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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Diário de Buenos Aires - Poesia eleitoral e refeição às escondidas

Por FELIPE GUTIERREZ

Em um discurso recente, a presidente Cristina Kirchner deu uma pausa nas falas sobre política para tecer algumas considerações sobre cinema. Elogiou o filme paraguaio "Sete Caixas" e perguntou se a plateia havia visto "esse filme fantástico que é 'Relatos Selvagens'".

Ver "Relatos Selvagens" em Buenos Aires não é tarefa fácil.

As sessões do começo da noite ou dos fins de semana esgotam com muita antecedência -foram necessárias três idas à bilheteria até conseguir uma entrada. Trata-se da estreia com melhor desempenho na história do cinema argentino: já se aproxima da marca de 500 mil espectadores. Nos jornais, projeta-se um dos maiores sucessos comerciais da história.

A intensa campanha publicitária que antecedeu a estreia certamente contribuiu para isso, mas o filme tem seus méritos. É uma comédia dividida em seis episódios, sem conexão narrativa entre eles, e mostra situações em que as pessoas reagem de maneira exacerbada a chateações comuns (carro guinchado, briga de trânsito, decepções amorosas etc.).

E trata-se de uma superprodução, bem filmada, com explosões aparentemente impecáveis na técnica. Se não fosse isso, "Relatos Selvagens" estaria mais para um bom programa de esquetes do que para um longa-metragem -o diretor Damián Szifrón tem uma carreira mais vinculada à televisão do que ao cinema.

Ah, sim: tem o Ricardo Darín.

O OUTRO CENTENÁRIO

O escritor Julio Cortázar completou cem anos, e a Argentina comemorou com nada menos do que 13 mesas-redondas e eventos durante a Feira do Livro de Buenos Aires. No jardim da Biblioteca Nacional -que se chama "Rayuela" (nome original de "O Jogo da Amarelinha")- ergueu-se ainda um novo monumento em sua homenagem.

A cidade celebra agora, de modo mais discreto, o centenário de Adolfo Bioy Casares.

Um dos destaques é o lançamento do livro "Bioy Casares Va al Cine", parte de uma série da editora Libraria Ediciones que narra a relação de diferentes escritores (como Roberto Arlt e Jorge Luis Borges) com essa arte.

No novo volume, assinado por Adriana Mancini, o leitor acompanha como, em salas como a do velho cinema Hindú, nos anos 1920, Bioy Casares, ainda adolescente, se apaixonou pela primeira vez: pela imagem da atriz norte-americana Louise Brooks.

MARINA POETA

Os jornais argentinos estão escolhendo seu lado na campanha eleitoral brasileira. A grande novidade é a presença de Marina Silva e o seu desempenho nas pesquisas. Mais noticiosos nesta cobertura, "Clarín" e "La Nación", por enquanto, tratam de descrever os movimentos das pesquisas eleitorais e os debates.

O "Perfil", que sai aos finais de semana, a descreve como um "furacão". Ela já apareceu na capa acompanhada de um poema de sua autoria. Na semana seguinte, o jornal publicou um outro poema de Marina. A publicação também fez uma reportagem sobre o argentino Diego Brandy, que trabalha com a candidata.

O "Página 12" optou por um tom diferente. Já publicou que a ex-senadora aceitou compor a chapa com Beto Albuquerque, "um dirigente vinculado ao agronegócio", e afirma que ela construiu sua credibilidade junto "às elites" combinando uma guinada neoliberal com "boa relação com as embaixadas dos EUA e da Alemanha (ambas com os olhos na Amazônia)".

CHIQUE E ILEGAL

Restaurantes a portas fechadas são uma pequena febre. Estima-se que existam cerca de cem na cidade. Eles funcionam na casa dos chefs, é preciso fazer reservas e só se descobre o endereço depois de confirmar presença.

Os "portas fechadas" são um mercado pirata gastronômico: fogem dos impostos de 21% sobre cada refeição, contratam sem pagar direitos trabalhistas e não tiram licença para poder funcionar ou vender álcool. O fisco não tem dado muita atenção a eles, mas, com problemas financeiros, especula-se que o governo começará a esticar os olhos para o segmento.


[Fonte: www.folha.com.br]

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Diário de Lisboa - Após "Oscar" turístico, a capital apinha-se

Por ISABEL COUTINHO
A abertura do Cinema Ideal, na rua do Loreto, números 15 e 17, entre o Chiado e o Bairro Alto, a 28 de agosto, foi o acontecimento da "rentrée" lisboeta. O mais antigo cinema de Lisboa -que já se chamou Salão Ideal, Cinema Ideal, Cine Camões e Cine Paraíso- reabriu no mês em que cumpre 110 anos. Quer ser um cinema de bairro e a alternativa aos cinemas dos centros comerciais.

É uma iniciativa da distribuidora Midas Filmes, de Pedro Borges, e da Casa da Imprensa, dona daquele edifício histórico. Tem projeto arquitetônico de José Neves, Prêmio Secil de Arquitetura 2012, e é fruto de investimento de 500 mil euros, que incluiu o equipamento de projeção e de som. A sala, com plateia e balcão, como antigamente, tem cerca de 200 lugares e haverá uma cafeteria e livraria. A programação tem a particularidade de ser feita pela Associação Cultural Cinema Ideal, 30 pessoas que sabem do assunto, entre os quais realizadores, atores e produtores.

Em exibição está "E Agora? Lembra-me", o premiado documentário de Joaquim Pinto -um diário de um ano de tratamento experimental e o peso de duas décadas de vivência com os vírus HIV e hepatite C, e a história de amor de Joaquim e de Nuno Leonel -premiado em Locarno (Prêmio Especial do Júri e Prêmio da Crítica Internacional) e no DocLisboa (Grande Prêmio em 2013). Também em exibição no Cinema Ideal está um clássico: a versão digital de "Rastros de Ódio" (1956), de John Ford.

Seguir-se-ão mais filmes portugueses entre os quais a esperadíssima adaptação de "Os Maias", de João Botelho (haverá uma versão de três horas).

A INVASÃO DE TUK-TUKS

A abertura de um cinema no centro de Lisboa, no ano em que pelo país se assistiu ao encerramento de muitas salas, é sintomática do boom turístico que aconteceu neste verão na cidade.

Considerada pelos World Travel Awards (o Oscar do turismo) o sítio perfeito para escapadelas, Lisboa está na moda. Ruas antigamente abandonadas ganharam vida. Quando no início dos anos 1990 vim morar para Alfama, um dos bairros mais típicos de Lisboa, não havia esta agitação dos tuk-tuks, (veículos de três rodas) importados da Ásia, com turistas divertidos a subir e descer as ruelas ou turistas em fila indiana, em cima de patinetes elétricos Segway.

ANTIGA ZARAGATA

Na Calçadinha de Santo Estêvão, as escadinhas onde fica o balneário público e a igreja de Santo Estêvão, todos se conheciam. Na rua da Regueira havia muitas vezes zaragatas. Quem subisse a estreita rua de casas pombalinas geminadas admirava-se com papelinhos brancos espalhados pelo chão, fosse de dia ou de noite. Eram restos do intenso tráfico de droga. Se se ouviam assobios, sons agudos a atravessar as ruas estreitas, já se sabia que a polícia entrara no bairro. Avisavam-se uns aos outros, e o bairro protegia os seus.

Em todos estes anos nunca fui assaltada, mas houve épocas em que amigos ficavam só o tempo de jantar e eram assaltados. Os turistas eram avisados para não entrarem no bairro sozinhos nem com câmeras na mão. As peixeiras ainda apregoavam na rua de São Miguel e ainda existia a mercearia da dona São, onde se podia ser surpreendido por um rato a correr entre os caixotes de legumes.

DISNEYLÂNDIA POMBALINA

Abriu o Museu do Fado, as tascas e as casas de fado prosperaram, há esplanadas, os paquistaneses tomaram conta das mercearias do bairro, há barbearias fashion e lojas a fazer de conta que são gourmet, ginjinha, souvenirs de galos de Barcelos, sardinhas em lata e t-shirts com Fernando Pessoa. Há novos espaços como o das austríacas, com strudel, e o dos italianos, com pizzas à fatia.

Ouve-se constantemente o barulho das rodinhas das malas dos turistas -que passaram a ser os vizinhos que não se conhecem-, a subir e a descer as irregulares calçadas. Casa sim, casa não há um letreiro "aluga-se". Em 2015 deverá estar pronto o novo terminal de cruzeiros em Santa Apolônia, com capacidade para fazer entrar em Lisboa 1 milhão de turistas em barco por ano. Há quem receie que este turismo "massificado" esteja a transformar Lisboa e os bairros históricos num parque de diversões, e Alfama a perder a raça.

ISABEL COUTINHO, 48, é repórter do jornal português "Público". 


[Fonte: www.folha.com.br]

terça-feira, 10 de junho de 2014

A Copa pelo olhar cáustico dos hermanos

Por FELIPE GUTIERREZ 

"Barcelona" É uma publicação de humor criada há mais de dez anos e que, pelo estilo das pautas, textos, títulos e montagens gráficas, lembra o antigo jornal brasileiro "Casseta Popular". A edição que está nas bancas de Buenos Aires é sobre a Copa, "uma oportunidade histórica pra gozar uma relação muito quenchi", explicam eles no subtítulo, no portunhol que marca boa parte das piadas.

Na publicação há montagens fotográficas, como a de uma bandeira do Brasil com uma banana no meio e a do Cristo Redentor com uma camisa da seleção argentina e uma arma na mão. "Barcelona" também apresenta um mascote extraoficial da Copa: o Favelito.

Uma chamada da edição de 30 de maio afirma que "cada vez mais argentinos de classe média viajam ao Brasil, se hospedam em favelas e saem para roubar para conseguir se manter". É tema frequente na mídia argentina o custo elevado da hospedagem nas cidades-sede e os preços dos ingressos.

"Barcelona" elenca ainda os sonhos de consumo do brasileiro: "Está confirmado que ele [o brasileiro] só quer praia, um violão (e/ou um berimbau), uma mulata deliciosa, um copo de cachaça, um prato de feijoada, uma turbina de avião e pronto: não precisa mais do que isso para ser feliz".

O sarro não é só com os rivais: sobra até para Lionel Messi, cuja mentalidade é descrita como "indecifrável; quando quer, ganha sozinho, quando não, perdem 11". Na ficha do camisa 10, o item "sex appeal" diz: "Quase nulo".

O periódico traz ainda outros temas, como um "projeto de lei" que proibiria tomar mate, fumar e comer enquanto se envia um SMS ao volante. "Foi aprovada uma medida que castigará quem se distrair com outras atividades enquanto redige um SMS ao dirigir", explica.

CARTA DA DISCÓRDIA

Às vésperas do feriado da Independência, o governo, por meio da equipe de relações públicas de Cristina Kirchner, divulgou uma carta do papa Francisco felicitando o povo argentino.

A autenticidade da missiva, porém, foi questionada por Guillermo Karcher, argentino que trabalha no cerimonial do Vaticano. O texto seria coisa de um "artista da colagem", que a fez com más intenções, disse ele, ao vivo, no canal de TV C5N.

O Vaticano afirmou que o documento era, sim, verdadeiro -e começou a disputa. Na TV pública, em um programa ultrakirchnerista chamado "678", um convidado, o jornalista Orlando Barone, criticou o C5N, afirmando que o episódio da carta foi uma tentativa da mídia de prejudicar o governo. Um apresentador do canal, Eduardo Feinmann, resolveu responder, chamando Barone de "ameba, comemierda e parasita do Estado".

PACHAMAMA

O circuito de cinemas da cidade exibe muitos filmes nacionais, incluindo alguns documentários, vários deles sobre temas da natureza.

Cuerpos de agua é sobre o transbordamento de água que inundou a cidade de Bolívar, no Estado de Buenos Aires, nos anos 1980, arrasando a região produtora de trigo. O documentário mostra como o governo local ficou atônito, e a população, perdida à espera da ajuda. Uma das histórias narradas é a de dois irmãos atingidos pela cheia que decidem caçar, pela primeira vez na vida, para ter o que comer. Em meio à névoa, um acaba por atirar no outro.

Em El cielo otra vez, o tema é um projeto ambiental para levar o condor a repovoar o interior argentino. Outro animal protagoniza Buscando al huemul -este, já fora do circuito, contava a história de dois amigos em uma viagem para avistar um veado das montanhas do sul, o huemul, que corre risco de extinção.

DA COR AO PB

O Museu de Arte Contemporânea de Buenos Aires abriga uma exposição do lado menos conhecido do venezuelano Carlos Cruz-Díez, um dos principais artistas latino-americanos vivo.

Famoso por suas pinturas e esculturas coloridas, ele tem exibidas cerca de 50 fotografias em preto e branco. Cruz-Díez, que tem 90 anos, foi repórter fotográfico em Paris na década de 1960.

Entre as imagens da mostra estão retratos de dois colegas que, como ele, foram fundamentais na criação da arte cinética: Alexander Calder e Jesús Soto.

[Fonte: www.folha.com.br]


segunda-feira, 2 de junho de 2014

O MAPA DA CULTURA : Já não somos entroikados

DIÁRIO DE LISBOA - O adeus (ou até logo) português ao FMI

Por ISABEL COUTINHO

No dia 17 de maio dissemos adeus à troika. Nesse dia completamos três anos de execução do memorando acordado pelas autoridades portuguesas e pela troika, o triunvirato formado por Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

O país regressou aos mercados e equilibrou as contas públicas, mas ninguém pode afirmar que está melhor do que em 2011.

Os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que o desemprego em Portugal atinge 261,8 mil pessoas (entre 45 e 64 anos) e que 307 mil estão à procura de emprego há mais de 25 meses. Estamos mais pobres (um quarto dos portugueses tem dificuldades em satisfazer necessidades básicas), 300 mil partiram ao estrangeiro nos últimos anos, pagamos mais impostos e a reforma do Estado foi sendo adiada.

Num dos cartuns publicados no jornal "Público" desse dia, a personagem Bartoon, criada por Luís Afonso, recebia a visita de um homem do FMI para se despedir e lhe dizia: "Adeus, até ao meu regresso". Bartoon, admirado, perguntava-lhe: "Vocês vão voltar?" E o homem do FMI respondia: "Claro. Vocês têm um clima político-econômico-meteorológico tão bom que é impossível não pensar em vir de novo!".

Mas a verdade é que a troika só deixará o país quando conceder a última fatia do empréstimo de 78 bilhões de euros, o que deve acontecer este mês de junho. E depois continuará a vigiar-nos.

TOMAR CONTA DE NÓS

Por isso, a pergunta que marca a atualidade é aquela que a "Cabide", a primeira revista portuguesa "ao vivo" (que não existe impressa em papel, nem sequer em versão digital, e acontece de quinta-feira até este domingo, no Cinema São Jorge), faz na sua capa: "Saberemos tomar conta de nós?". A "Cabide" é tal e qual uma revista: tem dois diretores --o jornalista João Pombeiro e o designer Luís Alegre--, uma capa que está exposta na fachada do São Jorge e uma programação (cabide.sapo.pt).

As respostas --ao "depois da troika saberemos tomar conta de nós?"-- são dadas em palco pelo ensaísta Eduardo Lourenço na entrevista ao vivo de Carlos Vaz Marques, o jornalista e editor da "Granta" em Portugal; no ensaio "Saída Limpa, Portugal na Lama", que o escritor Pedro Rosa Mendes apresenta no cinema, na conferência que o escritor Gonçalo M. Tavares dá com o tema "É Preferível um Anjo a uma Pedra" e na "Carta de Despedida à Troika" do encenador Tiago Rodrigues.

LUXÚRIA CANIBAL

"Pelo Meu Relógio São Horas de Matar" é o título do novo álbum do grupo de rock Mão Morta, que no ano passado participou da Virada Cultural em São Paulo (mao-morta.org). A banda de Adolfo Luxúria Canibal, que comemora 30 anos e há quatro não lançava um disco, provocou por estes dias polêmica ao lançar o vídeo do single "Horas de Matar", realizado por Rodrigo Areias (bit.ly/1h9Fuck).

O cantor, que é também advogado, aparece de arma em punho em cenários como o Palácio de Belém (residência oficial do presidente) e a Assembleia da República e dispara sobre banqueiros, padres e políticos.

Enquanto isso, o resto da banda empunha bandeiras e, por trás deles, passam imagens reais de manifestações nas ruas e de políticos portugueses. Já vieram dizer que não incitam à violência e que querem "contar a história de um português de classe média, que vivia até à crise uma vida individualista e que com a crise ganha preocupações sociais".

LA MOVIDA LISBOETA

Mas, com troika ou sem troika, Lisboa não para. No fim de semana passado, era como se a cidade fosse um estádio por causa da final da Liga dos Campeões, e como se Madri inteira tivesse se mudado para cá. Os adeptos do Real e do Atlético esgotaram a cerveja e dizia-se que nunca se viu nada assim desde a vinda do papa, em 2010.

Nuestros hermanos tinham novidades: o Mercado da Ribeira ganhou 30 restaurantes, alguns de chefs famosos, e o Mercado de Campo de Ourique, também com novos restaurantes, que foi buscar na reforma inspiração no Mercado de San Miguel, em Madri. Olé!

[Fonte: www.folha.com.br]

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Alemães à toda prova

O bom germânico sabe onde registrar seu cão

Por SILVIA BITTENCOURT

O que é preciso saber para ser alemão? Que aspectos da identidade nacional são importantes na visão das autoridades alemãs? Confronta-se com estas questões quem faz o teste Viver na Alemanha, uma das precondições exigidas do estrangeiro para adquirir a nacionalidade do país.

São mais de 300 perguntas, elaboradas pela Universidade Humboldt (Berlim), relativas a política, leis, história, cultura e costumes na Alemanha, que o estrangeiro deve "estudar". No teste, de múltipla escolha, são 33 delas e o candidato deve acertar ao menos 17.

No geral, as perguntas são básicas: Que cidade alemã foi dividida em quatro setores depois da Segunda Guerra? Às vezes, hilárias: Que costume os alemães têm na Páscoa? Pintar ovos ou enfeitar a árvore de Natal? Outras exigem um pouco mais: Quem é o autor do hino alemão? (August Heinrich Hoffmann von Fallersleben) Ou em qual repartição pública deve-se registrar um cachorro? (Na prefeitura.)

Instituído há cinco anos, o teste provocou, no início, uma queda nos pedidos de naturalização, feitos sobretudo por turcos, sérvios, montenegrinos e kosovares. Entretanto, com seu índice de aprovação em torno de 98%, logo se mostrou uma barreira superável, e o número voltou a subir.

Cerca de 110 mil estrangeiros naturalizam-se todo ano na Alemanha, número que deve aumentar. Com a dupla nacionalidade, o governo tenta cooptar mão de obra especializada, em falta no país.

O teste, porém, é alvo de críticas. As questões de direito trabalhista ou sobre acordos internacionais seriam complicadas demais, inclusive para o alemão médio. Nomes importantes da cultura alemã teriam ficado de fora, como Beethoven e Thomas Mann.

Políticos e representantes de entidades judaicas também criticam o fato de o Holocausto, frequentemente negado por dirigentes muçulmanos, não ser mencionado uma única vez. Estranham o fato de o Estado considerar mais importantes questões sobre impostos para cachorros do que sobre a maior catástrofe da história do país.

A VOLTA DE "BAAL"

Depois de mais de 40 anos fechado num arquivo, foi liberado o filme "Baal" (1969), de Volker Schlöndorff, baseado na peça de Bertolt Brecht com o mesmo título. O filme havia sido proibido em 1970, a pedido da viúva de Brecht, Helene Weigel (1900-71) -provavelmente porque a obra remete aos tempos juvenis e anárquicos do autor. Trazendo dois ícones do cinema alemão nos papéis principais, os então jovens atores Rainer Werner Fassbinder e Margarethe von Trotta, o filme leva a peça de Brecht para o contexto da revolta estudantil dos anos 60.

"Baal" narra a história de um poeta talentoso, que despreza a alta sociedade que o bajula e que se aproveita descaradamente dos amigos e das mulheres. Brecht escreveu a primeira versão da peça em 1918, quando tinha 20 anos.

FLORES A WEIWEI

As milhares de cartas e flores enviadas pelos alemães não foram suficientes para o governo chinês liberar a saída de um dos seus maiores artistas, Ai Weiwei, objeto de retrospectiva até o próximo dia 7 de julho no museu Martin-Gropius-Bau, em Berlim.

A exposição "Evidence", a maior já realizada sobre o artista, reúne objetos, vídeos e instalações, que ocupam 18 salas e o belo pátio interno do Gropius-Bau. Ali estão expostos, por exemplo, 6.000 banquinhos antigos de madeira, alusão à China rural.

CASA DO BIQUÍNI

Posta de escanteio depois da Queda do Muro, quando os investimentos se concentraram no lado oriental, Berlim Ocidental refloresce. Enquanto a Ku'damm, avenida glamorosa décadas atrás, voltou a receber grifes internacionais, foi reinaugurada a Bikinihaus ("casa do biquíni"), um shopping center com grifes de Berlim. Ela fica ao lado do jardim zoológico, região ainda "barra pesada", celebrizada no filme "Eu, Christiane F." (1981).

O apelido do prédio, dos anos 50, se deve ao fato de que o projeto original lembraria a peça de banho: uma construção baixa e retangular, dividida em duas partes. A abertura ocorre poucos após a reinauguração do prédio vizinho, o Zoo Palast, cinema mais tradicional da cidade, da mesma época e, por décadas, sede da Berlinale.

SILVIA BITTENCOURT, 48, é jornalista, autora de "A Cozinha Venenosa" (Três Estrelas). 


 [Fonte: www.folha.com.br]

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Achincalhes e santos dominam festa literária em Bogotá

Vargas Llosa de saia justa

Por SYLVIA COLOMBO

A Feira Internacional do Livro de Bogotá (Filbo), que se realiza até amanhã na capital colombiana, foi motivo de pelo menos duas saias justas para o Nobel peruano Mario Vargas Llosa.

Tendo o Peru como país-tema, o evento tinha tudo para ser um palco de pura celebração ao autor de "Conversa no Catedral" (Alfaguara). Mas sua festa foi azedada, a princípio, pela morte do desafeto Gabriel García Márquez.

Em entrevistas e nas duas palestras que fez, foi obrigado a tecer-lhe elogios e a reconhecer a grandeza da obra do Nobel colombiano, com quem, num passado distante, disputou a própria mulher e a posição de maior escritor do "boom latino-americano".

"'Cem Anos de Solidão' ficará como um dos grandes textos da história da literatura. Não sei dizer o que acontecerá com os meus."

A segunda saia justa aconteceu em sua principal fala, em entrevista ao colombiano Juan Gabriel Vásquez, no auditório do evento, para um público de mais de mil pessoas. Um homem levantou subitamente e acusou Vargas Llosa de manter um vínculo político com o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe. Indignado, rasgou um dos livros do Nobel.

Desta o peruano saiu-se muito bem: "Vocês, fundamentalistas, começam rasgando livros, depois saem matando gente. Obrigado pela sua intervenção. É por causa de pessoas como você que escrevemos os livros que escrevemos. Desejo-lhe uma longa vida".

BRONCA BARULHENTA

A eleição presidencial do próximo 25 de maio esteve presente em algumas das participações dos autores. A voz mais dura foi a do já renomado barulhento Fernando Vallejo, que há décadas radicou-se no México por conta de sua insatisfação com os colombianos. Para o autor de "A Virgem dos Sicários" (Companhia das Letras), os problemas de seu país-natal são a hipocrisia dos poderosos, a estrutura das famílias, que considera ditatorial, o poder da Igreja Católica e a ignorância de seus conterrâneos.

Ele atacou o atual presidente e candidato a reeleição Juan Manuel Santos, que, em negociações para resgatar a paz no país, propõe que as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) possam ter representação no Congresso para defender "seus ideais". "Matar, estuprar, sequestrar, extorquir, explodir torres de eletricidade e oleodutos, recrutar crianças, semear minas terrestres, isso são ideais? E sentados no Congresso? No covil de Ali Babá junto com os bandidos que temos por lá?"

SANTO CHESTERTON

Enquanto a mídia local e a estrangeira perdiam-se em discussões sobre quem foi melhor -Gabo ou Vargas Llosa-, novos autores colombianos conquistaram o público de forma inesperada. É o caso de Juan Esteban Constaín, 35, autor de "El Hombre que No Fue Jueves".

À diferença dos escritores que costumam brilhar nesse tipo de eventos, Constaín é tímido, veste-se como um velho professor e demonstra erudição a cada declaração. Historiador e especialista em línguas clássicas, Constaín trata, em seu romance, da proposta de canonização do escritor britânico G.K. Chesterton, considerada de fato no Vaticano após a morte do autor. Constaín afirmou que queria jogar luz sobre a política por trás das canonizações e discutir a literatura em sua dimensão "sagrada".

CADEIRA VAZIA

Num momento em que os principais jornais colombianos, como "El Tiempo" e "El Espectador", se encontram alinhados à direita e em crise pelo esvaziamento publicitário, um site financiado por uma fundação norte-americana (Open Society, de George Soros) vem ganhando espaço no mercado jornalístico. Assim como os projetos "El Faro" (El Salvador), "Animal Político" (México) e "La Patilla" (Venezuela), "La Silla Vacía" centra suas reportagens no mundo do poder e no que acontece na Colômbia profunda, dos enfrentamentos com o narcotráfico às mobilizações agrárias e aos conflitos da mineração.

A Redação conta com uma equipe de oito pessoas, encabeçada pela jornalista Juanita León. "Acho que encontramos um caminho de receita, juntando doações a oficinas e publicações, por meio do qual é possível manter a independência financeira e política", disse ela à Folha. "La Silla Vacía" já coleciona furos importantes, como o anúncio de que a Corte Suprema impediria a reeleição de Uribe. Eles acabam de lançar um livro de perfis políticos colombianos atuais.

Nota: A jornalista viajou a convite da Investin Bogotá

SYLVIA COLOMBO, 42, é repórter especial da Folha e assina o blog "Latinidades" no site do jornal. 


[Fonte: www.folha.com.br]


domingo, 1 de setembro de 2013

Terrinha à vista, em 360º

Por ISABEL COUTINHO
de LISBOA

Há um novo mirante na cidade de onde se pode ver Lisboa em todo o seu esplendor. Fica no alto do arco da rua Augusta, monumento que começou a ser pensado em 1759, a seguir ao terramoto, e foi concluído em 1875.

A Associação Turismo de Lisboa, que gere o espaço, fez um investimento de 950 mil euros para restaurá-lo e instalar um elevador que permite que o monumento seja agora visitável. Está aberto ao público desde o dia 9 de agosto.

Para chegar ao topo do arco, vai-se de elevador, mas depois é preciso subir dezenas de degraus para se chegar ao salão (onde fica a maquinaria do relógio) e, mais ainda, de uma escada em caracol para se chegar ao mirante.

Dali se vê o Terreiro do Paço (a praça com a estátua equestre de D. José 1º, também restaurada), o Cais das Colunas, a ponte sobre o rio Tejo, o Cristo-Rei do outro lado do rio, a Baixa Pombalina, a Sé e o castelo de São Jorge. O arco da rua Augusta, que tem a inscrição "Às virtudes dos maiores, para que sirva a todos de ensinamento", pode ser visitado das 9h às 19h, todos os dias, e o bilhete custa 2,50 euros. A vista e o restauro têm deixado todos maravilhados.

FADO MUSICAL

Lisboa também anda entusiasmada com uma nova fadista que veio do norte de Portugal. O primeiro disco de Gisela João, 29, acaba de sair (está à venda no iTunes) e a crítica foi unânime. Desde o aparecimento de Carminho que não se ouviam elogios assim.

Tudo começou quando Gisela, ainda criança, ouviu na rádio a fadista Amália a cantar "Que Deus me perdoe". Achou que a canção falava do que ela sentia. "Isto sou eu, caraças", pensou a rapariga, que comprou então uma fita com as músicas da diva e sozinha, no quarto, imitava-a.

Sua mãe adorava Elis Regina, mas em casa ninguém ouvia fado. Mais tarde, quando em Barcelos abriu uma casa de fado Adega Lusitana, Gisela foi para lá cantar. Mudou-se para o Porto; de dia trabalhava numa loja, de noite cantava fado.

Conheceu o fadista Helder Moutinho, que a trouxe a Lisboa, à casa de fados Sr. Vinho (www.srvinho.com), onde a fadista Maria da Fé a convidou a fazer parte do elenco.

Gisela João já cantou com Nicolas Jaar, gravou com o brasileiro Pierre Aderne ("Um Lugar pra Ficar") e cantou "Os Argonautas", de Caetano, no filme "Lisbon Soul of Music", de João Botelho. Tal como o verso de uma das canções que ela canta: "Não é fadista quem quer, mas sim quem nasceu fadista".

QUERO SER CASANOVA

John Malkovich está em Lisboa a gravar o filme "As Variações de Giacomo", de Michael Sturminger. Depois de interpretar Giacomo Casanova (1725-98) na ópera de mesmo nome, também dirigida por Sturminger, agora vai encarnar o famoso libertino no cinema.

Produzido por Paulo Branco, o filme será inteiramente rodado em Portugal. Malkovich atuará com o tenor Jonas Kaufmann no teatro Nacional de São Carlos, onde se passa grande parte do longa.

O ator norte-americano irá cantar na produção. "Irei abrir a boca e vamos ver o que sairá", brincou.

A exemplo do que ocorria no filme "Quero Ser John Malkovich" (1999), faz o papel dele mesmo na parte do novo projeto que se passa nos dias de hoje.

A ideia foi do diretor do novo longa, mas Malkovich encontra uma explicação para ela. "Casanova era uma celebridade, as histórias que se contavam sobre ele podiam não ter nenhuma base factual. Isso acontece comigo e com qualquer figura pública."

CINEMA EM TRANSE

Nesta semana foi lançada uma petição à Assembleia da República em defesa da Cinemateca Portuguesa, reagindo às notícias de que a instituição está a lutar para não fechar as portas por falta de verbas.

Há duas semanas a diretora da Cinemateca, Maria João Seixas, disse que a instituição corria o risco de suspender as atividades já neste mês.

Parte do orçamento da Cinemateca vem das receitas provenientes da taxa cobrada sobre a publicidade televisiva.

Como houve uma quebra acentuada nessas receitas, foi necessário nos últimos meses arranjar dinheiro de outra forma.


O secretário de Estado da Cultura português, Jorge Barreto Xavier, já veio assegurar que a Cinemateca não vai fechar, mas não disse ainda como vai resolver o problema do financiamento. 

[Fonte: www.folha.com.br]

domingo, 18 de agosto de 2013

Arte fora de controle

SILVIA BITTENCOURT
DE BERLIM

Quais são os limites da arte? É o que vêm perguntando os críticos alemães sobre dois artistas famosos do país, o rapper Bushido e o performer Jonathan Meese.

Bushido, 35, acaba de ver sua música "Stress ohne Grund" (estresse sem motivo) entrar temporariamente para o "índex" de obras prejudiciais à juventude.

O texto incita a violência contra homossexuais e políticos alemães, entre eles a líder do partido verde: "Atiro em Claudia Roth e ela ganha buracos como num campo de golfe", diz um dos versos.

Quando ficou famoso, cerca de dez anos atrás, o berlinense Bushido, filho de pai tunisiano, tornou-se um exemplo para a integração de imigrantes na Alemanha.

Fato é, porém, que ele sempre esteve na mira da polícia: na juventude, por pequenos delitos; agora por envolvimento no crime organizado e por suas declarações homofóbicas, antissemitas e machistas.

Já o pintor, escultor e artista performático Jonathan Meese, 43, está sendo processado porque fez nas suas últimas aparições o chamado "Hitlergruss" -a saudação nazista, com o braço direito esticado, proibida na Alemanha. É acusado de empregar "sinais de organizações inconstitucionais".

Meese é conhecido por suas performances caóticas e megalomaníacas, nas quais frequentemente se ocupa de personalidades controvertidas como Hitler, Friedrich Nietzsche e Richard Wagner. O "Hitlergruss", diz ele, seria apenas um elemento de seu show e não uma declaração política.

Bushido e Meese não foram os primeiros artistas a passar dos limites, na visão das autoridades. Em 1997, o diretor Christoph Schlingensief (1960-2010) foi preso ao divulgar um cartaz, na exposição Documenta de Kassel, contra o então chanceler do país: "Matem Helmut Kohl". E em 2008 foi a vez de Anselm Kiefer polemizar, expondo oito autorretratos com a saudação nazista.

ROMANCE DE VERÃO

Königsallee (alameda do rei) é o nome do mais famoso boulevard de Düsseldorf. E é o título e o palco do último romance de Hans Pleschinski, que ali conta um episódio (fictício) da vida do escritor e Prêmio Nobel Thomas Mann (1875-1955).

A história se passa em 1954, poucos anos depois de Mann retornar do exílio americano à Europa. O escritor visita Düsseldorf para apresentar o livro "Confissões do Impostor Felix Krull". E ali encontrará, para sua surpresa, o comerciante Klaus Heuser, uma antiga paixão do final dos anos 1920.

Pleschinski mistura ficção e não ficção (a visita de Mann a Düsseldorf e o reencontro com Heuser não aconteceram, mas o seu antigo caso de amor, sim), traz passagens divertidas sobre o circo montado em torno do escritor e anotações tiradas dos diários de Thomas Mann -entre elas, as que assumem a paixão pelo jovem 35 anos mais moço.

Também faz alusão a várias obras do escritor, sobretudo "Carlota em Weimar" -que narra um reencontro amoroso entre Goethe e sua amada Lotta.

PRECIOSIDADES

Acaba de ser inaugurado o primeiro arquivo on-line para textos jornalístico-literários alemães: www.waahr.de. Criado por três jornalistas e escritores, Anne Waak, Joachim Bessing e Ingo Niemann, o arquivo traz tanto artigos inéditos como textos antigos de publicações já extintas.

O serviço tem também o objetivo de fomentar o jornalismo literário alemão -na tradição do "new journalism" americano, no qual o repórter escreve textos subjetivos, envolvendo-se com a sua história. O título "waahr" joga com a palavra "wahr" em alemão ("verdadeiro"), sugerindo, segundo disse Waak à Folha, uma coleção de "verdades subjetivas".

Os artigos mais antigos são do escritor Heinrich von Kleist (1777-1811). Também se encontram textos de Marc Fischer (1970-2011), autor de "Ho-ba-la-lá - À Procura de João Gilberto" (Companhia das Letras).

AEROPORTO

Até hoje os berlinenses não sabem o que fazer com o imenso prédio do antigo aeroporto de Tempelhof, no centro da cidade. Desativado em 2008, o campo com as pistas de pouso e decolagem tornou-se uma enorme área de lazer para os habitantes da capital.

A questão agora é o destino do prédio tombado do aeroporto. Ele já vem servindo a eventos culturais, como shows e desfiles de moda. Mas, para continuar de pé, precisaria de uma reforma que custaria milhões de euros.

Inaugurado no final dos anos 1920, o aeroporto de Tempelhof foi ampliado na década de 30, transformando-se numa construção monumental, típica da arquitetura nazista.

Ficou famoso no auge da divisão da Alemanha, no início dos anos 1960, quando os americanos instalaram ali uma ponte-aérea para abastecer a população de Berlim Ocidental, ilhada pelo Muro. 

[Fonte: www.folha.com.br]

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Petição contra Acordo Ortográfico vai a plenário em São Bento

A petição “Pela desvinculação de Portugal ao ‘Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa’ de 1990”, com 6212 assinaturas, vai ser discutida em plenário na Assembleia da República. A decisão foi tomada na Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, onde foi aprovado, a 16 de Julho, um relatório nesse sentido.

No relatório que dá provimento à petição e a remete agora para plenário, assinado pelo deputado relator Michael Seufert, refere-se (pág.18) que “é um facto objectivo que, tirando os académicos envolvidos na elaboração do próprio Acordo, é difícil encontrar uma opinião da academia portuguesa favorável ao acordo – por razões variadas.”

No mesmo documento (pág. 21), antes da emissão do parecer, escreve o deputado relator: “Pouco há a assinalar contra reformas ortográficas que assinalem as normais e duradouras mudanças que as línguas sofrem ao longo dos anos. Não é o caso desta. Como os países de língua portuguesa evoluem o ‘seu’ Português de forma independente, uma reforma ortográfica clara e simplificadora provavelmente criaria mais diferenças do que identidades entre as várias formas de Português. Não viria mal ao mundo por isso e seria mais útil para cada um dos povos que escreve Português do que criar uma “ortografia unificada de língua portuguesa” de utilidade duvidosa. Aliás, de alguma maneira essa ortografia unificada contraria a própria história.”

A petição “Pela desvinculação de Portugal ao ‘Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa’ de 1990”, que é subscrita por Ivo Miguel Barroso, Madalena Homem Cardoso e outros, num total de 6212 assinaturas, foi entregue na Assembleia da República a 26 de Abril deste ano. O seu destino inicial era a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, já que os peticionários suscitaram, em relação ao Acordo Ortográfico, “várias questões de constitucionalidade”. Mas, apesar do protesto (e do recurso) dos autores da petição, esta foi remetida à Comissão de Educação, Ciência e Cultura, que no dia 2 de Julho ouviu alguns dos peticionários.

A par disto, o grupo de trabalho criado naquela comissão “para acompanhamento do Acordo Ortográfico” decidiu adiar o seu relatório final, que deverá ser apresentado na próxima semana, na terça ou na quarta-feira. A deputada Rosa Arezes, membro do grupo, disse à Lusa que a votação foi adiada “para que sejam feitos pequenos ajustes nas conclusões”. “Achou-se por bem tecer alguns comentários, algumas considerações finais e alguns pormenores técnicos, em resultado das audições realizadas pelo grupo de trabalho e dos contributos apresentados no site da Assembleia da República e em comunicações escritas”, referiu a deputada socialdemocrata.

[Fonte: www.publico.pt]


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Diário de Lisboa - Nas Festas de Lisboa, a Alfama é um demónio

ISABEL COUTINHO

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE LISBOA

Nas Festas de Lisboa, que acontecem entre 12 e 13 de junho --dia de Santo António, o padroeiro da cidade-- os eléctricos vão da Baixa até ao Castelo decorados com sardinhas, e exposições são dedicadas às manjuas. Em "Há que Ter Lata", a artista alemã Antje Weber, residente na cidade, trabalhou em latas de sardinhas; "A Sardinha É de Todos" mostra o que vários ilustradores criaram ao longo de dez anos em que o peixe tem sido a marca oficial das festas da cidade (festasdelisboa.com).

"A nossa marcha é linda!", ouve-se gritar em Alfama à passagem das raparigas de saia rodada, arquinhos e balões, que percorrem o bairro antes do grande dia em que desfilam na avenida da Liberdade disputando o prémio de melhor marcha popular com os outros bairros de Lisboa. "Ié, ié, ié, Alfama é que é!", é outro dos pregões. Esta é a semana em que o tradicional bairro lisboeta se transforma em "demónio", como canta a fadista Carminho.

Em vésperas do dia de santo António, não há vizinho que não tente a sorte e improvise. De martelo, pregos e tábuas na mão, todos são carpinteiros por umas horas. E mesmo aqueles que não se falam durante o ano inteiro juntam esforços para ganhar uns cobres.

Por estes dias, as ruas do bairro são invadidas por mesas, bancos e barracas para vender cerveja, e fogareiros são colocados à porta das casas. As crianças vão montando os tronos de santo António para pedirem moedinhas, vendem-se manjericos com quadras populares e, quando chega a noite, em cada esquina, beco, escadinha, rua estreitinha, há um bailarico. Lá diz a canção "risos gargalhadas, fados desgarradas, hoje Alfama é um demónio...".

E o demónio venceu a 81ª edição das Marchas Populares, com 24 pontos de vantagem sobre o segundo colocado, o bairro Alto do Pina.

AQUI HÁ GATO!

Numa cidade debochada e devotada à sardinha há que ter um gato. Ricardo Araújo Pereira, conhecido no país por RAP, é um dos quatro humoristas do Gato Fedorento.

Apesar de não se juntarem em televisão há mais de três anos, no ano passado os portugueses iam para o trabalho a ouvir Mixórdia de Temáticas, a rubrica de RAP nas manhãs da rádio Comercial.

Embora para muitos brasileiros o RAP seja o cara que sugou pudins no sofá do Jô Soares em 2012, em Portugal ele acaba de receber o Grande Prémio da Crónica atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores. Algumas das crónicas estão publicadas no Brasil no livro "Se Não Entenderes Eu Conto de Novo, Pá" (Tinta da China).

Em Portugal, Ricardo coordena também uma colecção de literatura de humor. O humorista e escritor português regressa ao Brasil para o Risadaria, onde se apresenta de 19 a 23 de junho. Não percam.

PARA ALÉM DA LITERATURA

Miguel Sousa Tavares acaba de lançar um novo romance, "Madrugada Suja", pelo qual desfilam os últimos 30 anos da vida portuguesa, a corrupção política e o Alentejo. Mas o lançamento do livro passou ao segundo plano, quando, numa entrevista ao "Jornal de Negócios", teve um "deslize": "Beppe Grillo [comediante italiano, candidato à Presidência]? Nós já temos um palhaço. Chama-se Cavaco Silva [o presidente português]".

A Procuradoria-Geral da República abriu um inquérito, considerando que as declarações do escritor são susceptíveis de integrar a prática do crime de ofensa à honra do Presidente da República (punível com pena de prisão ou multa).

Miguel admitiu ter sido "excessivo" e reconheceu que não o devia ter dito, apesar de as palavras terem sido dirigidas ao homem político.

LÍNGUA COMUM

A entrega do Prémio Camões a Mia Couto reuniu Cavaco Silva, a presidente Dilma Rousseff e o escritor moçambicano no Palácio de Queluz. Aconteceu na última segunda, que além de Dia de Portugal e de Camões, foi também o dia do encerramento do Ano do Brasil em Portugal. E vai deixar saudades.

Uma das frases mais belas dos discursos coube a Dilma: "Aos brasileiros, a obra de Mia Couto tem ajudado a descobrir muitas Áfricas para além daquela guardada nos sonhos e na memória de nossos inegáveis laços históricos".

Mia Couto deixou uma mensagem de esperança para os três países: "Pensamos que um prémio serve para celebrar o que já fizemos, prefiro pensar que um prémio serve para o que há ainda para fazer", para que "seja mais viva e mais verdadeira esta família que celebramos nesta língua comum". 

[Fonte: www.folha.com.br]

domingo, 19 de maio de 2013

A rixa que cortou o barato da Feira do Livro de Buenos Aires

Por SYLVIA COLOMBO


A 39ª edição da Feira do Livro de Buenos Aires terminou na última semana, reunindo mais de 1 milhão de visitantes e marcando aumento de 45% do faturamento, um recorde. As palestras internacionais, principalmente as de J.M. Coetzee, Cees Nooteboom e Laura Esquivel, ocorreram com salas superlotadas. O espanhol Arturo Pérez-Reverte conquistou o público evocando a Buenos Aires do começo do século 20, tema de seu livro mais recente, "Tango de la Guardia Vieja".

A edição homenageou a cidade de Amsterdã, trazendo um exército de escritores holandeses e criando um agradável espaço de palestras e convívio no centro da feira, onde falou, entre outros, o brasileiro Milton Hatoum.

No ano que vem, após esforços notáveis da embaixada do Brasil e considerando um crescente aumento de interesse pela literatura brasileira, a homenageada será São Paulo. Entre os nomes veiculados como possíveis convidados estão Ferréz, Arnaldo Antunes, Nuno Ramos e Lourenço Mutarelli.

A "buena onda" da feira, porém, acabou durante o seu encerramento, quando surgiram as dúvidas sobre onde será realizada no ano que vem. O governo federal quer levá-la ao parque Tecnópolis, fora de Buenos Aires, enquanto o da cidade (anti-kirchnerista) e seus frequentadores tradicionais defendem que siga sendo realizada na Rural, agradável pavilhão no meio dos bosques de Palermo.

"Será o mesmo impacto negativo que houve em São Paulo, quando tiraram a bienal do Ibirapuera. Uma pena", disse à Folha Gabriela Adamo, diretora do evento.

INDEPENDENTES EM ALTA

Enquanto os estandes de grandes editoras não fugiram do convencional --grande mercado de livros, espaços para autógrafos e filas imensas-- as pequenas e independentes resolveram se juntar e enfrentar unidas o desafio de atrair os leitores.

Deu mais do que certo: o estande 7logos, reunindo sete editoras independentes, ganhou o prêmio de melhor da feira. Todos os selos envolvidos apostam em títulos alternativos de autores celebrados, produção nacional jovem, literatura brasileira e poesia. É o caso da bela edição de crônicas de Clarice Lispector lançada pela Adriana Hidalgo Editora, ou a estreia literária da celebrada Selva Amada, elogiada por nada menos que Beatriz Sarlo e que lançou "Ladrilleros" pela Mardulce.

Outras editoras presentes foram a Eterna Cadencia, que também possui a mais charmosa livraria de Palermo e um blog cultural, e a Beatriz Viterbo, que traduziu Hatoum. O 7logos lançou também uma conta de Twitter, em que anunciava os eventos no estande e a presença de autores.

O local virou ponto de encontro, ao final das palestras, tanto de escritores de outros selos, curiosos com os títulos novos e raridades das editoras, como de jornalistas.

O JOGO DA AMARELINHA

O legado da obra de Julio Cortázar (1914-84) passa por um momento de reavaliação na Argentina. Enquanto começam a surgir alguns críticos que o consideram superestimado, ao mesmo tempo o autor de "Histórias de Cronópios e de Famas" arrebatou a nova geração de escritores, muitos deles tendo chegado ao autor por meio de um de seus fãs, o chileno Roberto Bolaño (1953-2003).

O debate certamente será reavivado agora, quando algumas efemérides motivarão reedições e reinterpretações de sua obra. Em junho de 2013, completam-se os 50 anos do lançamento de "O Jogo da Amarelinha", que receberá uma luxuosa edição comemorativa pela Alfaguara. O volume contará com um apêndice do próprio Cortázar, contando como foi feito o livro. Já em 2014, será a vez das efemérides pessoais, o centenário de seu nascimento, em 26 de agosto, e os 30 anos de sua morte, em 12 de fevereiro.

HISTÓRIA NO TEATRO

Em meio à vasta oferta de peças teatrais que estrearam em Buenos Aires agora no outono, quando o ano cultural realmente começa, está "Camila", uma adaptação para os palcos de um clássico local, baseado em uma história verídica.

Em 1983, o filme homônimo de María Luisa Bemberg foi um sucesso de público e crítica, ao investigar a cultura e os hábitos do século 19 argentino, através do romance de uma filha de um aristocrata portenho com um padre de Tucumán. O casal resolve escapar, mas acaba encontrado e fuzilado, por ordens do então ditador Juan Manuel de Rosas (1793-1877). A peça está em cartaz no Teatro Lola Membrives. 

[Fonte: www.folha.com.br]

terça-feira, 30 de abril de 2013

Joana Vasconcelos, a artista que transpira Portugal em Veneza

Por ISABEL COUTINHO

O que é que Joana Vasconcelos tem? Transpira Portugal. Depois de o ano passado se ter tornado a primeira mulher e a mais jovem artista a expor no Palácio de Versalhes, numa exposição que foi visitada por 1,7 milhão de pessoas, Joana Vasconcelos --que em 2008 expôs na Pinacoteca do Estado de São Paulo-- é a representante de Portugal na 55.ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza.

E já que neste ano Portugal não teria possibilidade de ter um pavilhão, a artista teve a ideia de levar o cacilheiro Trafaria Praia, barco que faz o transporte de passageiros entre as margens do rio Tejo, que servirá de pavilhão português.

O Trafaria Praia tem estado no estaleiro da Navaltagus, no Seixal, a ser transformado para que a parte de cima do barco possa ser forrada a cortiça para ser utilizada como um palco, onde possam acontecer concertos, conferências, mesas-redondas. O exterior vai ser forrado de azulejos azuis e brancos, pintados à mão pelo artista Jorge Nesbitt e feitos pela tradicional fábrica da Viúva Lamego. 


O desenho mostrará a Lisboa de hoje, mas a inspiração veio do famoso painel "Grande Panorama de Lisboa" (c. 1700), atribuído a Gabriel del Barco. A artista e o comissário Miguel Amado querem que o cacilheiro funcione em Veneza como "uma montra de Portugal" e por isso terão uma loja a bordo com produtos "made in Portugal".

Por tudo isto o secretário de Estado da Cultura português, João Barreto Xavier, na apresentação do projecto à imprensa disse que "ao apresentar-se em Veneza, [a artista] não é só a Joana, é a Joana de Lisboa, a Joana de Portugal".

LUSTRE DE TAMPÕES

"A Noiva" é uma das obras mais emblemáticas de Joana Vasconcelos. É um gigantesco lustre feito com 20 mil tampões higiénicos femininos que foi exposto pela primeira vez na Bienal de Veneza de 2005, mas a peça foi excluída da mostra em Versalhes porque a organização considerou que não se adequava àquele espaço e a censurou.

O que não viram os franceses pode ser admirado na sala d. João 4º, do Palácio da Ajuda, em Lisboa, onde até 25 de agosto está a exposição com 38 das obras criadas pela artista na última década. Outras das suas obras mais conhecidas, como o "Coração Independente Vermelho" está na sala d. João 6º e os gigantes sapatos "Marilyn", feitos de panelas, estão na sala do trono.

O desafio que a artista lançou foi colocar o património histórico e o contemporâneo em diálogo.

ACORDO ORTOGRÁFICO

Dizem que sem Vieira não teríamos a língua que temos. A "Obra Completa" do padre António Vieira (1608-97), que inclui cartas, sermões, profecias, política, poesia e teatro, está a ser publicada pela Círculo de Leitores com direcção do historiador José Eduardo Franco e do filósofo Pedro Calafate.

São 30 volumes organizados em quatro tomos --Epistolografia, Paranética, Profética, Varia--, mais de 12 mil páginas que incluem documentos inéditos e a publicação dos escritos em latim (agora traduzidos).

O projecto, que deverá estar concluído até 2014, tem uma equipa com mais de 30 especialistas, portugueses e brasileiros, a trabalhar nele. Mas quando saíram os primeiros volumes, iniciou-se a polémica.

O escritor Vasco Graça Moura considera esta "uma das mais importantes iniciativas editoriais que, nos últimos tempos, terá tido lugar no mundo da língua portuguesa". Porém, vê "um grave problema": "A edição pretende pautar-se pela norma ortográfica em vigor e afinal aplica uma norma que não está em vigor nem nunca esteve, e que é a do Acordo Ortográfico." E pergunta: "Viverão num mundo nefelibata? Ignoram a polémica e os problemas? Não sabem que há hoje três grafias divergentes a serem aplicadas no mundo da língua portuguesa?"

José Eduardo Franco respondeu-lhe: "Este era um projecto luso-brasileiro e uma das formas de nos entendermos foi cumprir o contrato e usar a norma em vigor. Há leis de que gostamos mais e outras menos. Não há acordos perfeitos."


SARAMAGO EXPLICA-SE

Em 1997, na Universidade de Turim, José Saramago fez uma palestra de improviso. "A Estátua e a Pedra" foi gravada, transcrita e posteriormente revista e acrescentada por ele. Tem agora uma edição bilíngue, em português e espanhol, da Fundação José Saramago com apoio da Alfaguara.

Foi lançada no dia 19 na Feira do Livro de Bogotá, onde Portugal é o país convidado, e já está nas livrarias portuguesas. É uma reflexão sobre os seus livros e o medo de que se lhe esgotasse a capacidade criadora e não tivesse outro remédio senão deixar de escrever. 

[Fonte: www.folha.com.br]