quarta-feira, 12 de abril de 2017

Os nomes que o [ … ] tem




Texto de 
O primeiro batismo aconteceu aos quinze. Não que ele fosse desprovido de apelidos antes disso, é que aquele foi seu primeiro nome genuíno. Nada genérico como peru, benga, jeba, ciclope, carequinha ou quaisquer outras alcunhas que usam por aí. Não é dessa espécie de nome que estou falando. Estou me referindo aos nomes de verdade, e o primeiro deles foi “Jr.”. Com a primeira namorada, descobri que as coisas especiais em nossas vidas deveriam possuir um nome e, portanto, foi isso que passei a ter entre as pernas: o Jú.
Tenho amigos que dão nome a toda sorte de coisas. O carro chamado Astolfo, a viola chamada Hilda, a rede da casa de veraneio chamada Zulmira, e por aí vai. Eu nunca tive o costume de nomear objetos inanimados, mas o meu objeto, bem, de inanimado não tinha nada.
Posso dizer que o Jr. foi um explorador, tinha um mundo novo a conquistar. Com ele as coisas tinham o gosto bobo e despretensioso da adolescência, da descoberta, do amor escondido. Das intermináveis horas ao telefone fixo e da prata fina no anelar direito. No entanto, a gente cresceu e, um dia, o Jr. infelizmente morreu. Algum tempo depois foi rebatizado com um novo nome. Para a segunda namorada, chamava-se o Fera.
Foi aí, então, que algumas diretrizes ficaram mais claras para mim.
Primeira: o nome deveria ser único para cada relacionamento e momento da vida; proibido repetir.
Segunda: o nome deveria surgir espontaneamente, assim como se dá nome a animais de estimação ou bandas de garagem. Pá-pum: se o dog tem cara de Tobias, pronto, é Tobias; se a banda tem cara de Chips of Death, pronto, não tem erro, é batata.
Terceira regra: eram vedados os nomes depreciativos. Já bastava a insegurança martelada em nossas cabeças desde a infância com essa história de tamanho e documento. Ou seja, fosse grande ou pequeno, se fizesse bem o serviço ou sofresse lapsos ocasionais, não importava: nada de nomes com “inho”, Pequeno Príncipe, Peter Pan (o que nunca quer crescer) ou coisa parecida.
Admito que o Jr. havia beirado esse limite, mas era um nome apropriado para um iniciante. Já o Fera – olha essa fera, bitcho! – tinha a segurança que o primeiro não tinha. Aos dezoito, a vida tinha outro tom, a liberdade do recém-adulto dentro de uma garrafa de Fontana. Menos cinema, mais filme nas cobertas. Menos festinha em casa, mais pileque na rua. Quando o porre vinha, segurávamos-nos: os cabelos, os vexames e os chororôs. A gente se entendia, mas como a vida dá voltas, o Fera também se foi.
O terceiro batismo foi ao fim da faculdade: era o Tonhão, proveniente de meu nome, Antônio. Cumpriu em cheio a terceira regra: nada de Toninho, aqui era A-O-Til, porra. Tonhão tinha experiência, mas, como disse o poeta, ainda era jovem o suficiente para achar que sabia de tudo. Nessa época, a gente viajou pelo mundo e também abriu a cabeça. Deixamos o hardcore empoeirar e redescobrimos a MPB nos vinis. Esgotamos Hollywood e fomos assistir aos europeus. Não, a Fontana a gente não trocou por vinho de verdade; como disse, ainda éramos jovens. Tonhão viveu por uns bons anos; achou até que seria para sempre. Contudo, um dia se acabou.
Depois disso, ele ficou por um bom tempo sem nome nenhum. Entre uma relação líquida e outra, voltou a ser o pau, o pinto… No começo foi uma maravilha, mas logo a crise de identidade começou a bater. Curiosamente, não aconteceu apenas com ele; o Tonho aqui de cima também estava perdidão. Balada atrás de balada, a ressaca a inutilizar os domingos, os corpos que vêm e vão sem se dar nomes, o retrogosto dessa tal liberdade – o que é eu vou fazer… – Tal qual cão de rua, comendo de tudo, mas sempre com fome.
E aí, um dia, surgiu aquela menina do olhar franzido que estudava arte e era uma coisinha linda-maravilhosa. A gente se sintonizou por umas poucas semanas e assim, sem cerimônia, ela resolveu chamá-lo Pablo.
“Pablo, por quê? Neruda? Escobar?”
“Não, seu burro. O pintor.”
Eu ri. E por um momento me pareceu que aquele trocadilho bobo me bastava, que o nome não poderia ser melhor.
Ela provavelmente sabia que o artista havia sido um homem de muitas mulheres e relações turbulentas, mas não temeu que isso fosse acontecer com ela; não com este Picasso.
O tempo mostraria que estava certa. Se eu me tornei homem de muitas mulheres, foi porque ela própria era, a cada dia, uma mulher diferente. Vez ou outra, chamava meu Pablo pelos demais nomes do pintor… Diego, Juan, Cipriano de la Santíssima Trinidad e os outros tantos. Tão inconstante ela era que também me modelava assim.
Esse foi o quarto batismo e, sabe, eu não duvido que seja para sempre. Não que eu seja desses que acreditam em amor eterno. Mas acredito no poder das risadas.


[Imagem: Carol Rehbein - fonte: www.obscenidadedigital.com]

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