segunda-feira, 27 de julho de 2026

ONG israelitas denunciam «ritmo sem precedentes» da anexação da Cisjordânia

Antes da guerra em Gaza, os colonos controlavam 7% dos territórios ocupados, hoje controlam 18%. Relatório da Peace Now e Kerem Navot documentam a aceleração da ocupação e expulsão dos palestinianos das suas terras.

O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, realiza uma conferência de imprensa com líderes colonos israelitas, no Ministério das Finanças, em Jerusalém, a 3 de setembro de 2025.

A ocupação israelita da Cisjordânia prossegue a um ritmo acelerado e a guerra em Gaza serviu também para intensificar a ocupação de terras e expulsão dos palestinianos. Um relatório das ONG israelitas Peace Now e Kerem Navot, citado pelo diário francês Le Monde, fala de um movimento inédito a esta escala, com o aumento da violência dos colonos que aterrorizam as populações para as fazer sair, a política sistemática de apropriação de terras, ou a construção de estradas reservadas aos colonos.

“O governo fez avançar a anexação de facto a um ritmo sem precedentes”, sublinham as ONG. As táticas dos colonos radicais replicam as do exército israelita em Gaza ou no Líbano para impedir o acesso das populações locais às zonas onde se instalam, recorrendo à violência. As ONG calculam que em 2025 foram assim ocupados 30 mil hectares de território na Cisjordânia, incluindo centenas de habitações e milhares de hectares de terras cultivadas pelas famílias palestinianas há décadas, ou mesmo há séculos.

Hoje em dia os 18% de terras ocupadas pelos colonos com o apoio militar israelita na Cisjordânia correspondem a 100 mil hectares, mais do dobro do que existia antes do início da guerra em Gaza. “O ritmo dos colonatos tem vindo a acelerar de ano para ano, revelando um mecanismo cada vez mais profissionalizado de apropriação de terras. Este mecanismo tira partido da guerra, bem como da ausência total, na prática, de medidas repressivas contra as construções israelitas, com o objetivo de criar novos factos consumados no terreno”, afirmam as ONG.

Calcula-se que desde 2023 tenham sido deslocadas à força mais de 120 comunidades beduínas. Noa Sattah, diretora-executiva da Associação pelos Direitos Cívicos em Israel (ACRI), entregou uma queixa no Supremo Tribunal israelita para proteger as sete comunidades que restam no vale do Jordão. “O que o Estado e o exército estão a fazer no norte do Vale do Jordão é a expulsão deliberada e metódica de toda uma população das suas terras”, afirma a ativista, concluindo tratar-se de “uma limpeza étnica”.

No seu mandato, o atual governo israelita aprovou o número recorde de 102 colónias, prevendo instalar entre 160 mil e 200 mil habitantes. O cérebro desta política de anexação progressiva é o ministro das Finanças e com a tutela das colónias. Bezalel Smotrich não esconde que o objetivo é “mudar a infraestrutura e o ADN do sistema”, de forma “lenta e profissional”, para eliminar a hipótese de um processo de dois Estados e enterrar de vez os objetivos dos acordos de Oslo, assinados em 1993 e aos quais a extrema-direita messiânica sempre se opôs.

Com a questão da colonização ausente do debate eleitoral israelita para as legislativas de outubro, as ONG entendem que “hoje é mais claro do que nunca que é necessária uma intervenção internacional determinada” para “retirar ao Estado de Israel o controlo da Cisjordânia e obrigá-lo a desmantelar os mecanismos de controlo militar e de apartheid dos quais se tornou dependente”.

 

[Foto: Yonatan Sindel/Flash90 - fonte: www.esquerda.net]


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