segunda-feira, 1 de maio de 2017

"O galego na diáspora é solidário, na Galiza é um malandro"


É um namoro antigo, o dos galegos com Lisboa. Hoje, a Xuventude da Galicia, o porto seguro desta gente migrante, luta pela sobrevivência. Fomos ouvir galegos e descendentes de galegos que fizeram de Lisboa a sua cidade.


José, Amâncio, Alfonso e Manolo, quatro amigos galegos na baixa de Lisboa
Escrito por Marina Almeida

"Fui gerado em Lisboa, mas os meus pais, como bons galegos, foram-me desovar lá. Subi o rio Minho como a lampreia e fui nascer quase em frente a Monção, numa aldeola que é As Neves. E depois vim para cá, há 65 anos e... nove meses." José António Castro, sentado à mesa no final de um almoço bem regado, com três amigos de raízes comuns: Amâncio Dominguez, Alfonso Mateo e Manolo Bello. Estão todos na casa dos 60 e a vida corre-lhes bem. O almoço-algazarra, em que contam as novidades e recordam as cumplicidades, é um privilégio de quem pode andar mais devagar.

José Castro é proprietário da Funerária Gil, a mais antiga do país, fundada em 1873. Fez toda a vida em Lisboa, nos bairros de Alfama e do Castelo e, ao contrário dos amigos, andou na escola portuguesa onde... "era o espanhol". Não tinha sotaque e só o Suaréz do nome denunciava a viagem à Galiza que os pais fizeram a poucos dias do seu nascimento. "Galego sempre me senti, lisboeta também. Nunca me senti estrangeiro aqui." Trabalhou 25 anos, em contabilidade até à morte da avó, que era quem geria a funerária. Depois tomou conta do negócio. "Tinha a experiência de toda a vida ali na agência, sabia como aquilo funcionava. É como a série da televisão." Ri-se. Os amigos não perdem a oportunidade para voltar à velha brincadeira. Dizem que a Gil fez o funeral de todos os galegos de Lisboa, e José Castro não diz que não: "Os galegos procuravam a agência, claro, era a única que havia. Agora há a Servilusa." O filho anda pela agência, mas José não tem a certeza de que este seja o caminho dele. "Se ele não quiser fecha-se a porta, e pronto."
Vivia no Cais do Sodré, a família tinha ali as tascas todas e as carvoarias. Agora já está tudo alterado, morreram uns, outros reformaram-se. Os filhos já cá nasceram, estudaram e já têm outra atividade
Do almoço restam os copos quase vazios, chegam os cafés e os digestivos. Parecem estar em casa. E pelo menos um deles é como se estivesse. Amâncio Dominguez é o sócio do Hotel Santa Justa, na Baixa de Lisboa, onde se reúnem todos. Começou por trabalhar numa carvoaria e na tasca do pai no Cais do Sodré. Veio com 7 anos, em 1960, para Lisboa. "Vivia no Cais do Sodré, a família tinha ali as tascas todas e as carvoarias. Agora já está tudo alterado, morreram uns, outros reformaram-se. Os filhos já cá nasceram, estudaram e já têm outra atividade." Por isso, a tradicional ligação dos galegos à restauração está-se a perder. "Já não vêm os galegos com vontade de trabalhar que vinham antes, antigamente vinham por necessidade e agarravam-se aos negócios que ninguém queria. Até vendiam água!", diz Amâncio. "Hoje, por exemplo, temos aqui a diretora [do hotel] que é galega, é gente que vem mais preparada e agarra outras profissões."

Paula Ferro, diretora do hotel Santa Justa: o filho nasceu em Lisboa e é por cá que ela quer ficar
  |  ANTÓNIO PEDRO SANTOS/GLOBAL IMAGENS

Paula Ferro acede e junta-se à conversa. Veio de Padrón, a terra dos famosos pimentos, há quatro anos. Formara-se no Centro Superior de Hotelaria da Galiza e calhou saber que o hotel de Amâncio precisava de uma diretora. O marido já cá estava e Paula veio também. Tem 34 anos e o primeiro filho, de 9 meses, nasceu em Lisboa. "Nós não temos cá família, não temos pais, não temos primos. Tenho saudades da família, mas nunca me senti fora de casa como podemos sentir-nos, se calhar, noutras cidades de Espanha, que são mais fechadas. O português e as pessoas de Lisboa são muito acolhedoras."

Paula é o que Álvaro Moreira Muiños chama de "galegos de pouca duração". O presidente da Xuventude da Galicia - Centro Galego de Lisboa considera que "a Galiza teve três momentos de emigração: entre o século XVII e princípios do XX, que eram galegos com profissões nómadas que vinham porque lá não tinham meios de subsistência. Depois houve a emigração do tempo da guerra [civil] e hoje há a emigração em comissão, por exemplo, os funcionários do El Corte Inglés, dos bancos ou das empresas. São galegos de pouca duração".

Muiños lembra "os galegos iniciais que inundaram isto tudo de tascas e restaurantes". E os amoladores, que vinham de Ourense. Como o pai do senhor Garcia, que está a amolar uma faca de pastelaria enquanto no rádio toca o Purple Rain. Não chovia naquela manhã, ou o número 173C da Av. Almirante Reis seria um corrupio de gente com emergências relacionadas com chapéus de chuva, que também ali se reparam. O pai de António Garcia abriu a Casa Garcia em 1943, quando o negócio do carrinho de madeira do amolador com que calcorreava a cidade permitiu. Foi o sustento da família, até agora. "É uma coisa que não dá para enriquecer. Para trabalhar e viver desafogadamente tudo bem, agora para enriquecer não dá. Continuei aqui porque comecei a gostar disto e a coisa correu bem. Para quem não gosta é difícil." O caso do seu filho. Não se adaptou. Quando António, de 72 anos, parar de dar uso à roda de esmeril, a Casa Garcia fecha.

Aula de gaita de foles de Paulo Marinho no Centro Galego de Lisboa
  |  ANTÓNIO PEDRO SANTOS/GLOBAL IMAGENS

Tal como os amigos à mesa de almoço, também os Garcia eram habitués na Xuventude da Galicia. Atualmente, a associação habita um palacete cor-de-rosa ao lado do Jardim do Torel. Na juventude destes galegos era na Rua da Madalena que se faziam as "comezainas" e as atividades. "Comemorávamos tudo", diz Muiños, as festas portuguesas, as espanholas e as galegas. Agora a Xuventude da Galicia tem três a quatro atividades por mês e 560 sócios, dos quais 370 são efetivos (têm alguma ligação familiar à Galiza) e os restantes são simpatizantes (sem ligação à Galiza são, na maioria, os alunos das atividades). Pagam uma quota de cinco euros por mês. "Não dá para nada", desabafa o presidente. Em 1988 receberam o palacete de um outro galego com jeito para o negócio, Manuel Cordo Boullosa. Começou como aguadeiro e carvoeiro e acabou dono de uma petrolífera, a Sonap. Doou a casa para a associação promover o intercâmbio entre a cultura galega e a cultura portuguesa. "Foi assim que nasceu este palacete e temos de o aguentar com dificuldade. É nosso enquanto a Xuventude da Galicia cumprir os estatutos", diz Muiños.

Nos últimos anos, a associação - declarada de utilidade pública em 1980 - perdeu vida. Os anos 1990, em que tinha 900 sócios, já lá vão. "O decréscimo deve-se às pessoas que se reformaram e regressaram à Galiza, outros morreram, os herdeiros que vinham cá e deixaram de vir." A vida agora é diferente, mudaram as comunicações, se antes demoravam 12 horas a chegar à Galiza, agora vão lá de fim de semana e já não se procuram tanto uns aos outros. Apesar disso, o Muiños não acredita que a instituição esteja em risco, até porque tem muitas atividades dirigidas à população. Mostra-nos a aula de guitarra, depois a de gaita de foles, mais tarde a de sevilhanas.
"O decréscimo deve-se às pessoas que se reformaram e regressaram à Galiza, outros morreram, os herdeiros que vinham cá e deixaram de vir

Na Baixa, os quatro galegos vão contando histórias que, irremediavelmente, passam pelo centro galego. "É a grande mútua mundial", onde há sempre apoio para quando é preciso. É Manolo Bello quem traz o tema da solidariedade para a conversa. O jornalista e produtor acabava de chegar ao fim da sua atribulada história de vida, resumindo esta condição de não ser estrangeiro na cidade que escolheu para viver. A face mais visível da sua carreira aconteceu na SIC, como produtor. Agora está reformado. Demorou dois anos a perceber que é dono do seu tempo e que não vai continuar a acordar com os números das audiências. Dizia ele: "O galego na diáspora é solidário, o galego na Galiza é um malandro, há muita inveja, muita trica, são uns bufos. Na diáspora são amigos." Alfonso Mateo não descansa enquanto não conta a sua história. "Um dia estávamos aqui a almoçar e roubaram-me um saco de bacalhau. Foi num dia de Santo António, tinha comprado para levar de prenda. Quando me apercebi, este levantou-se, não disse nada a ninguém, foi comprar e dividiram entre todos." Aponta para Amâncio, caladinho do outro lado da mesa. E dias depois, diz José, ele [Alfonso] apareceu-nos com um cabrito para cada um e até trouxe bacalhau. E assim continua a acontecer. "Esta é a essência do galego fora da Galiza", diz, orgulhoso, Alfonso.

António Garcia na loja da av Almirante Reis que o pai abriu em 1943
  |  ORLANDO ALMEIDA/GLOBAL IMAGENS


[Fonte: www.dn.pt]

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