sábado, 2 de junho de 2018

«Venezuelanos são usados como bode expiatório», aponta professor


Retórica sobre os migrantes é impregnada por preconceitos e reforçada pelo senso comum e pela falta de informação das pessoas

Escrito por Nayra Wladimila
Em Boa Vista (RR)
Quando alguém relata um assalto em Boa Vista-RR, as outras pessoas logo perguntam: “O bandido era venezuelano?”. Os imigrantes estão na boca de quem reclama do crescimento da criminalidade e também do aumento da demanda por serviços essenciais, como saúde e educação.
Mas até que ponto esta retórica não estaria impregnada por preconceitos? Para o professor doutor João Carlos Jarochinski Silva, coordenador e professor do curso de Relações Internacionais e professor permanente do mestrado em Sociedade e Fronteiras, ambos da Universidade Federal de Roraima (UFRR), é muito mais fácil para o poder público culpar os venezuelanos e outros migrantes pelos problemas já existentes em Roraima do que buscar soluções.
“Ainda mais porque é ano eleitoral, o governo do Estado está com alta rejeição, e grupos políticos estão abocanhando parte do seu eleitorado. Então é preciso para eles retomar esta retórica para atrair para si o público mais conservador”, explica.
Em entrevista para o MigraMundo, Jarochinski pontua ainda o impacto das mídias – tanto as tradicionais como as redes sociais – em uma narrativa negativa sobre o fenômeno migratório.
MigraMundo: Quão realistas o senhor acha que são esses discursos [sobre os venezuelanos serem culpados pelas falhas em serviços público e aumento da violência?
João Carlos Jarochinski: É natural que um aumento populacional, como está ocorrendo em Roraima, gere em tese mais demanda por serviços públicos e aumento da criminalidade. Tem havido um crescimento da violência no Estado por causa do rompimento do acordo entre as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Amigos do Norte, causando assassinatos nas ruas e rebeliões nos presídios, mas isso é na grande criminalidade. As infrações cometidas por venezuelanos não são a maioria, e geralmente são de menor potencial ofensivo: furtos de pequenas posses, como alimentos e celulares.
O aumento da criminalidade daqui é muito mais uma percepção social, formada pelo que é divulgado nas redes sociais e pelo exagero dos programas policiais. Daí é importante problematizar: estas pessoas estão há quanto tempo no Brasil? Porque se estão aqui há um ano e somente agora começaram a delinquir, pode ter sido porque a política pública relacionada a eles não foi efetiva, e eles estariam tendo que buscar a criminalidade. Deixar principalmente os jovens nas ruas, com dificuldade de acesso a alimentos e educação, fomenta um campo bastante fértil de aliciamento por organizações criminosas ou para a criminalidade simples.
Imigrantes venezuelanos em praça próxima ao abrigo provisório da Pintolândia, em Boa Vista.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mar/2017
Sobre os atendimentos de saúde, não temos uma base confiável de dados, pois eles são divulgados pelo próprio poder público. Além disso, no Estado sempre houve problemas de acesso a produtos essenciais da rede hospitalar, e se há um aumento de pessoas a serem atendidas, isso acaba potencializando problemas que já existiam. No entanto, um estudo de setembro de 2017 feito pela DAPP (Diretoria de Análise de Política Públicas) da FGV (clique aqui para acessar e baixar) apontou que 48,4% dos imigrantes nunca usaram o aparelho público de Roraima. Então é muito mais um discurso usado principalmente pelas autoridades para apagar uma história na qual estes serviços já eram ruins. Cria-se um bode expiatório perfeito, que não é eleitor e não vai reivindicar nas urnas.
Na educação, segue-se o que diz a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional): estrangeiros sem documentos são matriculados no 1ª ano do Ensino Fundamental, e após um ano são avaliados para saber se têm condições de irem para outra série. Então, por causa da dificuldade de se obter estes documentos, crianças de 12 anos estão ficando no 1º ano, o que logicamente vai atravancar o acesso de brasileiros ao 1º ano na rede municipal. É o resultado do poder público não conseguir distribuir estes alunos de forma mais eficiente. Deveríamos ter processos mais dinâmicos para desinchar as salas.
Então há problemas causados pela migração, mas há outros que já eram históricos e ela apenas os potencializou. Mas para o poder público é muito mais fácil culpá-los do que resolver a situação. Ainda mais porque é ano eleitoral, o governo do Estado está com alta rejeição, e grupos políticos estão abocanhando parte do seu eleitorado. Então é preciso para eles retomar esta retórica para atrair para si o público mais conservador.
Como a mídia tradicional contribui na propagação de xenofobia?
Em países como Portugal há jornalistas especializados em migrações, e os próprios órgãos de imprensa padronizaram a maneira de retratar estrangeiros (por exemplo: por que vincular a nacionalidade da pessoa ao crime que ela cometeu?). Já no Brasil não há esta setorização, como acontece com o jornalismo esportivo ou o econômico. A problemática migratória sempre apareceu pouco na mídia brasileira, e quando apareceu foi bem mais por motivo de vinculação pessoal do que por algo profissional.
Desta forma, quando os venezuelanos começaram a chegar, houve um tom negativo nas matérias. Mas os jornalistas de Roraima aos poucos foram participando de cursos de capacitação e preocupando-se em abordar a situação de forma mais adequada, abrindo espaço para o diálogo, estando de parabéns. A mídia de fora que, muitas vezes na busca de uma narrativa vendável, acaba reforçando estereótipos e cria mais materiais para as pessoas pensarem a migração como um problema. Faz-se aquele discurso emotivo do migrante que perdeu tudo, teve que abandonar os filhos e vir trabalhar até mesmo como profissional do sexo.
Quando você vai a outra localidade, as pessoas perguntam se aqui só há venezuelanos andando na rua. O que não é verdade. A mídia de fora pouco se preocupa em conhecer a dinâmica social, tendo preferido apenas criticar a Venezuela, sem pensar em toda a dinâmica mundial do que acontece aqui.
Venezuelanos esperam no posto da Polícia Federal na cidade fronteiriça de Pacaraima, em Roraima. A Polícia Federal é a entidade responsável por receber venezuelanos que buscam refúgio ou permissões para permanecer no Brasil. Foto: Reynesson Damasceno/ACNUR
E as mídias sociais?
Elas são uma ferramenta muito interessante. Mas ela permite que, seja pelo anonimato, seja pela formação de grupos de pessoas que pensam de forma parecida, os discursos de ódio se propaguem. A todo momento eles estão disseminando postagens negativas, generalizando um sentimento que não corresponde ao que toda a população pensa. Muitas vezes eles são postados pelas mesmas pessoas com nomes diferentes para criar volume (os falsos perfis).
A dinâmica de divulgação de mentiras tem sido muito bem construída e toca em pontos sensíveis das pessoas, que nem sempre possuem capacidade de discernimento para saber se aquilo é verdadeiro ou não, e terminam por compartilhar aquelas ideias.
Porém, no dia a dia percebe-se que há sim a xenofobia, mas há muita recepção, acolhimento e ações para receber os venezuelanos por parte da sociedade civil que não esperou pelo poder público. Então a internet propicia que tanto esses grupos de acolhimento se organizem quanto que discursos de ódio causem más impressões. As organizações religiosas, por exemplo, são muito numerosas e têm dado espaços para a solidariedade.
Esse discurso é diferente do que foi feito em relação a outras migrações recentes (como de haitianos e bolivianos) e de décadas anteriores (como a polonesa, japonesa, árabe)?
Sim. A migração do final do século 19 e início do 20 foi vista pelos brasileiros como uma possibilidade de desenvolvimento, sendo valorizada em muitos lugares do país, principalmente porque foi dominada por brancos. Há uma associação racista de brancos ao desenvolvimento. Não é à toa que os japoneses e libaneses, por exemplo, permaneceram mais tempo em grupos fechados, pois tiveram mais dificuldade de inserção social.
Na dos haitianos, que chegaram pela região Norte, houve um racismo porque aqui na região a presença negra não é tão forte. Há ainda o julgamento de que eles são pobres, desqualificados e vindos de um país periférico. Com os venezuelanos, o racismo é menor, mas existe essa discriminação social. Obviamente que a vulnerabilidade deles nas ruas amplia a sensação de que são muitas pessoas chegando, reforçando essa retórica de que eles só trazem problemas e custos.
Migrantes venezuelanos tem sofrido com xenofobia e hostilidades em Roraima.
Foto: Felipe Larozza/REPAM Brasil
Outro agravante é que hoje é mais fácil manifestar suas opiniões e conhecer as opiniões dos outros, graças às redes sociais. Então racismo e xenofobia existiram antes, mas não ficávamos sabendo de tudo e era mais difícil a formação de grupos contrários aos migrantes.
De qualquer forma, essa é uma visão que se esquece de todos os potenciais que esse movimento oferece: aproveitamento de uma mão de obra com ensino superior custeado em outro país, mas que agora pode ser aproveitado pelo Brasil; aquecimento do setor imobiliário com o aluguel de imóveis; crescimento econômico. O comércio do município de Pacaraima, fronteira com o país de Maduro, hoje é muito maior do que a realidade da cidade comporta, devido justamente a abastecer tanto o povo de lá quanto os venezuelanos.
Além disso, ainda há mais brasileiros em outros países do que imigrantes aqui dentro, de um modo geral. O CNIg (Conselho Nacional de Imigração), que historicamente defendeu os brasileiros no exterior, hoje defende as mesmas coisas para os estrangeiros que vêm para cá. Não é um discurso contraditório. Mas até você conseguir convencer a população disso é preciso divulgar muitas informações. Como as pessoas pouco se informam, o senso comum predomina.

[Fonte: www.migramundo.com]

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