Numa eleição muito apertada, às 20:53, Lula, do PT
liderava com 51,27%, mais 48,73% do que Flávio, do PL.
Lula da Silva foi reeleito
presidente da República, batendo Flávio Bolsonaro. Na
noite eleitoral, Lula começou na frente as primeiras projeções mas Flávio
ultrapassou-o às 19:47 locais, 22:47 em Lisboa, com cerca de 15% das urnas
apuradas, e o slogan bolsonarista “Lula ladrão, teu lugar é na prisão” começou
a ouvir-se das janelas dos apartamentos. Às 20:25 (23:25 em Lisboa), Lula volta
a ficar na frente e é a vez de gritos “Lula, Lula” soarem das varandas dos
prédios. Mas faltava muito Sudeste, a região de longe mais populosa e
pro-Flávio, para apurar.
Já a tarde eleitoral ficou
marcada pela controvérsia em torno dos ônibus na Bahia, São Paulo, Alagoas,
Pernambuco, Roraima, Piauí, Paraíba, Pará, Paraná e Rio de Janeiro.
Ao início da tarde, o PT
denunciou uma redução superior a 50% na oferta de ônibus em Salvador, Feira de
Santana e Lauro de Freitas, cidades baianas, apesar de a Justiça Eleitoral ter
determinado transporte gratuito e uma operação equivalente à dos dias úteis
neste domingo, 25.
Na sequência, o Tribunal
Regional Eleitoral da Bahia ordenou a prisão em flagrante do secretário
municipal de Mobilidade de Salvador e o restabelecimento integral da frota, sob
pena de multa de um milhão de reais por hora.
A prefeitura soteropolitana,
liderada por um bolsonarista como a das outras duas cidades baianas em causa,
argumentou que o serviço estava a ser normalizado e justificou as interrupções
iniciais com problemas relacionados a veículos que tinham sido adesivados com
propaganda eleitoral, o que é proibido.
Em São Paulo, o PT alegou
que apenas cerca de 60% da frota municipal estava em circulação, apesar de uma
determinação judicial para garantir o serviço integral e gratuito. O partido
pediu a prisão do secretário municipal de Mobilidade Urbana local também.
A empresa de transportes
atribuiu as dificuldades a problemas operacionais na reorganização das escalas
de trabalho e das jornadas dos motoristas. O prefeito paulistano, Ricardo
Nunes, também é apoiador de Flávio. “É uma coisa abominável, não vamos permitir
que haja roubalheira e prefeito bandido”, reagia Lula por volta das 16 horas
[20 em Lisboa]”.
Antes, o PT pedira o
prolongamento da votação até as 19 horas [01:00 em Lisboa] naqueles estados,
solicitação a que Kássio Nunes Marques, o presidente do TSE, não deu seguimento
por duas horas, o que obrigou o STF a ter de resolver o caso em cima do horário
do fecho das urnas. O juiz Cristiano Zanin, sorteado para decidir, optou pelo
prolongamento por duas horas, tendo em conta não apenas as queixas do PT, mas também pedidos do PL por atraso de eleitores por
causa de chuvas no Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
No
entanto, milhares de urnas eletrónicas já tinham sido fechadas, o que gerou
caos em muitos colégios eleitorais. Zanin informou posteriormente que a decisão
da prorrogação por duas horas só valia para secções de votação ainda
abertas.
Em
paralelo, circularam nas redes sociais denúncias de cancelamentos em massa de
voos que poderiam impedir eleitores de chegar a tempo às urnas, sobretudo em
ligações entre o Sul e o Nordeste.
A
informação, confirmada pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC)
até à tarde deste domingo, era de quatro voos das companhias Gol, Azul e Latam
com destino ao Nordeste cancelados entre sábado e domingo:
A Gol atribuiu o
cancelamento da ligação Porto Alegre–Salvador a problemas técnicos no avião e
afirmou ter reacomodado os passageiros, além de organizar um voo adicional. As
companhias Azul e Latam apontaram questões operacionais e condições
meteorológicas.
O Ministério de Portos e
Aeroportos acionou a ANAC para acompanhar as operações e a agência afirmou não
ter identificado uma operação coordenada para prejudicar eleitores no tráfego
aéreo nacional.
Como é costume nas eleições
no país continental, registaram-se outros incidentes. As chuvas intensas
obrigaram a mudar locais de votação em Itapevi, na região metropolitana de São
Paulo, e em Curitiba e Guaratuba, no Paraná, estado em que três troços de rodovias
federais foram bloqueados devido à acumulação de água, e em Minas Gerais e Rio
Grande do Sul, os pontos de que se queixou a campanha de Flávio.
No Rio de Janeiro, cerca de
3000 eleitores de Jardim Sulacap, na zona oeste do Rio, tiveram de votar noutro
estabelecimento depois de ser identificada uma infestação de pulgas durante a
preparação das urnas.
Entretanto, os dois
candidatos votaram de manhã. Flávio Bolsonaro, logo após a abertura das urnas,
às 08:20 (12:20 em Lisboa) na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila
Isabel, zona norte do Rio de Janeiro.
“A esperança virou medo”,
afirmou o candidato, referindo-se ao receio de assaltos, à dificuldade de pagar
as contas e à possibilidade de faltar comida em casa. Rodeado da mulher,
Fernanda, da mãe, Rogéria Nantes Bolsonaro, ela própria com carreira política
no Rio de Janeiro, e do governador eleito do estado, Douglas Ruas, classificou
a campanha como “alegre e limpa”.
Lula votou cerca de uma hora
depois na Escola Estadual João Firmino Correia de Araújo, em São Bernardo do
Campo, na região metropolitana de São Paulo, ao lado da primeira-dama, Janja da
Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e de apoiantes como Fernando Haddad,
Marina Silva e Simone Tebet.
Depois de agradecer a
mobilização dos seus apoiantes durante
a campanha – “disputo eleições desde 1989 e nunca vi nada assim” – afirmou que
a disputa era contra a “mentira” e que os brasileiros não aceitariam um
“miliciano” no Palácio do Planalto.
Num
balanço parcial, o TSE divulgou que 114 urnas eletrónicas tinham sido
substituídas por problemas técnicos, num universo de 114.605 equipamentos
preparados para a votação. Em Valinhos, estado de São Paulo, um eleitor foi
levado à esquadra por utilizar um telemóvel na cabine, prática proibida.
CAMPANHA
ACIRRADA
No
primeiro turno, a 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou em primeiro lugar,
com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença foi de cerca
de 2,23 milhões de votos, insuficiente para evitar a segunda volta, mas dando
ao candidato do PL um impulso político para a fase decisiva da campanha.
Na
sequência, o candidato do PL recebeu o apoio de Ronaldo Caiado, ex-governador
de Goiás e candidato do PSD na primeira volta, e de Romeu Zema, antigo
governador de Minas Gerais e candidato do Novo. Mais tarde, Augusto Cury, do
Avante, também assumiu voto em Flávio.
Finalmente,
os partidos de centro-direita e do chamado centrão, com vista a construir uma
base parlamentar para um eventual governo, também se aliaram à candidatura do
filho de Jair Bolsonaro.
Lula,
por sua vez, procurou mobilizar os eleitores de esquerda, os movimentos sociais
e os setores democráticos que receavam uma vitória do bolsonarismo. A campanha
reforçou a comunicação digital e procurou apresentar a eleição como uma escolha
entre dois projetos políticos para o futuro do país.
Para
tanto, fez uma ofensiva nas redes sociais, em torno de um canal de
Whatsapp chamado “Exército do Lula”, associado ao deputado André Janones, para
influenciar a circulação de conteúdos nas plataformas digitais.
Flávio
procurou contrariar a iniciativa com a «Tropa do Flávio», numa
disputa que chegou ao TSE. Os candidatos disputaram dois debates televisivos,
na TV Bandeirantes e na TV Globo, e intensificaram atos nas ruas. Esta foi a
10ª eleição desde a redemocratização em 1989, a oitava decidida em segunda
volta.
[Foto:
EPA - fonte: www.dn.pt]

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