quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Os curdos e o regime sírio

A postura do novo regime sírio em relação às áreas controladas pelos curdos no norte contrasta com a sua postura em relação à ocupação israelita e à região de maioria drusa na fronteira com os montes Golã ocupados.

O povo curdo manifesta-se contra os ataques da Síria às áreas curdas no norte da Síria, Erbil, Iraque, 20 de janeiro de 2026. Erbil é a capital da região do Curdistão iraquiano.

Escrito por Gilbert Achcar

Os recentes desenvolvimentos no norte da Síria – particularmente a leste do Eufrates – têm graves implicações tanto para a situação curda como para a situação síria em geral. Vamos examinar essas implicações, começando pela questão curda.

A Administração Autónoma no nordeste da Síria encontra-se agora numa situação crítica, tendo perdido uma parte substancial do território que até então controlava. Essas perdas incluem enclaves predominantemente curdos localizados em regiões maioritariamente árabes, como Aleppo, bem como áreas predominantemente árabes a leste do Eufrates, nomeadamente Raqqa e Deir ez-Zor. A principal causa deste revés reside no abandono, por parte da administração Trump, da aliança que Washington tinha forjado há mais de uma década com as forças curdas da Síria na luta contra o ISIS. Tom Barrack, representante local da administração Trump, declarou cinicamente que a utilidade destas forças curdas para Washington tinha, em grande parte, expirado.

Mais uma vez, o movimento nacional curdo está a pagar o preço por confiar num aliado cuja falta de fiabilidade está comprovada historicamente. No início da década de 1970, o movimento curdo no norte do Iraque, liderado pela família Barzani, apostou no apoio do xá do Irão contra o regime baathista. Essa aposta terminou em desastre quando o xá traiu o movimento depois de garantir os seus próprios objetivos através de um acordo com Bagdade. Tendo usado o movimento curdo como um trunfo no seu confronto com o Iraque, ele livrou-se dele assim que alcançou os seus objetivos. Desde a década de 1990, a família Barzani aliou-se a mais um inimigo ferrenho do povo curdo: o Estado turco. Eles não apoiam as forças lideradas pelo Partido da União Democrática (PYD) no nordeste da Síria contra a Turquia e os seus aliados, assim como não apoiam as forças do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no norte do Iraque diante das repetidas incursões turcas. Em vez disso, procuram estender a sua influência ao norte da Síria com a aprovação de Ancara.

O PYD, por sua vez, também está a colher as consequências da contradição entre os princípios que proclama e as suas práticas reais. Embora o partido afirme aderir às ideias anarquistas defendidas pelo líder do PKK na prisão turca onde está detido e posteriormente adotadas pela sua organização, não conseguiu estabelecer um autogoverno democrático genuíno nas áreas de maioria árabe que conquistou com o apoio dos EUA a leste do Eufrates. Em vez de empoderar as comunidades locais, impôs a sua autoridade de uma forma amplamente encarada pela população árabe como domínio nacionalista curdo. Isto explica o rápido colapso das forças afiliadas ao PYD nessas regiões: as tribos árabes locais preferiram reintegrar-se no Estado sírio sob o novo regime de Damasco, especialmente quando Washington transferiu o seu apoio do movimento curdo para o governo sírio. Se as maiorias árabes nessas regiões tivessem vivido uma autogovernança democrática autêntica, sem dúvida estariam dispostas a defendê-la contra qualquer tentativa do regime de Damasco de desmantelá-la para reimpor a autoridade centralizada.

Passando para a situação síria de forma mais ampla, qualquer observador dos acontecimentos recentes não pode deixar de notar o contraste marcante entre a postura do novo regime sírio em relação às áreas controladas pelos curdos no norte e a sua postura em relação à ocupação israelita e à região de maioria drusa na fronteira com os montes Golã ocupados, no sul. Este contraste evoca o slogan levantado pela resistência palestiniana e pelo Movimento Nacional Libanês em 1976, na sequência da intervenção brutal do regime de Hafez al-Assad para os reprimir e alargar o controlo de Damasco sobre o Líbano com a aprovação de Washington: “Um leão [asad em árabe] no Líbano e um coelho no Golã”. Uma caracterização semelhante descreve adequadamente o comportamento do regime de Ahmed al-Sharaa, que age como um leão contra os curdos no norte, enquanto acomoda o Estado sionista – chegando ao ponto de celebrar acordos de segurança com ele – apesar da ocupação de uma parte estratégica do território sírio por quase meio século.

Independentemente do que se possa dizer sobre as políticas antidemocráticas seguidas pelo Hayat Tahrir al-Sham (HTS) na sua tentativa de consolidar o controlo sobre o território estatal sírio — políticas discutidas anteriormente (ver «Syria: Fishing in Troubled Waters», 6 de maio de 2025) –, existe, no entanto, uma distinção fundamental do ponto de vista dos interesses do novo regime entre, por um lado, alargar a sua autoridade sobre as áreas predominantemente árabes a leste do Eufrates, juntamente com os seus campos petrolíferos, que representam uma fonte vital de receitas para o Estado sírio, e, por outro lado, a continuação da sua campanha contra as regiões de maioria curda no norte, apesar do elevado custo potencial em vidas e recursos que tal campanha implica e embora não ofereça nenhum benefício significativo para o novo regime em Damasco.

Isto levanta uma questão óbvia: por que razão o HTS está a travar uma batalha de que não precisa, numa altura em que enfrenta prioridades políticas e económicas muito mais urgentes – prioridades que servem os seus próprios interesses, para não falar dos do país? A resposta está claramente nos interesses do Estado turco. A autonomia curda no nordeste da Síria constitui uma preocupação turca, enraizada na sua ligação ao movimento de libertação nacional curdo que desafia o próprio Estado turco a partir de dentro. Não é, nem deve ser, uma preocupação síria. O envolvimento do novo regime de Damasco neste conflito é simplesmente mais uma manifestação da sua subserviência à aliança Turquia-EUA, tal como o regime de Assad estava subordinado ao eixo Irão-Rússia. O principal beneficiário de toda esta dinâmica continua a ser o governo sionista, cujo poder regional foi reforçado de forma sem precedentes.


[Traduzido do original árabe publicado em Al-Quds al-Arabi - foto: Gailan Haji/EPA - reproduzido em www.esquerda.net]


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