quinta-feira, 1 de junho de 2017

Com frases lapidares, autor ensina a fugir da escrita medíocre

William Zinsser, 90, autor de 'Como Escrever Bem'

Escrito por SÉRGIO RODRIGUES

COMO ESCREVER BEM (ótimo) 
QUANTO R$ 49,90 (280 págs.)
AUTOR William Zinsser
TRADUÇÃO Bernardo Ajzenberg
EDITORA Três Estrelas

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Há uma razão simples para o manual de escrita de William Zinsser ter-se tornado um best-seller e um clássico contemporâneo: o livro é ótimo.

"Como Escrever Bem" difere de guias de redação convencionais como "The Elements of Style", de Strunk e White, que Zinsser admirava e que reinava absoluto na literatura americana desde 1959.

Não que ele menospreze gramática e técnica. Voltado para a não ficção, o manual cobre fundamentos do estilo de texto jornalístico aperfeiçoado nos EUA ao longo do século 20 e elevado a arte nos anos 1960 pelo new journalism.

Não faltam conselhos para fugir da geleia de mediocridade à qual tende toda escrita, como vem provando mais uma vez a safra internética: perseguir clareza e simplicidade, valorizar verbos e substantivos, desconfiar de adjetivos e advérbios, reescrever, cortar tudo que for supérfluo, pulverizar clichês e palavras pomposas etc.

São lições importantes, mas batidas, que Zinsser revitaliza com frases lapidares: "Não há muita coisa a ser dita sobre o ponto final, a não ser que a maioria dos escritores não chega a ele tão cedo quanto deveria". Ou ainda: "Poucas pessoas se dão conta de como escrevem mal".

Contudo, o livro é melhor quando vai além da técnica, revelando um autor apaixonado que não se furta de tomar partido e expor idiossincrasias. O ofício de escrever aparece como algo vivo, condicionado por miudezas objetivas e complicações subjetivas.

Ele tem opiniões firmes sobre tudo. Nas entrevistas, deve-se usar gravador ou bloco de anotações? Bloco é melhor: "Seja um escritor. Escreva as coisas". Escrita tem a ver com o caráter do autor? Sim, garante. "Se os seus valores são sólidos, o seu texto será sólido".

Como Escrever Bem
William Zinsser
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A questão do gosto, tão difícil de definir quanto de ignorar, tem sido tratada como falsa pelo pensamento acadêmico. O autor não foge da briga: "O gosto é uma corrente invisível que atravessa a escrita, e você precisa estar ciente dele".

A tradução, correta e fluida em linhas gerais, tem o mérito maior de preservar o humor de Zinsser. Inevitavelmente, há momentos em que a obra perde na transposição, como ao tratar de modismos e inovações vocabulares do inglês. Nada que passe perto de empanar o brilho de um livro necessário como nunca. 









[Foto: Damon Winter/The New York Times - fonte: www.folha.com.br]

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