Quem disser que entendeu “Dark”, a série
alemã cuja última temporada estreou semana passada na Netflix,
certamente estará mentindo. Porque o grande mérito da trama, que envolve
viagens no tempo e entre mundos alternativos, é colocar Tico e Teco em
pânico.
Nos acostumamos às novelas, em que tudo é
reiterado, regurgitado, concebido de modo que se possa brincar com o
gato no sofá ou levantar para pegar água na geladeira, sem perder o fio
de meada. Em “Dark” todos os fios permanecem, até o último minuto,
soltos – e desencapados. Piscou, perdeu. Não piscou, perdeu do mesmo
jeito.
Em que ano estamos? Depende. Tem hora que
é 2020, tem hora que é 1964 ou 1968. Por vezes é 2018, ainda no auge da
campanha eleitoral – ou nos vemos confinados em um perpétuo 1984, só
que no universo paralelo do Orwell.
(…)
Em “Dark” o presente influencia o
passado. Exatamente como acontece no Brasil, onde descobrimos que o
nazifascismo é agora, e temos que rever o que houve na Alemanha dos anos
30 e 40. Vivemos num apartheid e até o Valter Hugo Mãe embarcou na
narrativa do genocídio tupiniquim, o que exige reavaliação imediata das
tragédias da África do Sul, da Armênia, do Camboja, de Ruanda.
Se na série é difícil saber quem são Mikkel, Mads e Magnus, aqui temos Weintraub, Wajngarten e Wassef, que não ficam atrás. Se lá o paradoxo é uma personagem ser avó de si mesma (ih, esqueci de avisar que tinha espóiler!), aqui a questão é se seria Chauí um Olavo de franja, ou Olavo uma Chauí de cachimbo.
“Ele não quer salvar o mundo do mal. Ele é o Mal”, diz alguém em “Dark”. É ou não é puro Brasil isso daí?
“O bem e o mal são uma questão de perspectiva”, filosofa Mikkel – ou seria algum pregador do “ódio do bem” nas redes sociais?
“Não é estranho sentirmos aversão às pessoas que são mais parecidas
conosco?”, indaga-se o enigmático Adam – assumindo o que se passa na
mente dos que negam peremptoriamente qualquer simetria entre o que temos
hoje e o que tínhamos até alguns anos atrás.
Na política, como em “Dark”, o ontem e o
hoje (e, presumivelmente, o amanhã e o depois de amanhã) não se sucedem,
mas estão conectados em um círculo infinito. O eterno retorno do
populismo, do fascínio pelo autoritarismo e – desgraça pouca é bobagem –
do Centrão.
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