Onda de extrema-direita varre o país e põe Flávio Bolsonaro à frente do atual presidente Lula na disputa pela Presidência. Os dois candidatos partem para a 2ª volta separados por menos de dois pontos. O povo terá de escolher entre Democracia e Barbárie, diz Lula.
Milhares de estudantes participam de manifestação em apoio à reeleição do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no centro do Rio de Janeiro.
Escrito por Luís
Leiria
Foi a noite de todos os nervos, imprópria para cardíacos, os olhos colados nas TVs ou nos ecrãs e as perguntas: “Já entraram mais votos da Bahia?” “Já entraram os votos de São Paulo? E de Minas?” Todos tinham em mente a apuração dos resultados nas últimas eleições, as de 2022, em que Jair Bolsonaro liderou as apurações durante quase toda a contagem dos votos. Porém, com 70% das urnas contabilizadas, Lula passou à frente e não parou mais de crescer, até o resultado final: o atual presidente teve 48,43% dos votos e Jair Bolsonaro 43,20%. Foram para a segunda volta separados por 5 pontos, e ainda assim a vitória de Lula foi tangencial.
Desta vez a vantagem é de Flávio Bolsonaro, o filho mais velho de Jair, que leva uma dianteira de 1,87% para a 2ª volta.
Na sede da campanha
de Lula, muitos rostos traíam o desânimo. Afinal, praticamentetodos os
institutos de sondagens punham Lula à frente na primeira volta, não prevendo a
dianteira do senador do Partido Liberal (PL).
Uma viragem que seria inédita
Lula entrou na sala preparada para a noite das apurações considerando o resultado “uma lição de democracia” e enumerou alguns percalços e derrotas que já sofreu na sua longa vida pública. Em todas elas, esperou os resultados convencido de que tinha vencido e depois recebeu um banho de água gelada.
Aconteceu o mesmo, desta vez, admitiu.
Mas o presidente mostrou-se convencido de que pode vencer o segundo turno, uma viragem que seria inédita, pois nunca alguém que ficou em segundo lugar na primeira volta conseguiu vencer na segunda.
A campanha do segundo turno oferece a possibilidade de esclarecer quais são os planos dos candidatos para o futuro do Brasil, aproveitando Lula para recordar como conseguiu concretizar a “melhor política de inclusão social da história desse país”.
Do lado de Flávio, em contrapartida, só se encontram biografias e passado “tenebrosos”, seja de Flávio, seja do seu pai, Jair Bolsonaro.
"É uma biografia tenebrosa (...), com suspeitas gravíssimas de relação com milicianos, de relação com o crime organizado, de relação com assassinatos no Rio de Janeiro. Tudo isso vai ficar claro. E também com a participação da criação do Banco Master, que resultou não apenas na maior corrupção desse país, mas também na maior orgia envolvendo políticos e autoridades”, afirmou Lula. No decorrer do dia, Lula já tinha afirmado que a escolha, nas eleições, era entre a Democracia e a Barbárie.
Entretanto, Flávio
Bolsonaro também discursava para a imprensa, num evento que pareceu
improvisado e no meio da rua. Não havia palco, nem sala, e o candidato foi
muitas vezes interrompido. O filho do Jair afirmou que esteve perto de vencer
logo na primeira volta e que o resultado mostrava que “terminou a era do PT”, e
que “o Brasil quer mudar”.
Mudar toda a campanha
Segundo a imprensa, Lula, na própria noite da eleição, terá reunido com a direção da campanha e dito que era preciso mudar tudo, nas próximas três semanas até à segunda volta, com uma campanha mais aguerrida, e teria concordado também em dar maior importância aos meios digitais.
A direção de campanha de Lula acreditou durante muito tempo, demasiado tempo, que bastava relembrar os feitos do 3º mandato do presidente, comparando com os “feitos” de Flávio para assegurar a vitória.
Quando se apercebeu
que isso não era assim, e que a percepção que as pessoas tinham das medidas do
governo não eram tão favoráveis quanto eles julgavam, que os índices de
rejeição continuavam altos e a desaprovação do governo pior, Lula aprovou de
afogadilho a atualização do valor do Bolsa Família em 15% e a proibição das
empresas de apostas pela net, esperando melhorar as sondagens. Há quem diga que
foram essas medidas que impediram a vitória de Flávio logo na primeira volta.
Como é possível?
Seja como for, há uma pergunta que ninguém pode calar e que resume a perplexidade que paira nestas eleições.
Como é possível que, com uma campanha pífia, que sequer reuniu grandes massas nas ruas, onde não apresentou uma única ideia, mais bem procurou esconder o seu programa de campanha, Flávio Bolsonaro tenha ganho a primeira volta das eleições?
O mesmo Flávio Bolsonaro que mentiu ao dizer que não conhecia Daniel Vorcaro, o banqueiro do Banco Master e autor da maior fraude financeira da história do Brasil, para depois ter de admitir que não só conhecia, como era íntimo do banqueiro e recebera milhões de dólares supostamente para fazer a biografia filmada do pai Jair. Que voltou a mentir quando assegurou que nunca entrara num avião de Vorcaro, para depois se comprovar que viajara, sim, no avião do banqueiro.
O mesmo Flávio Bolsonaro que, de acordo com um levantamento feito pela revista Piauí, aprovou moções e medalhas para pelo menos 23 polícias e militares que são réus na Justiça ou foram condenados por crimes diversos, desde o homicídio à lavagem de dinheiro, organização criminosa ou fraudes em licitações.
O mesmo Flávio Bolsonaro que nunca trabalhou na vida, que aos 21 anos foi eleito deputado estadual, pela mão do pai, e que desde esse momento sempre viveu à custa do erário público.
A resposta é complexa, tem muitos fatores envolvidos, entre os quais a onda de extrema-direita que está a varrer a América Latina e a Europa, o facto de no Brasil, devido aos erros e insuficiências dos governos de Lula e de Dilma Rousseff se ter formado uma grande corrente anti-Lula e anti-PT, corrente essa que procura num suposto antissistema a solução que ninguém lhe dá.
É um debate que a esquerda brasileira e do mundo tem de fazer urgentemente.
Mas, até lá, há três semanas para tentar evitar que as coisas piorem mais.
Nunca um candidato que entrou na segunda volta em 2º lugar conseguiu derrotar o seu adversário mais votado na primeira volta. Mas isso é apenas uma constatação, que pode ser deixada para trás.
Os estudantes da Universidade Federal Fluminense, que fizeram em Niterói uma grande manifestação antifascista na segunda-feira 5, deram o exemplo que deverá ser seguido em muitas outras universidades em todo o país. A desistência não é opção.
O tsunami da extrema-direita marcou a eleição
de governadores, senadores e deputados
O Partido Liberal
(PL), do ex-presidente Jair e de Flávio Bolsonaro, teve um crescimento
vertiginoso nestas eleições e ficou em posição de operar grandes mudanças para
minar o regime democrático do Brasil por dentro. Se Flávio vencer as eleições,
as três instâncias da democracia burguesa a muito curto prazo poderão estar a
pender para o mesmo lado: executivo e legislativo controlados pela
extrema-direita e a Justiça, particularmente o Supremo Tribunal Federal, poderá
inclinar-se ou não para o mesmo lado, dependendo de quem for eleito
presidente.
Governadores
Nestas eleições, 19
dos 27 governadores foram
eleitos na primeira volta. O do Rio de Janeiro aguarda decisão do TSE para
saber se Douglas Ruas é eleito já, ou se disputa uma segunda volta com o
ex-prefeito Eduardo Paes. Entre os já eleitos, estão 5 do PL (que inclui os
três estados da região Sul), três são do Republicanos, que inclui Tarcísio de
Freitas, de São Paulo, reeleito, bolsonarista de primeira água. É também do
Republicanos o novo governador de Minas Gerais.
O PT elegeu três,
todos no Nordeste: Bahia, Piauí e Ceará e disputa a segunda volta no Rio Grande
do Norte.
Senado
Nestas eleições, o Senado foi renovado em dois terços, e portanto os eleitores foram chamados a votar em dois candidatos ao Senado por cada estado da Federação. Os senadores são eleitos para mandatos de oito anos e, de quatro em quatro anos, nas eleições, renova-se um terço ou dois terços da casa, alternadamente. O Senado tem 81 lugares e este ano renovou 54 senadores que terminaram o seu mandato. Nas próximas eleições renovará 27.
O PL elegeu 19
senadores, ampliando a bancada para 28.
Em seguida, o
Partido dos Trabalhadores (PT), elegeu 6 e agora conta com 9 senadores.
Logo atrás, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) terá 8 cadeiras e PP e União Brasil ficam com 6 cada. O Partido Social Democrático (PSD) e o Republicanos terão 5 cada. O Partido Socialista Brasileiro (PSB) terá 4, e o Novo, 3.
O partido Podemos e o PSDB ficam com 2 cadeiras cada. Rede e PDT terão um senador cada, e há uma cadeira ocupada por um senador sem partido.
São necessários 41
votos para garantir a presidência da Casa. Além dos 28 senadores da bancada do
PL, há 11 senadores de outros partidos eleitos com o apoio de Flávio Bolsonaro.
Somando tudo, dá ao PL uma base de 39 cadeiras, menos duas que as necessárias
para fazer o presidente da casa. Convenhamos que não parece difícil de
conseguir.
Câmara dos Deputados
Tal como no Senado, o PL foi o grande vencedor das eleições na Câmara dos Deputados, crescendo à custa do “centrão”, isto é, da direita não bolsonarista. Fazendo a comparação com a bancada atual, o PL passou de 98 deputados para 121, um crescimento de 23 parlamentares, ganhos aos partidos do “centrão”. O total de deputados da câmara é 513. Toda a restante direita, que na sua grande maioria dá corpo ao “centrão” e não teve posição de voto oficial nas presidenciais, perdeu apoio. Já a esquerda teve um crescimento moderado: a federação formada por PT, PCdoB e PV conquistou 88 cadeiras das quais 70 são do PT (tinha 65). A federação do partido, onde entram o PV e o PCdoB, soma 88 deputados. Já a federação PSOL-Rede elegeu 15 deputados (1 da Rede), o que representou a perda de um deputado. Isto porque o PSOL ganhou um deputado, mas a Rede perdeu dois.
O caso do PSOL é um
exemplo de como os dispositivos que criam a cláusula de barreira são antidemocráticos. Em
S. Paulo, o PSOL poderia ter elegido mais cinco ou seis deputados, mas foi
impedido por um quociente eleitoral, uma espécie de votação mínima que
apenas seis ultrapassaram. E, assim, o PSOL ficou com seis deputados federais
por São Paulo, quando poderia ter 11 ou 12.
Recordistas do voto
Dois jovens neofascistas do PL, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato tiveram votações que há uns tempos seriam impensáveis, mas que hoje são a realidade das redes sociais. Nikolas Ferreira, de 30 anos teve 3.119.318 votos, o equivalente a 27,19% dos votos válidos no estado de Minas Gerais, onde vive. Já Lucas Pavanato teve 3.038.438 votos e mora em São Paulo. Ambos são os chamados influencers.
No quadrante oposto
do espectro político, Erika Hilton, de 33 anos, do PSOL, teve 1.596.472 votos e
tornou-se a mulher mais votada de sempre numa eleição para a Câmara dos
Deputados. Eleita pela primeira vez há quatro anos, Erika foi a primeira
deputada federal trans da história. Erika defende causas como os direitos das
mulheres, os direitos da população LGBTQIA+, a igualdade racial, sem esquecer o
fim da escala de 6X1, uma bandeira tão importante para a classe trabalhadora.
[Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil - fonte: www.esquerda.net]

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