Cidade colombiana vai receber cinzas do autor, morto no México, em 2014
Portal de los Dulces, no centro histórico de Cartagena, cenário de obras de García Márquez
[foto: David Estrada/FNPI]
Por GUILHERME FREITAS
Numa tarde de
novembro em Cartagena, na Colômbia, um homem de voz suave e gestos largos
contava histórias para um público de quatro pessoas em um restaurante no centro
histórico, quando dois rappers de rua se aproximaram. Cantaram de improviso
algo sobre cada um dos presentes, até chegarem ao senhor, sobre quem fizeram
uma rima com o verso “o vovô que se parece com Gabriel García Márquez”. Com a
naturalidade de quem já passou por enganos parecidos, Jaime García Márquez, de
75 anos, apenas sorriu e continuou contando suas histórias.
Oitavo dos onze
filhos de Gabriel Eligio e Luisa Santiaga Márquez Iguarán, Jaime é hoje a
conexão mais forte da família García Márquez com Cartagena. A cidade onde Gabo
mantinha sua residência colombiana se prepara para receber as cinzas do
escritor, que morreu em abril de 2014, na Cidade do México, onde vivia desde os
anos 1960. Prevista para março, na Universidade de Cartagena, a cerimônia marcará o retorno
simbólico do autor ao país natal e à cidade onde começou a carreira jornalística e
que transformou em cenário de romances como “O amor nos tempos do cólera” e “Do
amor e outros demônios”.
Gabito era muito
amado no México. Mas ele nunca se naturalizou mexicano, e faz todo o sentido
que retorne à sua terra — diz Jaime, que, no entanto, se preocupa com a pompa
em torno da transferência das cinzas, acertada entre a viúva de seu irmão mais
velho, Mercedes Barcha, e o governo local. — O governo está gastando muito com
isso. Mas nossa família sempre foi simples. Espero que não façam nada
anti-Gabito.
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Gabriel García Márquez em Cartagena
Manuel Pedraza/ El Tiempo/ GDA
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Jaime chegou a Cartagena em 1950, quando toda a família García Márquez
se mudou para lá vindo da pequena Sucre, a 400 quilômetros de distância, no
interior da Colômbia. Nascido em Aracataca, Gabo vivia em Barranquilha na
época, mas logo se juntou aos parentes numa casa onde, apesar dos dois andares,
os irmãos se amontoavam em quartos compartilhados. “Foi a casa mais viva das
várias casas de Cartagena” onde viveram, escreveu Gabo no livro de memórias
“Viver para contar”.
Jaime tinha 10 anos e guarda dessa época memórias e causos de família,
que gosta de misturar, como o irmão mais velho também costumava fazer. Por
muitos anos, Jaime exibiu essas habilidades aos visitantes que guiava em
Cartagena, onde voltou a viver quando Gabo o convidou para ser diretor de
Relações Institucionais da Fundação para o Novo Jornalismo Ibero-americano
(FNPI), criada pelo escritor e por Jaime Abello em 1995. Em longas caminhadas,
Jaime mostrava a Cartagena ‘garciamarquiana’, evocando lugares e episódios que
iluminam vida e obra do escritor.
Cartagena sempre foi um tema de Gabito. Toda sua obra está baseada na
realidade. Nada era pura ficção, ele sabia tornar o real poético. O que chamam
de “realismo mágico” eu chamo de “coincidência bendita” — diz Jaime, que,
segundo quem conheceu Gabo, fala com as mesmas pausas dramáticas e sorrisos
irônicos do irmão.
Naquela tarde de novembro, Jaime voltou a guiar um grupo pela primeira
vez depois de oito anos. Animado, conduzia os visitantes pelo cotovelo para
mostrar uma esquina ou um prédio antigo, antes de começar com um invariável
“Gabito contava que...”.
ESTREIA NO JORNALISMO
A Cartagena que Jaime revelou aos visitantes, cheia de memórias e
histórias de Gabo, pouco lembra a cidade atual, onde as cinzas do escritor vão
se tornar uma atração turística a mais. No lugar da antiga pensão do Parque de
Bolívar, no centro histórico, onde Gabo tentou passar a primeira noite em Cartagena,
em 1948, está hoje uma boutique. Enxotado pela dona do hotel por não ter
dinheiro para o quarto, teve que cochilar em um banco da praça, aponta Jaime,
mas o lugar agora está tomado por carruagens e cocheiros engravatados à caça de
turistas.
Gabo chegou a Cartagena vindo de Bogotá, para escapar dos violentos
tumultos causados pelo assassinato do líder de esquerda Jorge Eliécer Gaitán,
em 1948. Em meio à instabilidade do país, foi preso no banco de praça por
violar o toque de recolher, mas acabou no bar com os policiais, que fizeram o
favor de deixá-lo dormir na cadeia.
Jaime García Márquez, irmão de Gabo, em frente à antiga sede do jornal “El Universal”, em Cartagena
[foto: David Estrada/FNPI]
A Cartagena de
hoje é muito diferente da que foi revelada a Gabo, naquela época, “não como o
fóssil de papel machê dos historiadores, mas como uma cidade de carne e osso
que não estava sustentada por sua glória marcial, e sim pela dignidade de seus
escombros”, escreveu o autor em “Viver para contar”.
— Escuta essa —
diz Jaime, emendando uma história sobre o dia em que seu pai morreu e Gabo
levou os irmãos para conversar no único lugar onde não incomodariam o escritor
famoso: um bordel. — Mas as prostitutas reconheceram Gabito e fizeram fila para
pedir autógrafo. Eram todas leitoras dele.
Jaime mostra o
lugar onde Gabo teve seu primeiro trabalho como repórter, a antiga redação do
jornal “El Universal”, hoje em ruínas, na mesma rua da atual sede da FNPI. Lá o
escritor manteve uma coluna entre 1948 e 1950, enquanto matava aulas de Direito
na Universidade de Cartagena, a mesma que receberá suas cinzas. Nesses textos,
descrevia o prazer de varar a madrugada pelas ruas, saudava os acordeonistas da
região e pescava no cotidiano da cidade histórias que poderiam estar em seus
romances, como o nascimento quase simultâneo de quatro pares de gêmeos no
hospital local.
INSPIRAÇÃO
PARA ROMANCES
Antes das
crônicas, Gabo publicou em um jornal de Bogotá, em 1947, seu primeiro conto, “A
terceira resignação”. Jaime diz que o protagonista da história fantástica, uma
criança que continua a crescer mesmo depois de morta, é inspirado nele.
Fui um bebê
prematuro, e nossa mãe colocava algodão numa caixa para me acomodar, como fazem
com o protagonista do conto. O personagem sou eu. Gabo negava para não me pagar
os direitos — brinca Jaime, explicando o nome desse tipo de causo exagerado na
Colômbia. — Chamamos isso de mamar gallo.
O passeio termina no lugar favorito de Jaime relacionado à obra do
irmão: o Portal de los Dulces. É o cenário de um trecho decisivo de “O amor nos
tempos do cólera”, quando Fermina Daza reencontra Florentino Ariza, mas rejeita
o pretendente, com quem só se reencontraria 51 anos, nove meses e quatro dias
depois. Florentino decide escrever uma carta de amor desesperada a Fermina, mas
esse texto não aparece no romance. Contador de histórias nato que nunca
publicou livros, Jaime diz que Gabo pediu conselhos a ele para escrever a
carta.
— Eu disse que era ele o irmão que entendia de estruturas literárias.
Mas ele respondeu: “Cartas de amor não têm estrutura literária”. E pediu ajuda.
Então eu disse: “Sou o García Márquez que não escreve nem cartas de amor”.
[Fonte: www.oglobo.globo.com]



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