São milhões que estão conversando nas suas famílias, nos locais de trabalho, de moradia, nos transportes públicos. Essa força político-social é o maior trunfo da campanha Lula nestes próximos dias.
Presidente Lula durante evento aberto à população no interior do Nordeste
Escrito por Valério Arcary
1. A história nos ensina que, diante de situações
perigosas, acontecem fenômenos surpreendentes e extraordinários. Uma imensa
parcela da sociedade que estava, até então, politicamente inativa, diante de
uma ameaça terrível, coloca-se em movimento e faz a diferença. Foi assim no
Fora Collor em 1992, e agora, também. A vitória da extrema direita nas eleições
para governadores, Câmara de Deputados e Senado, associada à passagem de Flávio
Bolsonaro (PL) em primeiro lugar para o segundo turno, foi o gatilho.
Despertou, nas últimas duas semanas, uma gigantesca mobilização de massas, nas
ruas e nas redes. A contra-ofensiva da “onda vermelha” veio de “baixo para
cima” em modo de auto-organização diante da ameaça de vitória do bolsonarismo.
Um “grande medo” está incendiando a disposição de luta na hora decisiva das
eleições. O segundo turno está sendo disputado “a quente” e estamos diante de
um empate técnico em que a diferença está diminuindo. Já são milhões que se
levantaram. Só isso pode explicar as desconcertantes pesquisas que confirmaram
que os nove milhões de votos que foram entregues aos outros candidatos de
direita — Cury, Caiado, Renan e Zema — não asseguraram uma vantagem clara do
bolsonarismo. O engajamento de massas colocou os neofascistas na defensiva. A
esquerda conquistou hegemonia nas ruas e superioridade nas redes. Era
imprevisível. Mas está sendo arrebatador e magnífico.
2. Manifestações
ininterruptas em todo o país, após a colossal ocupação da avenida Paulista em
11 de outubro, de Recife a Porto Alegre, passando por Salvador e Brasília,
culminando na praia de Copacabana no domingo, 18 de outubro, e estendendo-se pelas cidades médias do
interior, como Juiz de Fora e Campinas, e outras muito menores, ganharam
dimensões assombrosas e sustentaram o crescimento de Lula nas pesquisas,
associadas a uma atividade febril nas redes sociais. São pelo menos dois os
fatores que incidiram na consciência da base social da esquerda e ajudam a
compreender essa “explosão”: (a) o papel dos estudantes foi a centelha que
incendiou as ruas, imediatamente depois do 4 de outubro, alimentando a
esperança de que uma virada seria possível, porque os mais jovens “caminham
mais leves”; (b) a percepção de que o bolsonarismo não pode ser subestimado e
deve ser levado muito a sério, portanto, de que a revisão constitucional
anunciada será a antessala de um regime autoritário, e de que a recolonização
do Brasil pelos EUA é um perigo “real e imediato”.
3. A dúvida sobre o desfecho das eleições mantém-se,
porque ainda não aconteceu uma virada. A análise não pode ser torcida. Uma
virada poderá ou não vir, mas, mesmo que a probabilidade seja arriscada, há que
lutar até o fim. Esse deve ser o papel do comando da campanha e de todos
aqueles que compreendem a máxima gravidade do que está em disputa. As margens
são tão estreitas — inferiores a 2% — que não há favoritismo de ninguém, e a
possibilidade da vitória de Lula está colocada. O que ainda prevalece, cinco
dias antes das eleições, é um desenlace indefinido. Os erros da imensa maioria
das pesquisas na véspera do primeiro turno, subestimando a votação de Flávio
Bolsonaro, confirmaram que os institutos têm dificuldades metodológicas em
aferir os resultados da votação da extrema direita, por variados fatores, dos
quais três se destacam: (a) dados desatualizados do IBGE que oferecem as
métricas do modelo; (b) a desconfiança da base bolsonarista de responder às
pesquisas; (c) a definição de voto no próprio dia. Mas esta incerteza não
autoriza qualquer conclusão sobre uma inevitável, menos ainda invencível
“avalanche” fascistoide.
4. Nada está garantido, e não nos podemos deixar enganar
pelo desejo, mas uma análise lúcida exige destacar cinco evoluções positivas do
momento da conjuntura: (a) as entrevistas no Jornal Nacional da TV Globo parecem ter favorecido o
desempenho de Lula porque nas pesquisas feitas no dias posteriores a vantagem
do filho de Bolsonaro diminuiu; (b) apesar do comício na Paulista do
bolsonarismo de domingo 18 de outubro ter sido muito grande, foi menor do que o
de apoio a Lula uma semana antes, e a campanha Lula está na ofensiva na
mobilização permanente de rua em escala nacional, com uma ampla vanguarda de
massas expondo, publicamente, sua adesão, em especial dos artistas populares;
(c) o ativismo de apoio a Lula nas redes sociais, ao contrário das eleições,
desde 2018, deu um salto de qualidade com o rejuvenescimento e irreverência das
novas lideranças, e conquistou supremacia; (d) a vitória histórica do fim da
escala 6×1 e uma linha de campanha orientada para expansão de reformas —
proibição das apostas nas Bets, anistia e créditos para MEI’s endividados, passe
livre nos fins de semana, pé de meia para universitários — e o giro teve um
impacto real nas expectativas, inflamando um entusiasmo que não existiu antes
do primeiro turno; (e) apesar do debate na Band
ter sido um espetáculo desprezível de horror pelo papel provocador de Flávio,
orientado pelos métodos de Pablo Marçal, Lula demonstrou que, aos 80 anos, com
altos e baixos, ainda está em forma, com a audácia de desafiar a abertura dos
sigilos bancário e telefônico. Mais importante, a campanha ganhou a disputa de
narrativa nas redes sociais.
5.
Ninguém ignora que o país está, politicamente, fraturado, e a influência das
duas correntes que disputam a presidência está consolidada. Mas não está
congelada e, nas margens, ocorreram deslocamentos. O núcleo duro de apoio da
extrema direita repousa na fração mais reacionária da classe dominante, na
classe média acomodada, na proto pequena-burguesia de vinte milhões de
“empreendedores”, em sua maioria na informalidade, nos rancores de
negacionistas e nos ressentimentos do machismo, racismo e homofobia. O núcleo
duro da campanha Lula repousa na metade mais pobre do povo, nas mulheres e
negros, nos nordestinos e LGBT+, nos setores mais organizados da classe
trabalhadora, que arrastam a maioria do mundo da ciência, arte e cultura. Todos
os dados disponíveis indicam que a eleição será decidida por uma margem ínfima.
Qual será o impacto eleitoral daqueles que estiveram nas ruas e nas redes nos
últimos 20 dias? Em que escala a “onda vermelha” pode incidir sobre os
indecisos? Em que medida a intensa “convulsão” em curso poderá estimular
eleitores de Lula que não foram votar? São milhões que estão conversando nas
suas famílias, nos locais de trabalho, de moradia e nos transportes públicos.
Essa força político-social é o maior trunfo da campanha Lula nestes próximos
cinco dias. As reservas da ultradireita, comparativamente, são mais invisíveis
e silenciosas, mas não menos poderosas: os fascistas contam com a força de suas
posições em milhares de prefeituras, a disciplina do desespero do
“clientelismo”, a audiência das igrejas neopentecostais, a força do dinheiro no
Brasil profundo e, não menos importante, a manipulação das redes, como a Meta,
protegidas pela interferência descarada do governo Trump. Nesse contexto, o
debate na Globo, a disputa de narrativas nas redes sociais na
sequência e a mobilização de sábado serão o desafio final. São cinco dias
que decidirão nosso destino.
[Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da
República - fonte: www.esquerda.net]













