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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Brasil: onda vermelha disputa a virada

São milhões que estão conversando nas suas famílias, nos locais de trabalho, de moradia, nos transportes públicos. Essa força político-social é o maior trunfo da campanha Lula nestes próximos dias. 

Presidente Lula durante evento aberto à população no interior do Nordeste

Escrito por Valério Arcary 

Quem faz o seu destino são as suas escolhas, não as suas chances
Provérbio popular português

1. A história nos ensina que, diante de situações perigosas, acontecem fenômenos surpreendentes e extraordinários. Uma imensa parcela da sociedade que estava, até então, politicamente inativa, diante de uma ameaça terrível, coloca-se em movimento e faz a diferença. Foi assim no Fora Collor em 1992, e agora, também. A vitória da extrema direita nas eleições para governadores, Câmara de Deputados e Senado, associada à passagem de Flávio Bolsonaro (PL) em primeiro lugar para o segundo turno, foi o gatilho. Despertou, nas últimas duas semanas, uma gigantesca mobilização de massas, nas ruas e nas redes. A contra-ofensiva da “onda vermelha” veio de “baixo para cima” em modo de auto-organização diante da ameaça de vitória do bolsonarismo. Um “grande medo” está incendiando a disposição de luta na hora decisiva das eleições. O segundo turno está sendo disputado “a quente” e estamos diante de um empate técnico em que a diferença está diminuindo. Já são milhões que se levantaram. Só isso pode explicar as desconcertantes pesquisas que confirmaram que os nove milhões de votos que foram entregues aos outros candidatos de direita — Cury, Caiado, Renan e Zema — não asseguraram uma vantagem clara do bolsonarismo. O engajamento de massas colocou os neofascistas na defensiva. A esquerda conquistou hegemonia nas ruas e superioridade nas redes. Era imprevisível. Mas está sendo arrebatador e magnífico.

2. Manifestações ininterruptas em todo o país, após a colossal ocupação da avenida Paulista em 11 de outubro, de Recife a Porto Alegre, passando por Salvador e Brasília, culminando na praia de Copacabana no domingo, 18 de outubro, e  estendendo-se pelas cidades médias do interior, como Juiz de Fora e Campinas, e outras muito menores, ganharam dimensões assombrosas e sustentaram o crescimento de Lula nas pesquisas, associadas a uma atividade febril nas redes sociais. São pelo menos dois os fatores que incidiram na consciência da base social da esquerda e ajudam a compreender essa “explosão”: (a) o papel dos estudantes foi a centelha que incendiou as ruas, imediatamente depois do 4 de outubro, alimentando a esperança de que uma virada seria possível, porque os mais jovens “caminham mais leves”; (b) a percepção de que o bolsonarismo não pode ser subestimado e deve ser levado muito a sério, portanto, de que a revisão constitucional anunciada será a antessala de um regime autoritário, e de que a recolonização do Brasil pelos EUA é um perigo “real e imediato”.

3. A dúvida sobre o desfecho das eleições mantém-se, porque ainda não aconteceu uma virada. A análise não pode ser torcida. Uma virada poderá ou não vir, mas, mesmo que a probabilidade seja arriscada, há que lutar até o fim. Esse deve ser o papel do comando da campanha e de todos aqueles que compreendem a máxima gravidade do que está em disputa. As margens são tão estreitas — inferiores a 2% — que não há favoritismo de ninguém, e a possibilidade da vitória de Lula está colocada. O que ainda prevalece, cinco dias antes das eleições, é um desenlace indefinido. Os erros da imensa maioria das pesquisas na véspera do primeiro turno, subestimando a votação de Flávio Bolsonaro, confirmaram que os institutos têm dificuldades metodológicas em aferir os resultados da votação da extrema direita, por variados fatores, dos quais três se destacam: (a) dados desatualizados do IBGE que oferecem as métricas do modelo; (b) a desconfiança da base bolsonarista de responder às pesquisas; (c) a definição de voto no próprio dia. Mas esta incerteza não autoriza qualquer conclusão sobre uma inevitável, menos ainda invencível “avalanche” fascistoide.

4. Nada está garantido, e não nos podemos deixar enganar pelo desejo, mas uma análise lúcida exige destacar cinco evoluções positivas do momento da conjuntura: (a) as entrevistas no Jornal Nacional da TV Globo parecem ter favorecido o desempenho de Lula porque nas pesquisas feitas no dias posteriores a vantagem do filho de Bolsonaro diminuiu; (b) apesar do comício na Paulista do bolsonarismo de domingo 18 de outubro ter sido muito grande, foi menor do que o de apoio a Lula uma semana antes, e a campanha Lula está na ofensiva na mobilização permanente de rua em escala nacional, com uma ampla vanguarda de massas expondo, publicamente, sua adesão, em especial dos artistas populares; (c) o ativismo de apoio a Lula nas redes sociais, ao contrário das eleições, desde 2018, deu um salto de qualidade com o rejuvenescimento e irreverência das novas lideranças, e conquistou supremacia; (d) a vitória histórica do fim da escala 6×1 e uma linha de campanha orientada para expansão de reformas — proibição das apostas nas Bets, anistia e créditos para MEI’s endividados, passe livre nos fins de semana, pé de meia para universitários — e o giro teve um impacto real nas expectativas, inflamando um entusiasmo que não existiu antes do primeiro turno; (e) apesar do debate na Band ter sido um espetáculo desprezível de horror pelo papel provocador de Flávio, orientado pelos métodos de Pablo Marçal, Lula demonstrou que, aos 80 anos, com altos e baixos, ainda está em forma, com a audácia de desafiar a abertura dos sigilos bancário e telefônico. Mais importante, a campanha ganhou a disputa de narrativa nas redes sociais.    

5. Ninguém ignora que o país está, politicamente, fraturado, e a influência das duas correntes que disputam a presidência está consolidada. Mas não está congelada e, nas margens, ocorreram deslocamentos. O núcleo duro de apoio da extrema direita repousa na fração mais reacionária da classe dominante, na classe média acomodada, na proto pequena-burguesia de vinte milhões de “empreendedores”, em sua maioria na informalidade, nos rancores de negacionistas e nos ressentimentos do machismo, racismo e homofobia. O núcleo duro da campanha Lula repousa na metade mais pobre do povo, nas mulheres e negros, nos nordestinos e LGBT+, nos setores mais organizados da classe trabalhadora, que arrastam a maioria do mundo da ciência, arte e cultura. Todos os dados disponíveis indicam que a eleição será decidida por uma margem ínfima. Qual será o impacto eleitoral daqueles que estiveram nas ruas e nas redes nos últimos 20 dias? Em que escala a “onda vermelha” pode incidir sobre os indecisos? Em que medida a intensa “convulsão” em curso poderá estimular eleitores de Lula que não foram votar? São milhões que estão conversando nas suas famílias, nos locais de trabalho, de moradia e nos transportes públicos. Essa força político-social é o maior trunfo da campanha Lula nestes próximos cinco dias. As reservas da ultradireita, comparativamente, são mais invisíveis e silenciosas, mas não menos poderosas: os fascistas contam com a força de suas posições em milhares de prefeituras, a disciplina do desespero do “clientelismo”, a audiência das igrejas neopentecostais, a força do dinheiro no Brasil profundo e, não menos importante, a manipulação das redes, como a Meta, protegidas pela interferência descarada do governo Trump. Nesse contexto, o debate na Globo, a disputa de narrativas nas redes sociais na sequência e a mobilização de sábado serão o desafio final. São cinco dias que decidirão nosso destino. 

[Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República - fonte: www.esquerda.net]

 

domingo, 18 de outubro de 2026

« Le professionnalisme du massacre » : le documentaire « Naza » vu et commenté par un journaliste gazaoui

Mahmoud Mushtaha vivait et travaillait à Gaza. C’est au Royaume-Uni, où il réside aujourd’hui, que le journaliste a découvert “Naza”, le documentaire des Israéliens Yuval Abraham et Rachel Szor sur les méthodes employées par Tsahal dans la bande de Gaza. Sur le site “+972 Magazine”, il raconte comment il a vécu cette projection. 


Par Mahmoud Mushtaha

Tiré de Courrier international. Article publié à l’origine par +972 magazine (en anglais). Des images dudocumentaire "Naza". En haut, de face, le journaliste israélien Yuval Abraham interroge des soldats impliqués dans les frappes sur Gaza. Ceux-ci sont filmés de nuit, et leurs visages et voix a été transformés pour protéger leur anonymat. En bas, l’un de ces soldats a dessiné un groupe d’immeubles de Gaza dont il a organisé le bombardement. The Guardian/MK2 Films.

– Le documentaire Naza est diffusé à Montréal au Cinéma du Parc (2396, rue Beaubien Est) ainsi qu’au Cinéma du Musée (1379-A rue Sherbrooke Ouest) jusqu’au 15 octobre.

La lumière s’éteint, et untemps j’oublie que je suis devant un écran. Un toit de Tel-Aviv envahit la surface projetée, c’est la nuit, tout est noir et gris. La caméra descend le long de l’immeuble d’en face. À travers les fenêtres, des gens sont eux aussi devant des écrans – à deux, serrés l’un contre l’autre, plateau télé devant le JT. Ils semblent tout entiers absorbés dans leur monde. Et qu’y a-t-il de mal à ça ?

À les regarder, je n’arrive plus à m’ôter ça de la tête : voilà, c’est ça, être en sécurité. Une soirée continue, sans interruption, sans un engin militaire au-dessus de vos têtes, sans le bourdonnement incessant des drones.

Et pendant ce temps, sur le toit de l’immeuble, deshommes et des femmes discutent tranquillement du nombre de morts qu’ils font chez nous [dans la bande de Gaza]. Ce sont des militaires [israéliens], des agents du renseignement pour la plupart, qui ont participé à la destruction de Gaza par Israël [depuis le 7 octobre 2023] ; leurs témoignages sont au cœur de Naza. Le documentaire doit son titre à un terme du jargon militaire israélien, un acronyme qui en hébreu signifie “dommages collatéraux” – en l’occurrence le nombre attendu de morts à la suite d’une frappe.

“Le moment qui précède la violence”

Naza ne montre pas ces violences [sauf dans une courte scène finale]. La poussière, les cris, les appels angoissés pour savoir qui s’en est tiré, les mères qui cherchent leurs enfants dans les décombres, les noms des disparus partagés frénétiquement sur des groupes WhatsApp jusqu’à la confirmation, dévastatrice, de la nouvelle. À Gaza, j’ai vécu tout cela.

Et en regardant ce film, j’ai compris qu’alors que nous ignorions encore l’horreur à venir, des gens avaient observé, fait des calculs, et pris des décisions qui devaient bouleverser l’avenir de familles entières.

Le film a déclenché un vertige en moi, sur un aspect du crime que je n’ignorais pas, mais que je ne mesurais pas complètement non plus. Le moment qui précède la violence, quand un être qui vit encore sa vie est déjà désigné comme une perte acceptable. Quand quelqu’un qui dîne, qui dort, qui parle à son épouse, à son enfant, devient un chiffre sur un écran.

Ce qui m’a frappé, ce n’est pas l’ampleur de ce massacre, ni même sa froideur. C’est son professionnalisme. Il faut voir l’air compétent qu’ont ces militaires lorsqu’ils racontent comment ils détruisent la vie des autres, et cette tranquillité qui est celle du travailleur à l’aise dans une tâche maintes fois réalisée.

L’un d’eux le dit, il sait précisément ce que faisaient certains au moment où il les a tués. Il raconte avoir entendu un homme parler à sa femme, au lit. Les pleurs d’un bébé. Le son d’une télé. Il a entendu, écouté tout ça, puis donné le feu vert au largage de la bombe.

Pour ces soldats israéliens, tuer des Palestiniens est une simple tâche, on prend des pauses, et on s’y remet. C’est un travail “systématique” dit un militaire, c’est-à-dire, dans sa bouche, cadré, professionnel.

“Cette information me pétrifie”

Devant le film, ma mémoire, elle, n’arrête pas de faire revenir les personnes victimes de ces systèmes. Des noms me reviennent, sans cesse, comme pour remplir le vide des chiffres. Quand un soldat raconte comment les troupes israéliennes ont massacré des Palestiniens sur des sites de distribution d’aide alimentaire, je pense à mon cousin Raed Majed Mushtaha, 35 ans, tué début 2024 lors du “massacre de la farine” [qui a fait au moins 118 morts et 760 blessés, le 29 février 2024], alors qu’il était parti chercher de quoi nourrir sa famille.

L’armée israélienne peut autoriser la mort de 20 civils dans la traque d’une seule cible de second rang, voire 500 s’il s’agit d’une cible de premier rang, nous dit-on. Ces cibles ont dans leur majorité été “désignées” par un logiciel assisté par IA qui, de l’aveu même des soldats, est connu pour enregistrer 15 % d’erreurs – mais cela ne les empêche pas d’éliminer ces cibles, et leurs familles.

Cette information me pétrifie. Je pense à mon oncle Hisham Zafer Mushtaha, à sa femme Hanan, à leurs fils Basel et Mohammed, et à leurs quatre petits-enfants Raged, Hisham, Lana et Abdrahman, âgés de 3 à 12 ans. Je me dis qu’ils ont été assassinés parce qu’une IA algorithmique a estimé qu’une cible se trouvait parmi eux. Pour moi, il s’agit d’êtres que je connaissais, que j’aimais, dont j’attendais les nouvelles, dont l’absence ne me quittera plus.

Voilà contre quoi je me cabre, tout au long du film : la facilité avec laquelle quelqu’un peut disparaître dans le jargon opérationnel, pour être réduit à des chiffres. Dès lors que vous avez vu l’humanité d’un être, impossible de le voir autrement.

“Mettre des noms sur les victimes et les soldats”

Je me demandais depuis si longtemps comment ces gens que j’avais connus étaient morts. Devant le film, une autre question, à l’opposé, m’obsède : comment se fait-il que j’aie survécu, moi ? Je comprends, pour la première fois sans doute, qu’en réalité je ne pouvais rien faire, qu’il n’y avait aucune précaution à prendre, rien qui puisse garantir ma survie. Si je suis encore en vie, c’est pur hasard, je n’y suis pour rien. Cette pensée me ravage.

Ce que je cherche devant ce documentaire, ce n’est pas la catharsis. J’ai ma dose. De la même façon que je veux mettre des noms sur ces personnes dont les soldats ont planifié la mort, je veux mettre des noms sur les soldats aussi – ceux qui trouvent “marrant” de détruire Gaza [le terme utilisé par l’un d’entre eux], ceux pour qui les Palestiniens à Gaza sont des chiffres. C’est le seul moyen pour que le “systématisme” de la machine à tuer d’Israël cesse d’être un bouclier, cesse de permettre aux responsables de se penser comme de simples rouages.

En sortant de la projection, j’ai compris ce qui avait été si douloureux. Tout ce temps à raconter au monde entier ce que c’était de vivre sous ce ciel, dans le vacarme de la nuit, tout ce temps à rappeler que derrière les chiffres, il y avait un père, une mère, un grand-parent, un proche, un ami. Pour moi, le film ne m’a pas donné une voix – j’en ai toujours eu une. Ce qu’il m’a donné, c’est l’expérience étrange, pénible, d’entendre l’écho de ce que nous disons depuis des années, et de découvrir à quel point une même vérité peut résonner différemment selon la voix qui l’émet.

Quand le film a pris fin, j’ai appelé ma famille à Gaza, comme tous les soirs. En leur parlant, je suis obsédé par les dispositifs de traque et les systèmes de surveillance [décrits dans Naza] qui peuvent suivre leurs déplacements, et faire d’eux des cibles. Mes proches sont peut-être rassemblés autour d’un thé, en train de se disputer pour une vétille, ou rire d’une plaisanterie d’un de mes frères – instants ordinaires qui leur appartiennent, encore – tandis que quelque part, loin, ces instants sont déjà des données sur un écran.

En leur parlant ce soir, pendant un laps de temps j’ai tout oublié de ce que je venais de voir dans le film. Je n’ai pensé ni coordonnées, ni surveillance, ni IA. J’ai entendu ma famille. Telle voix familière. Tel souffle. Untel me demandant de mes nouvelles. Et j’ai mesuré tout ce que ces “systèmes” ne sauront jamais : sur l’écran, chaque individu recèle un monde.



traduit par Julie Marcot

[reproduit sur www.pressegauche.org]

La última batalla de Lula

La ventaja de Flávio Bolsonaro en la primera vuelta dejó en suspenso la reelección del presidente brasileño. Pese a sus buenos resultados macroeconómicos, Luiz Inácio Lula da Silva perdió terreno entre una nueva clase media endeudada, emprendedora y seducida por la batalla cultural conservadora. El 25 de octubre, Brasil decidirá si sigue siendo un dique contra el avance reaccionario en la región. 

Escrito por Giancarlo Summa 

¿Cómo ha sido posible? En el Partido de los Trabajadores (PT) estaban convencidos de que, más allá del incierto resultado de la segunda vuelta, en la primera del 4 de octubre Luiz Inácio Lula da Silva quedaría primero, como ocurrió en 2022. Por eso los resultados –el 47 % para Flávio Bolsonaro y el 45 % para Lula– fueron un terremoto político para la izquierda. Ahora el presidente brasileño se encuentra en la incómoda situación de tratar de revertir el golpe inicial y reorganizar fuerzas para la segunda vuelta del próximo 25 de octubre. Para lograrlo, su campaña ha dado un giro brusco: más combativa, menos centrada en el balance de gestión y acompañada de una multiplicación de las movilizaciones militantes. El objetivo es recuperar parte de los electores que Lula ha perdido en favor de Bolsonaro y, aún más importante, entre los 40 millones que no acudieron a las urnas, votaron en blanco o anularon su voto: en total, aproximadamente una cuarta parte del electorado. 

En 2018, con la victoria de Jair Bolsonaro frente a Fernando Haddad, Brasil anticipaba un crecimiento de las extremas derechas en toda América Latina. Bolsonaro perdió contra Lula su reelección por menos de dos puntos porcentuales en 2022, pero como se confirma ahora, el bolsonarismo expresa una coalición social que se mantuvo en pie durante estos cuatro años.

La reacción de los partidarios de Lula frente al resultado de la primera vuelta, así como la de gran parte de la prensa extranjera y los círculos diplomáticos internacionales, fue de sorpresa, consternación y perplejidad. Aunque ya está lejos del apogeo de su popularidad al final de su segundo mandato, en 2010, Lula sigue siendo uno de los líderes globales más respetados, mientras que Flávio Bolsonaro –hijo mayor y heredero político designado de Jair Bolsonaro– es un político mediocre y sin carisma, con una larga historia de escándalos de corrupción, vinculado tanto a los círculos de la «internacional reaccionaria» como a las milicias paramilitares de Río de Janeiro. 

¿Es la economía?

El desconcierto frente a los resultados remite a la famosa (y tan manida) frase de James Carville, el estratega de Bill Clinton en las elecciones presidenciales estadounidenses de 1992: «Es la economía, estúpido». Y aquí nos encontramos frente a una situación llena de matices. Desde un punto de vista macroeconómico, el tercer mandato de Lula ha sido un éxito incontestable, casi un modelo de manual. Desde 2023, Brasil ha registrado una caída sostenida del desempleo, cuya tasa se situó en el 5,3 % en el trimestre de junio a agosto de 2026, cerca del mínimo histórico de la serie, y una moderación de la inflación -el 4,22 % interanual en agosto-, ligeramente por debajo de la media de la Organización para la Cooperación y el Desarrollo Económicos (OCDE), que se situó en el 4,3 % interanual en agosto de 2026. A ello se suma una reducción de alrededor del 20 % de la pobreza extrema entre 2023 y 2024, equivalente a 1,9 millones de personas menos; la reanudación y ampliación de los programas sociales, como Bolsa Família; y un crecimiento del PIB del 3,2 % en 2023, del 3,4 % en 2024 y del 2,3 % en 2025, lo que arroja una media anual cercana al 3 %. En el frente externo, el superávit comercial acumulado entre enero de 2023 y septiembre de 2026 rondó los 305.000 millones de dólares. Y ya entre las dos vueltas, el Congreso promulgó una reforma constitucional que fija la semana laboral en cinco días, una vieja reivindicación que garantiza dos días de descanso sin recorte salarial y reduce gradualmente la jornada de 44 a 40 horas.

Si esos indicadores hubieran bastado para traducirse en un consenso electoral, tal y como Lula y su séquito habían pensado y esperado, las elecciones habrían sido un trámite sencillo.

Pero, como solía repetir la economista progresista brasileña Maria da Conceição Tavares, quien en otros tiempos tuvo mucha influencia sobre Lula, «nadie come PIB, sino alimentos». Las pérdidas de poder adquisitivo acumuladas, fundamentalmente entre la recesión de 2014 (gobierno de Dilma Rousseff) y 2022 (último año del gobierno de Bolsonaro padre), aún no se han recuperado en la base y en el medio de la pirámide social. Para llegar a fin de mes, muchos brasileños completan sus ingresos con trabajos extra, a menudo en plataformas como Uber o de entregas a domicilio, recurren a préstamos bancarios y pagan sus compras a plazos. Incluso muchos recurren a las apuestas en línea (que Lula prohibió por decreto pocos días antes de las elecciones). En agosto de 2026, el 81,7 % de las familias tenía alguna deuda pendiente de pago, el nivel más alto jamás registrado, tres puntos más que en 2022. Las familias destinan casi el 29 % de sus ingresos al pago de deudas y, aun así, casi 30% de ellas están en mora y, en consecuencia, como se dice en Brasil, tienen el «nombre manchado» en el sistema bancario–, lo cual dificulta sus operaciones financieras. Son deudas prácticamente impagables, porque las tasas de interés que aplican los bancos brasileños están entre las más altas del planeta: el préstamo promedio a las familias cuesta alrededor del 62 % anual, y el crédito renovable de la tarjeta de crédito -cuando no se paga el total-, el 445 %. Así, el trabajador que consiguió un empleo y un aumento salarial durante el gobierno de Lula devolvió ambos al banco, con intereses. 

Los gobiernos del PT invirtieron en un gigantesco sistema de cobertura de salud universal (SUS) y en el acceso a la educación pública; sin embargo, ante las largas colas en los hospitales y el bajo nivel medio de las escuelas primarias públicas, un número cada vez mayor de familias, incluidas las de las clases populares, se esfuerza por pagar seguros médicos y colegios privados. En agosto de 2026, el 24,9 % de los brasileños tenía cobertura de un seguro médico privado y algo más del 20 % de los alumnos de educación primaria y secundaria estudiaba en colegios privados.

Los datos macroeconómicos definitivamente no reflejan las condiciones de vida reales de la mayoría ni dan respuesta a las necesidades, deseos y aspiraciones, tanto materiales como inmateriales, de una sociedad que ha cambiado profundamente en el cuarto de siglo que separa la primera llegada de Lula a la Presidencia, en 2002, de esta campaña electoral tan difícil para la izquierda. En estas últimas décadas, en gran parte gracias a las políticas públicas de los gobiernos del PT, Brasil ha dejado de ser un país mayoritariamente pobre para convertirse en un país de clase media y media-baja. La denominada «clase C», que incluye a todos los hogares con ingresos mensuales per cápita entre 610 y 2150 reales (entre 120 y 430 dólares), agrupa a más de 107 millones de personas, cerca de la mitad de la población. 

Renato Meirelles, uno de los mayores expertos en opinión pública, consumo y comportamiento de las clases populares en Brasil, publicó en junio de 2026 Brasil da maioria: 25 anos de classe C [El Brasil de la mayoría: 25 años de clase C], un libro imprescindible para comprender los cambios sociales que se han producido en el país. A grandes rasgos, Meirelles identifica tres periodos distintos en el siglo XXI: 

1. Los dos primeros mandatos de Lula, hasta 2010, marcaron el ascenso de millones de brasileños a la clase C, impulsados por el crecimiento económico, la expansión del crédito y las políticas de inclusión y redistribución del ingreso. 

2. La década siguiente se caracterizó por el estancamiento de los ingresos, el fin de la euforia inicial y la transición hacia un periodo de frustración y reinvención personal y colectiva. Desde el punto de vista político, la década estuvo marcada por la crisis de los gobiernos de Dilma Rousseff (hasta su destitución en 2016), la operación «Lava Jato» y el surgimiento de una extrema derecha muy activa y agresiva, y antes prácticamente invisible, que llevó al poder a Jair Bolsonaro en 2018.

3. El presente: la clase C tiene hoy un mayor nivel educativo (el 70 % de los jóvenes ha estudiado más años que sus padres y, por primera vez, muchos llegan a la universidad), está muy conectada digitalmente, es emprendedora (con pequeños negocios y microempresas individuales) y es más exigente, tanto con los servicios públicos que recibe como con los productos que compra. Meirelles señala que este grupo rechaza las etiquetas ideológicas rígidas de izquierda y derecha, oscila entre posturas conservadoras y progresistas (por ejemplo, se puede mostrar en contra del aborto y a favor del matrimonio igualitario) y desempeña un papel decisivo en las urnas y en el consumo.

La clase C, según Meirelles, apoya los programas de transferencia de ingresos de los gobiernos del PT, como el Bolsa Família, considerados indispensables para prevenir el hambre y garantizar la supervivencia de las familias más vulnerables, y reconoce que las políticas públicas fueron determinantes para su propio ascenso social y el aumento de su poder adquisitivo en la década de 2000. Sin embargo, con el paso de los años, las prestaciones sociales dejaron de considerarse una bendición extraordinaria y pasaron a verse como un derecho adquirido («lo mínimo» o un «hecho de la realidad», señala Meirelles). Por otro lado, la visión de la clase C sobre las ayudas está fuertemente marcada por valores meritocráticos. Entre el 67 % y el 69 % de los brasileños consideran que «solo se debe ayudar a quien lo merece». Existe una opinión difusa, aunque infundada, de que los programas de ayuda desincentivan la búsqueda de empleo. Algo más del 70 % de la población –incluso entre los sectores de menores ingresos y entre los propios beneficiarios– coinciden en que las ayudas gubernamentales pueden hacer que las personas tengan menos ganas de trabajar. La clase C rechaza que se la trate como un mero público pasivo de la asistencia estatal. En lugar de limitarse a recibir prestaciones de subsistencia, la población de ingresos medios busca la autonomía y demanda el apoyo del Estado para emprender, acceder al crédito, obtener formación práctica y convertir pequeños negocios en microempresas. 

La cuestión de la relación con el Estado es fundamental para intentar descifrar las tendencias políticas y electorales de esta nueva clase media, cuya posición no deja de ser precaria: por un lado, se percibe al Estado como ausente cuando faltan servicios públicos de calidad (especialmente en salud y educación), pero también se lo ve como un obstáculo burocrático y fiscal cuando este intenta recaudar impuestos y dificulta la lucha por la supervivencia del trabajador autónomo. 

La visión de la importancia central del esfuerzo individual se entrelaza con la profunda religiosidad de la cultura popular y con el impetuoso crecimiento de las iglesias evangélicas neopentecostales, que predican que la fe, unida al esfuerzo personal, genera prosperidad terrenal: la llamada «teología de la prosperidad». Según Meirelles, para el 94 % de la clase C, profesar una religión contribuye directamente a vivir más tiempo y con una mejor calidad de vida. El 75% de los encuestados afirma que la fe es una de las cosas más importantes de sus vidas y el 58 % la considera esencial para la educación de los niños. Los evangélicos votan más a la derecha que los católicos, pero el voto de la clase C no es monolítico. 

Luchas comunicacionales

Todas las encuestas de opinión, por otro lado, indican desde hace tiempo el enfado y el cansancio de la mayoría de la población por su situación material, pero también su certidumbre respecto a mejoras futuras en su vida. El nuevo sueño de decenas de millones de brasileños es convertirse en empresarios. Los de más edad piensan en una pequeña tienda o un salón de belleza. Para los más jóvenes, el sueño suele situarse en el mundo digital. La antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que estudia cómo la economía de plataformas incide en las sociedades del Sur global, ha seguido durante tres años a cientos de «influencers de la prosperidad», quienes venden cursos y fórmulas sencillas para triunfar en internet y volverse rico: nueve de cada diez de ellos se alinean, de una u otra forma, con la extrema derecha. Es un universo marcado por una fe inquebrantable en la meritocracia y el individualismo, combinada con estilos de vida conservadores. 

No es casual que, en el tsunami reaccionario del 4 de octubre, al menos 13 jóvenes influencers bolsonaristas, con millones de seguidores en las redes sociales, hayan sido elegidos diputados federales y estatales desde las filas del Partido Liberal (PL) de los Bolsonaro. Dos de ellos, Nikolas Ferreira, de 30 años, en el estado de Minas Gerais, y Lucas Pavanato, de 28 años, en San Pablo, obtuvieron más de tres millones de votos: son los diputados más votados de la historia de Brasil. 

Es la punta del iceberg de lo que el politólogo Marcos Nobre ha bautizado como el «partido digital bolsonarista». El bolsonarismo no es solo un movimiento constituido alrededor del clan Bolsonaro, ni un conjunto disperso de influencers: funciona como un partido de verdad, con organización, jerarquía, disciplina y una gran capacidad de movilización permanente, no solo en periodos de campaña electoral. Es un poderoso instrumento para crear y mantener consensos políticos, así como valores culturales y de comportamiento. Es una batalla que la izquierda brasileña ha perdido sin siquiera intentar pelearla. A lo largo de todo el tercer mandato de Lula, la comunicación del gobierno ha sido lenta, formal, triunfalista y alejada de los problemas reales y las aspiraciones de la mayoría de la población. En la izquierda, han surgido algunos jóvenes que, a título individual, han sabido disputar la hegemonía digital con inteligencia y habilidad, y han convertido a sus seguidores en votos, como Erika Hilton, diputada transgénero del Partido Socialismo y Libertad (PSOL) en San Pablo (7,7 millones de seguidores entre Instagram y X, y 1,6 millones de votos); Ana Elisa Santos, de solo 21 años, del PT de Minas Gerais (6,3 millones de seguidores entre Instagram y TikTok, y más de 500.000 votos); o Rick Azevedo, concejal del PSOL de Río de Janeiro, que se dio a conocer en todo el país tras lanzar en 2023 una campaña en TikTok e Instagram para acabar con la semana de seis días de trabajo y uno de descanso, algo que, como mencionamos, se convirtió en reforma constitucional: fue elegido diputado federal con casi 200.000 votos. Pero, en general, la izquierda institucional brasileña se ha mostrado incapaz de adaptarse a los nuevos tiempos de la comunicación y la política.

A punto de cumplir 81 años, Lula da Silva es el último superviviente de la «marea rosa» que, entre la primera elección de Hugo Chávez en Venezuela en 1998 y el golpe parlamentario contra Dilma Rousseff en Brasil en 2016, dominó la escena política latinoamericana durante unas dos décadas. De los líderes de aquella época, algunos han fallecido y otros están presos, en el exilio o con órdenes de detención. 

Lula es un superviviente también en otros sentidos: al hambre del nordeste del Brasil, cuando era niño; al trabajo en la fábrica (se le cortó un dedo en una prensa cuando era operario metalúrgico); a la enfermedad (superó un cáncer de garganta tras el final de su segundo mandato); a la cárcel (la primera vez durante la dictadura militar; la segunda en 2018, cuando pasó un año y medio preso por una condena por corrupción que el Supremo Tribunal Federal [STF] anuló después); al intento de golpe de Estado que culminó en el asalto del 8 de enero de 2023, cuyo plan, elaborado por militares golpistas y bautizado como «Daga Verde y Amarilla», contemplaba el asesinato de Lula, de su vicepresidente Geraldo Alckmin y del ministro del STF Alexandre de Moraes. El juez que condenó a Lula, Sergio Moro, fue luego ministro de Justicia de Jair Bolsonaro y acaba de ser elegido gobernador de Paraná por el PL.

El pasado 16 de agosto, fecha del inicio oficial de la campaña electoral, el primer mitin de la séptima campaña presidencial de Lula (fue candidato en 1989, 1994 y 1998, antes de ser elegido por primera vez en 2002, reelegido en 2006 y elegido de nuevo en 2022) apostó por un simbolismo seguro y, al mismo tiempo, anticuado: el estadio de Vila Euclides, en São Bernardo do Campo, periferia de San Pablo, cuna del movimiento sindical de los metalúrgicos brasileños, donde Lula había iniciado su carrera en los años 70. Bajo un sol abrasador –el presidente llevaba sombrero por recomendación médica, tras someterse a radioterapia por un cáncer de piel en el cuero cabelludo–, Lula recordó a figuras vinculadas a los orígenes del PT ya fallecidas, como Antonio Candido y Sérgio Buarque de Holanda, y a referentes de las luchas sociales asesinados, como Chico Mendes y Margarida Alves. Evocó también a su madre, conocida como Dona Lindu, que murió mientras él estaba preso por su actividad sindical, y la convirtió en emblema de un llamamiento a las mujeres contra la violencia machista. 

En su discurso, repasó su vida política, desde el sindicalismo hasta la Presidencia, pasando por la cárcel, el regreso y los logros de sus gobiernos. Entre ellos, mencionó la creación de diez millones de puestos de trabajo, de una veintena de nuevas universidades federales y de cientos de campus de institutos técnicos, el paso de 5 a 25 millones de trabajadores con título universitario desde 2003 y las promesas de nuevos logros para el futuro. Toda su intervención osciló entre el recuerdo del pasado y la visión de un Brasil que produce chips y baterías eléctricas. Una arenga bastante triunfalista, de orgullo por todo lo que su gobierno y el PT habían hecho. En cuanto a temas espinosos como la delincuencia –una de las principales preocupaciones de la población–, Lula volvió a prometer la creación de un Ministerio de Seguridad Pública y darle prioridad a la educación, porque «es mucho más barato que invertir en cárceles». Sus palabras pueden haber conmovido a los antiguos militantes, pero no dialogaron con las preocupaciones de decenas de millones de votantes que, según indican las encuestas de opinión, tienen una opinión negativa sobre la labor del gobierno.

A unos cientos de kilómetros de distancia, Flávio Bolsonaro había elegido para su mitin inaugural la playa de Copacabana, uno de los emplazamientos tradicionales de las manifestaciones de la extrema derecha en Río de Janeiro, el bastión principal del clan familiar. Ante un público mucho más reducido que el que reunió Lula y bajo un cielo gris, Bolsonaro enumeró los temas que marcarían toda su campaña electoral: la «mano dura» contra la delincuencia, las dificultades de la vida cotidiana de las familias, el aumento del costo de vida, la reivindicación del legado político de Jair Bolsonaro, la oposición al aborto y a la legalización de las drogas, y la promesa de mejorar la gestión del Estado con un tesouraço (tijeretazo) en el gasto público, en referencia directa a la motosierra del presidente argentino, Javier Milei. En uno de sus primeros actos de campaña, en San Pablo, Flávio Bolsonaro blandió unas tijeras enormes, mientras que, a su lado, Milei se agitaba frenéticamente.

El tono de la campaña de los dos candidatos no cambió sustancialmente hasta el 4 de octubre. Fue, según la acertada definición del politólogo Pedro Abramovay, una disputa entre lo abstracto y lo concreto. Flávio Bolsonaro se movió en el terreno de lo abstracto. Reforzó los valores conservadores, apeló al antipetismo (un sentimiento muy fuerte en Brasil, continuación y actualización del anticomunismo de la época de la Guerra Fría), defendió el espíritu emprendedor, atacó al STF y aseguró que será implacable con los grupos criminales organizados, sin ofrecer detalles sobre ninguna propuesta concreta. Lula, por el contrario, fue demasiado «concreto», enumerando los muchos logros macroeconómicos de su gobierno y una lista de proyectos futuros, pero sin intentar siquiera transmitir la esperanza de que hay un país mejor por construir y de que eso pasa por su reelección.  

La ola conservadora

En la primera vuelta, los brasileños se decantaron por la visión abstracta y reaccionaria. Independientemente del resultado final, un análisis detallado de la elección ofrece un panorama desalentador para Lula, la izquierda y el futuro de la democracia. En términos absolutos, la diferencia entre Bolsonaro y Lula fue de 2,3 millones de votos: 56,1 millones para el primero y 53,8 millones para el segundo. En comparación con la primera vuelta de las presidenciales de 2022, Flávio Bolsonaro obtuvo cinco millones más que su padre Jair, quien perdió por estrecho margen en el balotaje, mientras que Lula perdió 3,4 millones de votos, a pesar de que el número total de electores aumentó ligeramente (158,7 millones de votantes en 2026 frente a 156,4 millones en 2022). Hace cuatro años, Lula se situó a la cabeza en 3.378 de los 5.569 municipios y en 14 estados del país; este año, en solo 2.663 municipios y 12 estados. Un estudio del periódico O Globo muestra que el presidente perdió votos en el 98,2 % de los municipios, mientras que el candidato de extrema derecha avanzó. La caída de los votos de Lula fue más acusada en las ciudades de menos de 20.000 habitantes (5,9 puntos porcentuales) y más leve en las grandes ciudades de más de 500.000 habitantes (casi un punto). Un relevo del diario Folha de S. Paulo, en el que se cruzan los resultados electorales de la primera vuelta con los del censo de 2022, muestra que, en general, Lula sigue gozando de una popularidad extraordinaria entre los brasileños más pobres –obtuvo el 76 % de los votos en los sectores con ingresos mensuales de hasta 1.100 reales (unos 220 dólares)–, pero que Flávio Bolsonaro obtuvo proporcionalmente más votos en todos los demás niveles de ingresos. Entre los votantes de la clase C, el retroceso de Lula ha sido especialmente acusado: el presidente ha perdido 5,1 puntos porcentuales de los votos con respecto a 2022, mientras que el hijo de Bolsonaro ha aumentado su apoyo en 4,9 puntos respecto a los resultados de su padre. Paradójicamente, Lula ha aumentado su apoyo, aunque en menor medida que su rival, entre los votantes con mayores ingresos. 

También Lula perdió votos en uno de los principales bastiones del PT, el estado de Bahía, donde ha pasado del 69,7 % al 66,2 %, aunque el gobernador del PT, Jerônimo Rodrigues, ha sido reelegido en la primera vuelta. Flávio Bolsonaro, al contrario, ha ganado terreno en estados claves en los que Lula había superado a Jair Bolsonaro en 2022, como Minas Gerais, donde obtuvo 538.000 votos más que su padre en 2022 y se situó en primer lugar. En el estado de San Pablo, el más rico y poblado de la federación, donde el PT tiene sus raíces históricas y donde Jair Bolsonaro se había impuesto hace cuatro años, Flávio obtuvo 682.000 votos más, mientras que Lula perdió casi un millón. En paralelo, el exministro de Economía y delfín de Lula, Fernando Haddad, candidato por segunda vez a gobernador del estado, obtuvo un resultado ligeramente mejor que en 2022, pero no superó el 36 % de los votos, y Tarcísio de Freitas, alineado con el bolsonarismo, fue reelegido en la primera vuelta con el 62 % de los votos. 

El PL, actual formación política del clan Bolsonaro, se ha convertido en el primer partido de Brasil: ha elegido a cinco gobernadores en la primera vuelta y 121 diputados (de un total de 513, lo que supone el 23,6 % de los escaños de la Cámara baja) y 19 senadores (de los 54 en liza), que, sumados a los senadores que ya ocupaban su cargo, darán al PL 28 de los 81 escaños, es decir, el 34,6 %.

El bolsonarismo se renueva también como dinastía. Michelle Bolsonaro, ex-primera dama que este año protagonizó un sonado enfrentamiento público con Flávio por la sucesión política de su marido, fue la candidata más votada al Senado en el Distrito Federal, con casi un millón de votos, y su partido se quedó con los dos escaños en disputa en la capital. Evangélica y con un discurso centrado en la fe y la familia, Michelle encarna la alianza entre el clan y las iglesias neopentecostales. No es un caso aislado: cinco de los ocho familiares de Jair Bolsonaro que se presentaron a estas elecciones fueron elegidos o siguen en carrera, entre ellos su hijo Carlos, que llega al Senado por Santa Catarina.

Los partidos de izquierda se han mantenido: han elegido en total 124 diputados, frente a los 125 elegidos en 2022, y contarán con 15 senadores, frente a los 17 actuales. El PT de Lula sigue siendo, de lejos, el más fuerte del bloque progresista, con 88 diputados y 9 senadores. Sin embargo, en estas elecciones la izquierda sufrió derrotas de enorme peso simbólico: quedaron fuera del Senado Randolfe Rodrigues, líder del gobierno en el Congreso; la expresidenta del PT Gleisi Hoffmann, en Paraná; Benedita da Silva, en Río en Janeiro; Paulo Pimenta, en Rio Grande do Sul, y dos ministras emblemáticas del tercer mandato de Lula, Marina Silva y Simone Tebet, en San Pablo. José Dirceu, quien llegó a ser el segundo nombre más fuerte del PT tras Lula, no logró regresar a la Cámara de Diputados.

Si Flávio Bolsonaro gana la segunda vuelta, el PL y sus aliados de la derecha y del centrão podrán impulsar su agenda con pocos obstáculos. Flávio podría indultar por sí mismo a su padre, condenado por la trama golpista y hoy bajo arresto domiciliario. Destituir a ministros del STF exigiría dos tercios del Senado (54 votos), y reformar la Constitución, tres quintos de cada cámara: mayorías fuera del alcance del PL solo, pero no de una coalición conservadora que ha salido reforzada del 4 de octubre. No obstante, Brasil no se ha transformado de repente en un país con una extrema derecha hegemónica. El bolsonarismo, según indican las series históricas de diferentes encuestas de opinión, cuenta con una minoría que se identifica firmemente con él, del orden de una cuarta parte del electorado, pero es capaz de liderar una coalición electoral mucho mayor. Su peso no radica únicamente en el número de seguidores, sino en su capacidad para organizar a la derecha y atraer a votantes que no se consideran estrictamente bolsonaristas. Del mismo modo, el electorado del PT representa desde hace años alrededor del 30 % de los votantes. En el pasado, el lulismo –que históricamente tiene una capacidad de consenso electoral superior a la de su partido– lograba ampliar significativamente su apoyo electoral más allá de la izquierda propiamente dicha. Este año, al menos en la primera vuelta, ha sido el bolsonarismo el que ha logrado recabar un mayor consenso en casi todos los sectores de la población. Se pueden plantear al menos dos hipótesis, complementarias entre sí, para intentar explicar esta situación. 

La primera hipótesis, de orden concreto, nos devuelve a la economía: la política económica de todo el gobierno de Lula se ha caracterizado por una ortodoxia fiscal y monetaria que ha limitado en gran medida la capacidad de inversión pública. El gobierno se ató las manos al aprobar por ley un arcabouço fiscal [marco fiscal]. La regla es sencilla en su lógica: el gasto público solo puede crecer el 70 % de lo que crezcan los ingresos, y nunca más del 2,5 % por encima de la inflación. Aun así, la deuda pública no ha dejado de subir: pasó del 73,8 % del PIB en diciembre de 2023 al 82,9 % en agosto de 2026, casi 10 puntos más. Está muy por debajo de la media de los países de la OCDE (el 110,5 % del PIB en 2023), pero los mercados financieros y sus altavoces en los medios de comunicación la han convertido en uno de los temas principales del debate político (y le dieron así a Flávio Bolsonaro la oportunidad de comprometerse a «alcanzar, en el menor plazo posible, la estabilidad y, posteriormente, la reducción de la ratio deuda/PIB» mediante un brutal programa de ajuste). En realidad, Brasil no sufre una crisis de deuda, sino una crisis del costo de la deuda, tal y como explican economistas ajenos a los mercados financieros, como Pedro Paulo Zahluth Bastos, profesor en la Universidad Estatal de Campinas (Unicamp). El tipo de interés básico brasileño (Selic), des 13,75 % anual, es uno de los más altos del mundo en términos reales. El pago de intereses de la deuda pública absorbe así casi el 9 % del PIB, alrededor de 1,2 billones de reales al año, lo que equivale a unos 240.000 millones de dólares. Es más del doble de lo que paga Italia, cuya deuda es, sin embargo, un 60 % mayor que la brasileña. Los altísimos tipos de interés que paga el Estado brasileño imponen, por un lado, una limitación real de los recursos disponibles para invertir (por ejemplo, para mejorar la calidad de los servicios públicos básicos, como la salud, la educación, el transporte público y la seguridad social) y, por otro lado, son uno de los principales mecanismos de concentración de la riqueza del país en manos de una elite muy reducida, que concentra gran parte de los títulos de deuda interna: el 1 % más rico de la población poseía un 46,8 % de la riqueza total del país en 2021. Se trata de un viejo problema de Brasil que los gobiernos del PT, desde 2003 hasta la actualidad, nunca han enfrentado realmente, en un intento –fracasado– de evitar una confrontación con los poderes fácticos del país. Tras el inesperado éxito de Flávio Bolsonaro, la Bolsa de San Pablo subió el 7 % en un solo día y el real se apreció frente al dólar: a pesar de los buenos resultados macroeconómicos del gobierno de Lula III (y de los dos anteriores), los grandes grupos que influyen en el mercado financiero brasileño se han decantado abiertamente por la extrema derecha.

Desde un punto de vista abstracto, Lula y el PT han perdido la capacidad de hacer soñar –de vivir «sin miedo a ser felices», como cantaba el inolvidable eslogan de la primera campaña electoral de 1989– y han renunciado en gran medida a cualquier intento de disputar seriamente la hegemonía cultural y la práctica político-económica neoliberal que prevalece en el país ya desde hace décadas. Mientras que la extrema derecha libra a diario una batalla cultural sin cuartel para imponer sus valores reaccionarios, la izquierda se ha acomodado a la tímida gestión de lo que considera posible, renunciando a cualquier tipo de rebeldía contra el statu quo, en el sentido que sugiere Pablo Stefanoni en su ya clásico libro ¿La rebeldía se volvió de derecha? (2021). Para decenas de millones de brasileños, Lula se ha convertido él mismo en la encarnación del establishment, del sistema, en un país que no les permite hacer realidad sus sueños ni llevar una vida menos dura. Flávio Bolsonaro, por el contrario, a pesar de todos los escándalos que lo salpican a él y a su familia, logró venderse como una alternativa de ruptura, aunque lleva décadas en la política. Salvando las diferencias que existen entre la situación de los dos países, se trata, en esencia, de la misma dinámica política y psicológica que, en 2024, llevó a amplios sectores de las clases populares de Estados Unidos a votar por Donald Trump en las elecciones presidenciales, o a abstenerse. 

En abril de 2026, en la Primera Reunión de la Movilización Progresista Global organizada en Barcelona por el gobierno español de Pedro Sánchez, Lula había reconocido el problema. El proyecto neoliberal, dijo Lula, «prometió prosperidad y trajo hambre, desigualdad e inseguridad». El progresismo «logró avanzar en la agenda de los derechos», pero «no consiguió superar el pensamiento económico dominante» y, en lugar de romper con ese modelo, «sucumbió a la ortodoxia» y se convirtió en gestor de sus propios males. «Los gobiernos de izquierda ganan las elecciones con un discurso de izquierda y practican la austeridad», reconoció Lula. La extrema derecha, por su parte, supo «sacar partido del malestar generado por las promesas incumplidas», canalizando la frustración y la desesperanza de quienes fueron abandonados por el sistema y por el progresismo que prometió cambiarlo. «Nos hemos convertido en el sistema», admitió Lula. Seis meses después, de la forma más dramática, los brasileños han confirmado ese diagnóstico en las urnas. 

En busca de la remontada

La posibilidad de dar vuelta el resultado del 4 de octubre, según revelan desde el comité de campaña de Lula, pasa ahora por una mayor movilización de los militantes de izquierda, pero también, y quizás sobre todo, por el miedo. Es decir, se trata de convencer a decenas de millones de indecisos y abstencionistas de que el regreso de Bolsonaro a la Presidencia pondría en peligro mortal los programas sociales del gobierno, empeoraría los servicios públicos, deterioraría los sueldos y las jubilaciones, dañaría sus vidas y cualquier posibilidad de ascenso social. En la segunda vuelta de las elecciones presidenciales de 2006 (Lula contra Alckmin, el actual vicepresidente) y de 2014 (Dilma Rousseff contra Aécio Neves), esta estrategia funcionó. Una semana después de la primera vuelta, se celebraron enormes manifestaciones en las grandes ciudades brasileñas, como la izquierda brasileña no había logrado organizar en décadas. En muchos casos, se trató de manifestaciones autoorganizadas por una gran variedad de grupos, grandes y pequeños, de militantes –a menudo muy jóvenes– y no por las estructuras partidarias ni sindicales. Las consignas y pancartas contra Bolsonaro se entremezclaban con banderas arcoíris y palestinas, atuendos de las religiones afrobrasileñas, grupos de samba y pancartas que reclamaban la defensa de las universidades públicas y la reducción de la jornada laboral. Todo ello, con una energía, e incluso una alegría, que habían brillado por su ausencia en los últimos años. 

Las encuestas indican que la ventaja de Flávio Bolsonaro empezó a reducirse. Pero el tiempo disponible es muy corto. Al último gigante de la izquierda latinoamericana solo le quedan ahora unos pocos días para intentar evitar que las limitaciones, los errores y las vacilaciones de su tercer mandato acaben entregando Brasil a la extrema derecha más reaccionaria. Están en juego el futuro de la democracia en un país de 215 millones de habitantes, la protección de la Amazonia y la posibilidad de resistir los ataques de Trump contra la soberanía de América Latina. Para Luiz Inácio Lula da Silva, esta será la última y más difícil prueba de supervivencia. 

 

[Imagen: Anadolu/Getty Images.- fuente: www.nuso.org]

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

«Naza», el documental que acusa l'exèrcit d'Israel de matances de civils a Gaza i encén Netanyahu

El primer ministre exigeix una investigació penal per identificar els militars que van testificar en el film 

Escrit per Ketty Calatayud

Naza és l'acrònim hebreu de nezek agavi, que significa "dany col·lateral". És el terme que utilitza l'exèrcit israelià per calcular quantes víctimes civils pot provocar un bombardeig. Darrere d'aquesta expressió aparentment tècnica s'amaga una de les qüestions més controvertides de la guerra de Gaza: com es decidia atacar un objectiu quan se sabia que l'operació també podia provocar la mort de desenes o centenars de persones innocents? Aquesta és la pregunta que planteja Naza, un documental d'investigació que, a través dels testimonis de 24 militars i membres dels serveis d'intel·ligència israelians, revela els mecanismes interns de la maquinària militar que va arrasar la Franja. Unes denúncies que les Forces de Defensa d'Israel (FDI) rebutgen categòricament i que han desencadenat una ofensiva del primer ministre, Benjamin Netanyahu, per identificar els testimonis anònims i portar-los davant la justícia. 

El documental, que va guanyar el Premi Especial del Jurat al Festival de Cinema de Venècia, va arribar divendres passat, 9 d'octubre, a les sales de cinema espanyoles, enmig de la polèmica provocada per les revelacions dels militars i agents d'intel·ligència israelians que hi participen i la persecució que s'ha iniciat a Israel.

Netanyahu va exigir aquest diumenge una investigació penal contra els participants en el documental per presumptes "delictes greus contra la seguretat de la informació, difamació penal i perjudici als interessos diplomàtics i de seguretat d'Israel". En una carta dirigida als màxims responsables de l'exèrcit, dels serveis de seguretat interior i de la Fiscalia General, el primer ministre reclama que s'actuï "amb urgència" per descobrir la identitat dels militars que han trencat el silenci. La decisió ha afegit una nova dimensió a la polèmica: mentre els autors del documental denuncien possibles crims de guerra, el govern israelià posa el focus en els qui han revelat informació militar classificada.


Bombardejos amb centenars de víctimes civils previstes

Què expliquen aquests militars perquè el govern israelià hagi reaccionat amb tanta contundència? El documental, dirigit pels cineastes israelians Yuval Abraham i Rachel Szor i produït per The Guardian, descriu com els serveis d'intel·ligència identificaven presumptes militants de Hamàs i autoritzaven bombardejos contra els habitatges on vivien. Segons els testimonis, en alguns casos s'esperava que els objectius tornessin a casa per atacar-los, malgrat saber que a l'interior també hi havia familiars, inclosos infants. Una de les revelacions més impactants és que, segons un dels entrevistats, es va arribar a autoritzar una operació amb una previsió de fins a 500 morts civils.

Els testimonis també denuncien l'ús de sistemes d'intel·ligència artificial, com Lavender, per identificar sospitosos a partir de dades de vigilància massiva. Segons el documental, aquestes eines presentaven marges d'error que podien convertir persones innocents en objectius militars.

La pel·lícula sosté que aquestes pràctiques van contribuir a convertir la mort de civils en una conseqüència assumida dins del procés de planificació militar. Les denúncies plantegen possibles vulneracions del dret internacional humanitari, que prohibeix els atacs deliberats contra civils i els bombardejos en què els danys previstos a la població siguin excessius respecte de l'avantatge militar esperat.

L'exèrcit israelià nega les acusacions

Les Forces de Defensa d'Israel (FDI) han respost amb un extens informe en què rebutgen les principals conclusions del documental. Asseguren que mai no es va autoritzar cap bombardeig amb una previsió de 500 víctimes civils i neguen que existissin permisos automàtics per matar un nombre determinat de persones innocents segons la importància de l'objectiu militar. L'exèrcit també defensa que la intel·ligència artificial no decidia autònomament els atacs, sinó que les operacions havien de ser avaluades i autoritzades per responsables humans. Segons les FDI, els testimonis ofereixen una visió parcial dels procediments militars perquè molts només coneixien les fases inicials de recopilació d'informació. La pel·lícula, afegeixen, presenta una imatge "distorsionada, enganyosa i poc sincera" de la realitat.

Els autors de Naza defensen, en canvi, el rigor de la investigació. The Guardian assegura que el documental és el resultat de tres anys de treball, amb més de 100 fonts consultades i testimonis contrastats. També rebutja que els entrevistats fossin exclusivament militars de rang inferior i afirma que alguns havien participat en diferents etapes de selecció i autorització dels objectius. 

De l'ovació a Venècia a les amenaces de mort

La polèmica ha anat molt més enllà del debat sobre les operacions militars. Naza es va estrenar el 10 de setembre al Festival de Venècia, on va rebre una ovació de prop de 25 minuts i va acabar obtenint el Premi Especial del Jurat. El documental també es va projectar al Festival de Cinema de Sant Sebastià, entre el 23 i el 26 de setembre, enmig de la polèmica per les amenaces denunciades pels seus directors. El 25 de setembre, diverses persones es van concentrar a la ciutat basca amb el lema 'Nosaltres també som Naza' per expressar el seu suport a la pel·lícula.  Però l'èxit internacional ha contrastat amb la campanya d'hostilitat contra els seus directors a Israel.

Abraham i Szor han estat titllats de traïdors per sectors pròxims al govern. Grups ultranacionalistes s'han manifestat davant de la casa dels pares de Szor, a Savyon, amb crits de "pena de mort per als traïdors". També han aparegut pintades amenaçadores i Netanyahu ha donat suport a la possibilitat de retirar la ciutadania israeliana als cineastes.

Els directors, que ja van participar en el documental oscaritzat No Other Land, denuncien que la seva investigació els ha convertit en objectius dins del seu propi país. "Si fóssim palestins, probablement ens haurien empresonat o assassinat", van afirmar en una entrevista a la Cadena SER.

Ara, amb l'exigència de Netanyahu d'identificar i processar els 24 testimonis anònims, la controvèrsia entra en una nova fase. El debat ja no és només què va passar durant els bombardejos de Gaza, sinó també què pot passar als qui decideixen explicar-ho. El govern israelià considera que s'han revelat secrets que poden comprometre la seguretat nacional; els cineastes defensen que protegir les fonts és imprescindible per investigar possibles crims de guerra. I, enmig d'aquesta confrontació, Naza ha convertit una expressió burocràtica, "dany col·lateral", en una pregunta incòmoda sobre el valor de les vides civils en una guerra. 

Una contrapel·lícula promoguda per Israel

La polèmica ha obert també una batalla pel relat de la guerra de Gaza. El 30 de setembre es va difondre a internet un segon documental, titulat NAZA: The Real Story, elaborat pels israelians Roi Danino, Ariel Orbuch i Hagai Gutman, que ofereix una versió radicalment diferent de l'actuació de l'exèrcit israelià. A través de testimonis d'alts comandaments militars i agents d'intel·ligència, imatges de combats i material desclassificat, la producció pretén rebatre les revelacions del primer documental i justificar les operacions militars contra Hamàs. Segons ha informat The Guardian, aquesta contrapel·lícula ha estat promocionada per les autoritats israelianes i inicialment es va presentar d'una manera que podia confondre-la amb l'obra original. Els seus creadors asseguren, però, que l'han finançat personalment, sense participació del govern ni de l'exèrcit. Així, la controvèrsia ha transcendit les pantalles per convertir-se en una disputa sobre qui controla el relat de la guerra i les responsabilitats per les morts de civils palestins.

 

[Foto: Europa Press - font: www.elnacional.cat]

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Estados Unidos le garantiza impunidad a Israel

Organizaciones de derechos humanos con sede en Cisjordania llevan mucho tiempo documentando los crímenes de Israel, y es precisamente por eso que ahora son objeto de sanciones de Estados Unidos. El gobierno estadounidense intenta hacer imposible su trabajo para proteger a Israel del escrutinio.

Las sanciones de Estados Unidos contra organizaciones palestinas de derechos humanos y figuras como la relatora especial de la ONU Francesca Albanese están diseñadas para hacer imposible su trabajo. 

Escrito por L. Canciello

Traducción: Pedro Perucca

«Es la primera vez, como abogado, que estoy a punto de defenderme a mí mismo, y no a las personas para las que trabajo». Hablando en momentos en que el Consejo de Derechos Humanos de las Naciones Unidas, en Ginebra, discutía sobre Palestina el pasado mes de marzo, Raji Sourani se quejó de los ataques a las tareas más básicas de quienes defienden los derechos humanos.

Sourani, director del Centro Palestino para los Derechos Humanos (PCHR, por sus siglas en inglés), hizo estos comentarios justo después de que la relatora especial de la ONU Francesca Albanese presentara su informe sobre la tortura sistemática contra los palestinos. Para Albanese, la tortura es «el símbolo de este genocidio»: devasta los cuerpos y la dignidad de las personas, mientras todo lo que hace posible la vida de los palestinos es destruido a su alrededor.

En una reunión realizada al margen de la sesión, Sourani, junto con Issam Younis, director ejecutivo del Centro Al Mezan para los Derechos Humanos [ONG con sede en el campamento de refugiados palestinos Jabalia, en Gaza], así como representantes de Al-Haq [ONG palestina independiente de derechos humanos con sede en Ramala, Cisjordania], describieron lo que significa seguir documentando estos crímenes mientras sus organizaciones están bajo sanciones estadounidenses. Sourani explicó que, aunque «el genocidio continúa mientras hablamos», él y sus colegas se ven obligados a plantear la cuestión de las cuentas congeladas y los salarios que ya no pueden pagar. «En lugar de hablar de genocidio y limpieza étnica, estamos aquí defendiéndonos, con nuestras pequeñas y tontas preocupaciones: ¿cómo puede nuestra organización sobrevivir y seguir defendiendo los derechos humanos?».

El PCHR, Al Mezan y Al-Haq trabajan con un propósito legal específico: recopilar testimonios, asistir a las víctimas y presentar pruebas ante la ONU y la CPI (Corte Penal Internacional). Así es como la violencia sufrida puede convertirse en testimonio verificado y, en última instancia, servir como prueba ante un juez. Pero en esto también reside la desconexión fundamental que recorre la reunión de la ONU. Mientras quienes cometen los crímenes todavía no enfrentan ninguna consecuencia, quienes los documentan deben sopesar las consecuencias de cada pago, cada viaje o cada colaboración en la que se involucran.

Un archivo bajo amenaza

En las oficinas de Al-Haq en Ramala, este trabajo toma la forma de un archivo construido a lo largo de una ocupación israelí que ya lleva décadas. Cuando intentamos llegar hasta allí desde Belén, en julio de 2025, quedamos atrapados en una larga fila en el puesto de control. Una hora antes de nuestra cita, todavía no sabíamos si llegaríamos. Cada viaje queda sujeto a la discreción de los soldados israelíes. «Llegaremos a Ramala, inshalá», dice nuestro guía.

Dentro de las oficinas, los investigadores han estado recopilando testimonios de toda la Cisjordania ocupada. Al-Haq mantiene datos sobre asesinatos y demoliciones, analiza fotografías y videos, y reconstruye ataques con el fin de refutar los relatos oficiales israelíes. También ha creado una unidad de arquitectura forense, que utiliza análisis espacial y herramientas arquitectónicas para investigar violaciones de derechos humanos.

«Una de las cosas que me motivan a despertarme cada mañana es que Israel parece tenerle miedo a nuestras investigaciones», dice Mariam (a quien se le ha dado un seudónimo), investigadora de Al-Haq. Ese miedo, explica, se traduce en presión sobre los financiadores y amenazas contra los bancos. «Intentan asustar a todos y cada uno de los donantes».

Cuando un archivo puede refutar la versión militar de los hechos y contribuir a procesos legales internacionales, se convierte en una amenaza política. Esta es la capacidad de recopilación de pruebas que las sanciones ahora tienen como blanco.

En realidad, el ataque contra Al-Haq no comenzó con las sanciones estadounidenses. En 2021, Israel ya había designado a esta organización y a otras cinco organizaciones palestinas como terroristas. Luego, en septiembre de 2025, Washington incluyó a Al-Haq, Al Mezan y PCHR en el programa de sanciones establecido mediante la Orden Ejecutiva 14203 contra la CPI. Los activos bajo jurisdicción estadounidense fueron congelados, mientras que se prohibió a personas y empresas de Estados Unidos proporcionarles fondos, bienes o servicios.

Programa de sanciones

Dado que la mayoría de las transacciones internacionales se realizan en dólares estadounidenses y a través de plataformas con sede en Estados Unidos, muchos bancos, donantes y socios de otros países cortaron sus vínculos, pese a no estar legalmente obligados a hacerlo. El informe Criminalising Accountability [Criminalizar la rendición de cuentas] se refiere a esto como un mecanismo de sobrecumplimiento. En menos de un mes, estas organizaciones perdieron entre el 20 y el 60 por ciento de sus ingresos y YouTube eliminó más de setecientos videos, incluidos testimonios de víctimas de tortura e imágenes de demoliciones.

Para Al-Haq, esto ha implicado que haya personal sin cobrar y colaboradores estadounidenses obligados a renunciar. Para Al Mezan, las sanciones se suman a la devastación en Gaza, y afectan tanto al personal desplazado como al destino de los investigadores, que deben documentar los hechos mientras intentan además proteger a sus familias, a lo que se suma que sus propias oficinas han sido alcanzadas. «No tenemos fondos, hemos tenido que recortar salarios, y esto tiene un impacto directo en nuestra capacidad para documentar los crímenes en Gaza», dice Younis.

Albanese también ha sido sancionada personalmente por su trabajo como relatora especial de la ONU. Sus activos han sido congelados y sus transacciones bloqueadas, y enfrenta restricciones para ingresar a los Estados Unidos. Cuando toma la palabra en Ginebra, su primer comentario se dirige a la institución que se suponía que debía protegerla. Al respecto planteó: «¿Por qué, la ONU esperó tanto tiempo antes de discutir las sanciones contra uno de sus propios relatores especiales, contra fiscales y jueces de la CPI, y contra organizaciones palestinas que cooperan con el sistema de justicia?»

Albanese dice que tiene «menos autonomía que [su] hija de trece años… solo por escribir informes para las Naciones Unidas» y que el sistema financiero la trata como a «una narcotraficante o una terrorista». ¿Qué tienen en común ella, las organizaciones palestinas y los funcionarios de la CPI? Están ahí «para buscar la rendición de cuentas, para hacer avanzar la justicia para las víctimas y los sobrevivientes».

«Los fiscales no pueden visitar el territorio palestino ocupado», explica Sourani. Dependen de organizaciones capaces de llegar hasta los testigos y de preservar la evidencia. «Cuando se ataca a la Oficina del Fiscal, a las organizaciones palestinas, a los jueces y a la relatora especial, el círculo se cierra. La intención es clara».

Alentados por la impunidad

La misma selectividad impregna a las instituciones internacionales. En el Consejo de Seguridad de la ONU, el poder de veto de los miembros permanentes hace que, con frecuencia, no haya consecuencias por las violaciones. En el Consejo de Derechos Humanos, las mismas dinámicas de poder determinan qué crisis derivarán en medidas concretas y cuáles, en cambio, quedarán reducidas a informes y resoluciones.

La CPI sigue abierta, pero está aislada de las personas que recopilan pruebas e investigan. «Estamos siendo testigos del desmantelamiento de la rendición de cuentas desde las bases», advierte Albanese.

Para Younis, volver al Palacio de las Naciones de la ONU tiene un significado personal. En 1993 llegó aquí como estudiante para contarles a los Estados miembros que los palestinos estaban siendo torturados. Más de tres décadas después, la tortura continúa, y su organización está siendo sancionada por su trabajo con la CPI: «Los gobiernos ya no niegan cometer crímenes», dice. Y añade: «Antes solían negarlo. Ahora están orgullosos de cometer crímenes de guerra y genocidio».

Las imágenes de los crímenes de Israel, las declaraciones oficiales y los numerosos testimonios de testigos presenciales no han logrado garantizar protección alguna. De hecho, esta impunidad se evidencia en la confianza con la que se exhiben los crímenes: quienes los cometen saben perfectamente bien que las imágenes circularán y que los demás Estados permanecerán de brazos cruzados.

En la reunión de Ginebra, un abogado palestino relató cómo los detenidos eran obligados a vivir durante meses dentro de un círculo dibujado en el piso, con las manos y los pies encadenados, y solo se les permitía salir de él para tomar duchas de un minuto. «He trabajado con prisioneros durante años. Nunca había visto algo así». Describió violaciones, violencia sexual y amputaciones realizadas sin anestesia.

«La tortura le hace al individuo lo que el genocidio le hace a un grupo», dice Albanese. Documentar estos actos no les devuelve a las víctimas lo que les fue arrebatado, pero preserva la posibilidad de que haya reconocimiento y de que se haga justicia.

La falta de acción internacional frente a los crímenes de Israel en Cisjordania tiene consecuencias adicionales en forma de demoliciones de viviendas, apropiación de tierras y aún más ataques por parte de los colonos.

Tomemos lo ocurrido el 28 de julio del año pasado en Umm al-Khair, cuando una topadora proveniente de un asentamiento israelí cercano entró en el pueblo y dañó propiedades palestinas. El maestro Awdah Hathaleen, activista y padre de tres hijos, filmó la escena. En los videos, el colono israelí Yinon Levi levanta su arma y dispara en su dirección. Awdah recibe un disparo mortal en el pecho.

Levi vive en el asentamiento cercano de Carmel. En 2024, ya había sido sancionado por Estados Unidos, la Unión Europea, el Reino Unido y Canadá por su papel en la violencia contra los palestinos. Sin embargo, la administración Trump revocó las sanciones estadounidenses. Tras el asesinato, Levi fue arrestado y luego liberado rápidamente; el cuerpo de Awdah, en cambio, fue retenido durante diez días, mientras se le imponían condiciones a la familia respecto del funeral. «¿Cómo se puede liberar al asesino y retener a la víctima?», pregunta un representante del Centro Jerusalén de Asistencia Legal y Derechos Humanos.

Para Haneen Hathaleen, sobrina de Awdah, lo que ha cambiado desde el 7 de octubre de 2023 es, sobre todo, la libertad con la que actúan los colonos israelíes. En años anteriores, dice, la violencia estaba al menos parcialmente contenida por el temor a una reacción internacional. Ahora eso parece haber desaparecido. «Después de todo lo que pasó en Gaza, nadie le ha pedido cuentas a Israel por nada», dice. «Así que, hagan lo que hagan aquí, ¿quién se atrevería a oponérseles?».

Las mujeres de Umm al-Khair dicen que, desde el 7 de octubre, los colonos vienen casi todas las noches. Entran en el pueblo, vandalizan propiedades e impiden que las familias duerman. «No es como antes», dicen. Dentro de la comunidad crece el temor de que el aumento de los ataques acelere el desplazamiento y la anexión de sus tierras. La impunidad de lo que ocurre en Gaza no está separada de Cisjordania, sino que refuerza la convicción de los colonos de que pueden actuar sin resistencia ni consecuencias.

Vías para la rendición de cuentas

En una entrevista en el Café Suisse del Palacio de las Naciones, en Ginebra, el embajador palestino Ibrahim Khraishi me habla de las limitaciones de las sanciones que apuntan únicamente a colonos individuales. Esas medidas, sostiene, no abordan el sistema político y militar dentro del cual la violencia de los colonos se vuelve posible y queda protegida. Pueden restringirse viajes o congelarse ciertos activos, pero no se detienen los ataques ni la expansión de los asentamientos sobre el terreno.

Las sanciones contra quienes documentan la violencia se están ampliando; las sanciones contra quienes la perpetran pueden ser revocadas o quedar sin efectos concretos. En Umm al-Khair, la impunidad significa que Awdah es asesinado, que su cuerpo es retenido y que los ataques contra su comunidad continúan.

En el Palacio de las Naciones, tras el informe sobre la tortura, algunas declaraciones desplazan el debate de la evidencia hacia la propia Albanese: Hamás, acusaciones de antisemitismo y el apego al código de conducta. Quienes documentan los crímenes deben, una vez más, defender su legitimidad.

«La diplomacia en tiempos de genocidio no es neutral», responde Albanese. Younis, por su parte, insiste en que los Estados miembros de la ONU necesitan actuar: «Dejen de mostrar solidaridad sin actuar. Es tiempo de actuar por la rendición de cuentas».

Las herramientas existen. Los Estados parte de la CPI pueden defender el trabajo de la Corte; los Países Bajos pueden salvaguardar sus operaciones; la UE puede contrarrestar los efectos de las sanciones; y la ONU puede defender a la relatora especial a la que le ha encomendado el mandato. Sin embargo, ninguno de estos actores ha ideado una respuesta capaz de proteger a estas personas e instituciones.

El gobierno estadounidense, mediante su control del dólar, trabaja para frustrar la rendición de cuentas. Pero la impunidad también es fomentada por Estados que reconocen los crímenes y luego se niegan a usar las herramientas de las que disponen para detenerlos. Muchos gobiernos de Estados miembros de la UE afirman rutinariamente defender el derecho internacional, y sin embargo mantienen relaciones militares, económicas y diplomáticas con Israel sin proteger a la CPI ni a las organizaciones palestinas.

Efecto contagio

Lo que ocurre en Palestina no quedará confinado a Palestina: la impunidad no solo blinda los crímenes ya cometidos, sino que también hace más probables los futuros. Cada vez que un Estado ve que otro desestima a los tribunales, viola las normas internacionales y persigue sus propios objetivos sin pagar ningún precio, el Estado de derecho pierde fuerza también en otros lugares. El mensaje que reciben los demás gobiernos es que las reglas pueden dejarse de lado siempre que se cuente con protección política, militar o económica. Así es como los crímenes excepcionales terminan por sentar un precedente.

Esta erosión ya resulta evidente en el creciente cuestionamiento a las instituciones internacionales. Chad ha iniciado el proceso de retiro del Estatuto de Roma, una decisión celebrada por Washington, que ha instado a otros Estados a seguir su ejemplo.

Según Sourani, sería un error pensar que todo esto concierne únicamente a Gaza o a los palestinos. Las sanciones están reemplazando al Estado de derecho por la «ley de la selva». «Lo que se pierda en Palestina se perderá en todas partes», advierte Albanese.

Mientras tanto, el genocidio continúa. Las organizaciones que se supone deben recopilar y preservar la evidencia de este son obstaculizadas, privadas de financiamiento y aisladas de las instituciones internacionales. E incluso mientras la destrucción continúa en Gaza, los ataques de los colonos y la presión sobre las comunidades palestinas también aumentan en Cisjordania. Sin embargo, mientras quienes cometen estos crímenes actúan con impunidad, quienes los documentan se ven obligados a defender su derecho a existir.

 

[Foto: Massimo Di Vita / Archivio Massimo Di Vita / Mondadori Portfolio via Getty Images - fuente: www.jacobinlat.com]