mapas, diseñar rutas para conocer México, imprimir guías de viajes y folletos informativos tanto en inglés como en español.

Las dos pinturas de Angelina Beloff que exhibe el MUNAL son una gran oportunidad para redescubrir a una artista notable y también reconocer la Ciudad de México desde otra mirada y perspectiva. Beloff pinta la avenida Hidalgo, siempre a la sombra de la otrora fufurufa avenida Juárez, vista desde la Alameda; así, nos encontramos con el mercado de flores que estaba en la plaza Santa Veracruz y el atrio, todavía arbolado, de la iglesia de la Santa Veracruz. Desde mi ventana (1965), con un lenguaje pictórico que retoma la publicidad y el trazo de las portadas de revistas internacionales, dibuja un panorama que podría ser la avenida Reforma o la misma Juárez; la calle que pinta, con el tráfico de carros detenidos, recuerda una vieja calleja que perdió su configuración cuando se alzaron edificios de gran altura. Otras construcciones modestas a su lado son vestigios de un pasado que parece haberse detenido ahí.

A. Regaert, Mexico, The Great Metropolis, ca. 1945. Cartel de la Dirección General de Turismo. Impresión offset. Colección particular

Los fines de semana en Cuernavaca y Acapulco, los viajes a Taxco y otros lugares aledaños a la capital se convirtieron en paradas obligadas. Son los “Cuerpos turísticos” a los que alude la exposición. La mujer en traje de baño (1955), de un autor no identificado y que recuerda a Elsa Aguirre en Acapulco, ya es un signo publicitario incitante e inequívoco. En esa misma década Bob Schalkwijk fotografía los interiores del Hotel Presidente en Acapulco, realizado por Juan Sordo Madaleno en colaboración con José A. Wiechers. Ahí mismo, al lado de otras imágenes del puerto de Guillermo Zamora, está la maqueta del complejo turístico de dicho hotel.

De la muestra, que culmina con el enorme Mapa de producción de la República Mexicana (Rutas Marítimas) (1947) de Miguel Covarrubias, el público sale orgulloso de ser mexicano, después del Mundial de Futbol que hospedó el país y cerca de las fiestas patrias de septiembre. El visitante abandona la sala con el apetito de conocer todas las frutas autóctonas que pintó Hermenegildo Bustos en sus bodegones, que despiertan el hambre con solo mirarlas. También sale con muchas preguntas sobre todo lo que faltó y que también es mexicano, una imagen demasiado amplia que no cabe en los límites de un marco. El espectador se dirige a la salida del MUNAL como el hombre de la fotografía Gente de la Ciudad de México (1965) de Héctor García: una figura que se dirige a la escalera para abordar un avión, lleva un zarape al hombro; en una mano, un animal hecho de cartón, juguete popular; en la otra, un sombrero con cintas, probablemente de colores. ~

México: ruta y destino, se exhibe en
el MUNAL hasta el 14 de febrero de 2027.

[Fuente: www.letraslibres.com]


segunda-feira, 16 de março de 2026

En pie de guerra

 

Escrito por Ilan Pappé (NLR)

He aquí un dilema. Mientras las bolsas de valores de todo el mundo reaccionan con nerviosismo ante la embestida contra Irán, la Bolsa de Tel Aviv está en auge. Y aquí hay otro: mientras millones de personas en la región temen la operación militar estadounidense-israelí y sus consecuencias, la sociedad israelí está exultante. Según las últimas encuestas, el 93% de la población judía apoya la guerra. En un artículo publicado en Yedioth Ahronoth , un periodista capta el estado de euforia: 

 

Mientras nos deshacemos del monstruoso pulpo iraní, camino por la calle; las tiendas están abiertas, los mensajeros de Wolt se apresuran a entregar sushi, shawarma y pasteles de chocolate carísimos a los ciudadanos israelíes, la gente corre en el parque, y en casa tengo electricidad, agua caliente e internet. El estudio de Pilates está abierto, y la bolsa israelí bate récords. Y en este preciso instante, sobre mi cabeza, en las tierras bajas, aviones de combate de la Fuerza Aérea despegan para otra incursión… Destruyen con precisión imposible otra casa de un oficial de rango medio de la Guardia Revolucionaria…

 

Continúa sugiriendo que Israel debe agradecer al gran liderazgo de Netanyahu, junto con las excepcionales cualidades de su pueblo y la ayuda divina. En Israel Hayom , otro destacado periodista ofrece otro elogio patriotero al primer ministro israelí. Incluso los detractores de Netanyahu deben admitir que posee «paciencia, astucia, determinación y una concentración inquebrantable» en su constante destrucción del enemigo —guerra total contra Hamás, luego contra Hezbolá, ahora contra Irán— y en la limitación de los insensatos intentos de Trump de negociar con los mulás y diseñar un plan de paz para Gaza.


La estrategia parece ser, sin duda, una campaña de conmoción y pavor tras otra. Irán está actualmente en la mira, pero el mensaje se dirige a todos los Estados de Oriente Medio: no se atrevan a desafiar la aspiración israelí de hegemonía regional ni la limpieza étnica de Palestina. Lograr lo primero otorgaría a Israel la inmunidad necesaria para lo segundo: rectificar el error que lamentó el historiador Benny Morris al criticar a Ben Gurión por no expulsar a todos los palestinos en 1948. Como dijo Bezalel Smotrich a los miembros palestinos de la Knéset en 2021: «Están aquí porque Ben Gurión no terminó el trabajo». A ojos del gobierno, y de la élite política en general, parece haber llegado el momento de terminar el trabajo. 

 

Esto marca una ruptura con la estrategia sionista preestatal y la posterior política regional israelí, que se basaba en operaciones encubiertas combinadas con criptodiplomacia. A menudo me preguntan si la guerra actual tiene como objetivo implementar lo que se conoce como el Plan Yinon. Oded Yinon fue asesor de Sharon y, en 1982, coautor de un artículo que describía una estrategia de «divide y vencerás» para el mundo árabe. Argumentaba que el sectarismo beneficia a Israel y debe promoverse. Esto ocurrió en el momento en que Sharon buscaba sembrar la división en las filas de la resistencia palestina, incluso alentando a las fuerzas islamistas en Gaza. Al fracasar, Sharon lanzó un ataque directo contra la OLP en el Líbano, que fue ampliamente criticado en Israel como un error estratégico. Las noticias recientes sobre un intento de facilitar una invasión terrestre kurda desde Irak para complementar el bombardeo aéreo de Irán podrían parecer confirmar que estas tácticas siguen vigentes. Pero no es así. La antigua estrategia era mucho menos drástica: la intervención clandestina en la política interna de otros Estados no es una política de la que se presuma; Tampoco se basa en arrastrar a la región a una guerra.


Evidentemente, este ya no es el modus operandi del Estado de Israel. Irónicamente, el mejor esquema interpretativo en este caso podría ser el que los orientalistas han aplicado típicamente —no siempre con mucha precisión— a la República Islámica: que esta es una potencia que no actúa según un enfoque político racional y humanista «occidental», sino según una ideología fanática. Quienes determinan la actual estrategia israelí son explícitos sobre sus raíces en las enseñanzas del sionismo mesiánico y su visión de la guerra actual como cumplimiento divino. Netanyahu puede ser menos ideológico que sus aliados y estar más preocupado por su propia supervivencia política, pero no cabe duda de que acepta su glorificación como genio estratégico y mensajero de Dios. Para este grupo, la propia sociedad israelí necesita volverse mucho más teocrática. Todavía no es, lamenta Smotrich, el «estado de los Cohanim », pero está en camino de ser gobernado por una severa versión bíblica de la ley halájica: «El Estado de Israel, el país del pueblo judío, si Dios quiere, volverá a funcionar como lo hizo en los días del rey David y el rey Salomón». Gran parte de la legislación nacional del gobierno está dedicada a perseguir este fin. En segundo lugar, es necesario resolver la cuestión palestina. Gaza es el modelo. Smotrich, de nuevo: «No hay medias tintas. Rafah, Deir al-Balah, Nuseirat: destrucción total. Borrarás la memoria de Amalec de debajo del cielo. No hay lugar para ellos bajo el cielo».

 

En octubre de 2024, Smotrich declaró: «Una vez en cada generación, se presenta una oportunidad excepcional de cambiar la historia, de modificar el equilibrio de poder mundial y de redefinir el futuro. Pronto tendremos que tomar decisiones cruciales que conducirán a un Oriente Medio nuevo y mejor». Para la mayoría de los comentaristas políticos occidentales, las proclamaciones mesiánicas, salvo las de islamistas, parecen irrelevantes para la política. Pero no se trata de declaraciones vacías. Se trata de una visión del mundo que domina ahora tanto el establishment político como el militar, y que sustenta gran parte del júbilo actual y el respaldo incondicional de los medios de comunicación. La guerra contra Irán también cuenta con el apoyo de quienes tienen un enfoque político más secular, y supuestamente más racional, en el Mosad y el mundo académico, así como de los únicos políticos con potencial para derrotar a Netanyahu en las elecciones de octubre: Avigdor Liberman y Naftali Bennett. La justificación es que Israel tuvo que actuar porque se enfrentaba a una amenaza existencial, una afirmación tan plausible como las justificaciones de Colin Powell ante la ONU sobre la invasión de Irak. Aún más absurdo es el argumento de que un Estado que viola sistemáticamente los derechos de los palestinos está librando una guerra en nombre de los derechos humanos.


Desde una perspectiva económica, a pesar de la exuberancia del mercado bursátil israelí, el rumbo del Estado de Israel es muy cuestionable. Cuesta mucho dinero —dos mil millones de NIS al día en gastos directos y entre cinco y seis mil millones indirectos— y requerirá una importante y continua ayuda financiera estadounidense. La lógica del gobierno es que esto se compensará con los dividendos económicos: las desorbitadas ganancias derivadas de la venta de armas, ahora que las armas israelíes de última generación se exhiben en el campo de batalla, por no mencionar la perspectiva de las reservas de petróleo iraníes y un mayor acceso a las de los países del Golfo, a medida que se dan cuenta de que necesitan la protección de Israel. Sin embargo, no hay certeza de que esto compense la presión financiera; lo mismo ocurre con el dinero gastado en asentamientos y la promoción del judaísmo mesiánico en lugar de la atención médica y otras prioridades sociales.

 

Hay otras razones por las que Israel tendrá dificultades para seguir adelante con su estrategia a largo plazo. Campañas como esta en el pasado se abandonaron en cuanto se enfrentaron a dificultades. La pérdida de vidas estadounidenses, la presión de otros países de la región, la opinión pública estadounidense, la potencial resiliencia del régimen iraní y la continua resistencia palestina podrían inclinar la balanza. Una invasión del Líbano, a juzgar por intentos anteriores, no beneficiará a nadie. Mucho depende de la coalición global que fortalece las guerras de Israel: la industria armamentística, las corporaciones multinacionales, los líderes megalómanos de Estados poderosos, los grupos de presión sionistas cristianos y judíos, los tímidos gobiernos del Norte global, así como los corruptos regímenes árabes de Oriente Medio. Lo cierto es que, antes de que este fiasco termine, Israel infligirá un gran sufrimiento a los iraníes, los libaneses y los palestinos.

[Fuente: www.gerardodelval.com]

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Ricard Miralles, darrere una gran veu

Jordi Martí i Fabra fa un retrat d'artista de l'artífex rere les composicions d'artistes com Joan Manuel Serrat o Alberto Cortez
Ricard Miralles

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Qui sigui que va decidir el títol del primer àlbum de Francesc Pi de la Serra no va trencar-s’hi gaire el cap: Francesc Pi de la Serra (Edigsa, 1967). Però la simplicitat del títol contrasta amb la riquesa i la diversitat musical que embolcalla el verb corrosiu del ‘jutge’ número cinc. El treball conté passatges de swing orquestral, cornetes de ressons barrocs, atreviments dissonants i contemporanis… i, presidint-ho tot, un piano elegantíssim. L’artífex de tota aquesta varietat era un jove barceloní, de nom Ricard Miralles, que va assumir amb aquest disc la seva primera feina d’envergadura. Però va ser amb un altre ‘jutge’, concretament amb el número tretze, Joan Manuel Serrat, amb qui va acabar establint una relació artística més llarga i llegendària.

Uns diuen que va ser el mateix Pi de la Serra, altres que va ser Tete Montoliu… El cas és que algú el va presentar a Serrat. I l’amistat va créixer al ritme de l’entesa artística, que va generar fruits gloriosos. Del disc Com ho fa el vent (Edigsa, 1968) a la gira mundial amb què el ‘Noi del Poble-sec’ va acomiadar-se dels escenaris de mig món al llarg del 2022. Els contracants de piano i els acompanyaments de corda o de vents que va idear per a moltes melodies serratianes van ser clau en el seu èxit.

Però Ricard Miralles no només va ser un ingredient principal del ‘so Serrat’. Amb Montoliu van fugir dels encotillaments del Conservatori i van trobar refugi a la sala Jamboree. I amb el seu pare —trompetista i molt amic del pare de Dyango, igualment trompetista— havia recorregut els pobles catalans formant part d’orquestres de ball. I a pesar que no ha fet carrera com a jazzista més enllà de projectes puntuals com el duet amb el pianista Horacio Icasto, es pot percebre el seu gust pel gènere, i també per la música de cambra i el barroc, en els arranjaments que ha anat elaborant amb gegants de la cançó com Alberto Cortez, així com en les abundants bandes sonores que també ha signat.

De la mà dels cantautors ha recorregut Amèrica de dalt a baix. I la seva petjada discreta i decisiva marca treballs com Tarimba negra (Fonomusic, 1978), de la gran dama peruana de la cançó Chabuca Granda, que volia fer un disc que agermanés el pols de la rítmica afroperuana amb una ‘indumentària refinada i europea’, i per això va buscar el creador d’aquella exuberància i elegància que sonava en els discos de Joan Manuel Serrat. Darrere una gran veu, molt sovint hi ha un gran piano. I darrere un gran piano, un gran orquestrador...

 

[Imatge: Juan Miguel Morales - font: www.enderrock.cat]

domingo, 26 de maio de 2024

Existir és traduir: ‘Sense mans. Metàfores i papers sobre la traducció’, de Francesc Parcerisas

 IV Premi Internacional d’Assaig Palau i Fabre


Escrit per Ramon Ramon

En el retrat-entrevista que Jordi Llavina fa a Francesc Parcerisas, un llibre imprescindible per a entendre’n la personalitat literària i aspectes biogràfics importants (AELC, 2019), aquest afirma que els seus llibres de prosa, escrits en plena maduresa, són “una excrescència” de la seua obra. Si no donem al mot cap matís despectiu, si interpretem el que diu Parcerisas com una continuació ètica i estètica de la seua poesia, això és ben cert. Els seus dietaris —La primavera a Pequín, Un estiu i La tardor em sobta, tots tres en Quaderns Crema— ja són part de la prosa catalana contemporània més atraient. L’amenitat estilística, l’erudició gens pretensiosa, l’alè de misteri en el desplegament dels temes, l’humor a la Billy Wilder, ingenu però crític, i la incitació constant a descobrir universos literaris configuren un subjecte que és, en paraules del mateix poeta, el d’un “hedonista de la vida en general”.

Els textos que recull Sense mans podrien encabir-se en un dels seus dietaris. Hi ha la perspectiva del memorialista, el testimoni, la circumstància provocadora que obri un camí de camins imprevisible, laberíntic, en què oneja una vasta cultura literària que connecta autors i obres de tot arreu, èpoques i moviments artístics diversos, una prosa exuberant que em recorda la de Borges. Però Sense mans se centra en la traducció, en les qüestions més determinants d’aquesta disciplina. No oblidem que Parcerisas, a part d’un gran traductor —entre molts altres, Tolkien, S. Heaney o E. Pound, la seua “dèria personal”, segons diu, gràcies a la qual la literatura catalana ha fet seua aquesta obra originalíssima que són els Cantos—, ha estat durant molts anys professor de traducció i interpretació a la UAB.

Parcerisas considera la traducció més que un art. La situa en el nucli efervescent de la història cultural i li dona un valor paradigmàtic: “La traducció és la columna vertebral de la cultura humana: no hi ha un sol acte de la nostra vida que no estigui relacionat (...) amb la traducció”. La traducció, entesa “com a barreja, com a mestissatge cultural”, és l’avantguarda en un món sense fronteres. Per això, abans d’abordar la relació entre un original i la seua adaptació a una altra llengua, cal saber les raons de la traducció, per què hi ha “necessitat de traduir”.

Francesc Parcerisas, Sense mans. Metàfores i papers sobre la traducció, Galàxia Gutenberg (2013)

Els textos que recull Sense mans podrien encabir-se en un dels seus dietaris. Hi ha la perspectiva del memorialista, el testimoni, la circumstància provocadora que obri un camí de camins imprevisible, laberíntic, en què oneja una vasta cultura literària que connecta autors i obres de tot arreu, èpoques i moviments artístics diversos, una prosa exuberant que em recorda la de Borges. Però Sense mans se centra en la traducció, en les qüestions més determinants d’aquesta disciplina. No oblidem que Parcerisas, a part d’un gran traductor —entre molts altres, Tolkien, S. Heaney o E. Pound, la seua “dèria personal”, segons diu, gràcies a la qual la literatura catalana ha fet seua aquesta obra originalíssima que són els Cantos—, ha estat durant molts anys professor de traducció i interpretació a la UAB.

Parcerisas considera la traducció més que un art. La situa en el nucli efervescent de la història cultural i li dona un valor paradigmàtic: “La traducció és la columna vertebral de la cultura humana: no hi ha un sol acte de la nostra vida que no estigui relacionat (...) amb la traducció”. La traducció, entesa “com a barreja, com a mestissatge cultural”, és l’avantguarda en un món sense fronteres. Per això, abans d’abordar la relació entre un original i la seua adaptació a una altra llengua, cal saber les raons de la traducció, per què hi ha “necessitat de traduir”.

Per tant, Parcerisas no defuig les lluites de poder, els interessos latents, la dialèctica històrica que arrossega tot acte de traduir: “La traducció no és, doncs, mai, innocent”. I ho exemplifica portant a col·lació diversos contextos culturals: des dels problemes de traducció que va tenir Hernán Cortés en la conquesta de Mèxic al segle XVI fins als problemes semblants durant la invasió nord-americana de l’Iraq el 2003; des de la primera traducció russa d’El Senyor dels Anells —una autocensura indecent— fins a la promoció que feu la CIA, en plena Guerra Freda, del boom literari llatinoamericà a fi de desactivar ideològicament la Revolució Cubana del 1959. Aquest és el Parcerisas més compromès, l’intel·lectual crític que no s’està de denunciar la vulnerabilitat dels traductors en els fronts de guerra, on es juguen la vida, o la desconsideració que pateixen en les societats democràtiques, on sovint treballen en condicions gens còmodes i són mal pagats.

Però també hi trobem, en Sense mans, el Parcerisas que es meravella davant tota manifestació artística, el professor que aprèn dels alumnes i els regala llibres, que passeja pel mercat de Sant Antoni de Barcelona en cerca d’obres estrafolàries, que furga en llibreries històriques —com ara la Shakespeare & Co. de París—, que a partir d’un quadre s’empesca un assaig —sucosa és la reflexió al voltant d’El gran masturbador de Dalí per a tractar els pros i els contres de l’autotraducció—, que recorre a fets de la vida quotidiana per a explicar els ets i uts de l’acte de traduir —encertadíssima és la metàfora de la centrifugació d’una rentadora per a alertar que una traducció no s’ha d’allunyar massa de l’original—, el poeta de mirada expansiva sobre la realitat que es deixa seduir per les seues formes i en fa imatges belles —com diu Llavina, “Parcerisas és un dels nostres més aguts caçadors d’imatges”.

 O el Parcerisas que va dirigir, entre 1986 i 1993, una col·lecció de traducció de clàssics moderns per a l’editorial Edhasa, una iniciativa de luxe que no va tenir l’èxit de vendes que s’esperava —sabeu per què? perquè som, i això no ho diu Parcerisas, una cultura d’escopeta de fira, de fum de botges, mandrosa com el tarquim.

Jordi Llavina diu que per als poetes de la seua generació L’edat d’or de Parcerisas, publicada el 1983, “es convertí en una mena d’obra de culte”. No hi puc estar més d’acord. Encara dic més: tota l’obra de Parcerisas —el moll de l’os poètic i l’“excrescència” de les proses— és de culte. Només cal llegir la plaquette de vint poemes, Branquillons, que li acaba d’editar Edicions 96: un despullament insòlit en la seua estètica que assoleix una altura impressionant.

El Parcerisas poeta funciona igual que el Parcerisas assagista o dietarista: com el terrissaire, d’un tros de fang informe, amb unes mans tocades de gràcia, en puja una obra d’art. En Sense mans, més que un elogi de la traducció, Francesc Parcerisas en fa un cant, una música i un text plens de bellesa que abracen la complexitat del llenguatge i del món. Perquè existir és traduir. Perquè l’existència és un caos si l’Art no ens la tradueix.


[Font: www.laveudelsllibres.cat]

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Anthologie illustrée de la poésie érotique

Découvrez une version modernisée et illustrée de l'anthologie dédiée à la célébration de la féminité à travers les âges. Marcel Béalu nous présente six siècles de poésie érotique francophone. 

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Publié par Hocine Bouhadjera

De Guillaume Coquillard à René de Obaldia, en passant par les vers audacieux de Clément Marot, l'exubérance de Théophile Gautier, les plaisanteries audacieuses de Claude Le Petit, jusqu'aux vers libres d'Apollinaire et l'émotion de Louise Labé et la surréaliste Joyce Mansour, cette collection met en lumière plus de cent vingt poètes, tant masculins que féminins, tous célébrant le plaisir des sens.

Classique maintes fois remis sur le devant de la scène, La Poésie érotique de Marcel Béalu est aujourd'hui illustrée pour la première fois grâce au talent de Louise Bourgoin. Ses dessins incarnent et magnifient les émotions évoquées par les poèmes. Sous sa touche artistique, l'éros devient lumineux et éthéré, associant désir à bonheur, plaisir à générosité, et audace à liberté.

Dans une couverture aussi douce que la peau, ce que certains pourraient considérer comme l'enfer littéraire se transforme en véritable oasis paradisiaque.

Les éditions Seghers nous en proposent les premières pages en avant-première :

 

Marcel Béalu (1908-1993) est né dans une famille de petits commerçants. Après une enfance pauvre à Saumur, où il découvre la littérature en autodidacte, il est chapelier à Montargis. Il commence alors à écrire, encouragé par sa femme, Marguerite Kessel, puis par Max Jacob dont la rencontre sera déterminante. Ce dernier l’encourage et lui permet de connaître les poètes qui formeront l’École de Rochefort.

Pendant la Seconde Guerre mondiale, il collabore à la revue Poésie de Pierre Seghers. Jusqu’à sa mort, la librairie qu’il dirige à Paris, Le Pont traversé, sera le lieu de rendez-vous de bien des poètes.

Romancier, poète, essayiste, peintre à ses heures, fondateur avec René Rougerie de la revue Réalités secrètes, Marcel Béalu est l’auteur d’une œuvre importante qui a fait de lui l’un des maîtres de la littérature fantastique du XXe siècle.

Comédienne reconnue et récompensée, Louise Bourgoin est aussi dessinatrice. Diplômée des Beaux-Arts de Rennes, elle a pour la première fois exposé ses dessins en 2022, dans une galerie parisienne. En 2012, elle signait avec l'historien d'art Edwart Vignot Orsay mis à nu, aux Éditions Place des Victoires. Elle illustre en 2023 l'anthologie La Poésie érotique de Marcel Béalu, publiée aux Éditions Seghers.

[Source : www.actualitte.com]

anthologie-illustree-de-la-poesie-erotique-6504c3feb05c6868425097.pdf

Cris (1953) de Joyce Mansour

Laisse-moi t’aimer

J’aime le goût de ton sang épais

Je le garde longtemps dans ma bouche sans dents

Son ardeur me brûle la gorge

J’aime ta sueur

J’aime caresser tes aisselles

Ruisselantes de joie

Laisse-moi t’aimer

Laisse-moi sécher tes yeux fermés

Laisse-moi les percer avec ma langue pointue

Et remplir leur creux de ma salive triomphante