Vittorio Alfieri (1749-1803) é o maior autor de tragédias da
literatura italiana (a safra de autores italianos de tragédias é bem mediana).
Suas
peças, no secundário, eram leitura obrigatória, mas eram chatas. Em
compensação, a gente se interessava pela vida de Alfieri.
Ele
gostava de farra. De amada em amada e de viagem em viagem, escrevinhou “Antonio
e Cleopatra”, que fez sucesso, e a partir de então, decidiu-se levar a sério.
Para
vencer seu espírito impulsivo e inquieto, ele inventou um remédio contra o
transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, TDAH (que acomete de 5% a 7%
das crianças de hoje): ele pedia para ser amarrado na cadeira onde sentava para
escrever. O mordomo, que o amarrava, só podia soltá-lo à noite.
O
remédio funcionava pela determinação de Alfieri. Sem isso, mesmo amarrado, ele
brincaria com sua caneta e sonharia com aventuras e amores, sem escrever nada.
Supõe-se que o TDAH resulte de um desenvolvimento lento do
córtex pré-frontal —a área do cérebro que nos torna mais prudentes. O
transtorno é recorrente numa mesma constelação familiar, mas isso não prova que
seja herdado: falta de foco e agitação também se transmitem pelo exemplo dos
próximos.
Agora
é comum pensar (ou suspeitar) que o TDAH e seu diagnóstico tenham-se tornado
mais frequentes nas últimas décadas.
Muitos
pensam que as crianças de hoje sofrem mais de TDAH porque são expostas a mais
estímulos do que no passado. Concordo, mas elas são também privadas de uma boa
parte de suas obrigações: portanto, só lhes resta se divertir, o que é
eminentemente ansiógeno.
Como
me divertirei? O que me divertirá? E se —Deus não permita— eu me entediasse?
Comparado
com essas perguntas, a lista dos deveres de casa é pacífica: basta ler a
agenda, está lá o que tenho para fazer, e vai me ocupar até o jantar.
O
que angustia não é tanto a obrigação de sentar e estudar, mas a de “se
divertir”.
Minha
coluna de 14/2, tratava dos efeitos (ruins, mundo afora) da diminuição das
exigências escolares a partir dos anos 1960.
Uma
amiga, Nathalia Botura, doutora em pedagogia, comentou que, no Brasil, a coisa
começou com a Escola Nova dos anos 1930: “Vamos acabar com a palmatória e
conferir ‘humanidade’ aos pirralhos”.
Deu
lugar à Escola Ativa, que, escreve Nathalia, “glorificava ‘o impulso
espiritual’ da criança que criaria naturalmente as condições para seu
desenvolvimento e autonomia”.
Pergunta:
“Como a criança vai construir seu próprio saber, sem os ‘insumos’ intelectuais
para tanto? Até mesmo a função psicológica da ‘criatividade’ é aprendida, é um
músculo a ser exercitado”.
Consequências
catastróficas para o ensino: acabou a “responsabilidade do estudo —não apenas
por parte dos alunos, mas por parte dos professores que não são treinados para
estudar”.
Enfim,
Nathalia cita uma nota nos “Cadernos do Cárcere” de Gramsci (muito citado
ultimamente por quem não o lê):
“A
criança que quebra a cabeça com os barbara e baralipton [para quem se divertiu
e não estudou: são formas de silogismos na lógica de Aristóteles, que qualquer
estudante na minha época decorava] certamente se cansa, e deve-se fazer com que
ela só se canse o indispensável e não mais; mas é igualmente certo que será
sempre necessário que ela se canse a fim de aprender a se autoimpor privações e
limitações de movimento físico, isto é, a se submeter a um tirocínio
psicofísico. Deve-se convencer muita gente de que o estudo é também um
trabalho, e muito cansativo, com um tirocínio particular próprio, não só
intelectual, mas também muscular-nervoso: é um processo de adaptação, é um
hábito adquirido com esforço, aborrecimento e até mesmo sofrimento. A
participação das massas mais amplas na escola média traz consigo a tendência a
afrouxar a disciplina do estudo, a provocar ‘facilidades’”.
Em
suma, Gramsci com Alfieri, com Nathalia e comigo: vamos deixar a brincadeira
para o recreio e simplesmente estudar? Vamos parar de nos preocuparmos com
escolas com ou sem partido, para fazer uma escola com estudo?
Mas
essas são questões já ultrapassadas. Tudo vai mudar na educação brasileira,
agora que o ministro da Educação decidiu que as crianças vão cantar o hino
nacional. Volto sobre esse incrível e hilário achado pedagógico na semana que
vem.
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[Ilustração: Mariza Dias Costa - fonte: www.folha.com.br]
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