quinta-feira, 25 de maio de 2017

Sê-lo-á ou sê-lo-ia? Cultor da mesóclise, Temer pode virar uma

Escrito por Sérgio Rodrigues

"O estilo é o próprio homem". A máxima do naturalista francês Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon, homem do século 18, é um caso de criatura que ficou maior que o criador. Quase sempre é citada sem crédito para quem a cunhou. Virou lugar-comum.

Se Buffon tem culpa nisso, talvez seja apenas a de ser fiel ao que formulou. Seus aforismos enxutos de cientista avesso ao beletrismo (outro: "A glória só é um bem quando se é digno dela") ilustram a ideia de que o estilo é simplesmente a impressão digital de quem escreve, não um conjunto de penduricalhos com os quais se enfeita o texto.

A menos, claro, que o autor tenha uma alma ataviada de penduricalhos, caso em que um estilo cheio de pirotecnia e artifício, em vez de falsificação, será um reflexo do vazio de suas ideias. A máxima de Buffon dá um jeito de estar certa até quando é desmentida.

O agregado José Dias, personagem de "Dom Casmurro", está no último caso. Encarnação de um tipo comum no Brasil escravocrata, o homem livre sem vintém que depende do favor de uma família de posses, Dias disfarça sua condição patética dando-se ares de importância como conselheiro e abusando de um truque gramatical: o superlativo.

Mais precisamente, o superlativo absoluto sintético. E tome "amaríssimo", "perfeitíssimo", "lindíssimo". Nas palavras –crudelíssimas– de Machado de Assis, "José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias; não as havendo, servia a prolongar as frases".

Virar uma caricatura talvez não seja o maior perigo para quem abraça um capítulo de gramática com tanta paixão que nele, mais que um estilo, funda um modo de ser –essas coisas que para Buffon são uma só. O estilo é subproduto da pessoa, mas talvez não seja descabido imaginar que a pessoa, em certos casos, possa ser um subproduto do estilo.

O caso de Michel Temer parece confirmar a hipótese. Em seu discurso de posse, há pouco mais de um ano, uma mesóclise roubou a cena: "Quando menos fosse, sê-lo-ia pela minha formação democrática e pela minha formação jurídica."

Poucos dias depois, em outro discurso, o sucessor de Dilma Rousseff reforçou o que já era reconhecido como marca de seu estilo: "Procurarei não errar, mas, se o fizer, consertá-lo-ei".

Mesóclise é a colocação do pronome oblíquo átono no meio da palavra –tecnicamente, entre o radical e a desinência do verbo. Só ocorre em formas verbais do futuro ("consertá-lo-ei") e do futuro do pretérito ("sê-lo-ia").

Trata-se de uma joia antiquada da nossa gramática. Vale reconhecer sua beleza, mas não ignorar que ela praticamente caiu em desuso no Brasil e que mesmo os portugueses a reservam a certos tipos formais de escrita.

Soar como um político da República Velha parecia ser a intenção de Temer, por temperamento ou para acentuar o contraste com a desarticulação verbal de Dilma. Com quatro meses de governo, voltava atrás: "Não uso mais mesóclise". Era tarde para evitar a caricatura.

Numa vingança do estilo contra o homem, Temer agora corre o risco de mesoclisar-se, virando um breve pronome intercalado entre o radical (Dilma) e a desinência (incerta) do verbo "governar".

Queria ser o presidente da "ponte para o futuro". Sê-lo-á? Parece improvável. Sê-lo-ia, não fosse Jo-es-ley. 

[Fonte: www.folha.com.br]


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