domingo, 16 de agosto de 2020

Enquanto isso, no cafezinho de uma corte suprema…

 Enquanto isso, no cafezinho de uma corte suprema…

Escrito por Eduardo Affonso

– Excelência…

– Bom dia, ilustríssimo.

– Um cafezinho, por favor. Vossa senhoria soltou hoje o preso que eu mandei prender ontem?

– Sim, vossa magnificência, mandei. Dois, por favor.

– Alicerçado em que jurisprudência, eminência? O meu sem açúcar.

– Adoçante para mim. Eu me basto jurisprudencialmente, vossa reverendíssima.

– Vossa santidade acha mesmo que pode fazer isso? Me vê um biscoitinho desses de nata.

– Posso, e não há nada que vossa alteza possa fazer. Um amanteigado pra mim.

– Vossa majestade imperial sabe que seu comportamento é teratológico – mais um, por favor – e exordialmente, incabível?

– Uma delícia esse amanteigado! Embrulha um pacotinho para eu levar para minha digníssima consorte. Vossa mercê está equivocado,

– Vossa graça exorbita. Um pacote para mim também, e pode misturar os de nata com uns de chocolate.

– Vossa alteza senhoril, summum jus, summa injuria. Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus.

– Salus populi suprema lex esto, mas vossa onipotência se acha o próprio onipotente!

– Ora ora, vejam quem fala! O egrégio meritíssimo que quer para si todos os méritos!

– Passar bem, insigne sumidade!

– Passar bem, supremo e excelso indigente togado!

(Os dois, em uníssono)

–  Pendura a conta, Onofre!

 

[Fonte: www.eduardoaffonso.com]

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