segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Como a UE deve responder às ameaças de Trump sobre a Gronelândia

O que fazemos quando o líder do país mais poderoso do mundo faz ameaças de anexação? Temos de reagir, e há maneiras de o fazer, defende o eurodeputado que propôs ações concretas à liderança do Parlamento Europeu, dias antes das novas ameaças de Trump que levaram a suspender a aprovação do tratado comercial com os EUA.

Per Clausen no Parlamento Europeu

Escrito por Per Clausen

O que fazemos quando o presidente do país mais poderoso do mundo faz afirmações bizarras — e totalmente incorretas do ponto de vista factual —, fala abertamente de anexação e envia repetidamente membros do seu governo para indicar que isso poderia acontecer com o uso da força militar contra um Estado-membro da União Europeia e da NATO?

Quando fui eleito deputado do Parlamento Europeu, não pensei que teria de ponderar uma questão como essa. No entanto, após as declarações agressivas de Donald Trump sobre querer “tomar conta da Gronelândia”, é exatamente isso que eu tenho de fazer.

Ficou claro para mim que apenas “monitorizar a situação a um nível sem precedentes” ou emitir uma declaração não era suficiente. Estou na política há tempo suficiente para saber como os bullies políticos operam, e o apaziguamento nunca é uma solução duradoura.

Em vez disso, avaliei o que pode ser feito imediatamente: congelar o trabalho sobre o muito debatido acordo tarifário que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente dos Estados Unidos concluíram no verão passado. O acordo, que o Parlamento Europeu deve aprovar até fevereiro, beneficiará exclusivamente os EUA.

Assim, estou a enviar uma carta à liderança política do Parlamento, coassinada por deputados de vários grupos políticos e diferentes países, de norte a sul e de leste a oeste [NT: incluindo a portuguesa Catarina Martins]. Esta carta apela à adoção de três medidas específicas e tangíveis — medidas com significado prático e simbólico.

Em primeiro lugar, solicita à Comissão que bloqueie qualquer novo compromisso com o acordo proposto com os EUA até que Washington cesse a sua intimidação relativamente à possibilidade de anexar a Gronelândia. Em segundo lugar, propõe que o Parlamento Europeu, enquanto instituição independente, declare que não celebrará acordos com um parceiro que recorra a ameaças à integridade territorial da Europa. Por último, incentiva a Comissão a suspender qualquer negociação adicional com os EUA enquanto estes ameaçarem a UE e os seus Estados-Membros.

Tomar estas medidas e comunicá-las de forma clara e calma ajudará a deixar claro à Casa Branca que as ameaças e as afirmações extravagantes de Trump terão consequências económicas reais para os EUA.

Para alguns, tomar tal medida parece demasiado conflituoso. A esses críticos, a minha resposta é: acreditam realmente que ceder ou simplesmente fingir desaprovação irá funcionar? Nesse caso, a dura realidade é esta: já tentámos levantar objeções e não funcionou. Além disso, quando é que responder com fraqueza alguma vez impediu verdadeiramente um agressor?

Para outros, suspender apenas o acordo tarifário entre a UE e os EUA não é suficiente. De facto, poderá ser necessário enviar sinais adicionais firmes, mas a medida que proponho é uma que podemos tomar muito mais rapidamente do que quase todas as outras medidas. É também uma medida que o Parlamento pode tomar de forma autónoma, sem ameaças de veto ou outros atos processuais de atraso e sabotagem por parte de figuras como o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán.

Além disso, como pode a UE esperar manter alguma credibilidade internacional se primeiro protesta veementemente contra os sonhos de anexação e as ameaças veladas de força militar de Trump, para depois recompensar tal comportamento com um acordo tarifário unilateral que beneficia quase exclusivamente os EUA de Trump? Se a Europa continuar por este caminho, o resto do mundo poderá começar a desconsiderar seriamente as posições da política externa europeia, não apenas em relação à Gronelândia.


Per Clausen é eurodeputado da Aliança Verde e Vermelha dinamarquesa - Enhedslisten. Este artigo foi originalmente escrito e publicado a 14 de outubro, - dias antes das novas ameaças de Trump e o anúncio de mais tarifas que levaram à suspensão da aprovação do tratado no Parlamento Europeu - na revista Parliament Magazine, onde pode ser encontrado através deste link.


[ Foto: The Left - fonte: www.esquerda.net]

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