Vargas
Llosa de saia justa
Por SYLVIA COLOMBO
A Feira Internacional do Livro de Bogotá (Filbo), que se
realiza até amanhã na capital colombiana, foi motivo de pelo menos duas saias
justas para o Nobel peruano Mario Vargas Llosa.
Tendo o Peru como país-tema, o evento tinha tudo para ser um
palco de pura celebração ao autor de "Conversa no Catedral"
(Alfaguara). Mas sua festa foi azedada, a princípio, pela morte do desafeto
Gabriel García Márquez.
Em entrevistas e nas duas palestras que fez, foi obrigado a
tecer-lhe elogios e a reconhecer a grandeza da obra do Nobel colombiano, com
quem, num passado distante, disputou a própria mulher e a posição de maior
escritor do "boom latino-americano".
"'Cem Anos de Solidão' ficará como um dos grandes
textos da história da literatura. Não sei dizer o que acontecerá com os
meus."
A segunda saia justa aconteceu em sua principal fala, em
entrevista ao colombiano Juan Gabriel Vásquez, no auditório do evento, para um
público de mais de mil pessoas. Um homem levantou subitamente e acusou Vargas
Llosa de manter um vínculo político com o ex-presidente colombiano Álvaro
Uribe. Indignado, rasgou um dos livros do Nobel.
Desta o peruano saiu-se muito bem: "Vocês,
fundamentalistas, começam rasgando livros, depois saem matando gente. Obrigado
pela sua intervenção. É por causa de pessoas como você que escrevemos os livros
que escrevemos. Desejo-lhe uma longa vida".
BRONCA BARULHENTA
A eleição presidencial do próximo 25 de maio esteve presente
em algumas das participações dos autores. A voz mais dura foi a do já renomado
barulhento Fernando Vallejo, que há décadas radicou-se no México por conta de
sua insatisfação com os colombianos. Para o autor de "A Virgem dos
Sicários" (Companhia das Letras), os problemas de seu país-natal são a
hipocrisia dos poderosos, a estrutura das famílias, que considera ditatorial, o
poder da Igreja Católica e a ignorância de seus conterrâneos.
Ele atacou o atual presidente e candidato a reeleição Juan
Manuel Santos, que, em negociações para resgatar a paz no país, propõe que as
Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) possam ter representação no
Congresso para defender "seus ideais". "Matar, estuprar,
sequestrar, extorquir, explodir torres de eletricidade e oleodutos, recrutar
crianças, semear minas terrestres, isso são ideais? E sentados no Congresso? No
covil de Ali Babá junto com os bandidos que temos por lá?"
SANTO CHESTERTON
Enquanto a mídia local e a estrangeira perdiam-se em
discussões sobre quem foi melhor -Gabo ou Vargas Llosa-, novos autores
colombianos conquistaram o público de forma inesperada. É o caso de Juan
Esteban Constaín, 35, autor de "El Hombre que No Fue Jueves".
À diferença dos escritores que costumam brilhar nesse tipo
de eventos, Constaín é tímido, veste-se como um velho professor e demonstra
erudição a cada declaração. Historiador e especialista em línguas clássicas,
Constaín trata, em seu romance, da proposta de canonização do escritor
britânico G.K. Chesterton, considerada de fato no Vaticano após a morte do
autor. Constaín afirmou que queria jogar luz sobre a política por trás das
canonizações e discutir a literatura em sua dimensão "sagrada".
CADEIRA VAZIA
Num momento em que os principais jornais colombianos, como
"El Tiempo" e "El Espectador", se encontram alinhados à
direita e em crise pelo esvaziamento publicitário, um site financiado por uma
fundação norte-americana (Open Society, de George Soros) vem ganhando espaço no
mercado jornalístico. Assim como os projetos "El Faro" (El Salvador),
"Animal Político" (México) e "La Patilla" (Venezuela),
"La Silla Vacía" centra suas reportagens no mundo do poder e no que
acontece na Colômbia profunda, dos enfrentamentos com o narcotráfico às
mobilizações agrárias e aos conflitos da mineração.
A Redação conta com uma equipe de oito pessoas, encabeçada
pela jornalista Juanita León. "Acho que encontramos um caminho de receita,
juntando doações a oficinas e publicações, por meio do qual é possível manter a
independência financeira e política", disse ela à Folha. "La Silla
Vacía" já coleciona furos importantes, como o anúncio de que a Corte Suprema
impediria a reeleição de Uribe. Eles acabam de lançar um livro de perfis
políticos colombianos atuais.
Nota: A jornalista viajou a convite da Investin Bogotá
SYLVIA COLOMBO, 42, é repórter especial da Folha e assina o blog "Latinidades" no site do jornal.
[Fonte: www.folha.com.br]
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