segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Cinco asneiras da língua portuguesa

A fúria de encontrar erros em todo o lado é tanta que, às vezes, os caçadores de erros caem, também eles, em asneiras. Assim, tenho visto por aí acérrimos defensores das seguintes expressões:
    AUTOR: MARCO NEVES 

    1. «Bicho pelo corpo inteiro.» Por amor da língua, salvem o bicho-carpinteiro! Algumas pessoas, que não sabem o que é uma expressão idiomática, ficam irritadas quando alguém diz «estás com bicho-carpinteiro». Acham que o bicho não existe e, logo, não podemos ter uma expressão com um animal inexistente. Depois, inventaram esta do «bicho pelo corpo inteiro» (a alternativa supostamente «correcta») e acham-se, de repente, mais espertos que os outros falantes da língua. Como quase sempre, nesta tropa dos inventores de erros, há alguma falta de respeito pelos outros falantes da língua e, por conseguinte, falta de respeito pela própria língua — algo muito mais grave do que qualquer gralha.
    2. «Mal e parcamente.» Parece ser a origem da expressão «mal e porcamente». E, segundo a lógica de algumas pessoas, uma expressão uma vez inventada tem de ficar igual para todo o sempre. Ora, sendo esta expressão típica do registo popular, é habitual que mude ao longo das décadas e dos séculos. Depois, é praticamente impossível encontrar «mal e parcamente» nos registos escritos da língua (excepto em textos que querem matar o «mal e porcamente»). Ou seja, quem acha que só podemos usar «mal e parcamente» está a pensar mal e porcamente sobre a língua.
    3. «Há nada que me impeça de falar com ele.» Sim, há quem trema e chame de ignorantes quem diz «não há nada». Não pode ser, não pode ser! É uma dupla negativa! Temos de escrever «há nada»! Ora, tenham lá paciência. A oração «não há nada» está na negativa e, no caso, a língua portuguesa obriga-nos a usar duas palavras para expressar essa negativa. Dizer «há nada» é insistir num erro verdadeiro para corrigir um erro falso. A língua é complicada e desarrumada. Não sejamos simplistas nem facilitemos nestes assuntos, vale?
    4. «Pelo visto.» A expressão fixa é, desde há muito, «pelos vistos». Falta-lhe alguma lógica interna? Pois falta. Mas se é para arrumar a língua dessa maneira simplista, comecem pelo verbo ser, que tem muita falta de lógica, coitadinho. Arrumem esse e avancem depois para o resto da língua. Cá vos espero daqui a uns séculos.
    5. «A lua está mais próxima.» Esta foi uma originalidade que encontrei no Facebook: alguém chamou burros a todos os que, uma vez por outra, dizem que «a lua está maior». Porque a Lua não cresce, não é assim? Ora, desengane-se: quando dizemos «lua», assim em minúsculas, estamos a falar do disco de luz que vemos no céu e não necessariamente do astro (quando dizemos «lua nova» não estamos a falar do astro, que é o mesmo, mas da forma como o disco de luz nos entra pelos olhos). A diferença é subtil? Sim, é. Mas, lá está, os falantes da língua não são assim tão burros. São mais inteligentes do que se pensa. Este erro falso tão peculiar fica aqui como exemplo da tendência dos caçadores de erros para encontrar estupidez onde, na verdade, temos apenas a língua a funcionar como deve ser.
    Entenda-se: não vou dar a volta ao contrário e dizer que as expressões acima devam ser proibidas (embora vos avise, humildemente, que a terceira frase é mesmo erro). Asneira é achar que temos de as usar obrigatoriamente em substituição das outras expressões, bem mais habituais e correctíssimas:
    • «bicho-carpinteiro»;
    • «mal e porcamente»;
    • «não há nada»;
    • «pelos vistos»;
    • «a lua está maior».
    Todas estas belas expressões fazem parte da língua. Eliminá-las não nos deixa nem a falar melhor nem a pensar melhor nem o raio que o parta (será que posso usar esta expressão ou também é erro?).

    [Fonte: www.certaspalavras.net]

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