Como arma política, ele é uma bela máquina de
destruição, mas não constrói nada
Escrito por Sérgio Rodrigues
Então é isso: a eleição
presidencial antecipou a escolha da Palavra do Ano aqui na coluna. Por que
esperar dezembro se o termo mais marcante de 2018 já é, por aclamação,
"ódio"? Esse mesmo, leitor, que você sente agora por todos aqueles
que sentem o mesmo por você.
Calma. Antes de odiar o colunista,
saiba que isso não é uma acusação de cumplicidade pessoal com a cultura do
ódio, mas uma singela constatação. Uma das características desse sentimento é
sua fertilidade: responder a ele com mais ódio pode ser, muitas vezes, a única
postura cabível, mas ainda é odiar.
Não se trata de relativismo. É
fundamental —cada vez mais— separar os tipos de ódio de acordo com seu objeto.
Desejar o mal de ditadores sanguinários é bem diferente, do ponto de vista
moral, de desejar o mal de pessoas cujo único "pecado" é serem
distintas de você na cor da pele, na vida sexual ou na orientação política.
Mesmo assim, como o ódio tem
certas dinâmicas que independem de seu conteúdo, vale a pena jogar o holofote
sobre essa palavrinha que entrou na língua portuguesa no século 14, vinda do
latim "odium" e um dia grafada como "hodio" e
"odeo".
A pincelada erudita não disfarça o
fato de que estou tentando dar conta de algo que respiro, que vejo no olhar das
pessoas à minha volta. Não foi nos livros que encontrei a palavra do ano: foi
nas ruas do meu país.
Diante da amplitude do tema, busco
refúgio no dicionário. "Aversão intensa, geralmente motivada por medo,
raiva ou injúria sofrida", define o "Houaiss". Boa. O
"Aurélio", mais popular e menos preciso, não menciona as sementes do
ódio.
Medo, raiva ou injúria sofrida
parecem bons termos para qualificar as motivações do eleitor responsável
pelo tsunami de extrema direita que varreu a desacreditada, cínica,
pelancuda e botocada política brasileira no último domingo.
Se grande parte das peças que esse
eleitor escolheu para renovar "tudo o que está aí" traz estampados na
testa seu despreparo ou sua pura maluquice, fazendo prever mais encrenca,
nenhuma surpresa. O ódio nunca foi bom para construir nada, mas que bela
máquina de demolição!
É isso que faz dele uma arma
política tão poderosa, com a qual é possível, de forma populista, dirigir
multidões contra o "inimigo" —em geral, alguma personificação
grosseira dos tais medo, raiva e injúria que fizeram brotar o ódio.
O PT usou bastante essa arma, um
traço que se agravou à medida que o partido passava por seu conhecido declínio
ético ("nós contra eles", liberais rotulados de fascistas, campanha
de desmoralização da imprensa etc.). No entanto, coube a Bolsonaro levar
o ódio a um novo patamar.
O perigo que hoje ronda as ruas
brasileiras nem chega a ser propriamente político. O personagem mais temível do
país neste momento, entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial,
é o boçal aleatório empoderado pelos quase 50 milhões de votos amealhados por
um candidato que fundou sua carreira no discurso de ódio às minorias.
Na hipótese provável de uma
vitória do candidato do PSL no segundo turno, o novo presidente vai
enfrentar o desafio imenso de domar essa força bruta vinda das profundezas
trevosas do país.
Talvez lhe seja útil nessa hora a
advertência do americano James Baldwin, que além de escritor brilhante era
ativista social, negro e gay: "O ódio, capaz de destruir tanta coisa,
nunca deixou de destruir o homem que odeia, e essa é uma lei imutável".
[Fonte: www.folha.com.br]
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