(1) Fronteira no meio do (2) café
Mas antes de Gibraltar, vamos à tal estranha fronteira. Falo da fronteira entre a Bélgica e a Holanda, na zona de Baarle. A linha que divide os países tem este aspecto:

Sim, os dois tons de amarelo representam os dois países. Temos enclaves belgas na Holanda. Depois, temos enclaves holandeses dentro de enclaves belgas. Tudo bem misturado, como se a fronteira tivesse sido recortada num jardim-escola por um miúdo que ainda não sabe usar a tesoura.
Esta estranha confusão cria situações curiosas: a fronteira passa e rodopia, sem lógica, pelos passeios desta interessante cidade e divide supermercados ao meio e atravessa cafés daqueles bem europeus, em que o cliente, sentado na Bélgica, pede uma cerveja ao empregado que está na Holanda — e este lá atravessa a fronteira de copo na mão. A quem pagam impostos? Não faço ideia. Que língua falam? Falam todos neerlandês, pois então: flamengos dum lado, holandeses do outro.
As pessoas vivem entre os dois países e pisam a fronteira — e até a usam como atracção turística. A fronteira existe, está ali bem marcada, mas divide pouco. Foi nesta Europa que vivemos nos últimos anos...
(3) Linhas e (4) rochedos
Mas não nos enganemos. As fronteiras são linhas lixadas. Mesmo uma das mais pequenas fronteiras do mundo, ali a dividir o Reino de Espanha da rocha mais britânica da Península Ibérica, está a tornar-se numa dor de cabeça. Para nós, é a fronteira “a sério” que podemos visitar com mais facilidade. Não é preciso esperar pelo Brexit para ter de abrandar e até, se os guardas estiverem para aí virados, mostrar o que levamos no carro.
É uma fronteira pequeníssima: tem menos de dois quilómetros. É uma fronteira vigiada, bem marcada, que entra pelo mar. E é uma fronteira, vejam bem, entre dois Estados que estão dentro da União Europeia.
Um deles vai sair — e basta essa notícia para reaparecerem à superfície dos tablóides as velhas guerras europeias, com conversas de guerra e gestos de alçar de peito à imagem de dois galos que se enfrentam. E, não nos esqueçamos, a rivalidade entre Espanha e Inglaterra é antiga, com histórias que já incluíram invencíveis armadas derrotadas e lutas que tiveram uma grande influência na nossa própria independência.
As fronteiras, mesmo quando já são fantasmas no meio dum café, às vezes voltam e com força. Aliás, até os flamengos, que ali em Baarle se misturam com holandeses como se não fosse nada, mais a sul tentam sublinhar a diferença com os valões, numa fronteira que não divide países, mas divide vontades.
Mas há mais fronteiras para lá destas marcações no chão.
(5) Estocolmo e (6) São Petersburgo
Estocolmo e São Petersburgo são cidades relativamente próximas. E, no entanto, a diferença de tratamento entre os dois ataques dos últimos dias na nossa imprensa e nas nossas reacções mostra uma outra fronteira, difícil de definir e provavelmente bem mais significativa que a fronteira entre a Bélgica e a Holanda num café.
Sim, muitos portugueses sentiram o ataque a Estocolmo de forma mais próxima do que o ataque a São Petersburgo. Não pensem que me estou a lamentar. Claro que podemos sempre imaginar um mundo perfeitinho em que uma morte no Japão provoca a mesma reacção num lisboeta que uma morte no Bairro Alto. Mas o mundo não é assim.
Por exemplo, tenho dois amigos em Estocolmo e no momento em que soube do ataque pensei neles e quis saber se estavam bem. Em São Petersburgo, não tenho ninguém. É a multiplicação de relações pessoais e de visitas que cria a familiaridade com os sítios que sofrem estes ataques — é assim que criamos esta fronteira entre os espaços que vemos como nossos e aqueles que estão longe.
Apesar de tudo, parece-me que essa fronteira (que é, de qualquer forma, bem mais difusa que as verdadeiras fronteiras) está a alargar-se. Este alargamento é uma boa notícia, mas também nos leva a esta sensação ofegante de estarmos a ser atacados — sim, nós próprios — quase todos os dias. De repente, sentimos como se o nosso bairro sofresse ataques todas as semanas. Aliás, mesmo o ataque a São Petersburgo, na distante Rússia, já me apareceu no Facebook pelas vozes de amigos meus que têm amigos na Rússia e sentiram o ataque como próximo.
(7) Conversas por cima das fronteiras
O mundo aproxima-se de nós todos os dias — diria até que o mundo cai em cima de nós todos os dias. E este mundo é também o mundo que oscila entre o gosto de olhar para as fronteiras como relíquias que pisamos de forma despreocupada — e a outra necessidade mais escondida de voltar a desenhar o risco no chão com mais força, de marcar território, de nos dividirmos para nos sentirmos seguros num espaço nosso (perguntem aos eleitores britânicos). O que fazer perante estes dois mundos que agora se confrontam com mais força do que a esquerda e a direita? Bem, não sei dizer, mas o que não podemos fazer é deixar de conversar, sem medo, num qualquer café — mesmo se, ao olharmos para baixo da mesa, encontrarmos uma qualquer fronteira a passar entre os nossos pés.


Marco Neves | Autor do blogue Certas Palavras. Publicou em Janeiro o seu segundo livro, com o título A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra e Paz). É tradutor na Eurologos e professor na Universidade Nova de Lisboa.