A 39ª edição da Feira do Livro de Buenos Aires terminou na última
semana, reunindo mais de 1 milhão de visitantes e marcando aumento de
45% do faturamento, um recorde. As palestras internacionais,
principalmente as de J.M. Coetzee, Cees Nooteboom e Laura Esquivel,
ocorreram com salas superlotadas. O espanhol Arturo Pérez-Reverte
conquistou o público evocando a Buenos Aires do começo do século 20,
tema de seu livro mais recente, "Tango de la Guardia Vieja".
A edição homenageou a cidade de Amsterdã, trazendo um exército de
escritores holandeses e criando um agradável espaço de palestras e
convívio no centro da feira, onde falou, entre outros, o brasileiro
Milton Hatoum.
No ano que vem, após esforços notáveis da embaixada do Brasil e
considerando um crescente aumento de interesse pela literatura
brasileira, a homenageada será São Paulo. Entre os nomes veiculados como
possíveis convidados estão Ferréz, Arnaldo Antunes, Nuno Ramos e
Lourenço Mutarelli.
A "buena onda" da feira, porém, acabou durante o seu encerramento,
quando surgiram as dúvidas sobre onde será realizada no ano que vem. O
governo federal quer levá-la ao parque Tecnópolis, fora de Buenos Aires,
enquanto o da cidade (anti-kirchnerista) e seus frequentadores
tradicionais defendem que siga sendo realizada na Rural, agradável
pavilhão no meio dos bosques de Palermo.
"Será o mesmo impacto negativo que houve em São Paulo, quando tiraram a bienal do Ibirapuera. Uma pena", disse à Folha Gabriela Adamo, diretora do evento.
INDEPENDENTES EM ALTA
Enquanto os estandes de grandes editoras não fugiram do convencional
--grande mercado de livros, espaços para autógrafos e filas imensas-- as
pequenas e independentes resolveram se juntar e enfrentar unidas o
desafio de atrair os leitores.
Deu mais do que certo: o estande 7logos, reunindo sete editoras
independentes, ganhou o prêmio de melhor da feira. Todos os selos
envolvidos apostam em títulos alternativos de autores celebrados,
produção nacional jovem, literatura brasileira e poesia. É o caso da
bela edição de crônicas de Clarice Lispector lançada pela Adriana
Hidalgo Editora, ou a estreia literária da celebrada Selva Amada,
elogiada por nada menos que Beatriz Sarlo e que lançou "Ladrilleros"
pela Mardulce.
Outras editoras presentes foram a Eterna Cadencia,
que também possui a mais charmosa livraria de Palermo e um blog
cultural, e a Beatriz Viterbo, que traduziu Hatoum. O 7logos lançou
também uma conta de Twitter, em que anunciava os eventos no estande e a
presença de autores.
O local virou ponto de encontro, ao final das palestras, tanto de
escritores de outros selos, curiosos com os títulos novos e raridades
das editoras, como de jornalistas.
O JOGO DA AMARELINHA
O legado da obra de Julio Cortázar (1914-84) passa por um momento de
reavaliação na Argentina. Enquanto começam a surgir alguns críticos que o
consideram superestimado, ao mesmo tempo o autor de "Histórias de
Cronópios e de Famas" arrebatou a nova geração de escritores, muitos
deles tendo chegado ao autor por meio de um de seus fãs, o chileno
Roberto Bolaño (1953-2003).
O debate certamente será reavivado agora, quando algumas efemérides
motivarão reedições e reinterpretações de sua obra. Em junho de 2013,
completam-se os 50 anos do lançamento de "O Jogo da Amarelinha", que
receberá uma luxuosa edição comemorativa pela Alfaguara. O volume
contará com um apêndice do próprio Cortázar, contando como foi feito o
livro. Já em 2014, será a vez das efemérides pessoais, o centenário de
seu nascimento, em 26 de agosto, e os 30 anos de sua morte, em 12 de
fevereiro.
HISTÓRIA NO TEATRO
Em meio à vasta oferta de peças teatrais que estrearam em Buenos Aires
agora no outono, quando o ano cultural realmente começa, está "Camila",
uma adaptação para os palcos de um clássico local, baseado em uma
história verídica.
Em 1983, o filme homônimo de María Luisa Bemberg foi um sucesso de
público e crítica, ao investigar a cultura e os hábitos do século 19
argentino, através do romance de uma filha de um aristocrata portenho com
um padre de Tucumán. O casal resolve escapar, mas acaba encontrado e
fuzilado, por ordens do então ditador Juan Manuel de Rosas (1793-1877). A
peça está em cartaz no Teatro Lola Membrives.
[Fonte: www.folha.com.br]
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