terça-feira, 4 de abril de 2017

Futura independência da Catalunha?

O mais triste e dramático é o medo do governo espanhol e da sociedade espanhola ao referendo em Catalunha, ao voto do povo, à opinião dos cidadãos. Foram muitos anos sem poder votar aqui na Espanha. A memória é curta. 




Por Víctor David López
Catalunha é notícia permanente na mídia nacional. No dia 9 de novembro de 2014 dois milhões e trezentas mil pessoas participaram em um referendo sem garantia legal sobre a independência da Catalunha. Oitenta por cento votou pela separação. O governo catalão não tinha autorização do governo espanhol para organizar o ato, e agora, por causa disso, um grupo de políticos, inclusive o antigo presidente da Catalunha, estão condenados e afastados das instituições públicas. 
Agora, três anos depois, estamos muito perto do possível novo e definitivo referendo na Catalunha, em setembro de 2017. A relação entre as duas partes é cada vez mais discrepante. O presidente Mariano Rajoy já teve muitos anos para procurar alguma solução, para tentar mudar a situação, mas só agora apresenta um programa de investimento na região com projetos de infraestrutura. Promessas que já realizou tempo atrás e nunca se tornaram realidade. 
Até hoje a única resposta do governo ao desejo independentista da Catalunha sempre foi a geração de medo, de pânico: a independência será impossível. Uma Catalunha independente sairia do sistema monetário do euro, uma Catalunha independente ficaria isolada e fora da Europa. 
Resumindo, o governo espanhol é a maquinaria perfeita para fabricar independentistas. Cada nova ação é pior do que a anterior. O governo espanhol, do Partido Popular, esqueceu de falar sobre amor com Catalunha e demostrar esse amor. Demostrar que a Espanha gosta da Catalunha, gosta muito de Barcelona, de Girona, de Lleida, de Tarragona, da língua nesses cantos do país, e essa é a principal razão pela qual nós não queremos a independência de uma das partes mais importantes da nação. 
Não só o governo espanhol gera independentismo. Temos por aqui muitos radicais também, muitos fascistas que colaboram. Por exemplo, em 2013, no dia nacional da Catalunha, atacaram o Centro de Cultura da Catalunha em Madrid, Blanquerna, que fica no mesmo prédio que a delegação do governo da Catalunha na capital da Espanha. 
Foi uma atrocidade do desconhecimento. Talvez o ódio dos radicais sumiria lendo livros, assistindo aos filmes, escutando as músicas da história da Catalunha. É curioso: odeiam a Catalunha mas não podem viver sem ela? Igual ao governo espanhol. 
O mais triste e dramático é o medo do governo espanhol e da sociedade espanhola ao referendo em Catalunha, ao voto do povo, à opinião dos cidadãos. Foram muitos anos sem poder votar aqui na Espanha. A memória é curta. 
A democracia espanhola por enquanto não permite e não vai permitir um referendo legal. Porém, tem muita gente que concorda com o direito da Catalunha em decidir, mas, atenção, votariam NÃO à independência. A Câmara de Deputados conseguirá uma nova suspensão do referendo? Cadê o amor? Cadê a nossa democracia?

* Víctor David López (Valladolid, Espanha, 1979). Jornalista, editor literário e escritor. Colabora na Radio Nacional da Espanha e escreve no jornal El Español. Trabalhou nos jornais espanhóis As, Marca e La Razón. É codiretor da editora madrilena Ediciones Ambulantes, especializada em literatura brasileira e sobre o Brasil. É autor dos livros “Maracanã, território sagrado” (2014), “Brasil salta a la cancha” (prólogo) (2016) y “Brasil, Golpe de 2016” (prólogo). Twitter: @VictorDavLopez


[Fonte: www.nocaute.blog.br]

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