Escrito por Hugo Gomes
Um homem colocou a Noruega no mapa cinematográfico. Joachim Trier e a sua Trilogia de Oslo, de “Reprise” (2006) a “Worst Person in the World” (2021), consolidou um cinema de matriz burguesa, introspectivo e emocionalmente depurado, são “problemas de primeiro mundo”, sim, mas é essa autoconsciência que tornam este par de personagens tão reconhecíveis.
Com “Sentimental Value”, ao prolongar essa
espirituosidade da trindade numa espécie de quadrilogia informal, Trier trabalha na extracção de
gorduras e nervos afins para revelar a estrutura de um cinema familiar, com os
seus dilemas de meio. Segue-se um olhar para esse seio como maior inspiração de
todas as tragédias do mundo. Não nos agarramos ao ambicioso: Trier resolve a distância (a
mesma que compromete afectos e relações futuras) sem procurar redenções nem as
proclamar ao som de epifanias dramáticas. É nessa ternura, nessas complexidades
e na incompreensão com que este trio de personagens adere como fermento, que se
encontra o embrião de um ensaio bergmaniano, na alma e no corpo.
Não fosse Stellan Skarsgård e a sua personagem (um
realizador envelhecido em busca do último filme) um protótipo invocativo de Ingmar Bergman, com a sua genialidade e, no
verso da moeda, a conturbação familiar. “É um péssimo pai, mas um bom realizador”, clama a personagem de Renate Reinsve, a filha e actriz fora dos
circuitos habitados pelo progenitor, como recomendação a uma doce Elle Fanning, estrela hollywoodesca
enganada por um papel que não lhe pertence. Contudo, é em Renate (a estrela da aventura
anterior, “A Pior Pessoa do Mundo”) que o filme se centra
primeiramente. Actriz de palco e de televisão, assombrada por uma depressão em
vaivém, de origens e catarses quase freudianas, vê-lhe ser oferecido o papel “da sua vida”. Palavras do pai, surgido sem aviso no funeral da mãe, a
gracejar-lhe com um guião: “lê”,
suplica, orgulhoso.
“Sentimental Value” é drama familiar com pitadas de tragédia iminente. No papel, o resultado poderia soar previsível, redutor ou até genérico, mas Trier contorna, foge ao convencionalismo e aos tiques impostos, por exemplo, por Hollywood. Varre o moralismo para debaixo do sofá: não há lições impregnadas nem sermões nestas intrigas, e a família (seja as personagens ou o conceito / ideologia) nunca se sobrepõe à arte, nem o contrário. Evita-se a hierarquização consoante a perspectiva individual. Cada estágio, dentro da sua condição privilegiada, é igualmente uma história de relações em colisão e fissura, e um filme sobre Cinema, sobre a importância do filme propriamente dito e da sua concepção. Esse malabarismo torna a obra numa via reconhecível para o espectador: a história do pai ausente e das filhas que se ligam perante a distância dos outros; a actriz ansiosa, perturbada pelo desencaixe social (piscando o olho aos temas já enunciados em “Worst Person in the World”); e o realizador em confronto com uma indústria incapaz de o compreender, na hercúlea caminhada rumo à concretização da derradeira obra.
Nesta
última, talvez convicto da sua cinefilia, emerge não só a arte de construir o
filme final, mas também a definição do próprio filme-terminal: como inserir
nesse gesto voluntário um testamento, uma introspecção, quem sabe uma
autognose, a autoficção (maldita síndrome dos tempos actuais!) a encerrar
carreiras. Com tudo isto embaralhado, e com a graça de grandes actores à proa
(não apenas Renate ou Stellan, mas também Elle Fanning, na marginalidade da indústria
que a acolheu e a tentou moldar, assim como Inga Ibsdotter Lilleaas, belíssima actriz entre a
contenção e a retenção do sentimento), esta matrioska de Trier, drama bergmaniano disfarçado,
desapega a frieza que o preconceito colou ao cinema nórdico, é um tratado aos
nossos sentimentos, às nossas pessoalidade, e o cambio a peso de ouro que
atribuímos.
É um dos filmes mais ternos
numa viragem em que a Netflix deixa de ser opção (a
crítica — ou melhor, sátira metida a “besta” — é impagável). O cinema continua
a ser o lugar, o espaço, a contemplação perfeita para estas histórias. A
humanidade não é apenas transmitida: deve, sim, ser projectada. E isso sim, é
de um incalculável valor!

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