Escrito por Sílvia Marques
Sim, caro leitor. Não há nada que desperte mais inveja do que o senso
de liberdade. Muitas pessoas constroem carreiras rentáveis e compram
bons apartamentos e trocam o carro regularmente e substituem o celular a
cada 6 meses e conhecem os restaurantes mais badalados da cidade e
fazem selfies lindas e já foram mais de cinco vezes para o exterior e
sabem perfeitamente como se vestir dentro dos padrões da moda e puderam
esquiar nos Alpes suíços e fazer compras na Galerias Lafayette e ainda
assim podem invejar pessoas que só viajaram para o interior de São Paulo
e fazem das tripas coração para fechar as contas no fim do mês e fazem
combinações bizarras na hora de se vestir.
Podemos
lançar um olhar comprido para uma roupa de grife, um carro novo ou casa
grande. Podemos admirar pernas bem torneadas, um look elegante e uma
barriga lisinha. Quem não curte uma barriga sem dobras? Mas o que nos
desperta uma inveja dolorida mesmo, aquele tipo de inveja que faz arder a
boca do estômago, sobe pelo tubo digestivo e atinge de forma certeira a
alma é o senso de liberdade que poucas pessoas têm.
Não, caro
leitor endinheirado. Não é possível comprar o senso de liberdade como
quem compra uma bolsa de grife. Não adianta ter vários cartões de
crédito Gold. Não adianta dizer que dinheiro não é problema para você
nem perguntar: “Você sabe com quem você está falando?”.
Não, caro
leitor sarado. Não adianta passar horas na academia e deixar de comer
tudo que te agrada. Não adianta transpirar litros de suor por hora nem
se privar a vida toda de uma boa picanha com cerveja e pãozinho de alho.
Não,
caro leitor bem-sucedido. Não adianta coordenar 507 pessoas numa
empresa multinacional e fazer os mais desprotegidos abrirem mão da sua
vida por medo de perder o emprego.
Não, caro leitor. Você não
encontrará o seu senso de liberdade em lugar algum. O senso de liberdade
não está à disposição para ser vendido ou alugado em lugar algum. Não
adianta ter doutorado, ter prêmios, ter dinheiro, ter fama.
Liberdade
é uma porta trancada por dentro. Só nós podemos abri-la e tomá-la para
nós com as duas mãos e a alma escancarada. Se preciso da autorização de
alguém pra usufruir dela, não sou livre. Fui apenas autorizado a fazer o
que quero. Mais nada. Um falso descolamento. Uma falsa liberdade. Mais
uma mentira entre tantas outras que contamos para nós mesmos.
Ser livre é ser responsável pelas escolhas que fazemos, assumindo as
suas consequências, num estilo bem sartriano. Ser livre é se assumir
como um indivíduo. É saborear a sua própria solidão. É olhar para o
futuro sem pavor. É ter a consciência de que no final das contas somos
nós que precisamos cuidar da gente mesmo, por mais que outras pessoas se
disponham a nos ajudar. Ninguém nasce por ninguém. Ninguém morre por
ninguém. E por mais que as pessoas que amamos e que nos amam sofram pela
gente, a nossa dor é algo único, cuja real extensão e profundidade só nós conhecemos.
Ser livre é dizer sim quando se quer dizer sim e
dizer não quando se quer dizer não. É pedir um tempo para pensar quando
se tem dúvida. É fazer tudo com vontade, sem culpa. É lutar por aquilo
que se deseja sem se submeter de forma servil e obsessiva ao desejo.
Ser
livre é saber curtir as conquistas sem medo de ser soberbo. Ser livre é
aceitar que perdeu sem amargura e sem cobranças. Ser livre é saber a
hora de ficar e de dizer adeus. Ser livre é permitir-se ficar triste e
descrente. Ser livre é aprender a superar e seguir em frente. Ser livre é
brincar com o acaso. Ser livre é se deixar levar pelas emoções. Ser
livre é dizer o que se pensa e fazer o que se diz. Ser livre é botar o
ser humano acima das regras, o amor acima do medo. Ser livre é ser
íntegro.

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