quarta-feira, 8 de julho de 2026

Respeitar o leitor é publicar menos, para Milton Hatoum

Escritor participou do evento literário Babell no Porto e lançou em Lisboa o segundo volume do trio de romances com que pretende evitar o branqueamento da ditadura militar e do pesadelo Bolsonaro.

A memória é a matéria-prima para a trilogia de Milton Hatoum sobre os tempos da ditadura militar no Brasil. O segundo volume, 'Pontos de Fuga', sucede a 'A Noite de Espera,' ambos já publicados em Portugal.

Escrito por João Céu e Silva 

O escritor brasileiro Milton Hatoum esteve em Lisboa para lançar o romance Pontos de Fuga, o segundo volume da trilogia O Lugar Mais Sombrio, com que faz o retrato literário do período da ditadura militar brasileira entre 1964 e 1985. Se Hatoum considerava esse tempo como desaparecido, a eleição de Bolsonaro fez com que o revivesse numa nova época difícil: “Quando comecei a escrever esta trilogia não sabia que íamos reviver esse pesadelo com um capitão, que hoje está preso por vários crimes. Foi um dos períodos mais conturbados da nossa política porque abrangeu o país todo ao dar voz e liderança aos extremistas, uma época em que duas situações surpreenderam: a primeira, saber que há 30% de brasileiros de ideologia extremista e muito ignorantes; a segunda, de que Bolsonaro e os seus adeptos conseguiram acabar com a direita brasileira tradicional por ter sido cooptada pelo radicalismo. O que é muito ruim para o Brasil.”

A escrita da trilogia não é um projeto de agora ou devido à recente realidade política brasileira, antes de quando decidiu passar a livro um tempo que viveu e que considera merecer um romance (foram três) a recordar aqueles tempos de estudante universitário contestatário. Explica as suas razões: “O terceiro volume foi publicado no Brasil recentemente, chama-se Dança de Enganos, e fecha uma trilogia que pretende aclarar alguns aspetos de personagens que estavam um pouco ocultas nos dois livros anteriores, bem como iluminar certas situações políticas e sociais vividas então, de modo a completar o retrato total sobre um período que eu queria lembrado.”

Milton Hatoum tem uma obra vasta, mas confessa que tem muito por publicar: “Quero reescrever algumas coisas e é nisso que estou empenhado. Tenho muitos inéditos de que gosto, mas também muitos que deitei fora.” Já há duas décadas o escritor era definido como alguém que “escrevia muito, mas publicava pouco”. Hatoum justifica essa situação de ser um escritor bissexto: “Continuo a ser assim porque escrevo muito, mas reescrevo o tempo todo. Porque escrever é reescrever, daí que em 40 anos de trabalho só tenha concluído o primeiro romance em 1987. Quando morei em Paris, nos anos 1980, ouvi uma vez Roland Barthes responder a uma pergunta sobre a crise do romance assim: «Não há crise do romance, o que existe é um excesso de livros». E eu concordo, portanto, poderia ter publicado mais três ou quatro livros, mas acho que devemos respeitar o leitor. Até porque vivemos o tempo de uma grande massificação em tudo e, como qualquer outro produto, o livro virou uma mercadoria igual a todas as outras. A atual massa de leitores não consegue discernir o que é um bom livro daquele que é de autoajuda ou do que foi escrito para ser um best-seller. É o resultado de uma massificação que fez caminho na cultura, área onde os melhores livros não são os mais vendidos. Com o tempo, acredito, os bons livros alcançam um público leitor razoável.”

A paciência para esperar pelo leitor de cada livro parece ser uma virtude no escritor, como se pode depreender: “Eu publiquei um romance intitulado Dois Irmãos de que a crítica gostou muito. Tanto no Brasil como noutros países, como foi o caso do Líbano (Milton Hatoum é de ascendência libanesa), e não foi um best-seller instantâneo, mas ao longo dos últimos 25 anos tem sido muito lido. No Brasil, alcançou um público de mais de 300 mil leitores, o que para o país é muito. Ou seja, a minha opinião é de que o passar do tempo da leitura é importante para a literatura, porque a literatura fala basicamente sobre a passagem do tempo, os conflitos, a vida dos personagens, o que elas fazem, como pensam. Tudo isso existe no tempo e a leitura também, daí que o romance peça um tempo de leitura.”

Pode dizer-se que a principal inspiração dos livros de Hatoum é a memória. É o caso desta trilogia, como confirma o escritor: “A memória é a musa tutelar da literatura. Não é por acaso que o segundo volume termina com um verso do Jorge Luis Borges: «O esquecimento é uma das formas da memória». Trata-se de um jogo entre o lembrar e o esquecer, de uma resposta ao discurso oficial como é o dos militares que chamam de revolução o que foi uma ditadura. Daí que diga que "a memória é uma irmã para mim e que espere pelo passar do tempo para escrever os romances. Ou seja, o projeto desta trilogia começou em Madrid, em janeiro de 1980, mas rapidamente percebi que os acontecimentos estavam muito próximos da minha vida. Então, decidi escrever Relato de um Certo Oriente, que remete a um tempo mais atrás, os das memórias da minha infância. Preferi esperar quase 40 anos para começar a escrever e publicar estes livros da trilogia.”

Em muitos escritores existe uma incapacidade de obrigar os personagens a serem aquilo que o escritor queria. Como é no caso de Hatoum, os personagens fogem às ordens do escritor? Sintetiza: “Saramago disse uma vez que não acreditava nessa autonomia dos personagens. Tal como ele, eu quero que sejam o que preciso deles, portanto, antes de começar o romance penso muito nos personagens. Ao querer conhecê-los, evito a maior parte das surpresas possíveis, mesmo que uns se atrofiem e outros cresçam.”

A propósito da memória, lembra-se a Hatoum a alteração da sua cidade natal, Manaus, e de como a recorda: “Aquela Manaus que conhecia já não há. Foi um tempo que existiu e que agora só está na nossa memória. Um mundo que acabou com a infância, que é para muitas pessoas uma espécie de paraíso perdido. Manaus não foi destruída como Lisboa pelo Terramoto de 1755, apenas pela ganância humana que é a especulação imobiliária, tanto que um jovem hoje nunca será capaz de imaginar a cidade encantadora da década de 1960, nem sequer a Brasília da trilogia, porque também não se reconhece mais o plano-piloto de Lúcio Costa e a arquitetura de Oscar Niemeyer, em muito destruídos durante a ditadura. Não foi apenas o tempo do fim da democracia, a censura, a prisão e a tortura e o assassinato de muitos brasileiros que lutaram pela liberdade, foi também uma época muito nociva à educação pública e às cidades brasileiras. Esta trilogia é o meu esforço de recordar um tempo que só existe na memória. 

                                                                        PONTOS DE FUGA

Milton Hatoum

Companhia das Letras

312 páginas

[Fonte: www.dn.pt]

Sem comentários:

Enviar um comentário