O livro de Ignacio Vázquez Molíni é composto por 101 haikus, um estilo poético tradicional japonês (século XVII) escrito em apenas três frases mas com uma disposição específica das sílabas.
Ignacio Vázquez MolíniO escritor Ignacio Vázquez Molíni apresenta em Lisboa a obra "perdida" do poeta japonês do século XVII Taika Kensaku, "que nunca existiu" mas que é um heterónimo "muito real" do autor espanhol, para o qual Fernando Pessoa abriu caminho.
"O heterónimo não é um pseudónimo. É uma entidade que tem uma vida paralela e essa é a relação entre Taika Kansaku, que é quase um samurai que viveu no Japão no século XVII, e eu. Isto permite-me ter uma outra versão da realidade", disse à agência Lusa o escritor, autor da obra "El Libro del Lejano Ocidente".
Taika Kensaku, aliás, Vázquez Molíni, 60 anos, diplomata da União Europeia, escritor e residente em Portugal "há muito tempo", afirma que o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), ao criar os heterónimos, abriu uma vasta possibilidade literária que lhe permitiu chegar - nomeadamente - ao japonês que na verdade nunca existiu "mas que não deixa de ser real".
"Se me perguntam se Taika Kensaku existiu realmente ou é fruto da tradição ou é resultado do pensamento que se baseia no princípio 'de que as coisas existem porque não existem', não sei. É indiferente. Há por aí muitos heterónimos à solta que são mais reais do que os próprios autores. Álvaro de Campos é mais real do que Fernando Pessoa? Não sei. Pelo menos é igual", responde Molíni.
Com a obra Libro del Lejano Ocidente (Livro do Extremo Ocidente), Vázquez Molíni, ou Taika Kensaku, pretende dar vida própria a um homem que "existiu" do outro lado do mundo.
"Se não houvesse a influência de Fernando Pessoa nunca teria existido Kensaku. Os heterónimos abriram muitas possibilidades e, portanto, somos todos filhos de Fernando Pessoa. Kensaku é fruto de Pessoa, não haja dúvidas. Mas estamos perante uma existência que me é indiferente que seja mítica. Aqui está a sua obra, a sua existência e os seus haikus", refere.
O livro de Molíni é composto por 101 haikus, um estilo poético tradicional japonês (século XVII) escrito em apenas três frases mas com uma disposição específica das sílabas.
Por outro lado, o autor espanhol afirma que o haiku é uma espécie de "perfume concentrado, uma 'quinta essência' que permite prescindir de todas as bibliotecas do mundo".
Em cada haiku, diz Molíni, na tradição dos poetas tradicionais, está plasmado tudo o que se escreveu antes e tudo o que se pode escrever depois.
"São estas as reflexões de Kensaku que diz no último poema 'para que servem estes versos? Temos de continuar a escrevê-los'", prossegue frisando que "apenas conseguiu encontrar 101 escritos".
"Há mais poemas de Kensaku? Seguramente que sim mas, por enquanto, temos estes que já nos fazem sonhar com a visão dos escritores japoneses dessa época", conclui, frisando que neste caso a "tradição pessoana dos heterónimos é reforçada pelo facto de os portugueses terem sido os primeiros europeus a contactar com o Japão", em 1543.
A obra El Libro del Lejano Ocidente (editora Alud, 115 páginas, edição bilingue castelhano/japonês) vai ser apresentado no Instituto Cervantes, em Lisboa, na quarta-feira pelo autor e "talvez" pelo heterónimo do Japão.
[Foto: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens - fonte: www.dn.pt]
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