terça-feira, 30 de junho de 2020

Dialetos

  Escrito por Eduardo Affonso
- Amiga, cansei de sororidade.
- Eu também. Desapeguei.
- Ficou tão quarta-feira passada...
- Nem me fale. Quando comecei a usar, ninguém usava. Agora...
- Daqui a pouco está sendo usada até em novela bíblica da Record.
- Junto com empoderamento. Lembra do pré-lançamento?
- Lindo. Só para convidadas. Evento VIP, garçons étnicos, música autossustentável. Depois...
- Depois virou arroz de festa, que nem empatia.
- Comigo foi saberes.
- Você foi no lançamento de saberes?
- Fui, menina! Usei saberes quando só aparecia em tese de Humanas.
- Que luxo! Quando saberes chegou, eu já estava na fase da objetificação e achei que não ia combinar.
- Objetificação tem que ter muito critério, ou fica over.
- Acho que cai bem com cultura do estupro e micromachismo, e olhe lá.
- Super cai bem!  E olha que micromachismo não é pra qualquer uma.
- Não mesmo. Tem que saber dosar. Tipo gaslighting.
- Gasligting era tudo, né?
- Mas sabe que eu era mais o combo mansplaining, manspreading e mantrrupting? Porque tinha uma leitura, dialogavam.
- Diferente de patriarcado e androcentrismo...
- Totalmente. Androcentrismo pede, sei lá, uma atitude com mais conceito.
- Bem na vaibe da misoginia e do feminicídio.
- Isso. Se bem que eu fique mais à vontade na disparidade de gênero, sabe como? Uma coisa light, cool, fim de tarde, apperol.  Nessa linha.
- E qual é a tendência para hoje? Fiquei vendo laive da Katy Perry até de madrugada, acordei tarde e nem tive tempo de me atualizar.
- Interseccionalidade.
- Jura? Amei!
- E dá pra usar com tudo.
- Amiga, só vou tirar essa máscara de avocado orgânico e começar a interseccionalizar agora mesmo.
- Mas interseccionaliza logo, porque acabei de ver que já estão usando no UOL. E quando isso acontece, já sabe, né?
- Sim. Daqui a pouco vira gratiluz.
- Vai lá. Beijo no coração, amiga! Gratiluz!
- Gratiluz, amada!

[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

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