Escrito por Emir Sader
O que mais assustou na primeira aparição publica internacional formal de Mauricio Macri foi a insistência em colocar o tema da Venezuela na reunião do Mercosul em Assunção, sabendo que iria encontrar respostas duras e não conseguiria emplacar. A avaliação que ele faça da situação da Venezuela poderia encontrar algum tipo de receptividade em um ou outro presidente presente, mas ter escolhido para sua estreia um tema assim, representa uma postura de querer introduzir elementos que fraturem a unidade interna do Mercosul e acenem com a possibilidade de que venha a defender posições dos EUA na região, em um momento de imenso isolamento de Washington na América Latina, em particular na América do Sul. Desse ponto de vista foi até uma atitude provinciana, sem qualquer tato diplomático, se é que ele deseja conquistar algum espaço de respeito nas relações entre os governos da região.
Atrás tinha ficado o tempo em que os principais países do continente - Argentina, Brasil, México – tinham que renegociar suas dividas externas com os credores e não encontravam solidariedade nos outros governos. Ao contrário, os credores jogavam uns contra os outros, fazendo concessões a uns quando um dos governos estava em maiores dificuldades, para isolá-lo mais ainda.
Nos acostumamos, desde a eleição, do Lula e do Nestor Kirchner, ao período de melhores relações entre os dois países, colocados em disputa desde final do século XIX, como potencias adversárias e concorrentes. Foi a harmonia do eixo Brasil-Argentina que permitiu consolidar e ampliar o Mercosul, organizar a Unasul e a Celac. Os conflitos no Mercosul eram produto das disputas de empresários privados por mais mercado, enquanto as relações politicas entre os governos dos dois países foram excelente durante 12 anos.
O fator externo que deve modificar essa clima é o das novas relações da Argentina com os EUA. Macri deve ser recebido pelo Obama e não será difícil a este suscitar a vaidade do novo presidente argentino, propondo relações privilegiadas do pais com os EUA. Nada como as “relações carnais” que o Menem propôs aos EUA, mas algum tipo de privilégio que pode incentivar posições mais favoráveis ao livre comércio, à Aliança para o Pacífico, intercâmbios econômicos privilegiados com os EUA e posições políticas como a tomada em relação à Venezuela, que rompa consensos até agora existentes no Mercosul e na Unasul.
A situação não é tão simples como Macri aparentemente pensa, em que pudesse compatibilizar o Mercosul com um tratado bilateral com os EUA e com vínculos com a Aliança para o Pacifico. E a economia argentina é muito dependente do Mercosul e da economia brasileira, para poder permitir-se algum tipo de ruptura.
Porém, podemos imaginar que os EUA começam a sonhar em ter em um dos principais países da região, inserido nos processos de integração da América do Sul, um governo que defenda suas posições, como aconteceu em Assunção. Certamente, produzir-se-ia uma polarização em relação ao Brasil, e os dois países eixos da integração regional deixariam de ser parceiros estreitos para tornarem-se rivais. Possibilidade difícil de visualizar hoje, mas que pode, no futuro, conforme as coisas evoluírem na região, tornar-se realidade.
- Emir Sader é mestre em filosofia política e doutor em ciências políticas. Atualmente, é professor aposentado da Universidade de São Paulo.
[Fonte: www.alainet.org]
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