domingo, 12 de maio de 2024

Escritores do presente

 


Escrito por Maria do Rosário Pedreira

Li há tempos um artigo muito interessante sobre o desaparecimento de certos tempos verbais da linguagem escrita (na oralidade, sempre foram tempos menos comuns, como o imperfeito do conjuntivo, o condicional composto e o pretérito mais-que-perfeito; em francês, também o «passé simple» por oposição ao «passé composé»). Dizia o seu autor que este «desuso» pode significar uma falta de capacidade para olhar o passado e aprender com ele e, por outro lado, uma incapacidade de ser prospectivo, de pensar o futuro. Vive-se hoje no hoje, e pronto; e, de facto, muitos dos romances que recebo actualmente nem parecem realmente romances, mas apenas apontamentos para escrever um romance, fichas com ideias para desenvolver mais tarde, do tipo: «Ele encontra a namorada com outro e faz uma cena. Enquanto discutem, o amante desaparece e ela fica admirada por ele não ter ficado ali.» Pois, parece bastante pobre, e é. Mas, se isto seria aceitável em principiantes, a verdade é que muitos dos mais considerados escritores estão a deixar-se contaminar por esta moda em vários países, fazendo pensar que mesmo quem aprendeu a gramática com os velhos professores está cada vez mais tentado a usar a linguagem dos guiões das séries televisivas e contar histórias em tempo real. Estará o presente a absorver-nos ou é só a influência do audiovisual?

 

[Fonte: horasextraordinarias.blogs.sapo.pt]

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