O tosco-boçal tem opiniões por puro preconceito e quer
impô-las aos outros
Escrito por Contardo Calligaris
Não tenho fé na Razão com "r"
maiúsculo, mas tenho alguma fé na capacidade humana de se instruir, pensar e
dialogar. Essa capacidade é antiga e passou por muitos altos e baixos.
Entre os séculos 15 e 18, no Ocidente, foi um dos
altos: muitos redescobriam a alegria de estudar, argumentar, ler, escrever,
mudar de ideia, criticar aos outros e a si mesmos.
Tudo isso nunca tinha parado de acontecer, mas,
especialmente nos séculos 15 e 16, muitos correram o risco de renunciar às
baboseiras nas quais a maioria acreditava até lá —e acreditava por consideração
pelas autoridades constituídas (ou por medo delas) e também por preguiça:
aceitar os preconceitos mais facilmente compartilhados dá menos trabalho do que
pensar por conta própria.
Um exemplo de como a coisa mudou. A Reforma
Protestante começou quando alguém perguntou a um padre: "Mas por que
acreditaria em você?" O padre respondeu: "Porque sou padre".
Mas, de repente, o argumento não valeu mais: "E daí que você é padre? O
que você vai fazer para ganhar meu respeito?".
Na mesma linha, alguém escutaria que a Terra está
ao centro do universo ou que Deus a criou em sete dias e perguntaria "Quem
disse isso?". O padre responderia que foi Deus. E o indivíduo responderia
o que ele se permitiu aprender, ou seja, que não foi Deus, mas um escritor de
2.600 anos atrás, o qual queria consolar o povo judaico depois do cativeiro na
Babilônia.
Fomos longe por esse caminho. A mesma pergunta
colocada ao padre pode ser hoje colocada aos pais: "Obedecer a vocês por
quê?". "Porque somos seus pais." "E daí? Ganhem primeiro
minha confiança."
O poder se tornou um lugar mais incômodo. E a
sociedade, em geral, tornou-se um lugar mais livre e interessante —claro, à
condição, como disse, de se instruir, pensar e dialogar.
A partir do século 18, também aconteceu que a
própria razão funcionasse como uma desculpa do poder. "Você quer mandar
por quê?". "Porque meu plano é racional", responderia Stalin em
1928, acrescentando que, por um plano "racional", valeria a pena
sacrificar milhões de dissidentes.
Os fascismos e o comunismo demonstraram que a razão
em si (separada da concretude da vida) pode ser tão abusiva quanto os
preconceitos e a deferência diante da tradição e da autoridade.
A vontade moderna de se instruir, pensar e dialogar
é ameaçada por dois grupos opostos e ambos toscos: 1) os que não querem
aprender, estudar e dialogar e recorrem aos preconceitos da
"tradição" para poder assim deixar de pensar (que é uma tarefa
cansativa); 2) os que tampouco querem aprender, estudar e dialogar, e recorrem
à "razão" abstrata como a uma camisa de força que pode ser imposta à
realidade, sem se dar a pena de sequer, primeiro, conhecê-la.
Nas últimas colunas, propus minha definição do boçal: o boçal é quem quer
decidir o que os outros deveriam pensar, sentir e fazer da vida. O tosco (nisso
diferente do boçal) é quem tem opiniões sobre quase tudo sem fazer o esforço
para conhecer a realidade sobre a qual opina: ele não precisa se inteirar de
nada, porque opera a partir de preconceitos.
Nota: está na moda perdoar os toscos porque, sei
lá, não tiveram boas escolas, faltaram livros em casa quando eram crianças etc.
Entendo, mas ser tosco é também uma decisão de vida, comandada por uma tremenda
preguiça de ler, aprender e se instruir.
Nos últimos tempos, houve, aliás, intelectuais que
se especializaram na tarefa de desculpar os toscos, ou seja, de permitir que
eles pudessem continuar opinando sem instrução e sem culpa. Voltarei sobre isso
outra vez.
Continuo: muitos boçais são também toscos e muitos
toscos são também boçais. O tosco-boçal tem opiniões por puro preconceito (ou
seja, por ignorância), e são justamente essas opiniões que ele quer impor aos
outros.
Enfim, uma receita para não ser tosco. Imaginemos
que seja inevitável você se posicionar sobre um tema (sei lá, se o gênero
corresponde ao sexo aparente?). Para não ser tosco, você vai precisar ler no
mínimo quatro livros recentes sobre o tema. Ao menos dois desses livros
precisam ser boas histórias gerais do assunto (como surgiu, como foi tratado
até hoje etc.).
Com isso, será que sua opinião será fundamentada?
De fato, com isso, você vai desistir de manifestar sua opinião, porque vai ter
descoberto que só tosco opina. Para os outros, a vida é complexa demais para
ser matéria de opinião.
[Ilustração: Mariza Dias Costa - fonte: www.folha.com.br]

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