terça-feira, 13 de junho de 2017

Livro clássico sobre emigração italiana é lançado no Brasil

Doutora pela USP publica tradução para o português de Em Alto-Mar, de Edmondo de Amicis
Escrito por Rafael Castino

Era gente que, depois de ter lutado com a fome e com a miséria,
não tinha mais remédio senão emigrar.
Ilustração de Arnaldo Ferragutti, publicada em En el Océano.
Barcelona: Espasa y Compañía, 1892
Sucesso da literatura europeia, Em Alto-Mar (1889), de Edmondo de Amicis, conta a história de emigrantes da então recém-unificada Itália em busca de melhores condições de vida em outro hemisfério. A bordo do navio Nord America, 1.700 passageiros partem com destino às cidades de Buenos Aires e Montevidéu. Durante 22 dias de navegação, o autor convida seus leitores a um importante capítulo da história moderna — um romance com cara de diário de viagem.
Em 1884, conhecido antes mesmo de seu best-seller, De Amicis embarcou para a Argentina a convite do editor do jornal El Nacional. Nessa viagem, que serviu de inspiração para sua obra, Edmondo pôde se aproximar daquele “caos”, antes não imaginado, em que viviam os emigrantes em curso para a América.

Saindo do porto de Gênova, o navio, dividido em três classes, representa um microcosmo da sociedade italiana: na primeira, proprietários de terra e burgueses; na segunda, frades e ricas famílias; e na terceira, os emigrantes.

Por conta das condições precárias no navio, passageiros padeciam durante a viagem, sofrendo com epidemias. Tal circunstância se aproxima da atualidade, lembrando a situação de cidadãos que migram do norte da África, através do Mediterrâneo.
Durante as três semanas de viagem, o navio ganha a imagem de cidade flutuante — com mortes e nascimentos ocorrendo dentro daquele mesmo ambiente. Segundo Adriana Marcolini, doutora em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e tradutora de Em Alto-Mar, historicamente havia muito temor da morte durante as navegações. Além do medo natural, os passageiros que viessem a falecer a bordo tinham seus corpos jogados ao mar — situação indesejável perante a religião católica, predominante na cultura italiana.
Nord America vivenciou o falecimento de um passageiro, que embarcou doente, e o nascimento de um bebê, batizado de Galileo, uma homenagem ao apelido do navio, prática comum daquelas viagens — dar o nome da embarcação às crianças nascidas durante a navegação.
Tendo que, na época, a Itália vivenciava uma batalha ideológica acerca do tema emigração, destaca-se um Edmondo muito sensível perante o assunto. Numa passagem da obra, presencia-se uma angústia em De Amicis — quando o navio chega em Montevidéu e o médico local começa a avaliar os emigrantes, a descrição torna-se muito dramática e comovente, comparando aquele momento com uma procissão, onde seus conterrâneos estariam desesperados. É o ápice de compaixão do autor.
Momentos históricos são muito bem representados durante o romance, realçando o toque jornalístico do autor — foi assim com a recente unificação italiana. Passados pouco mais de 30 anos após o fato, é possível encontrar no Galileo um desentendimento linguístico entre italianos e uma multiplicidade ímpar de dialetos.
A tradução
Em Alto-Mar é uma coedição da Editora Nova Alexandria e do Istituto Italiano di Cultura de São Paulo, com incentivos do Programa de Ação Cultural da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo (Proac). A iniciativa de transpassar a obra à língua portuguesa surgiu do objetivo de traduzir obras literárias estrangeiras de domínio público. Um livro torna-se de domínio público quando seu autor já faleceu há mais de 70 anos. Edmondo de Amicis, nascido em 21 de outubro de 1846, faleceu em 11 de março de 1908, há 109 anos atrás.
Levando quase tudo, jogado sob o braço ou às costas, as trouxas
guardando suas melhores roupas
Ilustração de Arnaldo Ferragutti, publicada em En el Océano.
Barcelona: Espasa y Compañía, 1892
O trabalho de tradução de Em Alto-Mar demorou cerca de dez meses para ficar pronto. Dentre as maiores dificuldades, Adriana aponta o capítulo em que o autor descreve o motor do navio, com diversos termos técnicos, e os diálogos em dialetos próprios. Por conta das variações linguísticas italianas, ela optou por manter tais conversas no corpo do texto e adicionar a tradução como nota.
Como prêmio aos leitores brasileiros, Adriana traduziu também dois relatos que Edmondo de Amicis fez sobre a passagem pelo Rio de Janeiro, durante sua volta à Itália.
“A viagem é um capítulo dessa história da emigração, que, pelo menos aqui no Brasil, é pouco abordada”, comenta Adriana. “Esse livro era inédito no país. É a primeira vez que ele está sendo publicado oficialmente. A sensação de traduzi-lo gera um tipo de responsabilidade, tornando acessível uma obra muito importante, que conta de maneira literária a narrativa de uma travessia transoceânica — uma travessia não apenas física, mas também psicológica.” 
[Fonte: www.jornal.usp.br]


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