domingo, 28 de maio de 2017

Escritores lusófonos querem ser lidos nas escolas

Os escritores de língua portuguesa, sobretudo os africanos, querem ver implementadas políticas curriculares que incentivem a leitura das respetivas obras no sistema de ensino.

Apelo foi lançado por Tony Tcheka (ao centro) no VI Encontro de Escritores lusófonos
Os escritores lusófonos reivindicam uma maior circulação dos livros que permita um melhor conhecimento da cultura e da literatura produzidas, sobretudo nos países africanos, cujos autores são pouco divulgados e conhecidos, salvo raras exceções. Esta foi uma das conclusões do VI Encontro de Escritores do universo lusófono, que terminou sábado (24) em Odivelas, na periferia de Lisboa.

O mote foi lançado pelo escritor e jornalista guineense, Tony Tcheka, quando moderava o painel sobre a língua portuguesa no mundo. “É preciso incluir as literaturas dos nossos países nas escolas para nos conhecermos mais e melhor”, disse em tom de desafio.
“Nós não nos conhecemos”
A proposta vai precisar “de ideias e de pernas para andar”, explica Tony Tcheka em declarações à DW África, sublinhando a necessidade de se elaborar um programa que seja possível pôr em prática. “Isto, porque não se pode falar de criação e existência de uma comunidade de gente que não se conhece”, justifica o escritor. “Na verdade, nós não nos conhecemos. Quando a gente não conhece a literatura de outro país, quando não conhecemos as histórias, a sua maneira de estar e de ser, torna-se tudo muito mais difícil”.
Lopito Feijóo, escritor angolano
A proposta lançada por Tony Tcheka, baseada no volume de produção de livros, incluindo os de caráter técnico e científico, despertou o interesse da plateia, entre os participantes no evento que decorre no âmbito da VI Bienal de Culturas Lusófonas, com encerramento no dia 31 de maio. A ideia, frisa Tcheka, é levar as diferentes literaturas às escolas e, ao mesmo tempo, fazer circular os livros.

Incentivar a leitura
Ana Paula Laborinho, do Instituto Camões (IC) lembrou que esta proposta se enquadra numa das resoluções das cimeiras dos chefes de Estado e de Governos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A resolução foi adotada pelos membros da organização e compete aos mesmos implementá-la. Segundo a presidente do IC, está em curso a preparação de um plano de incentivo à leitura para crianças e jovens, juntamente com o Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP).
Lopito Feijóo, um veterano da literatura angolana, considera a questão “muito pertinente” e tem vindo a lutar pela mesma em quase todos os eventos do género em que participa.
Alda Barros (DW/J. Carlos
)
Alda Barros, autora são-tomense
Muitos dos livros que lhe chegam às mãos resultam de trocas com confrades nos festivais e encontros literários. E, se consegue comprar algumas obras, fá-lo essencialmente nas livrarias de Lisboa, cidade portuguesa que ele considera ser uma espécie de “placa giratória”. Há cerca de 30 anos, lembra, já o escritor e professor português, Manuel Ferreira, chamava a atenção para este risco, agravado pelas crises financeiras e económicas que os países enfrentam e consequente dificuldade de aquisição de produção cultural.

Novas caras da literatura
Além de alguns veteranos, o evento em Odivelas abriu portas a jovens escritores como o moçambicano Amosse Mucavele, autor de “Geografia do Olhar” (2017) e a são-tomense Alda Barros, que acaba de lançar em Lisboa a sua primeira obra poética “Flor Branca do Baobá”. De facto, sublinha Mucavele, ainda há muito pouco conhecimento um do outro no espaço lusófono.
Amum
Amosse Mucavele, escritor moçambicano
Os escritores que se conhecem, refere, são os mesmos de sempre, “alicerçados por grandes editoras”. Os outros, adianta, “quase ninguém fala deles ou quase ninguém os conhece”.
Quando, em 2010, criou uma revista eletrónica com um grupo de jovens moçambicanos, o objetivo era tentar aproximar os vários escritores de língua portuguesa. Hoje, diz Mucavele à DW África, “é preciso criar outras pontes de afetos que não necessitam das tais editoras, ou que passe tudo por Portugal para distribuição” das obras. Além disso, nos novos manuais escolares não aparecem textos dos novos escritores. “Precisamos de reverter isso”, aconselha o jovem poeta moçambicano, defensor da ideia de que cada país deve funcionar como núcleo para distribuir as obras dos seus escritores e de autores estrangeiros.
Como fazer circular os livros?
A preocupação de Amosse vai de encontro à abordagem de Lopito Feijóo, que considera que ao nível das escolas é mais difícil ter acesso às obras dos escritores.
O escritor moçambicano sublinha a necessidade de programas para promover a língua portuguesa nos sítios mais recônditos: sugere a criação de bibliotecas e centros culturais nas aldeias, municípios e comunas que incentivem o diálogo entre autores e alunos.
Olinda Beja (DW/J. Carlos)
Olinda Beja, escritora são-tomense
A escritora e professora Olinda Beja, também de São Tomé e Príncipe – que tem trabalhado com crianças nas escolas não só em Portugal – diz ser imperioso implementar a literatura e incentivar a leitura nos países de língua portuguesa. “Os manuais continuam pobres, com muito poucos autores. Chega-se a São Tomé ou à Guiné-Bissau, os nossos alunos não conhecem os escritores lusófonos, incluindo os nacionais”, lamenta.

Olinda Beja reconhece que “há muito trabalho a fazer” neste sentido. O seu apelo vai para o Ministério da Educação e da Cultura, mas também para a Presidência da República. Dá o exemplo de Cabo Verde, onde esteve recentemente a convite do chefe de Estado cabo-verdiano, José Carlos Fonseca, que abriu as portas do palácio presidencial aos escritores e alunos como uma das iniciativas para promover as obras literárias nacionais e incentivar a leitura.
[Fonte: www.dw.com]

Nenhum comentário:

Postar um comentário