O 'ter' com sentido de 'haver' nos faz estrangeiros
em nossa própria língua
Escrito por Sérgio Rodrigues
Tem um aspecto da gramática do português
brasileiro que, sendo apenas um detalhe, diz muito sobre a alma
nacional. Falo do verbo "ter" impessoal, com o sentido de haver —como
na frase acima.
A
gramática que estudamos na escola é fulminante: trata-se de um erro, uma
agressão à norma culta. Quem não sabe disso? Tem momentos em que poupa
aborrecimento jogar o jogo e escrever: "Há momentos em que..."
Em
todos os cantos do Brasil, porém, mal a pessoa sai do registro formal, vai logo
conferir se tem comida na geladeira ou perguntar ao filho se tem jogo da
Libertadores na TV.
Usar
"haver" nesses casos soaria estrangeiro, tão merecedor de um sorriso
quanto aqueles cartazes comuns na fachada de restaurantes em
Portugal: "Há peixe".
Na
verdade, o ter impessoal é antigo e não de todo ausente em Portugal, embora por
lá seja considerado um arcaísmo. O Índice do Vocabulário do Português Medieval
registra sua presença firme na língua que se escrevia no século 14. Hoje, é um
traço marcante da variedade brasileira e das africanas.
Banido
há séculos da escrita modelar na terra de Fernando Pessoa,
e contando com o lastro lusocêntrico de nossas gramáticas normativas, o ter à
brasileira se viu condenado à oralidade informal. Nesta, porém, reina absoluto,
inclusive entre falantes educadíssimos.
Consagrado
na língua culta, desde que falada, insistimos em carimbá-lo como erro grosseiro
no papel. Algo semelhante ao que ocorre com o pronome oblíquo em início de
frase: "Me dá um dinheiro aí!"
Tem
usos populares que já foram malvistos e hoje estão assimilados. Por que resiste
o tabu do ter impessoal? (Resiste a tal ponto que dificulta o combate a um erro
—este sim— comum: a flexão de número em "têm pessoas que escrevem
errado". Se os professores não querem ver tal uso nem pintado, como
explicar que o certo é escrever "tem pessoas que..."?)
Descompassos
entre oralidade e escrita não são necessariamente um problema. Não tem no mundo
uma língua em que as duas dimensões coincidam perfeitamente. No entanto, nosso
uso do par ter-haver sugere um caso mais grave de desconexão cívica.
Se
isso soa exagerado, vamos combinar que temos com a língua uma relação peculiar.
Em qualquer sociedade, basta o falante abrir a boca para ser enfiado num
escaninho socioeconômico qualquer, o que pode embasar preconceitos. No entanto,
o abismo brasileiro entre culto e popular é bem maior que a média.
Nossa
formação histórica escravocrata vedou o ensino formal da língua à maior parte
da população, ao mesmo tempo que tornava crucial —até, no limite, para a
sobrevivência— separar quem fala "certo" de quem fala
"errado".
Acabamos
nos acostumando a pegadinhas, arbitrariedades, decalques lusófilos variados que
distanciam nossa expressão escrita da alma de uma língua que há meio milênio
vamos tentando moldar à nossa feição.
O
tabu do ter impessoal é um daqueles marcadores linguísticos que, mais que
funcionais, são imprescindíveis para a sociabilidade brasileira. Ainda que se
trate (ou por isso mesmo) de um traço tão universal e profundo da fala, é um
pária gramatical. Não temos direito nem à própria imagem no espelho.
Em
1928, um jovem mineiro imortalizou esse reprimido uso do verbo na pedra de um
dos poemas lapidares da língua: "No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha
uma pedra no meio do caminho", escreveu Drummond.
Quase um século depois, a pedra está no mesmo lugar.
[Foto: Lalo de
Almeida/ Folhapress
- fonte: www.folha.com.br]

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