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sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Nós, os latinos


Escrito por Sérgio Rodrigues

Termo familiar e estranho ajuda a ler cena antológica de 'Bacurau'

Numa das melhores cenas de "Bacurau", os dois brasileiros —ele de São Paulo, ela do Rio— que prestam serviços sujos para os psicopatas gringos sugerem ser brancos como eles.
Tomam pelas fuças uma rajada de risos de deboche e especulações racistas sobre a negritude da dupla, que é indiscutivelmente branca pelos padrões nacionais.
De repente, diante do ar humilhado do paulista, a americana mais bonitinha faz um elogio condescendente aos atrativos sexuais daquele "Latino". É dessa palavra que quero falar.
Conhecer melhor um termo ao mesmo tempo familiar e estranho ajuda a ler uma cena rica em camadas de racismo, autoengano, poder e subserviência. 
"Latino" (com a inicial maiúscula que o inglês confere a nacionalidades e línguas) é uma palavra que o inglês americano foi buscar nos anos 1940 na forma reduzida do espanhol "latinoamericano".
Importado para atender a uma necessidade do inglês, o termo logo seria devolvido com novas conotações aos latino-americanos, na esteira da influência cultural do idioma de Steve Bannon. 
A palavra tem como primeira acepção "americano de origem latino-americana". Além de compatriotas morenos, designa os habitantes dos países de língua espanhola das três Américas (não da Espanha, normalmente).
Isso mesmo: de língua espanhola. É assim que o vocábulo consta nos dicionários de inglês, como sinônimo de "Hispanic". Surge aí uma primeira questão.
Será que nós, brasileiros, que não somos hispano-americanos, estamos nesse pacote? E quando se trata de um brasileiro branquelo, filho por exemplo de alemães?

Embora o racismo comporte matizes —inclusive os que transcendem a cor da pele, regidos por fatores socioeconômicos—, o fato é que na prática nós, luso-americanos, estamos sim no círculo semântico de “Latino”.

Se paira alguma sombra sobre isso nos dicionários, ela se deve ao fato de os brasileiros não serem nos EUA (ainda?) uma força demográfica sequer remotamente comparável à dos hispânicos. Trata-se mais de invisibilidade que de distinção.

Latino-americanos somos, por mais que negar essa irmandade seja uma marca do racismo brasileiro. E reconheça-se que, para o cidadão americano branco médio, a ideia de uma distinção relevante entre subgrupos de latinoamericanos soa até esotérica.

Isso pode traduzir preconceito, mas faz sentido histórico. Não se trata de lembrar que a palavra latino-americano, em acepção secundaríssima, pode abarcar franceses do Canadá e ítalo-americanos de Chicago ou Nova York —todos descendentes do Império Romano, afinal.

O Brasil entra nessa dança, mas não porque o sentido dominante de latino-americano —e o de sua forma abreviada “Latino”— tenha algo a ver com uma teórica comunidade histórico-cultural demarcada pelas línguas neolatinas.

País latino-americano é aquele cuja população, com maior ou menor miscigenação, se compõe de descendentes de povos nativos das Américas e de descendentes de colonizadores ibéricos, com descendentes de africanos escravizados compondo na maior parte deles um terceiro e importante contingente.

Como estamos falando de uma palavra do vocabulário racial, aquele usado para perfilar étnica e culturalmente os grupos humanos, no fundo é só disso que se trata.

Latinos não são brancos, embora possam ser americanos. Essa ambiguidade é o máximo de acolhimento que o patético casal de sulistas de “Bacurau” vai conseguir saborear pelo resto de sua vida.


[Fonte: www.folha.com.br]

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Colocações finais

Escrito por Sérgio Rodrigues

A coluna da semana passada, chamada "Colocações", terminou prometendo continuar. Sim, eu sei: não é recomendável fazer esse tipo de promessa em jornal. No intervalo, a realidade sempre pode dar uma cambalhota e o clima mudar inteiramente.

No Brasil de 2019 o risco se agravou, mas é geral. Vamos imaginar um colunista semanal de Nova York que, ao fim de uma crônica poética sobre as orquídeas de Rarotonga publicada em 8 de setembro de 2001, anunciasse a continuação da belezura.

Três dias depois, o atentado ao World Trade Center transformava o tema do sujeito num anacronismo destinado a soar ofensivo à sensibilidade dos leitores. Notícias espetaculares desse tipo tendem a virar monotemas, exigindo pitacos inadiáveis do colunista imprevidente.

Não quero comparar a queda das Torres Gêmeas à divulgação das conversas comprometedoras de Sergio Moro e Deltan Dallagnol. Guardadas proporções imensas, ambos são casos explosivos, mas o desmoronamento da dupla do Paraná é menos surpreendente.

Também não pretendo descumprir minha promessa. Só me vejo obrigado a fazer certas adaptações, que de resto até podem, quem sabe, deixar mais clara a tese das "Colocações" originais.

A tese é a seguinte: temos no Brasil uma mistura de domínio precário da norma culta, fruto de uma educação canhestra em todos os níveis, com uma necessidade mais ou menos generalizada de impressionar o interlocutor, tentando assegurar a golpes de vocabulário um lugar ao sol numa sociedade violentamente desigual.

Um dos resultados desse quadro é a preferência nacional pelo termo mais pomposo, a construção mais rebuscada, tudo que pareça menos popular e portanto mais inacessível à enorme massa dos cidadãos desprovidos de grana e direitos.

Com muita frequência, o maravilhoso "está" deixa de servir: preferimos dizer que alguém "se encontra". Quase já não se põe nem se bota mais nada no Brasil: tudo é colocado, inclusive o fogo e os ovos. E por que usaríamos o verbo "ter", se temos "possuir"?

Claro que a língua é uma construção histórica. Evidente que o uso tem sempre a última palavra. Mas acredito que certos crimes não prescreverão jamais, condenados a ficarem para sempre impressos em nossa pele coletiva.

"Possuir" uma dúvida ou uma dor de cabeça é um desses delitos: aposto que nunca soará bem, em todas as suas reverberações, aos ouvidos de quem ama de verdade a língua portuguesa.

Eu sei, sabemos: os arcos históricos de longo alcance levarão o idioma para onde bem entenderem. O que nos é dado ver, como falantes mortais, é limitado. Mas no fim das contas sempre estará ao meu alcance garantir, num arroubo trágico, que jamais possuirei uma dúvida enquanto viver —mesmo tendo todas.

Como já terá percebido o leitor sagaz, estamos falando de uma modalidade de hipercorreção, fenômeno que ocorre quando o falante inseguro erra de tanto querer acertar. Na névoa gramatical que habita, ele se guia pelo que soa mais fino, mais "coisa de quem estudou" – distinção que em nosso país pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

Por esse caminho, acabamos por chegar ao desastre incomparável de trocar o verbo ser por "tratar-se de", erro gramatical grave em sua ignorância de que o sujeito deste só pode ser indeterminado.


[Fonte: www.folha.com.br]

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Colocações

Houve um tempo em que púnhamos, botávamos e metíamos, mas ele passou 

Escrito por Sérgio Rodrigues

No Brasil, adoramos colocar. Houve um tempo em que púnhamos com mais frequência, para não mencionar todas as ocasiões em que botávamos. Por razões que será preciso investigar melhor, hoje preferimos colocar. E como colocamos! 

Lemos esta semana na Folha que uma cabeçada de Everton Ribeiro "colocou Cássio para trabalhar", que "a China colocou a culpa dos protestos (de 1989) nos contrarrevolucionários" e que Jean Wyllys anunciou medidas contra "a mentira abjeta que colocou nossas vidas em risco". 

São só três ocorrências, entre as incontáveis que nos cercam, em que o arrivista colocar rouba o posto de trabalho de colegas como pôr, botar, meter, pousar, depositar, atribuir, aplicar etc. 

Seria absurdo dizer que aquelas frases estão erradas. Contudo, em sua política expansionista, colocar provoca um estrago vocabular equivalente ao do desmatamento de um belo naco da Amazônia. 

Não há muito a fazer. É um fato linguístico banal uma notícia como "Homem coloca fogo na própria casa". Verdade que, a olhos mais cevados na tradição, o fogo, com sua imaterialidade feroz, é um parceiro desajeitado de colocar, verbo a princípio mais técnico. 

Acontece que o uso detém a última palavra, as opções coletivas sempre acabam por vencer --cartilhas e ouvidos delicados que se adaptem, ora. A banda toca essa música há séculos. Mesmo assim, é saudável ficar atento a abusos. 

Já foi pior. Nossa compulsão colocadora tornou epidêmico, nas últimas décadas do século 20, um vício nascido na linguagem universitária: aquele em que o verbo é (ou era) usado como sinônimo de dizer, sustentar, argumentar: "Entendo a sua colocação, mas gostaria de colocar que..." 

Essa praga, se não passou, arrefeceu bastante. No entanto, quando hoje as galinhas optam por colocar ovos e a gente se dá conta de que, se fosse criado neste século, o bairro carioca de Botafogo se chamaria Colocafogo --nesse momento vale a pena parar e pensar. 

Vindo do latim "colocare", isto é, "cum + locare", pôr em determinado local, colocar é uma palavra nascida no século 15, quando a língua portuguesa se sofisticava. Sinônimo de pôr, botar e meter, estas do século 13 e mais próximas das raízes orais do idioma, representava uma espécie de gentrificação linguística. 

Pelo menos a princípio, era um termo mais fino, de maior precisão no onde e no como. O "chute colocado" da linguagem futebolística traduz bem essa ideia. Qual força, então, acabou por fazer de colocar esse irresistível genérico de massa? 

A resposta que eu queria deixar como hipótese é: aquela ânsia mal-orientada de formalidade e apuro, quando não de pompa e pedantismo, que é uma marca da cultura brasileira. 

Nossa inclinação coletiva pelo termo que parece mais erudito, menos popular, e que portanto imaginamos mais correto e bacana, tem prestado maus serviços à língua. O modismo do verbo possuir empregado indiscriminadamente no lugar de ter é o exemplo clássico. 

Há anos temos lido e ouvido, no Brasil, que pessoas possuem resfriados, dúvidas, dores de cabeça, um picolé —como se tais coisas contingentes e fortuitas estivessem inscritas em seu corpo ou lavradas em escritura no cofre de sua casa. 

É uma impropriedade vocabular e tanto, diante da qual o mais novidadeiro uso de colocar parece saído de uma página de Machado de Assis. Mas neste momento fica claro que o assunto é amplo demais para ser colocado por inteiro aqui. Continua na semana que vem.

[Fonte: www.folha.com.br]

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Uma breve história do rico vocabulário do mau-caratismo


Infame congregação dos canalhas, salafrários e pulhas tem membros antigos



Escrito por Sérgio Rodrigues



A palavra “canalha” tem raízes profundas. Seu primeiro registro data de 1546, tempo de consolidação da versão moderna do português, quando um jovem Luís de Camões ainda sonhava com aventuras no mar.



A etimologia ensina que fomos buscar o sonoro termo no italiano “canaglia”, a princípio um coletivo de cães usado metaforicamente como “conjunto de pessoas desprezíveis” e, em seguida, aplicado a uma pessoa só. Até hoje a palavra conserva esse duplo sentido individual e coletivo —neste caso, menos comum, sempre no feminino.

Talvez canalha seja o vocábulo mais bem-sucedido do clube, mas a infame congregação dos salafrários, pulhas e patifes tem membros mais antigos. O século 13 nos legou duas palavrinhas semelhantes: o vil e o vilão.

Uma parece o aumentativo da outra, mas a parecença engana. Vil saiu do latim clássico “vilis”, adjetivo para aquilo que era barato, de pouco valor. O vilão teve que esperar a transformação, operada mais tarde no latim vulgar, do nome próprio Villanus num substativo comum que queria dizer “habitante de uma vila, de uma casa de campo rústica”.

Foi assim que o vil e o vilão, partindo de pontos distintos, acabaram por se encontrar na imemorial associação entre pobreza e deficiência moral. A mesma que ficou cristalizada de forma transparente e até didática numa palavra como “ignóbil”, um sinônimo de hediondo e repugnante que derivou do oposto do latim “nobilis” —isto é, nobre, fidalgo.

A associação pode ser ignóbil, mas se manteve produtiva. A origem provável da palavra biltre (do início do século 19), com sua aura hoje meio cômica de xingamento antiquado, é o francês “bélître” no sentido de mendigo.

Até o safado, que disputa com o canalha o segredo da eterna juventude entre os principais nomeadores do mau-caratismo, revela sua origem social humilde. É o particípio do verbo “safar” no sentido hoje pouco difundido de gastar pelo uso frequente, inutilizar —no caso, valendo para a roupa velha o mesmo que para a dignidade do cidadão.

A história da humanidade, como se sabe, passa longe de confirmar o automatismo dessa relação entre pobreza e desonestidade que a história das palavras sugere. Nobres ignóbeis são figurinhas tão fáceis quanto biltres com salário gordo, auxílio-moradia e gravata Ermenegildo Zegna.

Isso torna especialmente interessante aquela seção do glossário da sem-vergonhice em que as palavras, tendo origem nebulosa, não precisam brigar com seu DNA socialmente intolerante para dar conta das epidemias de escrotidão que acometem o topo da pirâmide social.

Cafajeste, por exemplo, ninguém sabe de onde vem. Também nasceu para nomear o indivíduo grosseiro e armador de baixa condição social, mas os estudiosos carimbam o termo —juntamente com pilantra, pelintra, patife e calhorda— como de origem obscura ou de “formação expressiva”, quando o som pula na frente e traz o sentido a reboque. Ou seja: mesmo à luz da etimologia, pode ser usado sem contraindicações.


Ainda não falamos de outros membros do clube como escroto, salafrário, tratante, sacana, bandalho, velhaco, pústula, abjeto, pangarave. O quadro social é rico, mas aceitam-se novos associados. A língua só para quando morre.




[Fonte: www.folha.com.br]

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Ainda tem uma pedra


O 'ter' com sentido de 'haver' nos faz estrangeiros em nossa própria língua



Escrito por Sérgio Rodrigues

Tem um aspecto da gramática do português brasileiro que, sendo apenas um detalhe, diz muito sobre a alma nacional. Falo do verbo "ter" impessoal, com o sentido de haver —como na frase acima.
A gramática que estudamos na escola é fulminante: trata-se de um erro, uma agressão à norma culta. Quem não sabe disso? Tem momentos em que poupa aborrecimento jogar o jogo e escrever: "Há momentos em que..."
Em todos os cantos do Brasil, porém, mal a pessoa sai do registro formal, vai logo conferir se tem comida na geladeira ou perguntar ao filho se tem jogo da Libertadores na TV.
Usar "haver" nesses casos soaria estrangeiro, tão merecedor de um sorriso quanto aqueles cartazes comuns na fachada de restaurantes em Portugal: "Há peixe". 
Na verdade, o ter impessoal é antigo e não de todo ausente em Portugal, embora por lá seja considerado um arcaísmo. O Índice do Vocabulário do Português Medieval registra sua presença firme na língua que se escrevia no século 14. Hoje, é um traço marcante da variedade brasileira e das africanas.
Banido há séculos da escrita modelar na terra de Fernando Pessoa, e contando com o lastro lusocêntrico de nossas gramáticas normativas, o ter à brasileira se viu condenado à oralidade informal. Nesta, porém, reina absoluto, inclusive entre falantes educadíssimos.
Consagrado na língua culta, desde que falada, insistimos em carimbá-lo como erro grosseiro no papel. Algo semelhante ao que ocorre com o pronome oblíquo em início de frase: "Me dá um dinheiro aí!"
Tem usos populares que já foram malvistos e hoje estão assimilados. Por que resiste o tabu do ter impessoal? (Resiste a tal ponto que dificulta o combate a um erro —este sim— comum: a flexão de número em "têm pessoas que escrevem errado". Se os professores não querem ver tal uso nem pintado, como explicar que o certo é escrever "tem pessoas que..."?)
Descompassos entre oralidade e escrita não são necessariamente um problema. Não tem no mundo uma língua em que as duas dimensões coincidam perfeitamente. No entanto, nosso uso do par ter-haver sugere um caso mais grave de desconexão cívica.
Se isso soa exagerado, vamos combinar que temos com a língua uma relação peculiar. Em qualquer sociedade, basta o falante abrir a boca para ser enfiado num escaninho socioeconômico qualquer, o que pode embasar preconceitos. No entanto, o abismo brasileiro entre culto e popular é bem maior que a média.
Nossa formação histórica escravocrata vedou o ensino formal da língua à maior parte da população, ao mesmo tempo que tornava crucial —até, no limite, para a sobrevivência— separar quem fala "certo" de quem fala "errado".
Acabamos nos acostumando a pegadinhas, arbitrariedades, decalques lusófilos variados que distanciam nossa expressão escrita da alma de uma língua que há meio milênio vamos tentando moldar à nossa feição.
O tabu do ter impessoal é um daqueles marcadores linguísticos que, mais que funcionais, são imprescindíveis para a sociabilidade brasileira. Ainda que se trate (ou por isso mesmo) de um traço tão universal e profundo da fala, é um pária gramatical. Não temos direito nem à própria imagem no espelho.
Em 1928, um jovem mineiro imortalizou esse reprimido uso do verbo na pedra de um dos poemas lapidares da língua: "No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho", escreveu Drummond. Quase um século depois, a pedra está no mesmo lugar.

[Foto: Lalo de Almeida/ Folhapress - fonte: www.folha.com.br]

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Despautérios

​Um velho gramático flamengo renova nosso espanto diante de tanta maluquice

Escrito por Sérgio Rodrigues
É rico o vocabulário do espanto e da revolta com tudo que contraria o que julgamos lógico, sensato, razoável. Que absurdo, podemos exclamar, mas em sua centésima aparição a palavra estará cansada, parecendo insuficiente para definir tamanho... tamanho...
Não faltam opções, e ultimamente temos lançado mão de quase todas: disparate, desatino, aberração, porra-louquice, despropósito, asneira, maluquice, contrassenso, tolice, insensatez, irracionalidade, besteirol, desvario, delírio, quimera, patacoada.
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A enciclopédia Larousse Cultural

Cada nova palavra dá conta por algum tempo de expressar o tom exato de pasmo e fúria que requerem de nós as absurdidades e alogias, os desconchavos e dislates. As virtudes terapêuticas de um vocabulário multicolorido ainda não foram devidamente estudadas pela neurolinguística.
Acontece que até um glossário rico acaba por se esgotar quando é muita a doidaria. Se a riqueza acumulada pelos dicionários ao longo dos séculos prova que agressões ao bom-senso nunca estiveram em falta no repertório humano, hoje está nítido que certas épocas capricham mais que outras no despautério.
Despautério, pois é. Assim chegamos finalmente a um dos bichos mais curiosos da lista onde figuram tantos vocábulos respeitáveis e tristemente atuais. Se o termo está longe de ser o mais corrente da sua turma de sinônimos, vejo nele duas vantagens: uma sonoridade afeita à comédia e uma história divertida.
Sua etimologia é tão pitoresca que parece uma daquelas lendas saborosas, mas inteiramente isentas de verdade, que fazem sucesso na internet e em livrinhos sobre a origem das palavras. Como a de que "larápio", sinônimo de ladrão, provém do nome de um juiz romano corrupto, L.A.R. Appius. Não há fumaça de registro histórico desse sujeito: tudo indica tratar-se de um despautério.
Já a historinha brejeira sobre a origem de despautério é, como diria Nelson Rodrigues, batata. A palavra vem a ser o sobrenome aportuguesado do autor de uma influente gramática latina do século 16, "Comentarii gramatici", tomado ao latim Johannes Despauterius ou, mais provavelmente, de segunda mão ao francês Jean Despautère. No registro civil, João Despautério, que era flamengo, chamava-se Jan van Pauteren.
Sua gramática foi muito lida na Europa nos séculos 16 e 17, mas Despautério passou à história com a fama de gramático enrolado e dado a escrever besteiras. Essa má reputação levou seu nome a estrear como substantivo comum num dicionário de português, já em fins do século 19, com o sentido de dito ou ação absurda.
O destino pode ter sido injusto com o erudito flamengo. O filológo brasileiro Silveira Bueno, citando a enciclopédia Larousse, diz que ele tinha muitos méritos, mas, de estilo "difuso, obscuro e cheio de declamação", caiu em desgraça quando o padre francês Charles François Lhomond lançou em fins do século 18 uma gramática mais simples e objetiva.
Superado em sua especialidade, o palavroso Despautério virou uma espécie improvável de super-herói. Sua herança vocabular é de grande utilidade nesse momento difícil em que as palavras tentam nomear as coisas —como têm absoluta obrigação de fazer— e acabam   tantas vezes tombando exaustas, impotentes diante da kriptonita de uma realidade destrambelhada.
Da próxima vez que um absurdo quiser passar por normal diante do seu nariz, experimente gritar com todas as forças: "Despautééériooo!" Você pode se surpreender.

[Fonte: www.folha.com.br]