A coisa tá
feia, tá braba e fica a cada dia mais feia, mais braba. O que também não para
de aumentar é a incrível capacidade de tergiversar de muitos dos nossos
próceres.
Na
terça-feira, em entrevista concedida depois da retumbante ação da Polícia
Federal que atingiu diretamente o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o
presidente do Senado, Renan Calheiros, reagiu um tanto atônito à extensão da
ação da PF a alguns dos aliados dele. Renam concedeu uma entrevista em que,
meio perdido, buscando as palavras, disse algo parecido com isto: "Jamais
consenti, nem consentiria, jamais permiti, nem permitiria que alguém falasse em
meu nome".
Quem for a
qualquer dicionário e procurar os verbos "consentir" e
"permitir" verá que eles aparecem como sinônimos, mas uma análise
etimológica dos dois pode revelar informações interessantes, que talvez não
sejam perceptíveis imediatamente, mas talvez façam sentido.
Não é
preciso ir muito fundo para perceber que em "consentir" existe a
ideia de "sentir junto". Quem procura a etimologia de
"consentir" no "Houaiss" encontra isto, depois das
informações sobre a origem latina desse verbo: "Ser de igual opinião, sentimento
ou conduta; decidir de comum acordo; simpatizar com". Em
"permitir", que também tem origem latina, o mesmo dicionário dá este
sentido etimológico: "Dirigir para diante, impelir com força; entregar,
permitir, autorizar".
Se levar em
conta a etimologia de "consentir", quem gosta de analisar as
entrelinhas poderá dizer que a fala do presidente do Senado é reveladora: o
sentimento é um só, ou seja, "formamos um grupo, indissolúvel, temos os
mesmos 'ideais', mas quem fala por mim sou eu e quem conduz o passo (adiante,
com força) também sou eu". Entenda-se "força" como bem se
quiser...
Alguém dirá
que a etimologia é só um dos caminhos para que se entenda o sentido de uma
palavra, já que, embora literalmente "etimologia" seja "estudo
da origem", o seu sentido efetivo é "estudo da origem e da evolução
das palavras".
Por falar em
etimologia (e já que citamos o nordestino Renan Calheiros), é sempre bom
lembrar que a origem de "forró", que nomeia um ritmo igualmente
nordestino, não é a que ainda se propaga Brasil afora ("for all",
expressão inglesa que significa "para todos" e que nomearia um baile
realizado para os empregados de uma obra realizada no Nordeste e gerenciada por
uma empresa inglesa ou estadunidense).
"Forró"
é forma reduzida de "forrobodó", que os dicionários dão como
equivalente a "baile popular, arrasta-pé, festança" e "confusão,
tumulto, balbúrdia". Pensando bem, "forrobodó" (com a sua
polissemia) pode muito bem definir a verdadeira quizumba em que estamos todos
metidos neste país que de sério parece não ter mesmo nada de nada.
Para não
dizerem que não falei das flores, ou melhor, de um aspecto estritamente
gramatical, lembro que o verbo "consentir" é irregular, tal qual
"sentir". Na primeira pessoa do singular do presente do indicativo,
troca-se o "e" por "i" ("sinto",
"consinto"), consequentemente todas as flexões do presente do
subjuntivo terão esse "i" ("que eu sinta/consinta, que tu
sintas/consintas, que nós sintamos/consintamos, que eles
sintam/consintam").
Que os
deuses do bem consintam em que nos livremos desse espetáculo grotesco,
repugnante. É isso.
[Fonte: www.folha.com.br]
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